Portugaler, uma nova etiqueta para a música portuguesa

28-12-2002
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Portugaler, Uma Nova Etiqueta para a Música Portuguesa

Sábado, 07 de Dezembro de 2002

O último recital de Joaquim Simões da Hora, a integral da obra para órgão de António Carreira e o concerto para cravo e algumas sonatas de Carlos Seixas são os primeiros registos editados pela Portugaler

%Cristina Fernandes

Especialmente vocacionada para a música antiga, mas não só, a nova etiqueta discográfica Portugaler, disponível no mercado há poucos meses (ver PÚBLICO 22-7-2002), pretende funcionar como um importante veículo de divulgação do património musical e dos intérpretes portugueses. Os registos editados até ao momento apresentam um belo grafismo, boa qualidade de gravação e interessantes notas explicativas da autoria de Rui Vieira Nery e João Pedro Alvarenga (com traduções para inglês, francês e castelhano, com vista a uma futura distribuição internacional), indiciando um projecto bastante consistente e coerente, que contraria a tendência, bastante portuguesa, de ir editando discos soltos sem que se vislumbre um fio condutor.

A designação Portugaler foi inspirada numa das mais antigas composições polifónicas que faz referência a Portugal - uma das peças pertencentes ao "Buxheimer Orgelbuch", um manuscrito com música de tecla do século XV - e tinha sido o nome idealizado pelo organista Joaquim Simões da Hora, falecido prematuramente em 1996, para uma futura editora discográfica com características semelhantes.

Além de ter sido um dos grandes organistas portugueses do século XX, Simões da Hora foi também um dos pioneiros da gravação no nosso país. Não é, portanto, por acaso que o primeiro disco da Portugaler inclui a gravação ao vivo do seu último recital, realizado a 12 de Dezembro de 1994, na Igreja de S. Vicente de Fora. O disco apresenta as vantagens e inconvenientes das gravações ao vivo, mas as primeiras suplantam os últimos - a vivacidade, a energia e a comunicabilidade estabelecida nesse momento único constituem uma presença muito forte no momento da audição.

Para além de algumas das obras mais exuberantes do repertório seiscentista português, como a Batalha de 6º tom, de Pedro de Araújo - um dos pontos altos do CD -, e a Batalha de 5º tom, de Diogo da Conceição, o programa inclui obras de Rodrigues Coelho, António Brocarte e dos espanhóis Francisco Correa de Arauxo (as admiráveis "Glosas sobre el canto llano de la Inmaculada Concepción") e Juan Cabanilles ("Tiento de Falsas", outras das grandes páginas do maneirismo ibérico). Marcante pela entrega emocional, pelo impulso rítmico contagiante, pela clareza da articulação e pela inspiração improvisatória de Simões da Hora, o presente disco constitui também um óptimo exemplo das possibilidades e riqueza tímbrica dos registos do belo instrumento construído em 1765 por Fontanes, que o intérprete conhecia como ninguém.

No segundo registo da Portugaler encontramos outro nome importante da música ibérica, com bastantes ligações com Portugal. Trata-se do cravista e organista José Luís Uriol, que executa o célebre Concerto para Cravo e uma selecção de Sonatas, de Carlos Seixas, num cravo Antunes de 1758. Até à data a melhor gravação do Concerto de Seixas era a de Ketil Haugsand, com a Orquestra Barroca da Noruega (Virgin Classics). É discutível que a leitura de Uriol e dos Segréis de Lisboa a supere, mas encontra-se pelo menos ao mesmo nível de qualidade artística, ainda que com características interpretativas diversas - tempos mais serenos, maior profusão de ornamentação, utilização de um instrumentista por parte no conjunto orquestral, opções necessariamente diversas no que se refere ao baixo contínuo, com ocasionais pontuações das cordas dedilhadas...

A própria envolvência sonora é diferente, já que a gravação da Portugaler foi efectuada numa sala com considerável reverberação, o que nos dá uma certa dimensão do espaço sonoro e aumenta o poder de ressonância. Uriol oferece-nos também uma interpretação inspirada e transparente das várias sonatas a solo. Aqui há de igual modo uma propensão para não optar por andamentos demasiados rápidos, o que é perfeitamente legítimo e pode até favorecer certos detalhes. A única objecção a esta opção (naturalmente subjectiva) vai para a Sonata nº16, em Dó menor, onde um andamento mais lento torna menos clara a sua estreita filiação no fandango (bem evidente na versão de Ketil Haugsand, no CD da Virgin Classics).

Com o terceiro disco da Portugaler regressamos à música para órgão, desta feita com um intérprete duma geração mais recente, João Vaz, e outro importante instrumento - o órgão renascentista da Sé de Évora. A gravação reúne a integral da produção para tecla (tanto de autoria comprovada, como de autoria presumível), de António Carreira, o nosso mais destacado compositor de música instrumental do século XVI, a qual até aqui tinha apenas sido gravada de forma dispersa.

Ao lado de obras tão célebres como a "Canção a Quatro Glosada" ou do impressionante Tento sobre a canção "Con que la lavaré" (registado na versão puramente instrumental e com o "cantus firmus" interpretado pelo contratenor Manuel Brás da Costa) podemos assim obter uma visão de conjunto dos restantes Tentos e Fantasias escritos pelo compositor. Embora pudesse ser ainda mais rica do ponto de vista da variedade de articulação, a interpretação de João Vaz, um dos principais organistas portugueses actuais, é exemplar, fazendo justiça a uma personalidade da história da música portuguesa que merecia ser mais conhecida.

Portugaler, Uma Nova Etiqueta para a Música Portuguesa

Sábado, 07 de Dezembro de 2002

O último recital de Joaquim Simões da Hora, a integral da obra para órgão de António Carreira e o concerto para cravo e algumas sonatas de Carlos Seixas são os primeiros registos editados pela Portugaler

%Cristina Fernandes

Especialmente vocacionada para a música antiga, mas não só, a nova etiqueta discográfica Portugaler, disponível no mercado há poucos meses (ver PÚBLICO 22-7-2002), pretende funcionar como um importante veículo de divulgação do património musical e dos intérpretes portugueses. Os registos editados até ao momento apresentam um belo grafismo, boa qualidade de gravação e interessantes notas explicativas da autoria de Rui Vieira Nery e João Pedro Alvarenga (com traduções para inglês, francês e castelhano, com vista a uma futura distribuição internacional), indiciando um projecto bastante consistente e coerente, que contraria a tendência, bastante portuguesa, de ir editando discos soltos sem que se vislumbre um fio condutor.

A designação Portugaler foi inspirada numa das mais antigas composições polifónicas que faz referência a Portugal - uma das peças pertencentes ao "Buxheimer Orgelbuch", um manuscrito com música de tecla do século XV - e tinha sido o nome idealizado pelo organista Joaquim Simões da Hora, falecido prematuramente em 1996, para uma futura editora discográfica com características semelhantes.

Além de ter sido um dos grandes organistas portugueses do século XX, Simões da Hora foi também um dos pioneiros da gravação no nosso país. Não é, portanto, por acaso que o primeiro disco da Portugaler inclui a gravação ao vivo do seu último recital, realizado a 12 de Dezembro de 1994, na Igreja de S. Vicente de Fora. O disco apresenta as vantagens e inconvenientes das gravações ao vivo, mas as primeiras suplantam os últimos - a vivacidade, a energia e a comunicabilidade estabelecida nesse momento único constituem uma presença muito forte no momento da audição.

Para além de algumas das obras mais exuberantes do repertório seiscentista português, como a Batalha de 6º tom, de Pedro de Araújo - um dos pontos altos do CD -, e a Batalha de 5º tom, de Diogo da Conceição, o programa inclui obras de Rodrigues Coelho, António Brocarte e dos espanhóis Francisco Correa de Arauxo (as admiráveis "Glosas sobre el canto llano de la Inmaculada Concepción") e Juan Cabanilles ("Tiento de Falsas", outras das grandes páginas do maneirismo ibérico). Marcante pela entrega emocional, pelo impulso rítmico contagiante, pela clareza da articulação e pela inspiração improvisatória de Simões da Hora, o presente disco constitui também um óptimo exemplo das possibilidades e riqueza tímbrica dos registos do belo instrumento construído em 1765 por Fontanes, que o intérprete conhecia como ninguém.

No segundo registo da Portugaler encontramos outro nome importante da música ibérica, com bastantes ligações com Portugal. Trata-se do cravista e organista José Luís Uriol, que executa o célebre Concerto para Cravo e uma selecção de Sonatas, de Carlos Seixas, num cravo Antunes de 1758. Até à data a melhor gravação do Concerto de Seixas era a de Ketil Haugsand, com a Orquestra Barroca da Noruega (Virgin Classics). É discutível que a leitura de Uriol e dos Segréis de Lisboa a supere, mas encontra-se pelo menos ao mesmo nível de qualidade artística, ainda que com características interpretativas diversas - tempos mais serenos, maior profusão de ornamentação, utilização de um instrumentista por parte no conjunto orquestral, opções necessariamente diversas no que se refere ao baixo contínuo, com ocasionais pontuações das cordas dedilhadas...

A própria envolvência sonora é diferente, já que a gravação da Portugaler foi efectuada numa sala com considerável reverberação, o que nos dá uma certa dimensão do espaço sonoro e aumenta o poder de ressonância. Uriol oferece-nos também uma interpretação inspirada e transparente das várias sonatas a solo. Aqui há de igual modo uma propensão para não optar por andamentos demasiados rápidos, o que é perfeitamente legítimo e pode até favorecer certos detalhes. A única objecção a esta opção (naturalmente subjectiva) vai para a Sonata nº16, em Dó menor, onde um andamento mais lento torna menos clara a sua estreita filiação no fandango (bem evidente na versão de Ketil Haugsand, no CD da Virgin Classics).

Com o terceiro disco da Portugaler regressamos à música para órgão, desta feita com um intérprete duma geração mais recente, João Vaz, e outro importante instrumento - o órgão renascentista da Sé de Évora. A gravação reúne a integral da produção para tecla (tanto de autoria comprovada, como de autoria presumível), de António Carreira, o nosso mais destacado compositor de música instrumental do século XVI, a qual até aqui tinha apenas sido gravada de forma dispersa.

Ao lado de obras tão célebres como a "Canção a Quatro Glosada" ou do impressionante Tento sobre a canção "Con que la lavaré" (registado na versão puramente instrumental e com o "cantus firmus" interpretado pelo contratenor Manuel Brás da Costa) podemos assim obter uma visão de conjunto dos restantes Tentos e Fantasias escritos pelo compositor. Embora pudesse ser ainda mais rica do ponto de vista da variedade de articulação, a interpretação de João Vaz, um dos principais organistas portugueses actuais, é exemplar, fazendo justiça a uma personalidade da história da música portuguesa que merecia ser mais conhecida.

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