Dicionário
Por CRISTINA FERNANDES
Sábado, 27 de Setembro de 2003
REBELO, João Lourenço
(Caminha, 1610-Lisboa, 1661)
A vida e o percurso artístico de João Lourenço Rebelo são inseparáveis de D. João IV (1604-1656), de quem foi amigo, protegido e, possivelmente, companheiro de estudos musicais. Durante o domínio filipino, a Capela dos Duques de Bragança, em Vila Viçosa, foi um florescente centro de actividade musical, proporcionando a prática de um repertório mais complexo e sofisticado do que o que se fazia na generalidade das catedrais portuguesas. Lourenço Rebelo beneficiou assim de um ambiente privilegiado para a sua formação após ter ingressado nesta instituição em 1624, ainda no tempo de D. Teodósio II de Bragança (pai do futuro D. João IV), como menino de coro. Depois de terminar os estudos, Lourenço Rebelo foi nomeado mestre de capela e após a Restauração transferiu-se para Lisboa, juntamente com a corte. D. João IV concedeu-lhe o título de fidalgo-cavaleiro da Casa Real em 1746 e, mais tarde, a Comenda da Ordem de Cristo, com avultados benefícios e rendas. Dedicou-lhe também o seu tratado "Defensa de la música moderna contra la errada opinión del Obispo Cyrilo Franco" (1649), onde anuncia a intenção de fazer imprimir a sua obra musical sacra. Esta seria editada em Roma, em 1657, com o título "Psalmi tum Vesperarum, tum Completorii. Item Magnificat, Lamentationes, Miserere". Trata-se do único exemplar da polifonia portuguesa maneirista que se afasta do repertório de estética mais tradicionalista até então publicado para uso corrente dos coros catedralícios pelos mestres da Escola de Évora, recorrendo a uma escrita opulenta para vários coros de vozes e instrumentos obrigados até um total de dezassete partes. Segundo Rui Vieira Nery ("História da Música Portuguesa", Imprensa Nacional, 1991), "os Salmos de Rebelo representam o lado 'escondido' da nossa produção polifónica seiscentista, um lado cultivado em especial na Capela Ducal - e depois Real - de D. João, mas com fortes afinidades, por exemplo, com o repertório de Santa Cruz de Coimbra".
A magnífica biblioteca musical de D. João IV teria permitido a Rebelo tomar contacto com técnicas e estilos de composição cultivados noutros países europeus. Ao contrário dos seus contemporâneos portugueses, que escreviam na linha de Palestrina, este foi influenciado pela policoralidade veneziana, com os seus "cori spezzati" e efeitos concertantes. A estrutura das suas composições é frequentemente assimétrica e condensa uma mistura de elementos vocais e instrumentais, sendo um dos primeiros compositores portugueses a escrever partes instrumentais obrigadas e a recorrer ao baixo contínuo. O seu uso do cromatismo é também bastante peculiar, surgindo quer em correlação com o texto, quer inesperadamente para expressar ideias puramente musicais.
O índice da biblioteca de D. João IV (infelizmente destruída pelo Terramoto de 1755) menciona um avultado número de partituras da sua autoria, entre as quais missas, salmos, hinos, um "Te Deum", vilancicos e uma missa a 39 vozes dedicada a D. João IV por ocasião do seu 39º aniversário.
Cristina Fernandes
Categorias
Entidades
Dicionário
Por CRISTINA FERNANDES
Sábado, 27 de Setembro de 2003
REBELO, João Lourenço
(Caminha, 1610-Lisboa, 1661)
A vida e o percurso artístico de João Lourenço Rebelo são inseparáveis de D. João IV (1604-1656), de quem foi amigo, protegido e, possivelmente, companheiro de estudos musicais. Durante o domínio filipino, a Capela dos Duques de Bragança, em Vila Viçosa, foi um florescente centro de actividade musical, proporcionando a prática de um repertório mais complexo e sofisticado do que o que se fazia na generalidade das catedrais portuguesas. Lourenço Rebelo beneficiou assim de um ambiente privilegiado para a sua formação após ter ingressado nesta instituição em 1624, ainda no tempo de D. Teodósio II de Bragança (pai do futuro D. João IV), como menino de coro. Depois de terminar os estudos, Lourenço Rebelo foi nomeado mestre de capela e após a Restauração transferiu-se para Lisboa, juntamente com a corte. D. João IV concedeu-lhe o título de fidalgo-cavaleiro da Casa Real em 1746 e, mais tarde, a Comenda da Ordem de Cristo, com avultados benefícios e rendas. Dedicou-lhe também o seu tratado "Defensa de la música moderna contra la errada opinión del Obispo Cyrilo Franco" (1649), onde anuncia a intenção de fazer imprimir a sua obra musical sacra. Esta seria editada em Roma, em 1657, com o título "Psalmi tum Vesperarum, tum Completorii. Item Magnificat, Lamentationes, Miserere". Trata-se do único exemplar da polifonia portuguesa maneirista que se afasta do repertório de estética mais tradicionalista até então publicado para uso corrente dos coros catedralícios pelos mestres da Escola de Évora, recorrendo a uma escrita opulenta para vários coros de vozes e instrumentos obrigados até um total de dezassete partes. Segundo Rui Vieira Nery ("História da Música Portuguesa", Imprensa Nacional, 1991), "os Salmos de Rebelo representam o lado 'escondido' da nossa produção polifónica seiscentista, um lado cultivado em especial na Capela Ducal - e depois Real - de D. João, mas com fortes afinidades, por exemplo, com o repertório de Santa Cruz de Coimbra".
A magnífica biblioteca musical de D. João IV teria permitido a Rebelo tomar contacto com técnicas e estilos de composição cultivados noutros países europeus. Ao contrário dos seus contemporâneos portugueses, que escreviam na linha de Palestrina, este foi influenciado pela policoralidade veneziana, com os seus "cori spezzati" e efeitos concertantes. A estrutura das suas composições é frequentemente assimétrica e condensa uma mistura de elementos vocais e instrumentais, sendo um dos primeiros compositores portugueses a escrever partes instrumentais obrigadas e a recorrer ao baixo contínuo. O seu uso do cromatismo é também bastante peculiar, surgindo quer em correlação com o texto, quer inesperadamente para expressar ideias puramente musicais.
O índice da biblioteca de D. João IV (infelizmente destruída pelo Terramoto de 1755) menciona um avultado número de partituras da sua autoria, entre as quais missas, salmos, hinos, um "Te Deum", vilancicos e uma missa a 39 vozes dedicada a D. João IV por ocasião do seu 39º aniversário.
Cristina Fernandes