EXPRESSO: Opinião

06-07-2002
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OPINIÃO

CDS-PP O drama de sempre

«O problema do líder do CDS/PP não está nos resultados autárquicos. É anterior a eles e resume-se ao facto de não oferecer confiança ao PSD para a almejada alternativa de direita. É por saber que está em melhor posição para fazer essa aliança que Manuel Monteiro já anunciou a sua candidatura à liderança.» APÓS três dias de reflexão, Paulo Portas apresentou-se nas televisões para uma comunicação ao país mais solene do que as de um Presidente da República, mais formal do que as de um primeiro-ministro, sem direito a perguntas ou interpelações para que a mensagem não fosse desvirtuada. Veio queixar-se do povo. E explicar como os eleitores foram injustos por não terem dado ao seu partido os votos a que se julgava com direito. Infelizmente para Paulo Portas, ele não tem o poder de mudar o povo. Compreende-se que isso lhe custe. Mas escusava de levar tão longe a megalomania só para responder às indirectas que Manuel Monteiro lhe dirigiu na noite das eleições. «Era o que faltava eu sair no mesmo dia que António Guterres!», disse o líder do CDS/PP. Por isso, vai ficar, como já prometiam os seus cartazes de campanha e como era claro que faria, com ou sem os três dias de reflexão. Mas devia Paulo Portas ter-se demitido, como António Guterres, por falta de perspectivas a prazo? As situações não são comparáveis. E por mais que a exaltação dos méritos próprios tenham soado patéticas na sua comunicação ao país, por mais que a vitimização se mostrasse despropositada, Portas tem bons motivos para continuar em funções, pelo menos até às eleições que se avizinham. O seu partido sofreu, é certo, uma derrota clamorosa ao nível das presidências de câmaras, embora os resultados em Lisboa, onde o próprio líder se candidatou, não sejam assim tão desastrosos: 7,5% numas eleições disputadíssimas e sujeitas, como estas estiveram na capital, a uma enorme pressão do voto útil nos dois candidatos mais fortes, não é nenhuma humilhação. Por outro lado, as coligações em várias autarquias importantes ajudaram o PSD a vencer e levaram o CDS/PP ao governo desses concelhos, o que sempre representa algum capital político. Pelo menos, disfarça um pouco a derrota. E, em qualquer caso, os 6,1% dos votos obtidos a nível nacional não só não andam longe dos das autárquicas de 1997 (6,4%) como poderão ser preciosos nas próximas legislativas, se nem o PS nem o PSD chegarem à maioria absoluta, o que é bem mais do que provável. Mas o problema do líder do CDS/PP não está nos resultados autárquicos. É anterior a eles e resume-se ao facto de não oferecer confiança ao PSD para a almejada alternativa de direita. É por saber que está em melhor posição para fazer essa aliança que Manuel Monteiro já anunciou a sua candidatura à liderança. A opção de futuro que um e outro oferecem ao CDS/PP está entre resistir e tentar impor-se, pela força dos votos, como parceiro de uma maioria governamental - mas correndo o risco de regressar aos 4% de Freitas do Amaral e ficar à margem como no tempo de Cavaco - ou render-se à condição de aliado e negociar o melhor possível essa rendição. No fundo, não há aqui nada de novo. Trata-se apenas de encarar, uma vez mais, o drama de sempre do velho CDS. E-mail: fmadrinha@mail.expresso.pt

COMENTÁRIOS

3 comentários 1 a 3

24 de Dezembro de 2001 às 20:51

mtsara

Embora concorde com o que diz de Portas, não deixo de registar que há uma semana atrás o seu discurso era um pouco diferente!

Até aqui escrevi que era melhor falar no dia a seguir às eleições!

Quanto a Portas, estou totalmente de acordo que não merece a confiança do PSD.

Desde o tempo em que desancava Cavaco Silva, até ao momento actual, em que ia dando a Câmara ao PS, passando pela traição a Marcelo...

Não! Manuela Ferreira Leite foi criticada, mas não deixa de ter razão.

Portanto, para os eleitores do centro direita (o que quer que seja esquerda / direita, já ninguém sabe ao certo!) o melhor é o PSD ganhar sozinho, com maioria absoluta, se conseguir, ou então, fazer uma aliança pós eleitoral com PP (Partido Popular), mas não com PP (Paulo Portas).

23 de Dezembro de 2001 às 22:45

ramos18 ( jrcontreiras@netcabo.pt )

Concordo com o articulista. Paulo portas é é um homem determindado, inteligente e ambicioso.

Ele sabe que,possívelmente,nas próximas eleições não irá haver maioria absoluta e poderá ganhar protagonismo ao apoiar o PSD ou o PS e contribuir assim para um reforço da sua posição.

É bom que Manuel Monteiro apareça pois a Democracia Partidária precisa de ser revigorada e isso só é possível com a livre disputa entre candidatos.

23 de Dezembro de 2001 às 02:49

Point

Vassouradas e carros-vassoura

Por Draga-Minas , 21/12/2001

http://www.finbolsa.com/anaart.asp?aut=2&nome=anaaaahn&orig=hpaut&tit=hp&s=3

Dois modelos políticos levaram do povo português duas imponentes vassouradas, para usar a metáfora com que Cavaco Silva brindou o recente descalabro do PS, talvez ainda lembrado do rótulo cruel que Manuel Maria Carrilho há seis anos aplicara a Fernando Nogueira: o de "carro-vassoura do cavaquismo".

O primeiro foi precisamente o cavaquismo. Um modelo autoritário e pseudo-austero, em que os superiores hierárquicos assumiam com um sorriso aberto e compincha o seu poder discricionário. Era gente dinâmica, que fazia algumas coisas andarem para a frente e se aproveitava sem papas na língua do salazarento medo do chefe que reinava para pintar tudo de cor-de-laranja e de uma não menos salazarenta ordem despótica, sempre num (saudoso, verdadeiramente saudoso) clima de brincadeira e optimismo suspeito.

O modelo cavaquista primeiro oprimia e depois começou a enjoar. Foi quando começou a enjoar que as pessoas perceberam que podiam derrubá-lo. E a vassourada veio no fim de 1995, ao som também enjoativo de Vangelis. O carro-vassoura do cavaquismo foi Fernando Nogueira. Tinha que ser uma boa pessoa.

O segundo modelo a levar a vassourada foi o guterrismo. Um modelo dialogante e fraterno, apaixonado pelas pessoas certas (a educação e a ciência), mas sem argumentos para as seduzir. Um modelo que nos levou a crer que tínhamos chegado a um país normal e democrático. Mas um modelo cuja cor, o rosa, não consegui tingir a realidade social. O diálogo, as falinhas, as promessas, e a Expo 98, tudo cor-de-rosa, tudo abstracto e simbólico, redundaram numa completa incapacidade de intervir na realidade, de a controlar e mudar. O laxismo instalou-se irrevogavelmente e só ficou a cor, o cor-de-rosa, de costas voltadas para o negro da realidade: os fracos cada vez mais fracos, os fortes cada vez mais fortes, a hierarquias cada vez mais rígidas, a administração pública mais cor-de-rosa do que antes fôra laranja, as injustiças cada vez maiores, a produção cada vez menor e Portugal cada vez mais espanhol.

A vassourada chegou há dias e, ao contrário daquela que varreu o cavaquismo, chegou duma forma totalmente inesperada. Guterres saiu sem o vergonhoso e célebre tabú de Cavaco Silva, sintoma do seu amor ao poder. O guterrismo saiu com elevação. Quem será o seu carro-vassoura? Seguramente, uma boa pessoa.

Agora é precisa uma terceira via portuguesa, que miraculosa ou engenhosamente concilie as virtudes do cavaquismo e do guterrismo e suprima os defeitos de ambos.

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CDS-PP O drama de sempre

«O problema do líder do CDS/PP não está nos resultados autárquicos. É anterior a eles e resume-se ao facto de não oferecer confiança ao PSD para a almejada alternativa de direita. É por saber que está em melhor posição para fazer essa aliança que Manuel Monteiro já anunciou a sua candidatura à liderança.» APÓS três dias de reflexão, Paulo Portas apresentou-se nas televisões para uma comunicação ao país mais solene do que as de um Presidente da República, mais formal do que as de um primeiro-ministro, sem direito a perguntas ou interpelações para que a mensagem não fosse desvirtuada. Veio queixar-se do povo. E explicar como os eleitores foram injustos por não terem dado ao seu partido os votos a que se julgava com direito. Infelizmente para Paulo Portas, ele não tem o poder de mudar o povo. Compreende-se que isso lhe custe. Mas escusava de levar tão longe a megalomania só para responder às indirectas que Manuel Monteiro lhe dirigiu na noite das eleições. «Era o que faltava eu sair no mesmo dia que António Guterres!», disse o líder do CDS/PP. Por isso, vai ficar, como já prometiam os seus cartazes de campanha e como era claro que faria, com ou sem os três dias de reflexão. Mas devia Paulo Portas ter-se demitido, como António Guterres, por falta de perspectivas a prazo? As situações não são comparáveis. E por mais que a exaltação dos méritos próprios tenham soado patéticas na sua comunicação ao país, por mais que a vitimização se mostrasse despropositada, Portas tem bons motivos para continuar em funções, pelo menos até às eleições que se avizinham. O seu partido sofreu, é certo, uma derrota clamorosa ao nível das presidências de câmaras, embora os resultados em Lisboa, onde o próprio líder se candidatou, não sejam assim tão desastrosos: 7,5% numas eleições disputadíssimas e sujeitas, como estas estiveram na capital, a uma enorme pressão do voto útil nos dois candidatos mais fortes, não é nenhuma humilhação. Por outro lado, as coligações em várias autarquias importantes ajudaram o PSD a vencer e levaram o CDS/PP ao governo desses concelhos, o que sempre representa algum capital político. Pelo menos, disfarça um pouco a derrota. E, em qualquer caso, os 6,1% dos votos obtidos a nível nacional não só não andam longe dos das autárquicas de 1997 (6,4%) como poderão ser preciosos nas próximas legislativas, se nem o PS nem o PSD chegarem à maioria absoluta, o que é bem mais do que provável. Mas o problema do líder do CDS/PP não está nos resultados autárquicos. É anterior a eles e resume-se ao facto de não oferecer confiança ao PSD para a almejada alternativa de direita. É por saber que está em melhor posição para fazer essa aliança que Manuel Monteiro já anunciou a sua candidatura à liderança. A opção de futuro que um e outro oferecem ao CDS/PP está entre resistir e tentar impor-se, pela força dos votos, como parceiro de uma maioria governamental - mas correndo o risco de regressar aos 4% de Freitas do Amaral e ficar à margem como no tempo de Cavaco - ou render-se à condição de aliado e negociar o melhor possível essa rendição. No fundo, não há aqui nada de novo. Trata-se apenas de encarar, uma vez mais, o drama de sempre do velho CDS. E-mail: fmadrinha@mail.expresso.pt

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3 comentários 1 a 3

24 de Dezembro de 2001 às 20:51

mtsara

Embora concorde com o que diz de Portas, não deixo de registar que há uma semana atrás o seu discurso era um pouco diferente!

Até aqui escrevi que era melhor falar no dia a seguir às eleições!

Quanto a Portas, estou totalmente de acordo que não merece a confiança do PSD.

Desde o tempo em que desancava Cavaco Silva, até ao momento actual, em que ia dando a Câmara ao PS, passando pela traição a Marcelo...

Não! Manuela Ferreira Leite foi criticada, mas não deixa de ter razão.

Portanto, para os eleitores do centro direita (o que quer que seja esquerda / direita, já ninguém sabe ao certo!) o melhor é o PSD ganhar sozinho, com maioria absoluta, se conseguir, ou então, fazer uma aliança pós eleitoral com PP (Partido Popular), mas não com PP (Paulo Portas).

23 de Dezembro de 2001 às 22:45

ramos18 ( jrcontreiras@netcabo.pt )

Concordo com o articulista. Paulo portas é é um homem determindado, inteligente e ambicioso.

Ele sabe que,possívelmente,nas próximas eleições não irá haver maioria absoluta e poderá ganhar protagonismo ao apoiar o PSD ou o PS e contribuir assim para um reforço da sua posição.

É bom que Manuel Monteiro apareça pois a Democracia Partidária precisa de ser revigorada e isso só é possível com a livre disputa entre candidatos.

23 de Dezembro de 2001 às 02:49

Point

Vassouradas e carros-vassoura

Por Draga-Minas , 21/12/2001

http://www.finbolsa.com/anaart.asp?aut=2&nome=anaaaahn&orig=hpaut&tit=hp&s=3

Dois modelos políticos levaram do povo português duas imponentes vassouradas, para usar a metáfora com que Cavaco Silva brindou o recente descalabro do PS, talvez ainda lembrado do rótulo cruel que Manuel Maria Carrilho há seis anos aplicara a Fernando Nogueira: o de "carro-vassoura do cavaquismo".

O primeiro foi precisamente o cavaquismo. Um modelo autoritário e pseudo-austero, em que os superiores hierárquicos assumiam com um sorriso aberto e compincha o seu poder discricionário. Era gente dinâmica, que fazia algumas coisas andarem para a frente e se aproveitava sem papas na língua do salazarento medo do chefe que reinava para pintar tudo de cor-de-laranja e de uma não menos salazarenta ordem despótica, sempre num (saudoso, verdadeiramente saudoso) clima de brincadeira e optimismo suspeito.

O modelo cavaquista primeiro oprimia e depois começou a enjoar. Foi quando começou a enjoar que as pessoas perceberam que podiam derrubá-lo. E a vassourada veio no fim de 1995, ao som também enjoativo de Vangelis. O carro-vassoura do cavaquismo foi Fernando Nogueira. Tinha que ser uma boa pessoa.

O segundo modelo a levar a vassourada foi o guterrismo. Um modelo dialogante e fraterno, apaixonado pelas pessoas certas (a educação e a ciência), mas sem argumentos para as seduzir. Um modelo que nos levou a crer que tínhamos chegado a um país normal e democrático. Mas um modelo cuja cor, o rosa, não consegui tingir a realidade social. O diálogo, as falinhas, as promessas, e a Expo 98, tudo cor-de-rosa, tudo abstracto e simbólico, redundaram numa completa incapacidade de intervir na realidade, de a controlar e mudar. O laxismo instalou-se irrevogavelmente e só ficou a cor, o cor-de-rosa, de costas voltadas para o negro da realidade: os fracos cada vez mais fracos, os fortes cada vez mais fortes, a hierarquias cada vez mais rígidas, a administração pública mais cor-de-rosa do que antes fôra laranja, as injustiças cada vez maiores, a produção cada vez menor e Portugal cada vez mais espanhol.

A vassourada chegou há dias e, ao contrário daquela que varreu o cavaquismo, chegou duma forma totalmente inesperada. Guterres saiu sem o vergonhoso e célebre tabú de Cavaco Silva, sintoma do seu amor ao poder. O guterrismo saiu com elevação. Quem será o seu carro-vassoura? Seguramente, uma boa pessoa.

Agora é precisa uma terceira via portuguesa, que miraculosa ou engenhosamente concilie as virtudes do cavaquismo e do guterrismo e suprima os defeitos de ambos.

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