EXPRESSO: Opinião

30-05-2002
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Filhos de um futuro menor

Patinha Antão

«Para o federalismo monetário que governa o mundo do euro, a estagflação - inflação a mais e crescimento a menos - é o pior dos males. Porque obriga a optar pela contracção nas políticas orçamental e de rendimentos, apesar de isso poder precipitar ou acentuar uma recessão. A estagflação de hoje é, pois, a primeira herança visível do despesismo guterrista de ontem.»

SEGUNDO o INE, pela primeira vez, desde 1995, o PIB registou um crescimento negativo, no primeiro trimestre do corrente ano.

Existe, assim, uma probabilidade forte de que a desaceleração económica - que se vinha notando há meses - tenha já, tecnicamente, cedido o seu lugar, à recessão. Para tal, bastará que o PIB do 2º trimestre também tenha sofrido uma contracção. Teremos ainda que esperar algum tempo para o saber.

Há cerca de um ano arrisquei, aqui, na minha coluna do EXPRESSO, que a economia portuguesa estaria, provavelmente, em recessão em 2001.

Não me alegra a possibilidade da confirmação, nem tenho dotes de vidente.

Arrisquei aquela previsão com base, apenas, numa única causa interna - a insustentável e furiosa política orçamental pró-cíclica do guterrismo dos últimos cinco anos - prevendo que ela conduziria, mais ano menos ano, a uma situação de estagflação.

Certamente, a desaceleração da economia internacional acentuou a sua manifestação; mas hoje há razões acrescidas para supor que apenas ajudou a «causa mater», como se fosse uma corrente de ar sobre um corpo já febril.

Acontece que, para o federalismo monetário que governa o mundo do euro, a estagflação - inflação a mais e crescimento a menos - é o pior dos males.

Porque obriga a optar pela contracção nas políticas orçamental e de rendimentos, apesar de isso poder precipitar ou acentuar uma recessão.

A estagflação de hoje é, pois, a primeira herança visível do despesismo guterrista de ontem.

O Governo anunciou um programa de redução permanente da despesa pública, centrado na imposição de um tecto de 4% em termos nominais para a despesa pública primária, nos próximos três anos. Porém, o Governo aceitou já tantas excepções àquele tecto que a sua aplicabilidade no Orçamento de 2002 já está fortemente comprometida.

Isso não surpreende. O que seria bizarro era que quem causou a degradação estrutural em que se encontram as finanças do Estado viesse agora a ser o seu agente reparador.

«Natura non facit saltus» - a natureza (da governação socialista) não dá saltos - e o desdém pela Economia e pela Gestão está impresso no seu código genético.

Culturalmente, este Governo não está, pois, preparado para o fazer, mas sim para esconder os seus efeitos da opinião pública.

Com efeito, foi por temer a impopularidade que o Governo fez aprovar um Orçamento dito Rectificativo que ficou curto à nascença.

E assim, as dívidas do Estado aos seus fornecedores crescem, generalizam-se e amontoam-se, enquanto o Governo esconde a cabeça na areia...

Entretanto, os «boys» e «girls» continuam a enxamear as administrações das empresas públicas e a causar prejuízos cada vez mais monstruosos (ou lucros decepcionantes, como na EDP) sem que o Governo se mostre capaz de os substituir por gestores profissionais.

O Governo dedica apenas as suas energias a inventar novas fórmulas de desorçamentação. A última foi a intenção de transferência directa de 43 milhões de contos de acções EDP do Tesouro para a carteira do fundo público de capitalização da Segurança Social - atropelando, pelo caminho, a lei das privatizações e a gestão profissional daquele fundo, o que levou, e bem, o respectivo presidente a demitir-se.

O actual Governo não está, pois, interessado em fazer de 2002 o primeiro ano da retoma da economia e da regeneração das finanças públicas. Por isso, a ideia de que toda a despesa pública é dinheiro do contribuinte, que apenas deve ser gasto no seu melhor interesse, soa-lhe a dislate pequeno-burguês.

Que seria do gigantismo e desperdício estatal gasto em fidelizar tantos votos por esse país fora?

E a ideia de que o Estado, na sua actividade patrimonial, se deve sujeitar ao princípio da subsidiariedade perante a sociedade civil, soa-lhe ainda pior.

Que faria Sócrates aos seus monopólios públicos nos sectores da água, saneamento básico e indústrias do ambiente - esses novos elefantes brancos cuja factura aos consumidores está extremosamente a preparar?

E, por fim, a ideia de Drucker de que as organizações não lucrativas também podem e devem ser geridas por princípios rigorosos de gestão soa-lhe mesmo a heresia de direita.

Que fazer de tanta consciência social estatal que invadiu o campo tradicional do altruísmo das pessoas e organizações da sociedade civil?

Porém, o tempo em que era possível iludir o eleitor mediano já se esgotou.

E, por isso, 2002 não será apenas o ano falhado do início da recuperação da Economia, mas também o da expiação do Governo.

O mundo do trabalho percebê-lo-á, em 2002, ao ser forçado a aceitar uma queda dos salários reais e uma subida do desemprego. E os seus filhos, herdeiros de um futuro menor, percebê-lo-ão também, sobretudo quando um dia lerem Gary Becker.

E-mail: mpatão@psd.parlamento.pt

Filhos de um futuro menor

Patinha Antão

«Para o federalismo monetário que governa o mundo do euro, a estagflação - inflação a mais e crescimento a menos - é o pior dos males. Porque obriga a optar pela contracção nas políticas orçamental e de rendimentos, apesar de isso poder precipitar ou acentuar uma recessão. A estagflação de hoje é, pois, a primeira herança visível do despesismo guterrista de ontem.»

SEGUNDO o INE, pela primeira vez, desde 1995, o PIB registou um crescimento negativo, no primeiro trimestre do corrente ano.

Existe, assim, uma probabilidade forte de que a desaceleração económica - que se vinha notando há meses - tenha já, tecnicamente, cedido o seu lugar, à recessão. Para tal, bastará que o PIB do 2º trimestre também tenha sofrido uma contracção. Teremos ainda que esperar algum tempo para o saber.

Há cerca de um ano arrisquei, aqui, na minha coluna do EXPRESSO, que a economia portuguesa estaria, provavelmente, em recessão em 2001.

Não me alegra a possibilidade da confirmação, nem tenho dotes de vidente.

Arrisquei aquela previsão com base, apenas, numa única causa interna - a insustentável e furiosa política orçamental pró-cíclica do guterrismo dos últimos cinco anos - prevendo que ela conduziria, mais ano menos ano, a uma situação de estagflação.

Certamente, a desaceleração da economia internacional acentuou a sua manifestação; mas hoje há razões acrescidas para supor que apenas ajudou a «causa mater», como se fosse uma corrente de ar sobre um corpo já febril.

Acontece que, para o federalismo monetário que governa o mundo do euro, a estagflação - inflação a mais e crescimento a menos - é o pior dos males.

Porque obriga a optar pela contracção nas políticas orçamental e de rendimentos, apesar de isso poder precipitar ou acentuar uma recessão.

A estagflação de hoje é, pois, a primeira herança visível do despesismo guterrista de ontem.

O Governo anunciou um programa de redução permanente da despesa pública, centrado na imposição de um tecto de 4% em termos nominais para a despesa pública primária, nos próximos três anos. Porém, o Governo aceitou já tantas excepções àquele tecto que a sua aplicabilidade no Orçamento de 2002 já está fortemente comprometida.

Isso não surpreende. O que seria bizarro era que quem causou a degradação estrutural em que se encontram as finanças do Estado viesse agora a ser o seu agente reparador.

«Natura non facit saltus» - a natureza (da governação socialista) não dá saltos - e o desdém pela Economia e pela Gestão está impresso no seu código genético.

Culturalmente, este Governo não está, pois, preparado para o fazer, mas sim para esconder os seus efeitos da opinião pública.

Com efeito, foi por temer a impopularidade que o Governo fez aprovar um Orçamento dito Rectificativo que ficou curto à nascença.

E assim, as dívidas do Estado aos seus fornecedores crescem, generalizam-se e amontoam-se, enquanto o Governo esconde a cabeça na areia...

Entretanto, os «boys» e «girls» continuam a enxamear as administrações das empresas públicas e a causar prejuízos cada vez mais monstruosos (ou lucros decepcionantes, como na EDP) sem que o Governo se mostre capaz de os substituir por gestores profissionais.

O Governo dedica apenas as suas energias a inventar novas fórmulas de desorçamentação. A última foi a intenção de transferência directa de 43 milhões de contos de acções EDP do Tesouro para a carteira do fundo público de capitalização da Segurança Social - atropelando, pelo caminho, a lei das privatizações e a gestão profissional daquele fundo, o que levou, e bem, o respectivo presidente a demitir-se.

O actual Governo não está, pois, interessado em fazer de 2002 o primeiro ano da retoma da economia e da regeneração das finanças públicas. Por isso, a ideia de que toda a despesa pública é dinheiro do contribuinte, que apenas deve ser gasto no seu melhor interesse, soa-lhe a dislate pequeno-burguês.

Que seria do gigantismo e desperdício estatal gasto em fidelizar tantos votos por esse país fora?

E a ideia de que o Estado, na sua actividade patrimonial, se deve sujeitar ao princípio da subsidiariedade perante a sociedade civil, soa-lhe ainda pior.

Que faria Sócrates aos seus monopólios públicos nos sectores da água, saneamento básico e indústrias do ambiente - esses novos elefantes brancos cuja factura aos consumidores está extremosamente a preparar?

E, por fim, a ideia de Drucker de que as organizações não lucrativas também podem e devem ser geridas por princípios rigorosos de gestão soa-lhe mesmo a heresia de direita.

Que fazer de tanta consciência social estatal que invadiu o campo tradicional do altruísmo das pessoas e organizações da sociedade civil?

Porém, o tempo em que era possível iludir o eleitor mediano já se esgotou.

E, por isso, 2002 não será apenas o ano falhado do início da recuperação da Economia, mas também o da expiação do Governo.

O mundo do trabalho percebê-lo-á, em 2002, ao ser forçado a aceitar uma queda dos salários reais e uma subida do desemprego. E os seus filhos, herdeiros de um futuro menor, percebê-lo-ão também, sobretudo quando um dia lerem Gary Becker.

E-mail: mpatão@psd.parlamento.pt

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