Riscos de recessão mundial aumentam
com atentados ao coração do capitalismo
Quarta-feira, 12 de Setembro de 2001
Por Joana Amorim, Lurdes Ferreira e Rosa Soares
Antes dos "aparentes ataques terroristas" a situação económica internacional era má, mas os economistas alimentavam esperanças de o mundo poder escapar à recessão. Agora, o mínimo que se pode dizer é que essas esperanças diminuíram consideravelmente. O primeiro balanço, ao fim da tarde de ontem, revela estragos consideráveis no dólar e nos mercados accionistas, em especial nas empresas ligadas aos seguros e à aviação. Os investidores procuraram portos mais seguros como o franco suíço e o ouro, fazendo disparar as cotações respectivas. Receios de falhas no abastecimento beneficiaram igualmente o petróleo. Ainda é cedo para avaliar as consequências económicas, era a frase mais ouvida da boca dos economistas poucas horas depois dos "aparentes atentados terroristas" nos Estados Unidos da América. "Ainda não consegui pensar sobre o assunto. O medo que existe é grande, mas ninguém tem a ideia das consequências económicas. Admito que os americanos sejam capazes de reagir mais depressa que o resto do mundo. Agora o que se vai passar na economia mundial, não faço ideia. Pode ser um ataque de um conjunto de fundamentalistas e não ter muitos efeitos. Mas, se for um ataque vindo do Médio Oriente, então os efeitos serão muito graves, concretamente a nível do petróleo", resumiu ao PÚBLICO Alberto de Castro, o professor catedrático da Universidade Católica doi Porto que, recentemente, recusou um convite de Guterres para ministro da Economia. No plano imediato, as bolsas vão cair, o dólar vai enfraquecer e o petróleo irá disparar, previu. Os números parecem dar-lhe razão. Os mercados accionistas viveram horas difíceis, o que motivou a suspensão da negociação em alguns mercados, incluindo Lisboa. A bolsa de Frankfurt, que encerrou uma hora antes do fecho normal devido a uma ameaça de bomba, esteve a perder chegado a perder 11 por cento. Paris recuou mais de sete por cento e Amesterdão 6,9 por cento. Melhor estiveram Londres (menos 5,4 por cento), Madrid (menos 4,5 por cento) e Lisboa (menos 4,3 por cento). Contudo, os analistas recusam a ideia de "crash", preferindo acreditar que se esteja perante uma reacção emotiva. "Não é uma situação de pânico, o que aconteceu na bolsa é inferior ao crash de 1987 e a queda do dólar é relativamente insignificante", desdramatiza Miguel Beleza, ex-ministro das Finanças e ex-governador do Banco de Portugal. Quanto ao mercado cambial, o professor universitário e consultor do Banco Comercial Português reconhece que a valorização de dois por cento do euro face ao dólar é "bastante", mas nota que "é preciso ter em conta que a moeda europeia está subvalorizada e, por isso, é normal que suba". No que diz respeito ao petróleo, Miguel Beleza frisa que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) já garantiu que não haverá rupturas e que os países ocidentais têm grandes "stocks". Há bem pouco tempo o petróleo esteve a níveis bem mais elevados, recordou ainda. "Para já, o comportamento dos mercados não parece sugerir perigos de adiamento da recuperação dos Estados Unidos", conclui o ex-governante.
"Mais turbulência"
A não ser que haja uma reacção psicológica, "do ponto de vista dos mecanismos económicos não há razão para o atentado afectar a economia", corrobora o economista José da Silva Lopes, citado pela Lusa. Houve milhares de milhões de dólares de prejuízo e haverá gastos de milhares de milhões de dólares em segurança e outras despesas, o que poderá estimular a economia, explica o presidente do Comité Económico e Social. "Os ataques terroristas poderão dar ao presidente Bush a oportunidade de aumentar a despesa com o sector de defesa, criando uma expansão fiscal que tornará mais moderada a recessão americana", precisou ao PÚBLICO o economista Sérgio Rebelo, a viver e leccionar actualmente nos EUA. Para o economista, o ataque terrorista de ontem criará "mais turbulência numa altura em que a economia americana atravessa uma reestruturação dolorosa com o redimensionamento do sector de tecnologias de informação". Se a quebra do dólar face ao euro e a subida do ouro são efeitos evidentes de curto prazo, Sérgio Rebelo considera já ser difícil prever o prazo de impacto sobre a economia, em geral, e sobre os preços das acções e do imobiliário, em particular. Quanto à Europa e Portugal, o efeito principal virá de "uma redução do fluxo de turismo dos EUA", considera. Menos optimista é a visão dos gabinetes de estudo do Banco Português de Investimento e do Banco Espírito Santo (BES): Os atentados nos EUA "aumentam as possibilidades de a economia mundial cair em recessão", defendeu o economista chefe banco controlado pela família Espírito Santo, Miguel Frasquilho, em declarações à Lusa. Para o analista "ainda é cedo para tirar as conclusões, mas os atentados terão decerto um efeito de diminuição da confiança dos agentes económicos", um factor fundamental para a economia. A queda dos mercados bolsistas e a subida em flecha dos preços do petróleo, que hoje se verificaram, "são reacções a quente, que poderão não se prolongar", dependendo das "acções que se seguirem", ressalvou o economista.
Recuperação mais lenta
Mas "trata-se, sem dúvida, de um acontecimento negativo para a economia mundial", garantiu Miguel Frasquilho, frisando a ausência de informação detalhada sobre os acontecimentos nos EUA. Os ataques terroristas "farão disparar os preços do petróleo, com as consequentes implicações a nível do índice de preços", comentou por seu turno a economista chefe do BPI, Cristina Casalinho. O aumento do preço do petróleo, um dos principais "motores" da inflação, terá um impacte directo tanto na economia norte-americana, como na europeia, precisou a analista. A juntar a este factor há ainda a "instabilidade que os ataques causarão nos mercados accionistas, que já se encontravam em dificuldades", acrescentou. Todos estes factores poderão "implicar uma maior demora na recuperação económica" ou, até mesmo, "uma recessão económica", admitiu Cristina Casalinho. Para a União Europeia, além do impacte directo por via do preço do petróleo, os atentados poderão significar também uma "menor procura dirigida à Europa, por parte dos EUA, afectando as relações comerciais externas", referiu, sublinhando que se "tratam de meras conjecturas, por ser ainda prematuro avaliar as consequências" dos ataques. _
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Riscos de recessão mundial aumentam
com atentados ao coração do capitalismo
Quarta-feira, 12 de Setembro de 2001
Por Joana Amorim, Lurdes Ferreira e Rosa Soares
Antes dos "aparentes ataques terroristas" a situação económica internacional era má, mas os economistas alimentavam esperanças de o mundo poder escapar à recessão. Agora, o mínimo que se pode dizer é que essas esperanças diminuíram consideravelmente. O primeiro balanço, ao fim da tarde de ontem, revela estragos consideráveis no dólar e nos mercados accionistas, em especial nas empresas ligadas aos seguros e à aviação. Os investidores procuraram portos mais seguros como o franco suíço e o ouro, fazendo disparar as cotações respectivas. Receios de falhas no abastecimento beneficiaram igualmente o petróleo. Ainda é cedo para avaliar as consequências económicas, era a frase mais ouvida da boca dos economistas poucas horas depois dos "aparentes atentados terroristas" nos Estados Unidos da América. "Ainda não consegui pensar sobre o assunto. O medo que existe é grande, mas ninguém tem a ideia das consequências económicas. Admito que os americanos sejam capazes de reagir mais depressa que o resto do mundo. Agora o que se vai passar na economia mundial, não faço ideia. Pode ser um ataque de um conjunto de fundamentalistas e não ter muitos efeitos. Mas, se for um ataque vindo do Médio Oriente, então os efeitos serão muito graves, concretamente a nível do petróleo", resumiu ao PÚBLICO Alberto de Castro, o professor catedrático da Universidade Católica doi Porto que, recentemente, recusou um convite de Guterres para ministro da Economia. No plano imediato, as bolsas vão cair, o dólar vai enfraquecer e o petróleo irá disparar, previu. Os números parecem dar-lhe razão. Os mercados accionistas viveram horas difíceis, o que motivou a suspensão da negociação em alguns mercados, incluindo Lisboa. A bolsa de Frankfurt, que encerrou uma hora antes do fecho normal devido a uma ameaça de bomba, esteve a perder chegado a perder 11 por cento. Paris recuou mais de sete por cento e Amesterdão 6,9 por cento. Melhor estiveram Londres (menos 5,4 por cento), Madrid (menos 4,5 por cento) e Lisboa (menos 4,3 por cento). Contudo, os analistas recusam a ideia de "crash", preferindo acreditar que se esteja perante uma reacção emotiva. "Não é uma situação de pânico, o que aconteceu na bolsa é inferior ao crash de 1987 e a queda do dólar é relativamente insignificante", desdramatiza Miguel Beleza, ex-ministro das Finanças e ex-governador do Banco de Portugal. Quanto ao mercado cambial, o professor universitário e consultor do Banco Comercial Português reconhece que a valorização de dois por cento do euro face ao dólar é "bastante", mas nota que "é preciso ter em conta que a moeda europeia está subvalorizada e, por isso, é normal que suba". No que diz respeito ao petróleo, Miguel Beleza frisa que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) já garantiu que não haverá rupturas e que os países ocidentais têm grandes "stocks". Há bem pouco tempo o petróleo esteve a níveis bem mais elevados, recordou ainda. "Para já, o comportamento dos mercados não parece sugerir perigos de adiamento da recuperação dos Estados Unidos", conclui o ex-governante.
"Mais turbulência"
A não ser que haja uma reacção psicológica, "do ponto de vista dos mecanismos económicos não há razão para o atentado afectar a economia", corrobora o economista José da Silva Lopes, citado pela Lusa. Houve milhares de milhões de dólares de prejuízo e haverá gastos de milhares de milhões de dólares em segurança e outras despesas, o que poderá estimular a economia, explica o presidente do Comité Económico e Social. "Os ataques terroristas poderão dar ao presidente Bush a oportunidade de aumentar a despesa com o sector de defesa, criando uma expansão fiscal que tornará mais moderada a recessão americana", precisou ao PÚBLICO o economista Sérgio Rebelo, a viver e leccionar actualmente nos EUA. Para o economista, o ataque terrorista de ontem criará "mais turbulência numa altura em que a economia americana atravessa uma reestruturação dolorosa com o redimensionamento do sector de tecnologias de informação". Se a quebra do dólar face ao euro e a subida do ouro são efeitos evidentes de curto prazo, Sérgio Rebelo considera já ser difícil prever o prazo de impacto sobre a economia, em geral, e sobre os preços das acções e do imobiliário, em particular. Quanto à Europa e Portugal, o efeito principal virá de "uma redução do fluxo de turismo dos EUA", considera. Menos optimista é a visão dos gabinetes de estudo do Banco Português de Investimento e do Banco Espírito Santo (BES): Os atentados nos EUA "aumentam as possibilidades de a economia mundial cair em recessão", defendeu o economista chefe banco controlado pela família Espírito Santo, Miguel Frasquilho, em declarações à Lusa. Para o analista "ainda é cedo para tirar as conclusões, mas os atentados terão decerto um efeito de diminuição da confiança dos agentes económicos", um factor fundamental para a economia. A queda dos mercados bolsistas e a subida em flecha dos preços do petróleo, que hoje se verificaram, "são reacções a quente, que poderão não se prolongar", dependendo das "acções que se seguirem", ressalvou o economista.
Recuperação mais lenta
Mas "trata-se, sem dúvida, de um acontecimento negativo para a economia mundial", garantiu Miguel Frasquilho, frisando a ausência de informação detalhada sobre os acontecimentos nos EUA. Os ataques terroristas "farão disparar os preços do petróleo, com as consequentes implicações a nível do índice de preços", comentou por seu turno a economista chefe do BPI, Cristina Casalinho. O aumento do preço do petróleo, um dos principais "motores" da inflação, terá um impacte directo tanto na economia norte-americana, como na europeia, precisou a analista. A juntar a este factor há ainda a "instabilidade que os ataques causarão nos mercados accionistas, que já se encontravam em dificuldades", acrescentou. Todos estes factores poderão "implicar uma maior demora na recuperação económica" ou, até mesmo, "uma recessão económica", admitiu Cristina Casalinho. Para a União Europeia, além do impacte directo por via do preço do petróleo, os atentados poderão significar também uma "menor procura dirigida à Europa, por parte dos EUA, afectando as relações comerciais externas", referiu, sublinhando que se "tratam de meras conjecturas, por ser ainda prematuro avaliar as consequências" dos ataques. _