Festival de Teatro do Porto com Balanço Positivo a Quatro Dias do Fim
Por RAQUEL RIBEIRO
Quinta-feira, 13 de Maio de 2004
Queimam-se os últimos cartuchos da 23ª edição do Festival de Teatro Internacional do Porto, Fazer a Festa. A quatro dias do final, o balanço já é "bastante positivo", mesmo com orçamento escasso e com o frio das últimas noites, que tem afastado o público.
Pelos jardins do Palácio de Cristal (e outros espaços do Fazer a Festa, como o Museu Romântico) tinham passado, até ontem, 2400 pessoas, numa média de 400/dia - a programação é contínua, das 10h30 às 23h00. O director do festival, José Leitão, admitiu que este até é "um número bom", considerando as circunstâncias de programação deste ano: o orçamento é o mesmo há cinco anos (70 mil euros) e é curto, daí que o Teatro Art'Imagem detenha metade de todas as representações (estreou "Anexins d'Amor", mas repôs, por exemplo, "American Buffalo"). O festival termina domingo. Até lá, a organização espera receber "entre 5 a 6 mil pessoas." Noutros anos, 9 mil pessoas era o "normal".
Um dos grandes problemas, explicou Leitão, é "não existirem canais de distribuição, não haver uma rede organizada" que permita "aproveitar companhias que venham a outros pontos do país e trazê-las até aqui". Isto, porque os apoios "são tardios e todos os anos temos de começar de novo, não podemos programar com antecedência", disse. "Nem sequer sei como vai ser no próximo ano."
De Évora ou do Brasil, em ambiente descontraído
Nas várias companhias que estão no Porto a "fazer a festa", há quem tenha vindo de Serpa, mas também do Brasil. É o caso do grupo do Ceará, Pessoas de Teatro, que terça-feira à noite apresentou o espectáculo "Pessoa, Persona", perante uma audiência escassa mas entusiasmada. A companhia vinha a Portugal participar no Festival Internacional de Teatro Construção, em Joane, quando surgiu também a possibilidade de entrar no Fazer a Festa.
Numa grande barraca com riscas verdes e brancas, há mesas e cadeiras. As pessoas bebem um copo ou fumam um cigarro - o ambiente é de descontracção. Em palco, apenas um actor, Ghil Brandão, dá corpo a vários heterónimos de Fernando Pessoa - de um baú vai tirando diferentes mantos que evocam Alberto Caeiro, Álvaro de Campos ou Ricardo Reis.
Pela primeira vez em Portugal, Ghil, 35 anos, trouxe, com Eugénia Siebra e Iran Rabelo, a peça "Merda!" e este "Pessoa, Persona". Conta que descobriu Pessoa quando estava na faculdade e começou "a fazer 'performance' com a poesia dele". Não é fácil, diz, "tecer a dramaturgia da cena", porque a poesia não é como um texto de teatro e "para a criação dramática é necessária alguma experiência para que o espectador sinta que aquilo é verdade".
Que heterónimo joga melhor com o palco? "Prefiro Caeiro, porque permite um equilíbrio entre o homem e a natureza e, nesse sentido, é o poeta da contemporaneidade. Mas Álvaro de Campos é mais teatral, mais forte para o palco. Com ele, toda a força dionisíaca do actor vem à tona", explica.
Fernando Pessoa é, por isso, "um poeta muito teatral, que se metamorfoseia, assume múltiplas 'personas' que adquirem vida própria".
No espectáculo "Universo Fantástico", do Pim-Teatro de Évora, também é de metamorfoses que se fala. Os três actores ora são árvores, judocas, andam de bicicleta ou de barco, tocam instrumentos. Os espectáculos das 10h30 e das 14h30 são para crianças e têm estado sempre lotados, diz José Leitão.
Durante a peça, os meninos gritam "olha o fumo!" e tentam agarrá-lo com as mãos. Há também uma serpente feita de pedaços de lata e de madeira. "Não assusta, aquilo!", diz uma menina. No final, os actores contaram às crianças que este espectáculo surgiu um dia, quando eles foram às escolas explicar que já não tinham mais histórias para contar. Pediram, então, aos meninos que inventassem histórias. Foram quatro dessas fantasias (ou universos fantásticos) das crianças, que eles trouxeram ao Fazer a Festa.
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Festival de Teatro do Porto com Balanço Positivo a Quatro Dias do Fim
Por RAQUEL RIBEIRO
Quinta-feira, 13 de Maio de 2004
Queimam-se os últimos cartuchos da 23ª edição do Festival de Teatro Internacional do Porto, Fazer a Festa. A quatro dias do final, o balanço já é "bastante positivo", mesmo com orçamento escasso e com o frio das últimas noites, que tem afastado o público.
Pelos jardins do Palácio de Cristal (e outros espaços do Fazer a Festa, como o Museu Romântico) tinham passado, até ontem, 2400 pessoas, numa média de 400/dia - a programação é contínua, das 10h30 às 23h00. O director do festival, José Leitão, admitiu que este até é "um número bom", considerando as circunstâncias de programação deste ano: o orçamento é o mesmo há cinco anos (70 mil euros) e é curto, daí que o Teatro Art'Imagem detenha metade de todas as representações (estreou "Anexins d'Amor", mas repôs, por exemplo, "American Buffalo"). O festival termina domingo. Até lá, a organização espera receber "entre 5 a 6 mil pessoas." Noutros anos, 9 mil pessoas era o "normal".
Um dos grandes problemas, explicou Leitão, é "não existirem canais de distribuição, não haver uma rede organizada" que permita "aproveitar companhias que venham a outros pontos do país e trazê-las até aqui". Isto, porque os apoios "são tardios e todos os anos temos de começar de novo, não podemos programar com antecedência", disse. "Nem sequer sei como vai ser no próximo ano."
De Évora ou do Brasil, em ambiente descontraído
Nas várias companhias que estão no Porto a "fazer a festa", há quem tenha vindo de Serpa, mas também do Brasil. É o caso do grupo do Ceará, Pessoas de Teatro, que terça-feira à noite apresentou o espectáculo "Pessoa, Persona", perante uma audiência escassa mas entusiasmada. A companhia vinha a Portugal participar no Festival Internacional de Teatro Construção, em Joane, quando surgiu também a possibilidade de entrar no Fazer a Festa.
Numa grande barraca com riscas verdes e brancas, há mesas e cadeiras. As pessoas bebem um copo ou fumam um cigarro - o ambiente é de descontracção. Em palco, apenas um actor, Ghil Brandão, dá corpo a vários heterónimos de Fernando Pessoa - de um baú vai tirando diferentes mantos que evocam Alberto Caeiro, Álvaro de Campos ou Ricardo Reis.
Pela primeira vez em Portugal, Ghil, 35 anos, trouxe, com Eugénia Siebra e Iran Rabelo, a peça "Merda!" e este "Pessoa, Persona". Conta que descobriu Pessoa quando estava na faculdade e começou "a fazer 'performance' com a poesia dele". Não é fácil, diz, "tecer a dramaturgia da cena", porque a poesia não é como um texto de teatro e "para a criação dramática é necessária alguma experiência para que o espectador sinta que aquilo é verdade".
Que heterónimo joga melhor com o palco? "Prefiro Caeiro, porque permite um equilíbrio entre o homem e a natureza e, nesse sentido, é o poeta da contemporaneidade. Mas Álvaro de Campos é mais teatral, mais forte para o palco. Com ele, toda a força dionisíaca do actor vem à tona", explica.
Fernando Pessoa é, por isso, "um poeta muito teatral, que se metamorfoseia, assume múltiplas 'personas' que adquirem vida própria".
No espectáculo "Universo Fantástico", do Pim-Teatro de Évora, também é de metamorfoses que se fala. Os três actores ora são árvores, judocas, andam de bicicleta ou de barco, tocam instrumentos. Os espectáculos das 10h30 e das 14h30 são para crianças e têm estado sempre lotados, diz José Leitão.
Durante a peça, os meninos gritam "olha o fumo!" e tentam agarrá-lo com as mãos. Há também uma serpente feita de pedaços de lata e de madeira. "Não assusta, aquilo!", diz uma menina. No final, os actores contaram às crianças que este espectáculo surgiu um dia, quando eles foram às escolas explicar que já não tinham mais histórias para contar. Pediram, então, aos meninos que inventassem histórias. Foram quatro dessas fantasias (ou universos fantásticos) das crianças, que eles trouxeram ao Fazer a Festa.