PARTIDOS
Sementes para o futuro
«De um momento para o outro, três líderes de primeira linha descobrem-se ameaçados. É Paulo Portas que vê Manuel Monteiro disposto a disputar-lhe a liderança - ou a fundar um novo partido, como admite nesta edição; é Durão Barroso que recebe a ficha de inscrição de um novo militante do PSD, António Borges, com este a crescer logo e de tal forma nos jornais e nas televisões que já lhe aparece como perigoso concorrente; é o primeiro-ministro que vai de férias para os Açores enquanto o seu número dois de sempre, Jorge Coelho, insiste num curioso e inesperado debate sobre a limitação do número de mandatos dos cargos políticos, que, na prática, corresponde a dizer que é capaz de estar na hora de Guterres se ir embora.»
ANDA enganado quem diz que as férias são um tempo morto, de tréguas e tranquilidade absoluta no remanso nacional. Uma curta semana de ausência é o bastante para nos apercebermos do verdadeiro vulcão que é a política portuguesa, qual Etna traiçoeiro que se põe a cuspir lava sem aviso prévio, sem respeito pelo calendário turístico nem pelo sossego a que todos têm direito no Verão, incluindo os chefes dos partidos.
De um momento para o outro, três líderes de primeira linha descobrem-se ameaçados. É Paulo Portas que vê Manuel Monteiro disposto a disputar-lhe a liderança - ou a fundar um novo partido, como admite nesta edição; é Durão Barroso que recebe a ficha de inscrição de um novo militante do PSD, António Borges, com este a crescer logo e de tal forma nos jornais e nas televisões que já lhe aparece como perigoso concorrente; é o primeiro-ministro que vai de férias para os Açores enquanto o seu número dois de sempre, Jorge Coelho, insiste num curioso e inesperado debate sobre a limitação do número de mandatos dos cargos políticos, que, na prática, corresponde a dizer que é capaz de estar na hora de Guterres se ir embora.
De todas estas movimentações, a menos surpreendente é a declaração de Monteiro. Toda a gente se apercebeu há muito de que, existindo uma oportunidade para ajustar contas com Portas, o ex-líder do CDS-PP não a desperdiçará. Talvez confiando que o seu sucessor acabará por desistir da candidatura à Câmara de Lisboa e percebendo que isso desacreditará bastante o pré-candidato, Monteiro prepara o terreno para o ataque. Falta saber, em primeiro lugar, se Portas lhe dará o pretexto e, depois disso, se o agora professor deixou lastro na zona política onde se situa ou se já é um general sem exército.
O caso do PSD é bastante mais extraordinário. Outro professor, mas este economista e de prestígio internacional, decide filiar-se no partido. Com esse gesto simples provoca uma tal onda de choque, de curiosidade ou de esperança - conforme a perspectiva de quem olha - que o líder já deve ter-se arrependido de aplaudir a sua adesão. Custa a crer que a uma decisão tão amadurecida, como foi certamente a de António Borges, corresponda a única ambição de obter um cartão cor-de-laranja, tratando-se de alguém que chegou aos 52 anos sem nunca ter precisado dele para ter êxito e reconhecimento público numa invejável carreira profissional. Mas quaisquer que sejam os seus planos, fica claro que, embora o PSD tenha um líder que também já foi D. Sebastião, há sectores que continuam à espera de outro.
Quanto a Guterres e Coelho, o caso fia ainda mais fino. Há uma semana, o ex-ministro de várias pastas e número dois do guterrismo, deu uma entrevista a «O Independente» em que defendeu o estabelecimento de um limite do número de mandatos para todos os cargos políticos executivos, tanto no Estado como no PS. Dois ou três seria o ideal, segundo Coelho, que admitiu, no entanto, para o caso concreto do primeiro-ministro em exercício, que fossem apenas dois. Talvez frustrado com a falta de eco da sua proposta, voltou na quinta-feira ao assunto, em artigo no «Diário de Notícias». Parece agora evidente que Jorge Coelho tem pressa.
Dos três casos que marcaram a semana partidária pode não haver mais consequências do que as de animarem as conversas em passeios à beira-mar. Mas têm uma coisa em comum: todos os seus protagonistas lançam sementes para o futuro, a ver se elas germinam.
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«De um momento para o outro, três líderes de primeira linha descobrem-se ameaçados. É Paulo Portas que vê Manuel Monteiro disposto a disputar-lhe a liderança - ou a fundar um novo partido, como admite nesta edição; é Durão Barroso que recebe a ficha de inscrição de um novo militante do PSD, António Borges, com este a crescer logo e de tal forma nos jornais e nas televisões que já lhe aparece como perigoso concorrente; é o primeiro-ministro que vai de férias para os Açores enquanto o seu número dois de sempre, Jorge Coelho, insiste num curioso e inesperado debate sobre a limitação do número de mandatos dos cargos políticos, que, na prática, corresponde a dizer que é capaz de estar na hora de Guterres se ir embora.»
ANDA enganado quem diz que as férias são um tempo morto, de tréguas e tranquilidade absoluta no remanso nacional. Uma curta semana de ausência é o bastante para nos apercebermos do verdadeiro vulcão que é a política portuguesa, qual Etna traiçoeiro que se põe a cuspir lava sem aviso prévio, sem respeito pelo calendário turístico nem pelo sossego a que todos têm direito no Verão, incluindo os chefes dos partidos.
De um momento para o outro, três líderes de primeira linha descobrem-se ameaçados. É Paulo Portas que vê Manuel Monteiro disposto a disputar-lhe a liderança - ou a fundar um novo partido, como admite nesta edição; é Durão Barroso que recebe a ficha de inscrição de um novo militante do PSD, António Borges, com este a crescer logo e de tal forma nos jornais e nas televisões que já lhe aparece como perigoso concorrente; é o primeiro-ministro que vai de férias para os Açores enquanto o seu número dois de sempre, Jorge Coelho, insiste num curioso e inesperado debate sobre a limitação do número de mandatos dos cargos políticos, que, na prática, corresponde a dizer que é capaz de estar na hora de Guterres se ir embora.
De todas estas movimentações, a menos surpreendente é a declaração de Monteiro. Toda a gente se apercebeu há muito de que, existindo uma oportunidade para ajustar contas com Portas, o ex-líder do CDS-PP não a desperdiçará. Talvez confiando que o seu sucessor acabará por desistir da candidatura à Câmara de Lisboa e percebendo que isso desacreditará bastante o pré-candidato, Monteiro prepara o terreno para o ataque. Falta saber, em primeiro lugar, se Portas lhe dará o pretexto e, depois disso, se o agora professor deixou lastro na zona política onde se situa ou se já é um general sem exército.
O caso do PSD é bastante mais extraordinário. Outro professor, mas este economista e de prestígio internacional, decide filiar-se no partido. Com esse gesto simples provoca uma tal onda de choque, de curiosidade ou de esperança - conforme a perspectiva de quem olha - que o líder já deve ter-se arrependido de aplaudir a sua adesão. Custa a crer que a uma decisão tão amadurecida, como foi certamente a de António Borges, corresponda a única ambição de obter um cartão cor-de-laranja, tratando-se de alguém que chegou aos 52 anos sem nunca ter precisado dele para ter êxito e reconhecimento público numa invejável carreira profissional. Mas quaisquer que sejam os seus planos, fica claro que, embora o PSD tenha um líder que também já foi D. Sebastião, há sectores que continuam à espera de outro.
Quanto a Guterres e Coelho, o caso fia ainda mais fino. Há uma semana, o ex-ministro de várias pastas e número dois do guterrismo, deu uma entrevista a «O Independente» em que defendeu o estabelecimento de um limite do número de mandatos para todos os cargos políticos executivos, tanto no Estado como no PS. Dois ou três seria o ideal, segundo Coelho, que admitiu, no entanto, para o caso concreto do primeiro-ministro em exercício, que fossem apenas dois. Talvez frustrado com a falta de eco da sua proposta, voltou na quinta-feira ao assunto, em artigo no «Diário de Notícias». Parece agora evidente que Jorge Coelho tem pressa.
Dos três casos que marcaram a semana partidária pode não haver mais consequências do que as de animarem as conversas em passeios à beira-mar. Mas têm uma coisa em comum: todos os seus protagonistas lançam sementes para o futuro, a ver se elas germinam.