Francisco de Assis Rodrigues

29-04-2003
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Diccionario technico e historico

de pintura, esculptura, architectura e gravura

Francisco de Assis Rodrigues

AGUADA, s. f. do lat. aquata, fr. aiguade, (pint.) agua em que se desfaz tinta, que de ordinario é applicada sobre o papel; aguada de tinta de Nanquim ; aguada de carmim, etc.

AGUA-RAZ, s. f. (de agua, e do arab. hareq, (queimar) espirito, ou essencia de terebinthina, com que se prepara o verniz proprio para servir na pintura, e na tempera da cera para o exercicio da modelação.

AGUARELHA, s. f. (pint.) apparelho de cóla fraca com gesso, de que se usa para que a téla possa receber o desenho e côres que tem de se lhe applicar. «Com a cóla e gesso fazei uma lavadura ou aguarelha.» Filippe Nunes, Arte da pint., p. 52.

AGUARELLA, s. f. do fr. aquarelle, it. acquarella; (pint.) pintar ou a uma só côr, ou com varias côres misturadas com agua e gomma arabica, ou seja sobre téla, ou principalmente sobre marfim, pergaminho e papel.

ALVAIADE ou ALVAYADE, s. m. do art. arab. al, e de beyde, branquear, lat. cerussa, hesp. alvayalde, (chim.) oxydo branco do chumbo, dissolvido pelo acido acetoso. É absorvente, e serve para diversos usos na medicina: nas artes, porém, tem o seu uso principal. V. Branco – Cores.

AMARELLO, A, adj. do gr. amarasso, brilhar, lat. flavum, fr. jaune, it. giallo, hesp. amarillo, (pint.) uma das sete cores do prisma, que depois do branco reflecte mais luz: ha differentes especies de materias de que os pintores se servem para formar esta côr, taes são o ocre comum, -- a terra de Italia -- o ocre de Rut, os massicotes, -- o oiro pimenta, a goma-guta, a pedra de fel, -- o jalde de Napoles, etc.

O jalde de Napoles, terra ou mineral que se acha nos contornos de Napoles, emprega-se na pintura a oleo, na cera, e a tempera, tendo cuidado em não misturar ou moer com faca de ferro, mas sim de buxo ou marfim, porque o ferro dá-lhe um tom esverdinhado ou cinzento.

ANIL, s. m. do lat. indicum, indio, fr. e ing. indigo, massa que vem das Indias occidcntaes, c da America (pint.) é proveniente das folhas de uma planta chamada anil, que os indios semeiam, e colhem todos os annos: emprega-se na pintura, principalmente de tecidos, misturada com o branco, para formar uma côr azul, e usa-se d'elle sem mistura, nas aguadas que se dão nas coberturas de ardosia, e em tudo que é de ferro, e de chumbo.

AZINHAVRE, s. m. do arab. azzanjar, materia verde formada no cobre e bronze com a humidade. V. Verdete.

AZUL, s. m. do arab. zul; lazur, voz persica, cousa azul, lat. coeruleus, fr. bleu, it. turchino, ing. blue, uma das cores primitivas, similhante á côr do céu, ou da saphira. Esta côr doce e fugitiva faz-se com o azul ultramar ou lazulite, com indigo e outras composições, como o sal, a areia, o nitro, etc. Com este azul de ultramar se pintam ordinariamente os céus, as nuvens, o mar, etc. Ha diferentes especies de azul; a saber: azul de França, azul montanha, ou cinzas azuis, azul da Prussia, ou de Berlim, que tambem se emprega na pintura a oleo.

BETUME, s. m. do lat. bitumen, fr. bitume, ing. bitumen, exhalar cheiro; nome generico applicado a substancias combustíveis: umas são liquidas ou viscosas (naphtha), alcatrão; outras são solidas (asphaltus), betume; a côr é morena ou negra; no estado solido ou secco o betume é friavel, e electrisa-se pela fricção; como as resinas, derrete-se pelo calor e arde, espalhando fumo espesso e odorifero. Ha varias especies de betume; os principaes são: o asphalto, chamado betume glutinoso, a naphta, o petroleo ou oleo de pedra, etc. O betume, porém, de que se faz uso nas obras de architectura e esculptura é de duas sortes: o primeiro, composto de pez e de pó de pedra, serve para segurar e prender as pedras entre si, e para betumar e encher as juntas das mesmas pedras; o segundo, composto sómente de cêra e pó de pedra, é muito claro; porém menos forte e adherente que o do pez, que tem côr alourada: do de cêra se servem principalmente os esculptores para taparem e encherem algumas falhas ou cavidades que apparecem no marmore, e para unirem e segurarem pequenas partes, em que muitas vezes dividem as suas obras.

BISTRE, s. m. trigueiro, do lat. fuligo cocta et diluta, fr. bis, it. fulligine stemperata, nome proprio da ferrugem das chaminés infundida em agua filtrada, formando uma côr acastanhada clara, de que se servem os artistas para desenharem a aguarellas. Muitos desenhadores, architectos e pintores têem substituido pelo bistre a sepia e a tinta da China.

BRANCO, A, adj. do lat. alus, hesp. blanco, fr. blanc, it. bianco, ing. white, (pint.) aindaque os philosophos neguem que o branco seja côr, é certo que elle o é para os pintores, e a mais leve de todas as côres. Esta resulta da reunião das sete côres de que é composto um raio solar. V. Espectro solar. O branco significa a luz que illumina os objectos para serem bem vistos e apreciados. «A sombra do branco, diz Leonardo de Vinci, visto com o sol e a claridade do ar, tem uma côr que participa do azul, porque como o branco cm si não é côr, senão disposição para qualquer côr, segundo a preposição que diz «a superficie do qualquer corpo participa da côr do seu objecto», segue-se que aquella parte da superfície branca em não ferirem os raios do sol, participa a côr azul do ar, que é seu objecto. Ha differentes qualidades de branco; a saber: branco de prata, que é o mais superior que se usa na pintura, e é o oxydo de chumbo, preparado de modo que se torne o branco mais brilhante c ligeiro.

Branco de Hespanha, carbonato de cal, ou cré pulverisada, que se reduz a pães por meio da agua; usa-se como os lapis para riscar sobre quadros escuros, e serve tambem para a pintura a fresco.

Branco de Hamburgo, de Hollanda, de Veneza, de zinco, e outros, de que se faz uso na pintura a oleo. V. Alvayade.

BRANCO e PRETO ou NEGRO, (pint.) especie de pintura a fresco, de que se fazia uso antigamente para os ornamentos e grutescos. Consistia na preparação de um fundo negro feito de estuque, sobre o qual se applicava um emboço branco, que com a ponta de um ferro ía saíndo, deixando ver por baixo o negro que lhe servia de sombra, imitando uma estampa. D'esta sorte são feitos os frescos de Polydoro de Caravagio; mas hoje não se usa d'esta especie de pintura, por ser de um effeito duro e pouco agradavel, aindaque seguro e duradouro.

CARMESIM, s. m. do arab. carmesi, (pint.) côr encarnada muito viva. Toma-se tambem como adj., carmesinus, a, um.

CARMIM, s.m. do it. carminio, derivado do arabe kermes, fr. carmim, ing. carmine, (pint.) materia colorante de um vermelho brilhante: é substancia solida, pulverulenta, de um bello encarnado, que se obtem precipitando o cozimento de cochonilha com pedra hume. É côr preciosa para os pintores, assim como para o colorido de flores artificiaes. A laca carminada obtem-se misturando a pedra hume n'um cozimento do cochonilha alcalisada. A preparação do carmim foi descoberta em Piza por um monge franciscano.

CARVÃO, CARVÕES, s. m. do lat. carbonis, fr., ing. e it. carbone, madeira que tendo perdido por uma combustão incompleta as substancias volateis, se ha convertido em materia negra, susceptivel de reaccender-se; chama-se carvão vegetal ou animal, segundo é a origem de um ou de outro d'estes reinos.

O carvão de urze tem especial applicação no desenho. As obras desenhadas a carvão são hoje em dia muito estimadas; e é linguagem usada entre os artistas o dizer-se : Os carvões de fulano são bons, ou merecem estimação. V. Urze.

CAVALETE, s. m. do it. cavalletto, lat. canterius, fr. chevalet, ing. Shore, (pint., esculpt. e archit.) em geral é uma armação ordinariamente de madeira, que serve para sustentar qualquer cousa, e para facilitar o trabalho:

Cavallete de pintor é uma peça ligeira, feita de madeira, que tem 2m,30 de altura, pouco mais ou menos, composta de tres réguas grossas que lhe servem de pés, formando um angulo agudo, em cujo vertice gira um parafuso que os prende, comprehendendo a que lhe serve de escora ou rabo; as duas reguas da frente têem alguns furos ou buracos ao comprimento, em que se applicam cavilhas para sobre ellas descansarem os quadros.

Cavallete de esculptor é uma especie de banco de 1m,22 de alto, pouco mais ou menos, tambem composto de tres pés, em esquadria, seguros superiormente n'uma grossa tábua quadrada, de 0,55 centimetros de lado, tendo a meio um buraco redondo, sobre o qual gira um pau fixo, ou eixo n'outra tábua tambem quadrada, pouco maior que a primeira, sobre a qual colloca o esculptor o barro, gesso ou cêra em que trabalha,– os pés do eavallete são presos por travessas na parte inferior, e na parte immediatamente superior ao assento dos pés, em distancia de 0,22 centímetros, haa outra tábua, que os prende, a qual tem a meio uma cavidade em que recebe um pequeno balde, ou tijela para agua, necessaria ao exercicio da modelação.

Cavallete de andaime é uma peça com degraus, em que se atravessam tábuas, que servem para os artistas, pintores ou esculptores poderem trabalhar em logares elevados.

Chama-se tambem cavallete ás peças de madeira travadas entre si, sobre outras a prumo, para sustentar as vigas de um pavimento ou tecto.

CAVILHA, s.f. do lat. clavus, fr. cheville, it. cavicchia, ing. peg, (archit.) haste redonda ou conica de madeira ou ferro, da figura de um prego, com que se unem duas ou mais peças de madeira, como os barrotes, as vigas, etc.

CLARA D’OVO, s. do lat. ovi clarum, fr. aubin, ing. the white, (pint.) humor transparente, viscoso e adherente, que cerca a gemma do ovo, a que se dá o nome de albumina: --, é por si só um verniz muito forte, que os pintores de imagens algumas vezes applicam sobre suas obras, misturando-lhe tres partes de agua commum, para lhe moderar a força.

CLARO-ESCURO, s.m. do it. chiaro-scuro, fr. clair-obscur, chamam-se desenhos ou quadros de claro-escuro os que só constam de preto e branco; (des. e pint.) nas artes plasticas, e principalmente em desenho e pintura, dá-se este nome á imitação do effeito que produz a luz espalhando ou claros sobre as superficies que ella toca, e deixando em sombra aquellas que não chega a tocar. Rembrand sacrificou tudo em seus quadros á magia do claro-escuro; Corregio,Ticiano e Van-Dyck oferecem modelos acabados n'esta parte da arte.

O conhecimento das regras de physica, pelas quaes a luz, partindo de um fóco, cáe, espalha-se e reflecte sobre os corpos, constitue a sciencia do claro-escuro, que se comprehende na sciencia geral da optica.

O pintor dispondo os objectos de um quadro, para obter effeitos de luz e de sombra harmoniosos c agradaveis; o esculptor e o architecto dispondo as massas para conseguir os mesmos fins; cada um na sua especialidade deixa entender que o estudo do claro-escuro a todos é de summa importancia:

«Os quaes, depois apurando

Vão, até que resolvendo

Os apontados contornos,

O claro-escuro lhe expressão.» Vieira Lus., O Ins. pint, p. 226.

«E que cada objecto em particular conserve o verdadeiro caracter da sua natureza, dando-lhe um vulto apparente pela boa intelligencia do claro-escuro, e da união das cores.» Cyr., Conv., 2.ª, p. 5.

CLAROS, s. e adj. do lat. clarus, a, um, de kel, rad. do gr. kelios, o sol, e radio, ere, raiar, do gr. araioó, rarefazer, fr. jour, (des. e pint.) chamam-se em pintura claros ás partes mais esclarecidas e luminosas, que reflectem mais luz, e são compostas de cores mais brilhantes. V. Despertador.

COBALTO, s. m. do allem. kobalté, metal oxydavel, difficil de fundir-se, esbranquiçado, magnetico, e que se faz azul pela fusão com o vidro: --, serve para pintar de azul as porcelanas, o vidro, e tem outros usos nas artes.

COBRE, s. m. do lat. cuprum, gr. kypros e hyprion, metal da ilha de Chypre, mas que se encontra em todas as partes do mundo, (grav.) é avermelhado quando está puro, e pertence á secção dos metais ducteis e facilmente oxydaveis. D'elle usaram os antigos para fazerem utensilios, vasos, ornamentos e estatuas, e os modernos servem-se d'elle para os mesmos usos, e para fazerem chapas proprias para o estudo e exercicio da arte da gravura, e para a cunhagem da moeda, etc. V. Cunhos, Cunhar.

COCHONILHA, s. f. diminut. do lat. coccus, grã, gr. coccinos, de côr escarlate, fr. cochenille, it. cocciniglia, (h. n.) insecto pequeno que se cria na America n'um arbusto chamado figueira da terra, da qual se extrahe a tinta escarlate, o carmim, e a laque acarminada. «Huma migalha de preto e outra de Cochonilha.» Fil. Nun., Arte da pint., p. 79, v.

COLLA, s. f. do gr. kolla, lat. colla ou gluten, fr. colle, ing. glue, materia glutinosa, que serve para pegar, juntar e unir um ao outro o papel, a madeira, o panno, etc.

Usa-se da colla de Inglaterra, que é tida por melhor, para pintar a tempera.

COLLAMENTO, s. m. fr. encoller, dar uma demão de colla.

COLLAR, v. a. fr. maroufler, fazer uso da colla, unir ou pegar com colla: –, pintar a colla ou a tempera. V. Pintar.

COLORIDO, A. p. p. de colorir, e adj. tambem se toma como subs. em lugar, ou como synonymo de côr: – do lat. colorum ratio, fr. coloris, it. colorito, ing. colouring, (pint.) é uma parte da pintura, que comprehende o conhecimento de todas as cores naturaes e artificiaes, estas para empregar, aquellas para imitar: –, por meio d'este conhecimento, o pintor dá, aos objectos que quer representar as cores, as luzes e as sombras que lhe convem; e assim diz-se: um colorido vigoroso, brilhante, forte, precioso: um quadro bem ou mal colorido. V. Côres.

COPAL, e. m. do mexic. copaltê, nome generico das resinas, ggomma ou resina, que se tira de uma arvore de Ceylão, que tem uso nas artes para fazer verniz (verniz copal).

COR, s. f. contracção do lat. color, fr. couleur, ing. colour, it. colore, hesp. color, impressão que fazem sobre o orgão da vista os raios da luz reflectidos da superficie dos corpos; modificação dos raios da luz, que excita em nós as sensações, que nos fazem distinguir os objectos e chamar-lhes brancos, vermelhos, amarellos, etc. Chamam-se côres primitivas ás sete côres do espectro ou prisma solar: roxa, anilada, azul, verde, amarella, alaranjada, vermelha. Chamam-se-lhes tambem côres simples, porque d'ellas se podem conseguir differentes matizes, e infinitas gradações. Diz-se que duas côres são complementares uma da outra todas as vezes que ellas têem o branco por mistura. Chamam-se côres compostas as que são produzidas pela mistura de dois ou tres raios. Póde-se por meio da mistura e degradação das côres primitivas, obter uma infinidade de gradações e de tons. M. Chevreul formou cm 1861 um círculo chromatico, composto de 612 matizes com tres côres primitivas. Outros dizem, que se podem obter até 819 combinações. Quanto às côres variagadas, ou do iris, ellas devem essa propriedade á maneira por que as superficies recebem os raios luminosos, porque mudam ou variam de reflexo com a posição do objecto, e por conseguinte com o angulo segundo o qual esses raios vem a tocal-o.

CORES, s. f. do lat. colores, (pint.) dá-se em pintura este nome ás substancias colorantes, simples ou misturadas, de que se faz uso para colorir os objectos. Os pintores empregam cinco côres fundamentaes com as quaes se formam todas as outras e suas differentes gradaçõos e matizes, e são: o branco, o amarello, o vermelho, o azul c o preto. A escolha e preparação das drogas que entram na composição das côres é cousa de muita importancia, tanto para conseguir o bom effcito do quadro quando sáe das mãos do artista, como para evitar que elle se altere consideravelmente no tempo futuro; pelo que convem que haja a melhor escolha e discrição sobre este ponto de tanto interesse para o credito do artista.

Chamam-se côres transparentes aquellas que deixão ver a côr sobre a qual ellas se applicam para lhe dar a tinta que lhe é propria. Chamam-se côres locaes aquellas que imitam fielmente as côres dos objectos naturaes, e que servem para os distinguir e caracterisar. Dizem-se tambem côres tenras, amigas, ferozes, fundidas: o tom, a harmonia, a união, a amizade das côres. V. Colorido.

GESSO, s. m. do lat. gypsum, i, gr. gypsos, que se deriva de ge, terra, e epsô, cozer, fr. platre ou gypso, it. gesso, ing. parget stone, especie de rocha em que domina o sulphato do cal. Ha muitas qualidades de gesso. O mais importante e o mais estimado para a industria é o gesso grosseiro, que contém de 6 a 12 por cento de carbonato misturado com sulphato, e é ordinariamente conhecido com o nome de pedra de gesso. Quando se mistura com a colla de pelle, o gesso se reduz a pó e forma uma massa, que se chama estuque. O gesso chamado plastico, porque serve para modelar, obtem-se do sulphato de cal calcinado em fórma de pó branco, peneirado, e misturando-o com agua serve para fazer fôrmas, moldar figuras ou vasa-las nas fôrmas, ou para outros objectos de arte. Misturado com a colla forte constitue o estuque que recebe o polimento e lustro do marmore.

GESSOS, s. m. pl. em linguagem d'artc entende-se pelo termo de gessos os modelos genuinos das bellas estatuas, baixos relevos e outras obras antigas, formadas ou moldadas sobre os originaes, e vasados em gesso n'essas matrizes por habeis formadores, que pela sus exactidão se podem reputar as proprias obras originaes executadas por seus auctores. N'cste sentido se diz o gesso de uma estatua, de um busto, de um baixo relevo antigo. Os gessos do Apollo de Belvedere, do Laocoonte, da Venus, etc., para exprimir a sua authenticidade.

Ainda ha um seculo eram raros os modelos em gesso do antigo, porém, n'estcs ultimos tempos se tem propagado de tal sorte os modelos classicos, que não só as academias, mas ainda artistas e pessoas curiosas têem obtido boas collecçoes de gessos para seu particular estudo. É indubitavel que o estudo dos bellos gessos antigos forma uma parte essencial do ensino do desenho em todas as academias, e que é por elle e n'elle que o estudante deve aprender a conhecer e a imitar as bellas fórmas, as fórmas ideaes do antigo, para depois passar a estudar o modelo vivo. V. Antigo.

«Preparou-se tambem uma sala para n'ella se desenharem gessos e estampas de figura e ornato». Cyr. Mem., p. 27.

«De André Gonçalves com Manuel Dias, póde fazer-se um imparcial parallelo: se aquelle soube muito bem aproveitar-se das estampas, este não foi menos habil cm desfructar os gessos». Mach. de Castro, Descripç. anal., p. 293.

GIS ou GIZ, s. m. do fr. ant. giz, allem. schieffer, fr. m. craie, lat. e it. creta, ing. chalk, ardosia, schisto, greda branca ou schisto macio, de que se servem alguns artifices, principalmente alfaiates para dar traços sobre o panno; de que ás vezes tambem se servem os artistas para delinear ou traçar as suas composições em ponto grande. Os gravadores em madeira tambem o utilisam.

LACRA, s. f. V. Lacca ou Lacêa, «Lacra de que se fazem os escuros dos cambiantes.» Filip. Nun., Art. de pint., p. 59.

LACRE, s. m. da mesma origem que laca, composição de gomma-laca, terebinthina, vermelhão e outros ingredientes, para servir de lacrar cartas, e de imprimir n'elle sinetes, sellos e outras obras de gravura de cunhos.

NEGRO, s. m. do lat. nigrum, fr. noir, it. nero, ing. black, (pint. E grav.) o negro é a privação da luz ou de todas as côres, e não contendo raio algum luminoso absorve por isso a todos. Em termo de arte entende-se pelas côres tão escuras e exageradas, que tornam negro um quadro ou parte d'elle. Toma-se tambem como adjectivo, dizendo que um quadro tem um tom negro, ou por defeito do artista, ou pela ruim qualidade das tintas que o têem enegrecido.

Ha varias qualidades de negro; a saber: negro de marfim, que é um dos melhores, negro de fumo, negro de Hespanha, negro de Allemanha, negro de carvão, etc.

Tambem se applica á gravura, dizendo gravura de maneira negra, estampa muito negra, ou por defeito do gravador ou por descuido do impressor.

OCRE ou OCHRE, s. m. do gr. okhros, amarello, (pint.) barro ou substancia argillosa que por effeito do oxydo de ferro apresenta varias côres, principalmente o amarello claro e escuro, de que se faz uso na pintura. F. Nunes, Arte da pint., p. 63.

OLEO, s. m. do lat. oleum, deriv. de olea, oliveira, gr. elaia, licor grosso, unctuoso, inflammavel, que se extrahe de fructas e de outras substancias, e por isso ha differentes qualidades de oleos, segundo as substancias de que são extrahidos; os principaes são: oleo de amendoas, oleo de linho, oleo de nozes, etc.

OURO ou OIRO, s. m. do lat. aurum, fr. e ing. or, it. e hesp. oro, metal amarello o mais ductil, brilhante e precioso de todos os metaes, que, por meio de differentes ligas e preparações, serve para executar, enriquecer e decorar muitas obras d'arte.

D'aqui as suas diversas denominações:

Ouro mate é o que posto em obra, não tem a superficie liza, nem polida.

Ouro brunido é o ouro polido e brilhante, para fazer sobresaír as carnes, os pannejanmentos e os ornatos do seu fundo.

Ouro esculpido é o que se grava com ornamentos obre fundo branco.

Ouro de concha, são folhas de ouro moidas com mel, e dissolvidas em agua de gomma para uso dos pintores e illuminadores.

Ouro de mosaico é o deuto-sulphureto de estanho, que se applica nas decorações.

Ouro a oleo é o que se applica sobre um fundo de côr de ouro, e serve nas obras expostas ao ar.

OURO-PIMENTA, s. m. do lat. auri pigmentum, fr. orpiment, côr de ouro, mineral pesado, lustroso, composto de arsenico e de enxofre, e por isso muito venenoso. Ha-o de differentes especies, a saber: amarello, dito dourado, dito escuro, arroxado, vermelho e esverdeado.

PAINEL, s. m. do lat. tela ou tabula picta, fr. ant. panel ou tableau, it. tavola, hesp. quadro, ing. a picture, (pint., archi. e esculp.) em pintura significa:

1.º Qualquer sujeito ou assumpto pintado a oleo,a tempera ou a fresco sobre panno, madeira, gesso, cobre, etc., ou seja, em grande ou pequeno espaço, postoque pareça mais proprio chamar aos pequenos quadros e não paineis: e assim dizemos, classificando as suas differentes especies, painel de historia, de paizagem, de genero, de animaes, de fructos, de flores, etc.;

2.º Em architectura dá-se o nome de painel ás almofadas (panneau), que se fazem sobre as vergas das janellas e das portas;

3.º Em esculptura dá-se algumas vezes este nome aos baixos reelvos, que ornam os monumentos, e ás mesmas almofadas ou partes emolduradas das grandes salas.

«Deve-se tambem advertir, que estes relevados paineis de esculptura são de tres especies.» Mach. De C., Descrip. analy., 199. V. Baixo relevo.

PALETA ou PALHETA, s. f. do lat. palmula, dimin. de pala, pá, fr. palette, it. paletta, hesp. palete, ing. a painter's-palette, pequena pá, (pint.) de um e outro modo se acha este nome escripto nos diccionaristas portuguezes e nos escriptores artistas que escreveram de bellas artes; alem de outras significações, toma-se este nome em particular por uma pequena tábua delgada de fórma oval ou elliptica, feita de madeira de nogueira ou pereira, com uma abertura para enfiar o pollegar da mão esquerda, sobre a qual tábua os pintores dispõem as tintas, e as combinam para pintareem.

«Salvo os azues (tintas, que na palleta com o oleo se concertam, Filip. Nery, Art. da pint., p. 51,54 e 97.

Que quando heroica exercita

Pinceis, côres e palheta. Vieir. Lus., O inst. pint., p. 596.

PAPEL, s. m. do lat. e gr. papyrus, planta do baixo Egypto, cuja entre-casca ou pellicula servia aos antigos para escrever e para outros usos, em fr. papier, it. carta, hesp. papel, ing. paper: --, o papel fabrica-se de trapos de algodão, ou de linho, ou de canamo, etc., e este é o melhor papel, de que ha differentes especies e qualidades, segundo os fins a que se applica; a saber: papel para impressão, -- para escrever, -- para desenhar, papel de cartuxo, papel vegetal, etc. O papel para desenhar póde ser branco ou de meia tinta, i. É, ligeiramente coloreado; o primeiro serve ordinariamente para desenhar a lapis, a esfuminho e a aguarellas; o segundo para desenhar do antigo e do natural; o de cartuxo para fazer desenhos-mestres (épures), ou sejam de architectura ou ornatos, ou para desenhar cartões de quadros, que decoram os templos e as salas dos grandes edificios. V. Cartões.

PINCEL, s. m. do lat. penicillus, fr. pinceau, it. penello, hesp. pincel, ing. a pencil, (pint.), mólho de cabellos ou pello de cabrito, de gris, ou de outros animaes, atado ou preso a um cabo de madeira ou cano de penna, para applicar as tintas em quadros.

Não só os pintores usam de pinceis, os escultptores e os architectos tambem os empregam, estes para as aguarellas dos seus desenhos, e aquelles para alisar e empastar o barro dos seus modelos.

Os gravadores tambem usam de uma especie de pincel para tirar as rasuras de verniz da chapa, quando gravam a pontilhé.

Este termo se emprega em sentido figurado, para designar o estylo ou maneira de pintar, e assim diz-se pincel firme, vigoroso, ligeiro, franco, meduloso, etc. V. Brocha.

PINHO, s. m. do lat. pinus ou abies, fr. sapin, it. abete, hesp. abeto, ing. fir-tree, (archit.) arvore, cujo tronco é ordinariamente direito, nasce em terras fortes e é de grande uso e utilidade para obras de construcção. Ha pinho de fóra e pinho da terra. O pinho dos paizes do norte da Europa cresce nas grandes montanhas, e é muito estimado, principalmente o chamado de Flandres; o pinho da terra é mais ordinario e não tem a duração do bom pinho estrangeiro.

PINTOR, s. m. do lat. pictor, it. pittore, fr. peintre, hesp. pintor, ing. painter, (pint.) artista que representa os objectos naturaes ou artificiaes por meio de côres em qualquer superficie.

O que se applica e professa esta bella arte dev nascer para ella, e para lograr o seu fim, e chegar a adquirir um bom nome, precisa entregar-se a um estudo continuado, não só do colorido, mas de todas as partes da arte, e das sciencias subsidiarias. O pintor deve ser habil desenhador, e para este fim deve applicar-se constantemente ao estudo do antigo e da natureza em todas as suas especies e relações. Deve conhecre a architectura, a optica, a perspectiva linera, e deve praticar a esculptura, saber a historia, a esthetica, e ter um distincto conhecimento das diferentes ecolas de pintura, não ignorando os principaes ramos das sciencias naturaes e pilosophicas.

PINTURA, s. f. do lat. pictura, fr. peinture, it. pittura, hesp. pintura, ing. picture, (pint.) arte de representar em qualquer superficie os objectos naturaes ou artificiaes. A pintura por meio do desenho e das côres, forma, não só uma das artes liberaes, mas auxilia grandemente as decorações dos edificios. Divide-se, segundo os seus differentes processos, em pintura a óleo, a fresco, a tempera, em mosaico, em miniatura, a encaustica, a pastel, a aguarella, a guache, em camafeu: e póde-see applicar-se a pintura sobre madcira, sobre panno, sobre esmalte. sobre marfim, sobre vidro, sobre porcellana, etc.

A pintura divide-se ainda em varios generos, a, saber : Pintura de historia, – de genero, – de retratos e de paizagem, – de marinlas, – de batalhas, – de animaes, flores, productos naturaes, etc.

Os auctores que têem dado o nome de escollas aos modos ou diversos estylos de pintar, rcconhecem as escollas seguintes : florentina, romana, veneziana, lombarda, bolonheza, franceza, hespanhola, flamenga, hollandeza, ingleza, etc.

A origem da pintura é muito incerta, e o que se póde affirmar com certeza é que ella é antiquissima, como se prova pelos hieroglyphicos dos egypcios c pelos symbolos dos persas, indios, etruscos, phenicios e outros povos; mas foi só entro os gregos que a arte achou o seu nascimento real e positivo, como o demonstram os obras immortaes de Parrasio, Protógenes, Nicias, Apelles, Pamphilo e outros, obras que infelizmente não chegaram até nós, mas que não podemos deixar de admirar pelo testemunho dos escriptores contemporaneos, e pelo parallelo que devemos fazer das obras primas de esculptura d'essas felizcs epochas, que temos o gosto de possuir; taes como o Apollo, a Niobe, o Laocoonte c outras. Os romanos, postoque não possam comparar-se com os gregos nos progressos da pintura, podem lisonjear-se de possuir um Fabio Pictor, Turpelin e outros.

A pintura, como todas as bellas artes, soffreu os enfeitos d'esse geral cataclysmo, causado pelos bárbaros do norte, conservando-se apenas entre os primeiros christãos, d'onde tomou o caracter religioso, que geralmente dominou na edade media. A arte começo o seu renascimento no fim do seculo XII e no XIII pelas diligencias de Cimabue, Giotto, Giovani de Fibole, Masacio, que fundarama escola de Sena e de Florença, e pelos estudos e esforços de seus successores chegou á maior perfeição no seculo XV, em que floresceram Leonardo de Vinci, Miguel Angelo, e Raphael, Guido, Ticiano, André del Sarto e outros. D'este geral movimento participaram diferentes paizes como as escolas allemã, flamenga e hollandeza, illustradas por Alberto Durer, Rubens, Van Dyck, Rembrand e outros. As escolas hespanhola, cujo principal cabeça é Murillo, a ingleza representada por West e Reinolds, a franceza, que reconhece por fundadores Ambroise Dubois e J. Cousin, a que succederam Vovêt, Nicolau Poussin, Le Seur, Lebrun e outros.

Tambem em Portugal se rescntiram seus effeitos nos reinados de D. Affonso V, D. Manuel e D. João III, e onde são bem conhecidos os nomes de Nuno Gonçalves, João Annes, Braz do Avellar, a que succederam Antonio Campelo, Gaspar Dias, Grão Vasco e outros.

Os melhores auctores que escreveram sobre a pintura entre os antigos, são Junius, de Pictura Veterum, 1694, Durand, Histoire de la peinture ancienne, 1725; Leonardo de Vinci, Chambrai, De Piles e Coypel. Montabert escreveu modernamente o seu Traité complet de la peinture, 1825. Du Fresnoy compoz um poema latino sobe a pintura, e de Marsy compoz outro: Lanzi escreveu Storia pittorica d'Italia, e entre os modernos M. Ch. Blanc escreveu L'histoire des peintres. Podem tambem consultar-se os manuaes sobre os differentes processos da pintura, que formam parte da collecção Roret.

TÉLA, s. f. do lat. tela, it. e hesp. fr. toile, ing. cloth, teia, tecido de lã, linho, seda, oiro, etc., (pint.) os pintores antigos pintavam sobre madeira e cobre antes da invenção de pintar em téla, o que teve logar quando se usou ou descobriu o modo de pintar a oleo.

TÊMPERA (pintura a), é a que se executa com as côres desfeitas a agua, a colla, a gomma, a clara de ovo, sem oleo nem resina, e que se emprega nas pinturas das grandes abobadas e tectos, e nas decorações dos theatros. V. Pintura.

TEREBENTHINA, s. f. do lat. e gr. terebinthos, resina de terebintho, que tem a consistencia do mel, e se extrahe de muitos vegetaes, como do pinheiro, abeto cypreste, etc., que depois de purificado serve não só para uso da medicina, mas tambem para preparação de vernizes, e tem outras applicações nas bellas artes e nas artes fabris.

TERRA, s. f. do lat. e it. terra, fr. terre, hesp. tierra, ing. earth, (t. comp.) planeta que habitâmos, e um dos quatro elementos que compõem o globo, e omais pesado de todos.

Em relação á architectura:

Terra natural é a que não foi cavada nem lcvantada, e por isso tem o nome de terra nova.

Terra movediça a que tem sido transferida de um logar para terraplanar ou igualar outro logar ou terreno.

Terra firme ou maciça a que é tida como solida, sem vácuo, que se póde medir, e é talvez propria para n'ella se levantar edificios.

Terra de entulho é a terra solta, que tem sido cavada e remexida.

Em relação á pintura:

As tcrras coloradas, finas e massiças, corno os ocres são empregadas na pintura, quando a, sua côr é solida, a saber :

Terra de Colonia, especie de terra do sombra, um pouco mais doce, ligeira e transparente.

Terra de Italia, terra de côr que se assimilha á do ocre de ruth, mais viva e ligeira.

Terra verde de Verona, especie de pedra dura de que, depois de pisada e moida, usam os pintores de paizagens.

Terra, verde commum, é mais inferior que a de Verona, e hoje pouco usada.

Em relação á esculptura:

Terra de mica é a que se pega aos dedos, nem é arenosa.

Terra gredosa, a que tem muita greda.

Terra pastosa ou barro, a que tem mica e suavidade, e por isso propria para modelar.

ULTRAMARINO, A, adj. do ultramar, (pint.) azul ultramarino, feito do lapis-lazuli.

«Dura mais que todas as mais côres. Como este azul é muito caro, não se usa muito... Quem o quizer usar ha de lavrar primeiro as roupas ou o que quizer, com azues de Castella, cinzas, e depois de enxuto ha de lavrar por cima o ultramarino, que, como é muito delgado, se se usa só, não cobre bem, porque não tem corpo.» Filipp. Nunes, Arte de pint., p. 59.

URZE, s. m. do lat. erica, gr. bryon, musgo, typo da familia das ericineas, que tem mais de quatrocentas especies, quasi todas originarias de Africa, posto que algum haja na Europa e na Asia. São arbustos agradaveis que nascem em terrenos incultos e arenosos, e que, segundo a sua especie, tem diversas applicações e usos, serve de fazer das suas grossas raízes um bello carvão, de que usam os desenhadores e pintorcs para bosquejarem suas composições, e nas aulas do desenho do antigo e do natural para esboçarem os actos do modelo vivo.

VERDACHO, s. m. tinta verde, tirante a côr de canna. Filip. Nunes, Art. da pint., p. 57.

D'este verde mineral usavam os pintares no tempo de Cimabue e de Giotto, para pintarem a fresco; hoje apenas é usado para pintar a claro escuro.

VERDE, adj. dos 2 g., do lat. viridis, fr. vert, it. c hesp. verde, ing. green, côr binaria composta de quantidades iguaes de amarello e azul; (pint.) uma das sete côres primitivas do espectro solar. V. Côres.

Ha tambem diferentes côres verdes naturaes ou compostas, de que se faz uso na pintura; a saber :

Verde, verdete, ozydo verde de cobre (tres palavras que significam a mesma côr) que se emprega principalmente na pintura a oleo, e sendo misturada com o cremor de tartaro fórma-se o verde de agua, que serve para miniatura e illuminura de estampas, e para aguarellar desenhos e planos de architectura.

Verde bexiga, côr verde, que se emprega nas aguadas de desenho, e que é preparado com o succo das bagas do arbusto chamado nerprum; o nome provém-lhe de ser a massa ou pães d'esta côr guardados em bexigas de carneiro.

Verde iris ou gaio é um extracto do iris de Allemanha, flor que dá uma côr verde mimosa, que serve para as miniaturas.

Verde montanha, substancia mineral formada pela natureza nos subterraneos das minas de cobre; esta côr é variavel, e tem muita applicação na pintura a têmpera.

Verde antigo, marmore brecha composto de fragmentos angulosos, de calcareo branco venado e de serpentina. Foi este marmore conhecido pelos antigos, que o applicavam em seus monumentos: era extrahido da Macedonia e do Egypto; hoje é mais raro. Na famosa capella de S. João Baptista, collocada na egreja da misericordia de Lisboa, se admira este marmore precioso.

VERMELHÃO, s. m. augment. de vermelho, do lat. minium, fr. vermillon, gr. miltos, it. minio, hesp. bermellon, ing. vermilion, (pint.) minio, mineral de côr vermelha accesa, de que se serviam os antigos pintores, e de que falla Vitruvio; cinabrio composto dc enxofre e azougue, que se emprega tambem na pintura e em colorir as ceras. O vermelhão da China é especialmente estimado, porque é finíssimo e de um vermelho vivo e brilhante. Acha-se bom vermelhão na Allemanha, na Hollanda e no Levante. Usavam tambem os antigos do vermelhão para illuminar as letras ou caracteres traçados sobre oiro ou marmore.

VERMELHO, A, adj. deriv. de vermis, por ser a côr encarnada ou escarlate tirada dos insectos da gran. Côr vermelha composta, de que se usa na pintura; Lapis vermelho, pedra mineral que vem da Hollanda, de que se servem alguns artistas para desenhar. V. Lapis.

VERNIZ, s. m. do b. lat. vernix, fr. vernis, it. vernice, hesp. barniz, ing. varnish, (pint.) composição liquida, transparente e resinosa, que se applica com broxa sobre os corpos, principalmente sobre os quadros, para os preservar da humidade e do ar, tornando-os mais brilhantee c agradaveis.

Ha differentes especies de vernizes; a saber:

Verniz de espírito de vinho (alcool), verniz de essencia de terebinthina, verniz oleoso, chamado tambem verniz graxo ou verniz duro. O verniz de espirito não serve para a pintura a oleo; emprega-se pela maior parte em obras de esmalte, dissolvendo o copal no ether ordinario, e é tão seccativo, que ferve debaixo do pincel por effeito da rapida evaporação do ether. Emprega-se tambem sobre moveis, caixas, cartões, etc., dissolvendo no alcool, em banho maria, resinas, como o sandaraque, a almacega, a terebenthina, a gomma laca, etc., e podem misturar-se-lhes diferentes côres.

O verniz de essencia usa-se na pintura a oleo, mas em geral os vernizes oleosos são propensos a amarellecer. Ha um verniz da invençào de M. Scehnée, que reune todas as qualidades, diz M. Vasse, que se podem desejar: não tem côr, é diaphano, lustroso, inalteravel á humidade, impermeavel, duro e flexivel, póde lavar-se sem perder o brilho.

O verniz graxa ou duro é o menos seccativo e o menos solido; póde lavar-se sem algum inconveniente ou esfregal-o em secco. Usa-se d'elle nos portaes, janellas, carruagens, nos metaes, etc. Compoe-se este verniz do copal ou succino, de oleo de linho e de essencia de tcrebinthina.V. Traité theorique et pratique sur l'art de faire les vernies par M. Fripier Deveaux.

O verniz brando, de que usam os gravadores, compõe-se, segundo Abraham Bosse: 1.º, de cera virgem bem branca, 50 grammas; 2.º de almacegue ou mastique bem puro, 30 grammas; 3.º de asphalto ou betume de Judea, 15 grammas.

Ha tambem verniz duro, verniz de Florença, branco, branco de Rembrand, de Callot, inglez e outros. V. Gravura.

Francisco de Assis Rodrigues

Diccionario Technico e Historico de Pintura, Esculptura, Architectura e Gravura

Lisboa: Imprensa Nacional, 1875

Diccionario technico e historico

de pintura, esculptura, architectura e gravura

Francisco de Assis Rodrigues

AGUADA, s. f. do lat. aquata, fr. aiguade, (pint.) agua em que se desfaz tinta, que de ordinario é applicada sobre o papel; aguada de tinta de Nanquim ; aguada de carmim, etc.

AGUA-RAZ, s. f. (de agua, e do arab. hareq, (queimar) espirito, ou essencia de terebinthina, com que se prepara o verniz proprio para servir na pintura, e na tempera da cera para o exercicio da modelação.

AGUARELHA, s. f. (pint.) apparelho de cóla fraca com gesso, de que se usa para que a téla possa receber o desenho e côres que tem de se lhe applicar. «Com a cóla e gesso fazei uma lavadura ou aguarelha.» Filippe Nunes, Arte da pint., p. 52.

AGUARELLA, s. f. do fr. aquarelle, it. acquarella; (pint.) pintar ou a uma só côr, ou com varias côres misturadas com agua e gomma arabica, ou seja sobre téla, ou principalmente sobre marfim, pergaminho e papel.

ALVAIADE ou ALVAYADE, s. m. do art. arab. al, e de beyde, branquear, lat. cerussa, hesp. alvayalde, (chim.) oxydo branco do chumbo, dissolvido pelo acido acetoso. É absorvente, e serve para diversos usos na medicina: nas artes, porém, tem o seu uso principal. V. Branco – Cores.

AMARELLO, A, adj. do gr. amarasso, brilhar, lat. flavum, fr. jaune, it. giallo, hesp. amarillo, (pint.) uma das sete cores do prisma, que depois do branco reflecte mais luz: ha differentes especies de materias de que os pintores se servem para formar esta côr, taes são o ocre comum, -- a terra de Italia -- o ocre de Rut, os massicotes, -- o oiro pimenta, a goma-guta, a pedra de fel, -- o jalde de Napoles, etc.

O jalde de Napoles, terra ou mineral que se acha nos contornos de Napoles, emprega-se na pintura a oleo, na cera, e a tempera, tendo cuidado em não misturar ou moer com faca de ferro, mas sim de buxo ou marfim, porque o ferro dá-lhe um tom esverdinhado ou cinzento.

ANIL, s. m. do lat. indicum, indio, fr. e ing. indigo, massa que vem das Indias occidcntaes, c da America (pint.) é proveniente das folhas de uma planta chamada anil, que os indios semeiam, e colhem todos os annos: emprega-se na pintura, principalmente de tecidos, misturada com o branco, para formar uma côr azul, e usa-se d'elle sem mistura, nas aguadas que se dão nas coberturas de ardosia, e em tudo que é de ferro, e de chumbo.

AZINHAVRE, s. m. do arab. azzanjar, materia verde formada no cobre e bronze com a humidade. V. Verdete.

AZUL, s. m. do arab. zul; lazur, voz persica, cousa azul, lat. coeruleus, fr. bleu, it. turchino, ing. blue, uma das cores primitivas, similhante á côr do céu, ou da saphira. Esta côr doce e fugitiva faz-se com o azul ultramar ou lazulite, com indigo e outras composições, como o sal, a areia, o nitro, etc. Com este azul de ultramar se pintam ordinariamente os céus, as nuvens, o mar, etc. Ha diferentes especies de azul; a saber: azul de França, azul montanha, ou cinzas azuis, azul da Prussia, ou de Berlim, que tambem se emprega na pintura a oleo.

BETUME, s. m. do lat. bitumen, fr. bitume, ing. bitumen, exhalar cheiro; nome generico applicado a substancias combustíveis: umas são liquidas ou viscosas (naphtha), alcatrão; outras são solidas (asphaltus), betume; a côr é morena ou negra; no estado solido ou secco o betume é friavel, e electrisa-se pela fricção; como as resinas, derrete-se pelo calor e arde, espalhando fumo espesso e odorifero. Ha varias especies de betume; os principaes são: o asphalto, chamado betume glutinoso, a naphta, o petroleo ou oleo de pedra, etc. O betume, porém, de que se faz uso nas obras de architectura e esculptura é de duas sortes: o primeiro, composto de pez e de pó de pedra, serve para segurar e prender as pedras entre si, e para betumar e encher as juntas das mesmas pedras; o segundo, composto sómente de cêra e pó de pedra, é muito claro; porém menos forte e adherente que o do pez, que tem côr alourada: do de cêra se servem principalmente os esculptores para taparem e encherem algumas falhas ou cavidades que apparecem no marmore, e para unirem e segurarem pequenas partes, em que muitas vezes dividem as suas obras.

BISTRE, s. m. trigueiro, do lat. fuligo cocta et diluta, fr. bis, it. fulligine stemperata, nome proprio da ferrugem das chaminés infundida em agua filtrada, formando uma côr acastanhada clara, de que se servem os artistas para desenharem a aguarellas. Muitos desenhadores, architectos e pintores têem substituido pelo bistre a sepia e a tinta da China.

BRANCO, A, adj. do lat. alus, hesp. blanco, fr. blanc, it. bianco, ing. white, (pint.) aindaque os philosophos neguem que o branco seja côr, é certo que elle o é para os pintores, e a mais leve de todas as côres. Esta resulta da reunião das sete côres de que é composto um raio solar. V. Espectro solar. O branco significa a luz que illumina os objectos para serem bem vistos e apreciados. «A sombra do branco, diz Leonardo de Vinci, visto com o sol e a claridade do ar, tem uma côr que participa do azul, porque como o branco cm si não é côr, senão disposição para qualquer côr, segundo a preposição que diz «a superficie do qualquer corpo participa da côr do seu objecto», segue-se que aquella parte da superfície branca em não ferirem os raios do sol, participa a côr azul do ar, que é seu objecto. Ha differentes qualidades de branco; a saber: branco de prata, que é o mais superior que se usa na pintura, e é o oxydo de chumbo, preparado de modo que se torne o branco mais brilhante c ligeiro.

Branco de Hespanha, carbonato de cal, ou cré pulverisada, que se reduz a pães por meio da agua; usa-se como os lapis para riscar sobre quadros escuros, e serve tambem para a pintura a fresco.

Branco de Hamburgo, de Hollanda, de Veneza, de zinco, e outros, de que se faz uso na pintura a oleo. V. Alvayade.

BRANCO e PRETO ou NEGRO, (pint.) especie de pintura a fresco, de que se fazia uso antigamente para os ornamentos e grutescos. Consistia na preparação de um fundo negro feito de estuque, sobre o qual se applicava um emboço branco, que com a ponta de um ferro ía saíndo, deixando ver por baixo o negro que lhe servia de sombra, imitando uma estampa. D'esta sorte são feitos os frescos de Polydoro de Caravagio; mas hoje não se usa d'esta especie de pintura, por ser de um effeito duro e pouco agradavel, aindaque seguro e duradouro.

CARMESIM, s. m. do arab. carmesi, (pint.) côr encarnada muito viva. Toma-se tambem como adj., carmesinus, a, um.

CARMIM, s.m. do it. carminio, derivado do arabe kermes, fr. carmim, ing. carmine, (pint.) materia colorante de um vermelho brilhante: é substancia solida, pulverulenta, de um bello encarnado, que se obtem precipitando o cozimento de cochonilha com pedra hume. É côr preciosa para os pintores, assim como para o colorido de flores artificiaes. A laca carminada obtem-se misturando a pedra hume n'um cozimento do cochonilha alcalisada. A preparação do carmim foi descoberta em Piza por um monge franciscano.

CARVÃO, CARVÕES, s. m. do lat. carbonis, fr., ing. e it. carbone, madeira que tendo perdido por uma combustão incompleta as substancias volateis, se ha convertido em materia negra, susceptivel de reaccender-se; chama-se carvão vegetal ou animal, segundo é a origem de um ou de outro d'estes reinos.

O carvão de urze tem especial applicação no desenho. As obras desenhadas a carvão são hoje em dia muito estimadas; e é linguagem usada entre os artistas o dizer-se : Os carvões de fulano são bons, ou merecem estimação. V. Urze.

CAVALETE, s. m. do it. cavalletto, lat. canterius, fr. chevalet, ing. Shore, (pint., esculpt. e archit.) em geral é uma armação ordinariamente de madeira, que serve para sustentar qualquer cousa, e para facilitar o trabalho:

Cavallete de pintor é uma peça ligeira, feita de madeira, que tem 2m,30 de altura, pouco mais ou menos, composta de tres réguas grossas que lhe servem de pés, formando um angulo agudo, em cujo vertice gira um parafuso que os prende, comprehendendo a que lhe serve de escora ou rabo; as duas reguas da frente têem alguns furos ou buracos ao comprimento, em que se applicam cavilhas para sobre ellas descansarem os quadros.

Cavallete de esculptor é uma especie de banco de 1m,22 de alto, pouco mais ou menos, tambem composto de tres pés, em esquadria, seguros superiormente n'uma grossa tábua quadrada, de 0,55 centimetros de lado, tendo a meio um buraco redondo, sobre o qual gira um pau fixo, ou eixo n'outra tábua tambem quadrada, pouco maior que a primeira, sobre a qual colloca o esculptor o barro, gesso ou cêra em que trabalha,– os pés do eavallete são presos por travessas na parte inferior, e na parte immediatamente superior ao assento dos pés, em distancia de 0,22 centímetros, haa outra tábua, que os prende, a qual tem a meio uma cavidade em que recebe um pequeno balde, ou tijela para agua, necessaria ao exercicio da modelação.

Cavallete de andaime é uma peça com degraus, em que se atravessam tábuas, que servem para os artistas, pintores ou esculptores poderem trabalhar em logares elevados.

Chama-se tambem cavallete ás peças de madeira travadas entre si, sobre outras a prumo, para sustentar as vigas de um pavimento ou tecto.

CAVILHA, s.f. do lat. clavus, fr. cheville, it. cavicchia, ing. peg, (archit.) haste redonda ou conica de madeira ou ferro, da figura de um prego, com que se unem duas ou mais peças de madeira, como os barrotes, as vigas, etc.

CLARA D’OVO, s. do lat. ovi clarum, fr. aubin, ing. the white, (pint.) humor transparente, viscoso e adherente, que cerca a gemma do ovo, a que se dá o nome de albumina: --, é por si só um verniz muito forte, que os pintores de imagens algumas vezes applicam sobre suas obras, misturando-lhe tres partes de agua commum, para lhe moderar a força.

CLARO-ESCURO, s.m. do it. chiaro-scuro, fr. clair-obscur, chamam-se desenhos ou quadros de claro-escuro os que só constam de preto e branco; (des. e pint.) nas artes plasticas, e principalmente em desenho e pintura, dá-se este nome á imitação do effeito que produz a luz espalhando ou claros sobre as superficies que ella toca, e deixando em sombra aquellas que não chega a tocar. Rembrand sacrificou tudo em seus quadros á magia do claro-escuro; Corregio,Ticiano e Van-Dyck oferecem modelos acabados n'esta parte da arte.

O conhecimento das regras de physica, pelas quaes a luz, partindo de um fóco, cáe, espalha-se e reflecte sobre os corpos, constitue a sciencia do claro-escuro, que se comprehende na sciencia geral da optica.

O pintor dispondo os objectos de um quadro, para obter effeitos de luz e de sombra harmoniosos c agradaveis; o esculptor e o architecto dispondo as massas para conseguir os mesmos fins; cada um na sua especialidade deixa entender que o estudo do claro-escuro a todos é de summa importancia:

«Os quaes, depois apurando

Vão, até que resolvendo

Os apontados contornos,

O claro-escuro lhe expressão.» Vieira Lus., O Ins. pint, p. 226.

«E que cada objecto em particular conserve o verdadeiro caracter da sua natureza, dando-lhe um vulto apparente pela boa intelligencia do claro-escuro, e da união das cores.» Cyr., Conv., 2.ª, p. 5.

CLAROS, s. e adj. do lat. clarus, a, um, de kel, rad. do gr. kelios, o sol, e radio, ere, raiar, do gr. araioó, rarefazer, fr. jour, (des. e pint.) chamam-se em pintura claros ás partes mais esclarecidas e luminosas, que reflectem mais luz, e são compostas de cores mais brilhantes. V. Despertador.

COBALTO, s. m. do allem. kobalté, metal oxydavel, difficil de fundir-se, esbranquiçado, magnetico, e que se faz azul pela fusão com o vidro: --, serve para pintar de azul as porcelanas, o vidro, e tem outros usos nas artes.

COBRE, s. m. do lat. cuprum, gr. kypros e hyprion, metal da ilha de Chypre, mas que se encontra em todas as partes do mundo, (grav.) é avermelhado quando está puro, e pertence á secção dos metais ducteis e facilmente oxydaveis. D'elle usaram os antigos para fazerem utensilios, vasos, ornamentos e estatuas, e os modernos servem-se d'elle para os mesmos usos, e para fazerem chapas proprias para o estudo e exercicio da arte da gravura, e para a cunhagem da moeda, etc. V. Cunhos, Cunhar.

COCHONILHA, s. f. diminut. do lat. coccus, grã, gr. coccinos, de côr escarlate, fr. cochenille, it. cocciniglia, (h. n.) insecto pequeno que se cria na America n'um arbusto chamado figueira da terra, da qual se extrahe a tinta escarlate, o carmim, e a laque acarminada. «Huma migalha de preto e outra de Cochonilha.» Fil. Nun., Arte da pint., p. 79, v.

COLLA, s. f. do gr. kolla, lat. colla ou gluten, fr. colle, ing. glue, materia glutinosa, que serve para pegar, juntar e unir um ao outro o papel, a madeira, o panno, etc.

Usa-se da colla de Inglaterra, que é tida por melhor, para pintar a tempera.

COLLAMENTO, s. m. fr. encoller, dar uma demão de colla.

COLLAR, v. a. fr. maroufler, fazer uso da colla, unir ou pegar com colla: –, pintar a colla ou a tempera. V. Pintar.

COLORIDO, A. p. p. de colorir, e adj. tambem se toma como subs. em lugar, ou como synonymo de côr: – do lat. colorum ratio, fr. coloris, it. colorito, ing. colouring, (pint.) é uma parte da pintura, que comprehende o conhecimento de todas as cores naturaes e artificiaes, estas para empregar, aquellas para imitar: –, por meio d'este conhecimento, o pintor dá, aos objectos que quer representar as cores, as luzes e as sombras que lhe convem; e assim diz-se: um colorido vigoroso, brilhante, forte, precioso: um quadro bem ou mal colorido. V. Côres.

COPAL, e. m. do mexic. copaltê, nome generico das resinas, ggomma ou resina, que se tira de uma arvore de Ceylão, que tem uso nas artes para fazer verniz (verniz copal).

COR, s. f. contracção do lat. color, fr. couleur, ing. colour, it. colore, hesp. color, impressão que fazem sobre o orgão da vista os raios da luz reflectidos da superficie dos corpos; modificação dos raios da luz, que excita em nós as sensações, que nos fazem distinguir os objectos e chamar-lhes brancos, vermelhos, amarellos, etc. Chamam-se côres primitivas ás sete côres do espectro ou prisma solar: roxa, anilada, azul, verde, amarella, alaranjada, vermelha. Chamam-se-lhes tambem côres simples, porque d'ellas se podem conseguir differentes matizes, e infinitas gradações. Diz-se que duas côres são complementares uma da outra todas as vezes que ellas têem o branco por mistura. Chamam-se côres compostas as que são produzidas pela mistura de dois ou tres raios. Póde-se por meio da mistura e degradação das côres primitivas, obter uma infinidade de gradações e de tons. M. Chevreul formou cm 1861 um círculo chromatico, composto de 612 matizes com tres côres primitivas. Outros dizem, que se podem obter até 819 combinações. Quanto às côres variagadas, ou do iris, ellas devem essa propriedade á maneira por que as superficies recebem os raios luminosos, porque mudam ou variam de reflexo com a posição do objecto, e por conseguinte com o angulo segundo o qual esses raios vem a tocal-o.

CORES, s. f. do lat. colores, (pint.) dá-se em pintura este nome ás substancias colorantes, simples ou misturadas, de que se faz uso para colorir os objectos. Os pintores empregam cinco côres fundamentaes com as quaes se formam todas as outras e suas differentes gradaçõos e matizes, e são: o branco, o amarello, o vermelho, o azul c o preto. A escolha e preparação das drogas que entram na composição das côres é cousa de muita importancia, tanto para conseguir o bom effcito do quadro quando sáe das mãos do artista, como para evitar que elle se altere consideravelmente no tempo futuro; pelo que convem que haja a melhor escolha e discrição sobre este ponto de tanto interesse para o credito do artista.

Chamam-se côres transparentes aquellas que deixão ver a côr sobre a qual ellas se applicam para lhe dar a tinta que lhe é propria. Chamam-se côres locaes aquellas que imitam fielmente as côres dos objectos naturaes, e que servem para os distinguir e caracterisar. Dizem-se tambem côres tenras, amigas, ferozes, fundidas: o tom, a harmonia, a união, a amizade das côres. V. Colorido.

GESSO, s. m. do lat. gypsum, i, gr. gypsos, que se deriva de ge, terra, e epsô, cozer, fr. platre ou gypso, it. gesso, ing. parget stone, especie de rocha em que domina o sulphato do cal. Ha muitas qualidades de gesso. O mais importante e o mais estimado para a industria é o gesso grosseiro, que contém de 6 a 12 por cento de carbonato misturado com sulphato, e é ordinariamente conhecido com o nome de pedra de gesso. Quando se mistura com a colla de pelle, o gesso se reduz a pó e forma uma massa, que se chama estuque. O gesso chamado plastico, porque serve para modelar, obtem-se do sulphato de cal calcinado em fórma de pó branco, peneirado, e misturando-o com agua serve para fazer fôrmas, moldar figuras ou vasa-las nas fôrmas, ou para outros objectos de arte. Misturado com a colla forte constitue o estuque que recebe o polimento e lustro do marmore.

GESSOS, s. m. pl. em linguagem d'artc entende-se pelo termo de gessos os modelos genuinos das bellas estatuas, baixos relevos e outras obras antigas, formadas ou moldadas sobre os originaes, e vasados em gesso n'essas matrizes por habeis formadores, que pela sus exactidão se podem reputar as proprias obras originaes executadas por seus auctores. N'cste sentido se diz o gesso de uma estatua, de um busto, de um baixo relevo antigo. Os gessos do Apollo de Belvedere, do Laocoonte, da Venus, etc., para exprimir a sua authenticidade.

Ainda ha um seculo eram raros os modelos em gesso do antigo, porém, n'estcs ultimos tempos se tem propagado de tal sorte os modelos classicos, que não só as academias, mas ainda artistas e pessoas curiosas têem obtido boas collecçoes de gessos para seu particular estudo. É indubitavel que o estudo dos bellos gessos antigos forma uma parte essencial do ensino do desenho em todas as academias, e que é por elle e n'elle que o estudante deve aprender a conhecer e a imitar as bellas fórmas, as fórmas ideaes do antigo, para depois passar a estudar o modelo vivo. V. Antigo.

«Preparou-se tambem uma sala para n'ella se desenharem gessos e estampas de figura e ornato». Cyr. Mem., p. 27.

«De André Gonçalves com Manuel Dias, póde fazer-se um imparcial parallelo: se aquelle soube muito bem aproveitar-se das estampas, este não foi menos habil cm desfructar os gessos». Mach. de Castro, Descripç. anal., p. 293.

GIS ou GIZ, s. m. do fr. ant. giz, allem. schieffer, fr. m. craie, lat. e it. creta, ing. chalk, ardosia, schisto, greda branca ou schisto macio, de que se servem alguns artifices, principalmente alfaiates para dar traços sobre o panno; de que ás vezes tambem se servem os artistas para delinear ou traçar as suas composições em ponto grande. Os gravadores em madeira tambem o utilisam.

LACRA, s. f. V. Lacca ou Lacêa, «Lacra de que se fazem os escuros dos cambiantes.» Filip. Nun., Art. de pint., p. 59.

LACRE, s. m. da mesma origem que laca, composição de gomma-laca, terebinthina, vermelhão e outros ingredientes, para servir de lacrar cartas, e de imprimir n'elle sinetes, sellos e outras obras de gravura de cunhos.

NEGRO, s. m. do lat. nigrum, fr. noir, it. nero, ing. black, (pint. E grav.) o negro é a privação da luz ou de todas as côres, e não contendo raio algum luminoso absorve por isso a todos. Em termo de arte entende-se pelas côres tão escuras e exageradas, que tornam negro um quadro ou parte d'elle. Toma-se tambem como adjectivo, dizendo que um quadro tem um tom negro, ou por defeito do artista, ou pela ruim qualidade das tintas que o têem enegrecido.

Ha varias qualidades de negro; a saber: negro de marfim, que é um dos melhores, negro de fumo, negro de Hespanha, negro de Allemanha, negro de carvão, etc.

Tambem se applica á gravura, dizendo gravura de maneira negra, estampa muito negra, ou por defeito do gravador ou por descuido do impressor.

OCRE ou OCHRE, s. m. do gr. okhros, amarello, (pint.) barro ou substancia argillosa que por effeito do oxydo de ferro apresenta varias côres, principalmente o amarello claro e escuro, de que se faz uso na pintura. F. Nunes, Arte da pint., p. 63.

OLEO, s. m. do lat. oleum, deriv. de olea, oliveira, gr. elaia, licor grosso, unctuoso, inflammavel, que se extrahe de fructas e de outras substancias, e por isso ha differentes qualidades de oleos, segundo as substancias de que são extrahidos; os principaes são: oleo de amendoas, oleo de linho, oleo de nozes, etc.

OURO ou OIRO, s. m. do lat. aurum, fr. e ing. or, it. e hesp. oro, metal amarello o mais ductil, brilhante e precioso de todos os metaes, que, por meio de differentes ligas e preparações, serve para executar, enriquecer e decorar muitas obras d'arte.

D'aqui as suas diversas denominações:

Ouro mate é o que posto em obra, não tem a superficie liza, nem polida.

Ouro brunido é o ouro polido e brilhante, para fazer sobresaír as carnes, os pannejanmentos e os ornatos do seu fundo.

Ouro esculpido é o que se grava com ornamentos obre fundo branco.

Ouro de concha, são folhas de ouro moidas com mel, e dissolvidas em agua de gomma para uso dos pintores e illuminadores.

Ouro de mosaico é o deuto-sulphureto de estanho, que se applica nas decorações.

Ouro a oleo é o que se applica sobre um fundo de côr de ouro, e serve nas obras expostas ao ar.

OURO-PIMENTA, s. m. do lat. auri pigmentum, fr. orpiment, côr de ouro, mineral pesado, lustroso, composto de arsenico e de enxofre, e por isso muito venenoso. Ha-o de differentes especies, a saber: amarello, dito dourado, dito escuro, arroxado, vermelho e esverdeado.

PAINEL, s. m. do lat. tela ou tabula picta, fr. ant. panel ou tableau, it. tavola, hesp. quadro, ing. a picture, (pint., archi. e esculp.) em pintura significa:

1.º Qualquer sujeito ou assumpto pintado a oleo,a tempera ou a fresco sobre panno, madeira, gesso, cobre, etc., ou seja, em grande ou pequeno espaço, postoque pareça mais proprio chamar aos pequenos quadros e não paineis: e assim dizemos, classificando as suas differentes especies, painel de historia, de paizagem, de genero, de animaes, de fructos, de flores, etc.;

2.º Em architectura dá-se o nome de painel ás almofadas (panneau), que se fazem sobre as vergas das janellas e das portas;

3.º Em esculptura dá-se algumas vezes este nome aos baixos reelvos, que ornam os monumentos, e ás mesmas almofadas ou partes emolduradas das grandes salas.

«Deve-se tambem advertir, que estes relevados paineis de esculptura são de tres especies.» Mach. De C., Descrip. analy., 199. V. Baixo relevo.

PALETA ou PALHETA, s. f. do lat. palmula, dimin. de pala, pá, fr. palette, it. paletta, hesp. palete, ing. a painter's-palette, pequena pá, (pint.) de um e outro modo se acha este nome escripto nos diccionaristas portuguezes e nos escriptores artistas que escreveram de bellas artes; alem de outras significações, toma-se este nome em particular por uma pequena tábua delgada de fórma oval ou elliptica, feita de madeira de nogueira ou pereira, com uma abertura para enfiar o pollegar da mão esquerda, sobre a qual tábua os pintores dispõem as tintas, e as combinam para pintareem.

«Salvo os azues (tintas, que na palleta com o oleo se concertam, Filip. Nery, Art. da pint., p. 51,54 e 97.

Que quando heroica exercita

Pinceis, côres e palheta. Vieir. Lus., O inst. pint., p. 596.

PAPEL, s. m. do lat. e gr. papyrus, planta do baixo Egypto, cuja entre-casca ou pellicula servia aos antigos para escrever e para outros usos, em fr. papier, it. carta, hesp. papel, ing. paper: --, o papel fabrica-se de trapos de algodão, ou de linho, ou de canamo, etc., e este é o melhor papel, de que ha differentes especies e qualidades, segundo os fins a que se applica; a saber: papel para impressão, -- para escrever, -- para desenhar, papel de cartuxo, papel vegetal, etc. O papel para desenhar póde ser branco ou de meia tinta, i. É, ligeiramente coloreado; o primeiro serve ordinariamente para desenhar a lapis, a esfuminho e a aguarellas; o segundo para desenhar do antigo e do natural; o de cartuxo para fazer desenhos-mestres (épures), ou sejam de architectura ou ornatos, ou para desenhar cartões de quadros, que decoram os templos e as salas dos grandes edificios. V. Cartões.

PINCEL, s. m. do lat. penicillus, fr. pinceau, it. penello, hesp. pincel, ing. a pencil, (pint.), mólho de cabellos ou pello de cabrito, de gris, ou de outros animaes, atado ou preso a um cabo de madeira ou cano de penna, para applicar as tintas em quadros.

Não só os pintores usam de pinceis, os escultptores e os architectos tambem os empregam, estes para as aguarellas dos seus desenhos, e aquelles para alisar e empastar o barro dos seus modelos.

Os gravadores tambem usam de uma especie de pincel para tirar as rasuras de verniz da chapa, quando gravam a pontilhé.

Este termo se emprega em sentido figurado, para designar o estylo ou maneira de pintar, e assim diz-se pincel firme, vigoroso, ligeiro, franco, meduloso, etc. V. Brocha.

PINHO, s. m. do lat. pinus ou abies, fr. sapin, it. abete, hesp. abeto, ing. fir-tree, (archit.) arvore, cujo tronco é ordinariamente direito, nasce em terras fortes e é de grande uso e utilidade para obras de construcção. Ha pinho de fóra e pinho da terra. O pinho dos paizes do norte da Europa cresce nas grandes montanhas, e é muito estimado, principalmente o chamado de Flandres; o pinho da terra é mais ordinario e não tem a duração do bom pinho estrangeiro.

PINTOR, s. m. do lat. pictor, it. pittore, fr. peintre, hesp. pintor, ing. painter, (pint.) artista que representa os objectos naturaes ou artificiaes por meio de côres em qualquer superficie.

O que se applica e professa esta bella arte dev nascer para ella, e para lograr o seu fim, e chegar a adquirir um bom nome, precisa entregar-se a um estudo continuado, não só do colorido, mas de todas as partes da arte, e das sciencias subsidiarias. O pintor deve ser habil desenhador, e para este fim deve applicar-se constantemente ao estudo do antigo e da natureza em todas as suas especies e relações. Deve conhecre a architectura, a optica, a perspectiva linera, e deve praticar a esculptura, saber a historia, a esthetica, e ter um distincto conhecimento das diferentes ecolas de pintura, não ignorando os principaes ramos das sciencias naturaes e pilosophicas.

PINTURA, s. f. do lat. pictura, fr. peinture, it. pittura, hesp. pintura, ing. picture, (pint.) arte de representar em qualquer superficie os objectos naturaes ou artificiaes. A pintura por meio do desenho e das côres, forma, não só uma das artes liberaes, mas auxilia grandemente as decorações dos edificios. Divide-se, segundo os seus differentes processos, em pintura a óleo, a fresco, a tempera, em mosaico, em miniatura, a encaustica, a pastel, a aguarella, a guache, em camafeu: e póde-see applicar-se a pintura sobre madcira, sobre panno, sobre esmalte. sobre marfim, sobre vidro, sobre porcellana, etc.

A pintura divide-se ainda em varios generos, a, saber : Pintura de historia, – de genero, – de retratos e de paizagem, – de marinlas, – de batalhas, – de animaes, flores, productos naturaes, etc.

Os auctores que têem dado o nome de escollas aos modos ou diversos estylos de pintar, rcconhecem as escollas seguintes : florentina, romana, veneziana, lombarda, bolonheza, franceza, hespanhola, flamenga, hollandeza, ingleza, etc.

A origem da pintura é muito incerta, e o que se póde affirmar com certeza é que ella é antiquissima, como se prova pelos hieroglyphicos dos egypcios c pelos symbolos dos persas, indios, etruscos, phenicios e outros povos; mas foi só entro os gregos que a arte achou o seu nascimento real e positivo, como o demonstram os obras immortaes de Parrasio, Protógenes, Nicias, Apelles, Pamphilo e outros, obras que infelizmente não chegaram até nós, mas que não podemos deixar de admirar pelo testemunho dos escriptores contemporaneos, e pelo parallelo que devemos fazer das obras primas de esculptura d'essas felizcs epochas, que temos o gosto de possuir; taes como o Apollo, a Niobe, o Laocoonte c outras. Os romanos, postoque não possam comparar-se com os gregos nos progressos da pintura, podem lisonjear-se de possuir um Fabio Pictor, Turpelin e outros.

A pintura, como todas as bellas artes, soffreu os enfeitos d'esse geral cataclysmo, causado pelos bárbaros do norte, conservando-se apenas entre os primeiros christãos, d'onde tomou o caracter religioso, que geralmente dominou na edade media. A arte começo o seu renascimento no fim do seculo XII e no XIII pelas diligencias de Cimabue, Giotto, Giovani de Fibole, Masacio, que fundarama escola de Sena e de Florença, e pelos estudos e esforços de seus successores chegou á maior perfeição no seculo XV, em que floresceram Leonardo de Vinci, Miguel Angelo, e Raphael, Guido, Ticiano, André del Sarto e outros. D'este geral movimento participaram diferentes paizes como as escolas allemã, flamenga e hollandeza, illustradas por Alberto Durer, Rubens, Van Dyck, Rembrand e outros. As escolas hespanhola, cujo principal cabeça é Murillo, a ingleza representada por West e Reinolds, a franceza, que reconhece por fundadores Ambroise Dubois e J. Cousin, a que succederam Vovêt, Nicolau Poussin, Le Seur, Lebrun e outros.

Tambem em Portugal se rescntiram seus effeitos nos reinados de D. Affonso V, D. Manuel e D. João III, e onde são bem conhecidos os nomes de Nuno Gonçalves, João Annes, Braz do Avellar, a que succederam Antonio Campelo, Gaspar Dias, Grão Vasco e outros.

Os melhores auctores que escreveram sobre a pintura entre os antigos, são Junius, de Pictura Veterum, 1694, Durand, Histoire de la peinture ancienne, 1725; Leonardo de Vinci, Chambrai, De Piles e Coypel. Montabert escreveu modernamente o seu Traité complet de la peinture, 1825. Du Fresnoy compoz um poema latino sobe a pintura, e de Marsy compoz outro: Lanzi escreveu Storia pittorica d'Italia, e entre os modernos M. Ch. Blanc escreveu L'histoire des peintres. Podem tambem consultar-se os manuaes sobre os differentes processos da pintura, que formam parte da collecção Roret.

TÉLA, s. f. do lat. tela, it. e hesp. fr. toile, ing. cloth, teia, tecido de lã, linho, seda, oiro, etc., (pint.) os pintores antigos pintavam sobre madeira e cobre antes da invenção de pintar em téla, o que teve logar quando se usou ou descobriu o modo de pintar a oleo.

TÊMPERA (pintura a), é a que se executa com as côres desfeitas a agua, a colla, a gomma, a clara de ovo, sem oleo nem resina, e que se emprega nas pinturas das grandes abobadas e tectos, e nas decorações dos theatros. V. Pintura.

TEREBENTHINA, s. f. do lat. e gr. terebinthos, resina de terebintho, que tem a consistencia do mel, e se extrahe de muitos vegetaes, como do pinheiro, abeto cypreste, etc., que depois de purificado serve não só para uso da medicina, mas tambem para preparação de vernizes, e tem outras applicações nas bellas artes e nas artes fabris.

TERRA, s. f. do lat. e it. terra, fr. terre, hesp. tierra, ing. earth, (t. comp.) planeta que habitâmos, e um dos quatro elementos que compõem o globo, e omais pesado de todos.

Em relação á architectura:

Terra natural é a que não foi cavada nem lcvantada, e por isso tem o nome de terra nova.

Terra movediça a que tem sido transferida de um logar para terraplanar ou igualar outro logar ou terreno.

Terra firme ou maciça a que é tida como solida, sem vácuo, que se póde medir, e é talvez propria para n'ella se levantar edificios.

Terra de entulho é a terra solta, que tem sido cavada e remexida.

Em relação á pintura:

As tcrras coloradas, finas e massiças, corno os ocres são empregadas na pintura, quando a, sua côr é solida, a saber :

Terra de Colonia, especie de terra do sombra, um pouco mais doce, ligeira e transparente.

Terra de Italia, terra de côr que se assimilha á do ocre de ruth, mais viva e ligeira.

Terra verde de Verona, especie de pedra dura de que, depois de pisada e moida, usam os pintores de paizagens.

Terra, verde commum, é mais inferior que a de Verona, e hoje pouco usada.

Em relação á esculptura:

Terra de mica é a que se pega aos dedos, nem é arenosa.

Terra gredosa, a que tem muita greda.

Terra pastosa ou barro, a que tem mica e suavidade, e por isso propria para modelar.

ULTRAMARINO, A, adj. do ultramar, (pint.) azul ultramarino, feito do lapis-lazuli.

«Dura mais que todas as mais côres. Como este azul é muito caro, não se usa muito... Quem o quizer usar ha de lavrar primeiro as roupas ou o que quizer, com azues de Castella, cinzas, e depois de enxuto ha de lavrar por cima o ultramarino, que, como é muito delgado, se se usa só, não cobre bem, porque não tem corpo.» Filipp. Nunes, Arte de pint., p. 59.

URZE, s. m. do lat. erica, gr. bryon, musgo, typo da familia das ericineas, que tem mais de quatrocentas especies, quasi todas originarias de Africa, posto que algum haja na Europa e na Asia. São arbustos agradaveis que nascem em terrenos incultos e arenosos, e que, segundo a sua especie, tem diversas applicações e usos, serve de fazer das suas grossas raízes um bello carvão, de que usam os desenhadores e pintorcs para bosquejarem suas composições, e nas aulas do desenho do antigo e do natural para esboçarem os actos do modelo vivo.

VERDACHO, s. m. tinta verde, tirante a côr de canna. Filip. Nunes, Art. da pint., p. 57.

D'este verde mineral usavam os pintares no tempo de Cimabue e de Giotto, para pintarem a fresco; hoje apenas é usado para pintar a claro escuro.

VERDE, adj. dos 2 g., do lat. viridis, fr. vert, it. c hesp. verde, ing. green, côr binaria composta de quantidades iguaes de amarello e azul; (pint.) uma das sete côres primitivas do espectro solar. V. Côres.

Ha tambem diferentes côres verdes naturaes ou compostas, de que se faz uso na pintura; a saber :

Verde, verdete, ozydo verde de cobre (tres palavras que significam a mesma côr) que se emprega principalmente na pintura a oleo, e sendo misturada com o cremor de tartaro fórma-se o verde de agua, que serve para miniatura e illuminura de estampas, e para aguarellar desenhos e planos de architectura.

Verde bexiga, côr verde, que se emprega nas aguadas de desenho, e que é preparado com o succo das bagas do arbusto chamado nerprum; o nome provém-lhe de ser a massa ou pães d'esta côr guardados em bexigas de carneiro.

Verde iris ou gaio é um extracto do iris de Allemanha, flor que dá uma côr verde mimosa, que serve para as miniaturas.

Verde montanha, substancia mineral formada pela natureza nos subterraneos das minas de cobre; esta côr é variavel, e tem muita applicação na pintura a têmpera.

Verde antigo, marmore brecha composto de fragmentos angulosos, de calcareo branco venado e de serpentina. Foi este marmore conhecido pelos antigos, que o applicavam em seus monumentos: era extrahido da Macedonia e do Egypto; hoje é mais raro. Na famosa capella de S. João Baptista, collocada na egreja da misericordia de Lisboa, se admira este marmore precioso.

VERMELHÃO, s. m. augment. de vermelho, do lat. minium, fr. vermillon, gr. miltos, it. minio, hesp. bermellon, ing. vermilion, (pint.) minio, mineral de côr vermelha accesa, de que se serviam os antigos pintores, e de que falla Vitruvio; cinabrio composto dc enxofre e azougue, que se emprega tambem na pintura e em colorir as ceras. O vermelhão da China é especialmente estimado, porque é finíssimo e de um vermelho vivo e brilhante. Acha-se bom vermelhão na Allemanha, na Hollanda e no Levante. Usavam tambem os antigos do vermelhão para illuminar as letras ou caracteres traçados sobre oiro ou marmore.

VERMELHO, A, adj. deriv. de vermis, por ser a côr encarnada ou escarlate tirada dos insectos da gran. Côr vermelha composta, de que se usa na pintura; Lapis vermelho, pedra mineral que vem da Hollanda, de que se servem alguns artistas para desenhar. V. Lapis.

VERNIZ, s. m. do b. lat. vernix, fr. vernis, it. vernice, hesp. barniz, ing. varnish, (pint.) composição liquida, transparente e resinosa, que se applica com broxa sobre os corpos, principalmente sobre os quadros, para os preservar da humidade e do ar, tornando-os mais brilhantee c agradaveis.

Ha differentes especies de vernizes; a saber:

Verniz de espírito de vinho (alcool), verniz de essencia de terebinthina, verniz oleoso, chamado tambem verniz graxo ou verniz duro. O verniz de espirito não serve para a pintura a oleo; emprega-se pela maior parte em obras de esmalte, dissolvendo o copal no ether ordinario, e é tão seccativo, que ferve debaixo do pincel por effeito da rapida evaporação do ether. Emprega-se tambem sobre moveis, caixas, cartões, etc., dissolvendo no alcool, em banho maria, resinas, como o sandaraque, a almacega, a terebenthina, a gomma laca, etc., e podem misturar-se-lhes diferentes côres.

O verniz de essencia usa-se na pintura a oleo, mas em geral os vernizes oleosos são propensos a amarellecer. Ha um verniz da invençào de M. Scehnée, que reune todas as qualidades, diz M. Vasse, que se podem desejar: não tem côr, é diaphano, lustroso, inalteravel á humidade, impermeavel, duro e flexivel, póde lavar-se sem perder o brilho.

O verniz graxa ou duro é o menos seccativo e o menos solido; póde lavar-se sem algum inconveniente ou esfregal-o em secco. Usa-se d'elle nos portaes, janellas, carruagens, nos metaes, etc. Compoe-se este verniz do copal ou succino, de oleo de linho e de essencia de tcrebinthina.V. Traité theorique et pratique sur l'art de faire les vernies par M. Fripier Deveaux.

O verniz brando, de que usam os gravadores, compõe-se, segundo Abraham Bosse: 1.º, de cera virgem bem branca, 50 grammas; 2.º de almacegue ou mastique bem puro, 30 grammas; 3.º de asphalto ou betume de Judea, 15 grammas.

Ha tambem verniz duro, verniz de Florença, branco, branco de Rembrand, de Callot, inglez e outros. V. Gravura.

Francisco de Assis Rodrigues

Diccionario Technico e Historico de Pintura, Esculptura, Architectura e Gravura

Lisboa: Imprensa Nacional, 1875

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