22/12/2001
OPINIÃO
Descalços no vazio
«A extraordinária sensação de vazio político e ideológico que, como tantos outros, eu próprio pude testemunhar nesse lamentável espectáculo encenado no Pavilhão Atlântico, em Maio passado, prenunciava o descalabro de um aparelho político sem ideias e de um Governo sem fôlego. A auto-satisfação, o conformismo, a displicência, a arrogância, a subserviência e a total ausência de debate político interno foram as pedras de toque de um congresso monótono e monocórdico, que constituiu um inequívoco sinal da perda de contacto com a realidade do país.» EM 1995, quando o professor Cavaco Silva desvendou finalmente o mistério do seu «tabu» de estimação, a poucos meses das eleições legislativas, deixando o PSD praticamente descalço e à beira de um ataque de nervos, nem os seus apoiantes, nem os seus adversários, nem os comentadores políticos foram meigos com o primeiro-ministro que já governava o país havia dez anos, abstendo-se de qualificar tal atitude como um acto de especial dignidade, lucidez ou coragem. Talvez por isso, o professor Cavaco Silva meteu-se em brios e decidiu candidatar-se à Presidência da República, porventura convencido de que já partia derrotado e só se apercebendo, tarde e a más horas, de que até podia ter vencido. Sou insuspeito e até votei, dessa vez, no doutor Jorge Sampaio, mas é assim que ainda hoje julgo os factos Seis anos depois, assisti, desolado, à fatal derrota do PS nas eleições autárquicas do passado domingo. Mas ainda houve um momento em que, no negrume da noite, alimentei ingenuamente uma ténue ilusão. Quando o engenheiro António Guterres anunciou ao país a decisão de se demitir do cargo de primeiro-ministro, ainda julguei que ele o fazia com o intuito de antecipar eleições e de as disputar à frente do PS. Puro engano. O engenheiro Guterres também está farto — como estava o professor Cavaco — e deixa o PS tão descalço, em 2001, como o PSD ficou, em 1995. Só que, desta vez, as eleições presidenciais já foram no ano passado e o engenheiro Guterres prefere repousar e ficar a falar com os seus botões durante três longos e confortáveis anos de espera. No entanto, todos enaltecem a coragem, a lucidez e a dignidade de uma decisão que deixa o PS completamente de rastos e entregue à sua sorte, porventura só com dois ou três escassos meses para tentar calçar o que houver em saldos: sapatos, botas ou chinelos. O velho lema do PS — «só é vencido quem desiste de lutar» — foi ignorado. Perante o risco de derrota, o engenheiro Guterres preferiu desistir. Dito isto, é forçoso reconhecer que os resultados das eleições autárquicas de 16 de Dezembro foram letais para o Governo. Acabaram mesmo por se transformar no capítulo final da crónica de uma morte política anunciada, em surdina, no XII Congresso Nacional do PS, há cerca de seis meses. A extraordinária sensação de vazio político e ideológico que, como tantos outros, eu próprio pude testemunhar nesse lamentável espectáculo encenado no Pavilhão Atlântico, em Maio passado, prenunciava o descalabro de um aparelho político sem ideias e de um Governo sem fôlego. A auto-satisfação, o conformismo, a displicência, a arrogância, a subserviência e a total ausência de debate político interno foram as pedras de toque de um congresso monótono e monocórdico, que constituiu um inequívoco sinal da perda de contacto com a realidade do país. Nem o bom senso, nem o sentido da medida, nem a prudência mais elementar impediram, então, a doutora Edite Estrela de afirmar que «os autarcas do PS têm sido os melhores autarcas de Portugal» e de proclamar solenemente: «Nós sabemos fazer melhor do que ninguém. Somos gente que faz e faz bem». Viu-se. Mas é caso para perguntar quantos autarcas excelentes foram vítimas de tão cega arrogância. Claro que o mal já vinha de longe. O catálogo de maus exemplos é impressionante. A ambiguidade do PS em relação ao referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez revelou tibieza política e temor reverencial perante o secretário-geral. A pusilanimidade do PS em relação ao referendo sobre a regionalização, balançando entre a agressividade brutal e a indiferença absoluta, revelou falta de coragem e, sobretudo, incompetência política para pôr em prática um programa alternativo e consistente de descentralização, desconcentração e modernização administrativas. As reformas feitas de afogadilho, tímidas e aos solavancos, como no caso do arremedo de reforma fiscal, revelaram impreparação, precipitação e falta de convicção para sustentar opções claras e decisões firmes. A insistência na aprovação de Orçamentos do Estado pescando à linha um deputado dissidente, demagogo e populista — e confundindo interesses locais com interesses nacionais —, pôs a nu o oportunismo político do Governo e o medo de perder o poder se confrontasse os partidos da oposição com as suas responsabilidades políticas. O episódio relativo à taxa de alcoolemia foi apenas a gota de vinho que fez transbordar a taça da embriaguez do poder. O rotativismo é nisto que dá: numa alternância sem alternativas, em que o pragmatismo sem princípios, sem rumo e sem programa alimenta o vazio ideológico e político de uma ilusória bipolarização ao centro. E-mail: alfbarroso@netcabo.pt
COMENTÁRIOS
4 comentários 1 a 4
23 de Dezembro de 2001 às 23:48
ramos18 ( jrcontreiras@netcabo.pt )
Concordo com o articulista: a indecisão em assuntos tão importantes como a Regionalização,a Lei do Aborto,o excesso de autoconfiança,(bem expressos nessa vedeta mediática do PS Edite Estrela) e noutros, ajudaram ao descalabro completo do
Governo. E a lei dos 02% foi a "taça de vinho" que se partiu e cortou as hipóteses ao Governo de governar com ministros tão incapazes e com um Primeiro Ministro incapaz de se impôr.Foi bom para a Democracia e para o PS.
O PS necessitava de mudar porque tem muitos elementos com valor.
23 de Dezembro de 2001 às 20:22
Kostas Kalimera ( kkalimera@hotmail.com )
É algo surreal que homens adultos e vacinados se deixem assim depender de um único homem, o chefe, que tudo pode e manda, enquanto garantir as prebendas para os seus sequazes.
O que mostra que há políticos que constantemente enchem a boca com a palavra democracia mas que não a vivem nem a praticam na sua casa (partido).
Ao contrário de muitos não penso que a governação de Guterres e do PS tenha sido o fracasso que se apregoa.
Guterres e o PS tiveram pleno êxito ma missão a que se propuseram.
Tendo sido em 1995 depositários do gigantesco descontentamento (para cuja génese tão pouco ou nada contribuiram, antes pelo contrário)e do enorme potencial de mudança que trespassava a sociedade portuguesa, Guterres e o PS propuseram-se como objectivo real da sua acção defraudar essas legitimas esperanças de mudança e garantir aos senhores do dinheiro, a banca parasita e os grandes especuladores bolsistas, que os seus interesses egoistas continuavam tão bem salvaguardados como tinham sido durante os dez anos de governação cavaquista do PSD.
E conseguiram-no totalmente. Hoje, esses interesses parasitários estão mais protegidos do que nunca, vidé o que se passou com a reforma fiscal por exemplo e, para além disso, é muito mais dificil a democratização e modernização da sociedade portuguesa: veja-se a situação em que se encontra a regionalização ou a despenalização da IVG, ou ainda essa vergonha que é o julgamentodas 17 mulheres a decorrer na Maia.
Os senhores do capital, que tão bem Guterres e o PS serviram, estão plenamente satisfeitos, embora possam não o declarar publicamente.
Quanto ao povo português, a história é outra, como se viu.
Agora, que vêm aí as legislativas o que vai acontecer? O povo português não está condenado ao rotativismo castrador entre laranjas azêdas e rosas estragadas, que já demonstraram o que são, embora agora voltem de novo à carga com a velha rábula de que agora é que é, agora é que vão resolver tudo, em que alguns ainda acreditarão até porque é secundada e ampliada pela bateria de comentadores da comunicação social que, sempre os mesmos, sempre ao serviço dos poderosos permanecem inamovíveis aconteçam as mudanças que acontecerem.
A democracia ainda não chegou ao 4.º poder, que permanece ferreamente nas mãos de alguns poucos e ai dos jornalistas que se atreverem a "estorvar" os proprietários dos OCS.
O povo português, todos os homens e mulheres de esquerda, as pessoas de sentimentos progressistas têm outras alternativas: têm outros homens e mulheres de competência inquestionável, com provas dadas, sempre dedicados aos interesses do nosso povo, sempre presentes nos momentos difíceis e que merecem que lhes seja dada uma oportunidade.
Bem sei que sobre estes homens e mulheres há ainda muitos preconceitos. A questão é saber se mesmo agora, após a amarga experiência destes 16 anos, esses preconceitos continuarão a falar mais alto para muitos...
23 de Dezembro de 2001 às 02:53
Point
Vassouradas e carros-vassoura
Por Draga-Minas , 21/12/2001
http://www.finbolsa.com/anaart.asp?aut=2&nome=anaaaahn&orig=hpaut&tit=hp&s=3
Dois modelos políticos levaram do povo português duas imponentes vassouradas, para usar a metáfora com que Cavaco Silva brindou o recente descalabro do PS, talvez ainda lembrado do rótulo cruel que Manuel Maria Carrilho há seis anos aplicara a Fernando Nogueira: o de "carro-vassoura do cavaquismo".
O primeiro foi precisamente o cavaquismo. Um modelo autoritário e pseudo-austero, em que os superiores hierárquicos assumiam com um sorriso aberto e compincha o seu poder discricionário. Era gente dinâmica, que fazia algumas coisas andarem para a frente e se aproveitava sem papas na língua do salazarento medo do chefe que reinava para pintar tudo de cor-de-laranja e de uma não menos salazarenta ordem despótica, sempre num (saudoso, verdadeiramente saudoso) clima de brincadeira e optimismo suspeito.
O modelo cavaquista primeiro oprimia e depois começou a enjoar. Foi quando começou a enjoar que as pessoas perceberam que podiam derrubá-lo. E a vassourada veio no fim de 1995, ao som também enjoativo de Vangelis. O carro-vassoura do cavaquismo foi Fernando Nogueira. Tinha que ser uma boa pessoa.
O segundo modelo a levar a vassourada foi o guterrismo. Um modelo dialogante e fraterno, apaixonado pelas pessoas certas (a educação e a ciência), mas sem argumentos para as seduzir. Um modelo que nos levou a crer que tínhamos chegado a um país normal e democrático. Mas um modelo cuja cor, o rosa, não consegui tingir a realidade social. O diálogo, as falinhas, as promessas, e a Expo 98, tudo cor-de-rosa, tudo abstracto e simbólico, redundaram numa completa incapacidade de intervir na realidade, de a controlar e mudar. O laxismo instalou-se irrevogavelmente e só ficou a cor, o cor-de-rosa, de costas voltadas para o negro da realidade: os fracos cada vez mais fracos, os fortes cada vez mais fortes, a hierarquias cada vez mais rígidas, a administração pública mais cor-de-rosa do que antes fôra laranja, as injustiças cada vez maiores, a produção cada vez menor e Portugal cada vez mais espanhol.
A vassourada chegou há dias e, ao contrário daquela que varreu o cavaquismo, chegou duma forma totalmente inesperada. Guterres saiu sem o vergonhoso e célebre tabú de Cavaco Silva, sintoma do seu amor ao poder. O guterrismo saiu com elevação. Quem será o seu carro-vassoura? Seguramente, uma boa pessoa.
Agora é precisa uma terceira via portuguesa, que miraculosa ou engenhosamente concilie as virtudes do cavaquismo e do guterrismo e suprima os defeitos de ambos.
22 de Dezembro de 2001 às 18:33
Jotaerre ( cachapuz@netcabo.pt )
Parece que o sr barroso está de acordo que os socialistas são uma *****. Limpe-e a si mesmo e accione o autoclismo.
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22/12/2001
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Descalços no vazio
«A extraordinária sensação de vazio político e ideológico que, como tantos outros, eu próprio pude testemunhar nesse lamentável espectáculo encenado no Pavilhão Atlântico, em Maio passado, prenunciava o descalabro de um aparelho político sem ideias e de um Governo sem fôlego. A auto-satisfação, o conformismo, a displicência, a arrogância, a subserviência e a total ausência de debate político interno foram as pedras de toque de um congresso monótono e monocórdico, que constituiu um inequívoco sinal da perda de contacto com a realidade do país.» EM 1995, quando o professor Cavaco Silva desvendou finalmente o mistério do seu «tabu» de estimação, a poucos meses das eleições legislativas, deixando o PSD praticamente descalço e à beira de um ataque de nervos, nem os seus apoiantes, nem os seus adversários, nem os comentadores políticos foram meigos com o primeiro-ministro que já governava o país havia dez anos, abstendo-se de qualificar tal atitude como um acto de especial dignidade, lucidez ou coragem. Talvez por isso, o professor Cavaco Silva meteu-se em brios e decidiu candidatar-se à Presidência da República, porventura convencido de que já partia derrotado e só se apercebendo, tarde e a más horas, de que até podia ter vencido. Sou insuspeito e até votei, dessa vez, no doutor Jorge Sampaio, mas é assim que ainda hoje julgo os factos Seis anos depois, assisti, desolado, à fatal derrota do PS nas eleições autárquicas do passado domingo. Mas ainda houve um momento em que, no negrume da noite, alimentei ingenuamente uma ténue ilusão. Quando o engenheiro António Guterres anunciou ao país a decisão de se demitir do cargo de primeiro-ministro, ainda julguei que ele o fazia com o intuito de antecipar eleições e de as disputar à frente do PS. Puro engano. O engenheiro Guterres também está farto — como estava o professor Cavaco — e deixa o PS tão descalço, em 2001, como o PSD ficou, em 1995. Só que, desta vez, as eleições presidenciais já foram no ano passado e o engenheiro Guterres prefere repousar e ficar a falar com os seus botões durante três longos e confortáveis anos de espera. No entanto, todos enaltecem a coragem, a lucidez e a dignidade de uma decisão que deixa o PS completamente de rastos e entregue à sua sorte, porventura só com dois ou três escassos meses para tentar calçar o que houver em saldos: sapatos, botas ou chinelos. O velho lema do PS — «só é vencido quem desiste de lutar» — foi ignorado. Perante o risco de derrota, o engenheiro Guterres preferiu desistir. Dito isto, é forçoso reconhecer que os resultados das eleições autárquicas de 16 de Dezembro foram letais para o Governo. Acabaram mesmo por se transformar no capítulo final da crónica de uma morte política anunciada, em surdina, no XII Congresso Nacional do PS, há cerca de seis meses. A extraordinária sensação de vazio político e ideológico que, como tantos outros, eu próprio pude testemunhar nesse lamentável espectáculo encenado no Pavilhão Atlântico, em Maio passado, prenunciava o descalabro de um aparelho político sem ideias e de um Governo sem fôlego. A auto-satisfação, o conformismo, a displicência, a arrogância, a subserviência e a total ausência de debate político interno foram as pedras de toque de um congresso monótono e monocórdico, que constituiu um inequívoco sinal da perda de contacto com a realidade do país. Nem o bom senso, nem o sentido da medida, nem a prudência mais elementar impediram, então, a doutora Edite Estrela de afirmar que «os autarcas do PS têm sido os melhores autarcas de Portugal» e de proclamar solenemente: «Nós sabemos fazer melhor do que ninguém. Somos gente que faz e faz bem». Viu-se. Mas é caso para perguntar quantos autarcas excelentes foram vítimas de tão cega arrogância. Claro que o mal já vinha de longe. O catálogo de maus exemplos é impressionante. A ambiguidade do PS em relação ao referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez revelou tibieza política e temor reverencial perante o secretário-geral. A pusilanimidade do PS em relação ao referendo sobre a regionalização, balançando entre a agressividade brutal e a indiferença absoluta, revelou falta de coragem e, sobretudo, incompetência política para pôr em prática um programa alternativo e consistente de descentralização, desconcentração e modernização administrativas. As reformas feitas de afogadilho, tímidas e aos solavancos, como no caso do arremedo de reforma fiscal, revelaram impreparação, precipitação e falta de convicção para sustentar opções claras e decisões firmes. A insistência na aprovação de Orçamentos do Estado pescando à linha um deputado dissidente, demagogo e populista — e confundindo interesses locais com interesses nacionais —, pôs a nu o oportunismo político do Governo e o medo de perder o poder se confrontasse os partidos da oposição com as suas responsabilidades políticas. O episódio relativo à taxa de alcoolemia foi apenas a gota de vinho que fez transbordar a taça da embriaguez do poder. O rotativismo é nisto que dá: numa alternância sem alternativas, em que o pragmatismo sem princípios, sem rumo e sem programa alimenta o vazio ideológico e político de uma ilusória bipolarização ao centro. E-mail: alfbarroso@netcabo.pt
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4 comentários 1 a 4
23 de Dezembro de 2001 às 23:48
ramos18 ( jrcontreiras@netcabo.pt )
Concordo com o articulista: a indecisão em assuntos tão importantes como a Regionalização,a Lei do Aborto,o excesso de autoconfiança,(bem expressos nessa vedeta mediática do PS Edite Estrela) e noutros, ajudaram ao descalabro completo do
Governo. E a lei dos 02% foi a "taça de vinho" que se partiu e cortou as hipóteses ao Governo de governar com ministros tão incapazes e com um Primeiro Ministro incapaz de se impôr.Foi bom para a Democracia e para o PS.
O PS necessitava de mudar porque tem muitos elementos com valor.
23 de Dezembro de 2001 às 20:22
Kostas Kalimera ( kkalimera@hotmail.com )
É algo surreal que homens adultos e vacinados se deixem assim depender de um único homem, o chefe, que tudo pode e manda, enquanto garantir as prebendas para os seus sequazes.
O que mostra que há políticos que constantemente enchem a boca com a palavra democracia mas que não a vivem nem a praticam na sua casa (partido).
Ao contrário de muitos não penso que a governação de Guterres e do PS tenha sido o fracasso que se apregoa.
Guterres e o PS tiveram pleno êxito ma missão a que se propuseram.
Tendo sido em 1995 depositários do gigantesco descontentamento (para cuja génese tão pouco ou nada contribuiram, antes pelo contrário)e do enorme potencial de mudança que trespassava a sociedade portuguesa, Guterres e o PS propuseram-se como objectivo real da sua acção defraudar essas legitimas esperanças de mudança e garantir aos senhores do dinheiro, a banca parasita e os grandes especuladores bolsistas, que os seus interesses egoistas continuavam tão bem salvaguardados como tinham sido durante os dez anos de governação cavaquista do PSD.
E conseguiram-no totalmente. Hoje, esses interesses parasitários estão mais protegidos do que nunca, vidé o que se passou com a reforma fiscal por exemplo e, para além disso, é muito mais dificil a democratização e modernização da sociedade portuguesa: veja-se a situação em que se encontra a regionalização ou a despenalização da IVG, ou ainda essa vergonha que é o julgamentodas 17 mulheres a decorrer na Maia.
Os senhores do capital, que tão bem Guterres e o PS serviram, estão plenamente satisfeitos, embora possam não o declarar publicamente.
Quanto ao povo português, a história é outra, como se viu.
Agora, que vêm aí as legislativas o que vai acontecer? O povo português não está condenado ao rotativismo castrador entre laranjas azêdas e rosas estragadas, que já demonstraram o que são, embora agora voltem de novo à carga com a velha rábula de que agora é que é, agora é que vão resolver tudo, em que alguns ainda acreditarão até porque é secundada e ampliada pela bateria de comentadores da comunicação social que, sempre os mesmos, sempre ao serviço dos poderosos permanecem inamovíveis aconteçam as mudanças que acontecerem.
A democracia ainda não chegou ao 4.º poder, que permanece ferreamente nas mãos de alguns poucos e ai dos jornalistas que se atreverem a "estorvar" os proprietários dos OCS.
O povo português, todos os homens e mulheres de esquerda, as pessoas de sentimentos progressistas têm outras alternativas: têm outros homens e mulheres de competência inquestionável, com provas dadas, sempre dedicados aos interesses do nosso povo, sempre presentes nos momentos difíceis e que merecem que lhes seja dada uma oportunidade.
Bem sei que sobre estes homens e mulheres há ainda muitos preconceitos. A questão é saber se mesmo agora, após a amarga experiência destes 16 anos, esses preconceitos continuarão a falar mais alto para muitos...
23 de Dezembro de 2001 às 02:53
Point
Vassouradas e carros-vassoura
Por Draga-Minas , 21/12/2001
http://www.finbolsa.com/anaart.asp?aut=2&nome=anaaaahn&orig=hpaut&tit=hp&s=3
Dois modelos políticos levaram do povo português duas imponentes vassouradas, para usar a metáfora com que Cavaco Silva brindou o recente descalabro do PS, talvez ainda lembrado do rótulo cruel que Manuel Maria Carrilho há seis anos aplicara a Fernando Nogueira: o de "carro-vassoura do cavaquismo".
O primeiro foi precisamente o cavaquismo. Um modelo autoritário e pseudo-austero, em que os superiores hierárquicos assumiam com um sorriso aberto e compincha o seu poder discricionário. Era gente dinâmica, que fazia algumas coisas andarem para a frente e se aproveitava sem papas na língua do salazarento medo do chefe que reinava para pintar tudo de cor-de-laranja e de uma não menos salazarenta ordem despótica, sempre num (saudoso, verdadeiramente saudoso) clima de brincadeira e optimismo suspeito.
O modelo cavaquista primeiro oprimia e depois começou a enjoar. Foi quando começou a enjoar que as pessoas perceberam que podiam derrubá-lo. E a vassourada veio no fim de 1995, ao som também enjoativo de Vangelis. O carro-vassoura do cavaquismo foi Fernando Nogueira. Tinha que ser uma boa pessoa.
O segundo modelo a levar a vassourada foi o guterrismo. Um modelo dialogante e fraterno, apaixonado pelas pessoas certas (a educação e a ciência), mas sem argumentos para as seduzir. Um modelo que nos levou a crer que tínhamos chegado a um país normal e democrático. Mas um modelo cuja cor, o rosa, não consegui tingir a realidade social. O diálogo, as falinhas, as promessas, e a Expo 98, tudo cor-de-rosa, tudo abstracto e simbólico, redundaram numa completa incapacidade de intervir na realidade, de a controlar e mudar. O laxismo instalou-se irrevogavelmente e só ficou a cor, o cor-de-rosa, de costas voltadas para o negro da realidade: os fracos cada vez mais fracos, os fortes cada vez mais fortes, a hierarquias cada vez mais rígidas, a administração pública mais cor-de-rosa do que antes fôra laranja, as injustiças cada vez maiores, a produção cada vez menor e Portugal cada vez mais espanhol.
A vassourada chegou há dias e, ao contrário daquela que varreu o cavaquismo, chegou duma forma totalmente inesperada. Guterres saiu sem o vergonhoso e célebre tabú de Cavaco Silva, sintoma do seu amor ao poder. O guterrismo saiu com elevação. Quem será o seu carro-vassoura? Seguramente, uma boa pessoa.
Agora é precisa uma terceira via portuguesa, que miraculosa ou engenhosamente concilie as virtudes do cavaquismo e do guterrismo e suprima os defeitos de ambos.
22 de Dezembro de 2001 às 18:33
Jotaerre ( cachapuz@netcabo.pt )
Parece que o sr barroso está de acordo que os socialistas são uma *****. Limpe-e a si mesmo e accione o autoclismo.
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