$Os Estados Unidos Não Querem Que Os Países Muçulmanos Se Democratizem por Dentro
Segunda-feira, 03 de Novembro de 2003
%Texto Luís Miguel Viana Foto António Carrapato
PÚBLICA - Dois anos volvidos sobre o 11 de Setembro e sete meses sobre a invasão do Iraque, a imagem do "outro" árabe tornou-se mais ameaçadora ou existe uma maior consciência das angústias que dilaceram as nações islâmicas?
MARÍA JESÚS MERINERO - Mais do que a imagem do árabe, o que se tornou mais ameaçador foi a equivalência que se fez no Ocidente entre Islão e terrorismo. Denominou-se "Terrorismo Islâmico", quando o terrorismo não tem religião nem nacionalidade - como vimos, as redes terroristas são supra-nacionais, com diferentes lugares de origem, e em que todos os elementos são apátridas: todos renunciaram a uma pertença nacional ou estatal, todos romperam com as suas famílias. Quase todos estudaram em países ocidentais, sobretudo na Alemanha e nos Estados Unidos da América (EUA). Foram inicialmente financiados pela Arábia Saudita e pelos Estados Unidos, para permitir aos talibans lutarem contra a URSS no Afeganistão - isto aconteceu até 1989, até à queda do Muro de Berlim. Quando a guerra acaba grande parte dos talibans regressa aos sítios de origem, por exemplo à Argélia: esses rapazes, que estavam acostumados a viver da guerra e da pilhagem, encontram uma oportunidade estupenda de continuar a guerra quando o governo militar ilegaliza o FIS, um partido legalista muçulmano. No Afeganistão, para os que lá ficaram houve também a oportunidade estupenda de constituirem o GIA e de se aliarem ao poder que persegue os muçulmanos reformistas. E, em vários outros países, tiveram a mesma oportunidade de se aliarem a regimes repressores e autocráticos - muitos deles aliados das potências ocidentais - e de continuar a viver da violência e sem outra ideologia para além da guerra. É este grupo que Bin Laden virá a liderar.
R. - Se fosse um grupo religioso, o lógico era que os seus atentados visassem templos religiosos ocidentais. Porque é que não atentaram contra o Vaticano, se a guerra era religiosa? Porque é que não atentaram contra Jerusalém? Atentaram, isso sim, contra o centro financeiro mais importante de Nova Iorque.
R. - Aproxima-os um pouco dos movimentos terceiro-mundistas, anti-capitalistas. Despoja-os muito de qualquer sentido religioso. Para além disso, embora estes grupos partam inicialmente do babaismo saudita - que é muito intransigente, rígido -, transformam-no, radicalizam-no, convertem-no no "seu" Islão: essa sua aparente religiosidade também rompeu com todas as tendências religiosas existentes. Do mesmo modo, o seu tipo de atentados não são comuns no Islão: o "kamikaze", apesar de ultimamente os palestinianos terem cada mais suicidas, não é uma forma de luta tradicional.
R. - Os terroristas que atacaram as Torres Gémeas não tinham um projecto político. Atacaram sem ter pensado no que queriam fazer de novo. Atacam e depois: nada. O seu único plano era mostrar que eles, que tinham vivido entre as rochas, eram capazes de destruir o centro do país tecnologicamente mais avançado do mundo. Eles não representam nenhuma alternativa a nenhum conflito existente e pouco têm que ver com os movimentos islamistas que conhecemos. É curioso que nunca tivessem falado do conflito israelo-palestiniano...
R. - ...ultimamente! Antes nunca. Nunca. E essa situação de "apartheid" na Palestina é, desde os anos 40, o elemento que uniu os países árabes - a Liga Árabe, na conferência de países islâmicos que se reuniu em 2001, lançou a mensagem de "tentar construir um mundo de diálogo e de harmonia". Mas Bin Laden nunca erigiu essa questão em causa essencial. Nunca. Em resumo: foi a confusão entre Islão e terrorismo que degradou a imagem do mundo árabe, e sobretudo muçulmano, no mundo ocidental.
R. - Eu creio que não. O que tem caracterizado todo o discurso ocidental desde 2001 é a identificação de muçulmano com violência. Esse discurso político, liderado pelos EUA, reforçou essa imagem. É uma reactivação dos comunalismos: é um discurso que faz supôr que todos os muçulmanos são iguais, pensam o mesmo, são homogéneos e, portanto - dado que atacaram o Ocidente -, são maus. Qualquer projecto de reforma que tenha surgido no mundo árabe ou muçulmano nas últimas décadas foi interrompido sem nunca ter merecido o apoio do Ocidente, pelo contrário. Veja-se a revolução nacionalista no Irão em 1953, que pretendia a nacionalização do petróleo e a democracia pela primeira vez no país, a liberdade, um projecto de desenvolvimento liberal: a CIA e o MI5 fomentaram um golpe Estado. O projecto pan-arábico, um projecto laico, socialista, de unir países para promover o desenvolvimento: interrompido pelos EUA, dando milhões de dólares ao Egipto em troca de Camp David. Em 1992-93, durante o embargo ao Iraque que se seguiu à Guerra do Golfo de 1991, surgiram movimentos de protesto muito importantes por parte da população xiita e por parte dos curdos que poderiam ter derrotado Saddam: teriam o significado importante de terem sido os próprios iraquianos a acabar com a ditadura! Mas os Estados Unidos não apoiaram nenhum grupo interno: um Saddam empobrecido e vulnerável era mais fácil de submeter do que uma democracia.
R. - Havia e há muitos problemas na zona, a começar pela Arábia Saudita, que é um país que submeteu a sua população: não há país em que as mulheres muçulmanas, e os homens, estejam mais submetidos. Lá está a surgir um movimento de contestação que nunca tinha ocorrido, que mobiliza toda a sociedade, e que está a dizer ao seu querido rei que é preciso mudar. Isto cria mal-estar.
R. - Claro! E a seguir viraram-se para o Irão, um país vizinho, riquíssimo em petróleo e muito estável: incluiram-no no "Eixo do Mal". Isto quando o Irão demonstrou uma estabilidade magnífica no seu governo e uma grande neutralidade - não apoiou os xiitas no Iraque, tal como não os tinha apoiado no Afeganistão. Comportou-se como um Estado neutral, não tomou partido. Tem magníficas relações com os países do Golfo e, em 2002, firmou um pacto de boa-vizinhança e colaboração económica com a Arábia Saudita. E é este país que não levantou nenhum problema, que não declarou nenhuma guerra (a guerra Irão-Iraque começou com uma invasão do Iraque), que os EUA colocam no "Eixo do Mal"!
R. - E calhou-lhes muito bem internacionalmente que Shirin Ebadi tenha ganho o Prémio Nobel da Paz. Os EUA ficaram, portanto, sem pretextos para atacar. E que fizeram? Dirigiram-se à Síria e ameaçaram-na.
R. - Creio que os prejudica. Vejamos o Irão: há um movimento pós-islamista, reformista, que está no Governo liderado por Mhoammad Khatami. E, do outro lado do sistema, há uma ala mais dura, mais intransigente. Se os pós-islamistas apelam ao diálogo, se se esforçam pela abertura ao exterior e pelas relações com Ocidente sem nenhum complexo - e se depois o Ocidente coage o país, o ameaça e o inclui no "Eixo do Mal", está a favorecer os mais intransigentes. E estes dizem aos tolerantes: "Vêem? Quereis o diálogo e vejam como eles respondem!" A violência nunca favorece os tolerantes, os liberais. A coacção nunca ajuda as democracias nem as reformas. Só provocam atitudes reactivas.
R. - Se não se altera esta política, se a actuação israelita continuar a mesma, poderá surgir de novo uma união de todos os países árabes. Até agora o mundo árabe não tomou um partido definitivo como na Guerra dos Seis Dias ou na de Yom Kippur: estiveram a sopesar as coisas, ajudaram Arafat, não se imiscuiram. Mas se as coisas continuarem assim, a situação é tão violenta que pode deflagrar não apenas na Palestina mas contaminar outros países.
R. - (longo silêncio) Não sei. A situação é muito frágil em todos. A Turquia também tem estado muito neutral, mas os EUA têm-na pressionado a que entre no Iraque. No Irão estamos prestes a cumprir 25 anos de Revolução e a eleger [em 2005] um novo presidente: favorecidos pelas coacções internacionais, os grupos mais intransigentes estão a levar a cabo um política de repressão com profundos efeitos no interior do país. Não sabemos o que se irá passar nas eleições. Creio que dependerá do que se passar no Iraque e no conflito israelo-palestiniano - mas em ambos as coisas estão a pôr-se muito más.
R. - Eu falei sobretudo de Espanha. Ao contrário da Alemanha, que há muitos anos acolhe milhões de árabes (sobretudo turcos), a imigração em Espanha só começa a crescer agora. Há que ter paciência com certos símbolos externos (que às vezes não entendemos em profundidade), como os véus das mulheres ou outro tipo de costumes - em Inglaterra os hindus andam com os seus turbantes, as indianas que querem usar véu usam, "e no pasa nada". Em Espanha e em Portugal teremos de nos acostumar - eles e nós. E devemos dar-lhes todos os direitos laborais, de educação, de saúde, de assistência social e políticos: a isso chama-se integração! É fundamental que se sintam participantes dos nossos assuntos. E creio que, nos conflitos que vão surgindo dentro das comunidades, há que colocar em primeiro lugar o direito à educação que tem cada emigrante.
R. -Em muitos países árabes sim. O caso do Irão é excepcional: desde a Revolução Islâmica o índice de analfabetismo, que estava em mais de 60 por cento para os homens e mais de 80 por cento para as mulheres, baixou para os 8 por cento da população. O índice de universitários cresceu espectacularmente e as raparigas são 65 por cento dessa população, tendo-se mantido a dar aulas muitos professores com a formação feita do estrangeiro - os laços culturais nunca se romperam. É esta a base sociológica das reformas, mas não podemos exigir que façam uma democracia clone das democracias ocidentais. Porque não deixá-los inventar a sua própria democracia a partir das suas referências culturais?
R. - A minha resposta não é científica, mas sim, digamos, fruto da observação quotidiana. Os principais valores muçulmanos são a procura da harmonia, a diminuição da dependência dos bens materiais, a procura de uma vida espiritual mais intensa. O mundo actual, globalizado, rompeu a solidariedade familiar, com as sociabilidades sindicais, está a deixar o indivíduo sozinho. Ao mesmo tempo perderam-se valores como a honradez, ou a fidelidade, ou o cumprimento da palavra, que são cultivados no mundo muçulmano, onde a sociabilidade é maior.
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$Os Estados Unidos Não Querem Que Os Países Muçulmanos Se Democratizem por Dentro
Segunda-feira, 03 de Novembro de 2003
%Texto Luís Miguel Viana Foto António Carrapato
PÚBLICA - Dois anos volvidos sobre o 11 de Setembro e sete meses sobre a invasão do Iraque, a imagem do "outro" árabe tornou-se mais ameaçadora ou existe uma maior consciência das angústias que dilaceram as nações islâmicas?
MARÍA JESÚS MERINERO - Mais do que a imagem do árabe, o que se tornou mais ameaçador foi a equivalência que se fez no Ocidente entre Islão e terrorismo. Denominou-se "Terrorismo Islâmico", quando o terrorismo não tem religião nem nacionalidade - como vimos, as redes terroristas são supra-nacionais, com diferentes lugares de origem, e em que todos os elementos são apátridas: todos renunciaram a uma pertença nacional ou estatal, todos romperam com as suas famílias. Quase todos estudaram em países ocidentais, sobretudo na Alemanha e nos Estados Unidos da América (EUA). Foram inicialmente financiados pela Arábia Saudita e pelos Estados Unidos, para permitir aos talibans lutarem contra a URSS no Afeganistão - isto aconteceu até 1989, até à queda do Muro de Berlim. Quando a guerra acaba grande parte dos talibans regressa aos sítios de origem, por exemplo à Argélia: esses rapazes, que estavam acostumados a viver da guerra e da pilhagem, encontram uma oportunidade estupenda de continuar a guerra quando o governo militar ilegaliza o FIS, um partido legalista muçulmano. No Afeganistão, para os que lá ficaram houve também a oportunidade estupenda de constituirem o GIA e de se aliarem ao poder que persegue os muçulmanos reformistas. E, em vários outros países, tiveram a mesma oportunidade de se aliarem a regimes repressores e autocráticos - muitos deles aliados das potências ocidentais - e de continuar a viver da violência e sem outra ideologia para além da guerra. É este grupo que Bin Laden virá a liderar.
R. - Se fosse um grupo religioso, o lógico era que os seus atentados visassem templos religiosos ocidentais. Porque é que não atentaram contra o Vaticano, se a guerra era religiosa? Porque é que não atentaram contra Jerusalém? Atentaram, isso sim, contra o centro financeiro mais importante de Nova Iorque.
R. - Aproxima-os um pouco dos movimentos terceiro-mundistas, anti-capitalistas. Despoja-os muito de qualquer sentido religioso. Para além disso, embora estes grupos partam inicialmente do babaismo saudita - que é muito intransigente, rígido -, transformam-no, radicalizam-no, convertem-no no "seu" Islão: essa sua aparente religiosidade também rompeu com todas as tendências religiosas existentes. Do mesmo modo, o seu tipo de atentados não são comuns no Islão: o "kamikaze", apesar de ultimamente os palestinianos terem cada mais suicidas, não é uma forma de luta tradicional.
R. - Os terroristas que atacaram as Torres Gémeas não tinham um projecto político. Atacaram sem ter pensado no que queriam fazer de novo. Atacam e depois: nada. O seu único plano era mostrar que eles, que tinham vivido entre as rochas, eram capazes de destruir o centro do país tecnologicamente mais avançado do mundo. Eles não representam nenhuma alternativa a nenhum conflito existente e pouco têm que ver com os movimentos islamistas que conhecemos. É curioso que nunca tivessem falado do conflito israelo-palestiniano...
R. - ...ultimamente! Antes nunca. Nunca. E essa situação de "apartheid" na Palestina é, desde os anos 40, o elemento que uniu os países árabes - a Liga Árabe, na conferência de países islâmicos que se reuniu em 2001, lançou a mensagem de "tentar construir um mundo de diálogo e de harmonia". Mas Bin Laden nunca erigiu essa questão em causa essencial. Nunca. Em resumo: foi a confusão entre Islão e terrorismo que degradou a imagem do mundo árabe, e sobretudo muçulmano, no mundo ocidental.
R. - Eu creio que não. O que tem caracterizado todo o discurso ocidental desde 2001 é a identificação de muçulmano com violência. Esse discurso político, liderado pelos EUA, reforçou essa imagem. É uma reactivação dos comunalismos: é um discurso que faz supôr que todos os muçulmanos são iguais, pensam o mesmo, são homogéneos e, portanto - dado que atacaram o Ocidente -, são maus. Qualquer projecto de reforma que tenha surgido no mundo árabe ou muçulmano nas últimas décadas foi interrompido sem nunca ter merecido o apoio do Ocidente, pelo contrário. Veja-se a revolução nacionalista no Irão em 1953, que pretendia a nacionalização do petróleo e a democracia pela primeira vez no país, a liberdade, um projecto de desenvolvimento liberal: a CIA e o MI5 fomentaram um golpe Estado. O projecto pan-arábico, um projecto laico, socialista, de unir países para promover o desenvolvimento: interrompido pelos EUA, dando milhões de dólares ao Egipto em troca de Camp David. Em 1992-93, durante o embargo ao Iraque que se seguiu à Guerra do Golfo de 1991, surgiram movimentos de protesto muito importantes por parte da população xiita e por parte dos curdos que poderiam ter derrotado Saddam: teriam o significado importante de terem sido os próprios iraquianos a acabar com a ditadura! Mas os Estados Unidos não apoiaram nenhum grupo interno: um Saddam empobrecido e vulnerável era mais fácil de submeter do que uma democracia.
R. - Havia e há muitos problemas na zona, a começar pela Arábia Saudita, que é um país que submeteu a sua população: não há país em que as mulheres muçulmanas, e os homens, estejam mais submetidos. Lá está a surgir um movimento de contestação que nunca tinha ocorrido, que mobiliza toda a sociedade, e que está a dizer ao seu querido rei que é preciso mudar. Isto cria mal-estar.
R. - Claro! E a seguir viraram-se para o Irão, um país vizinho, riquíssimo em petróleo e muito estável: incluiram-no no "Eixo do Mal". Isto quando o Irão demonstrou uma estabilidade magnífica no seu governo e uma grande neutralidade - não apoiou os xiitas no Iraque, tal como não os tinha apoiado no Afeganistão. Comportou-se como um Estado neutral, não tomou partido. Tem magníficas relações com os países do Golfo e, em 2002, firmou um pacto de boa-vizinhança e colaboração económica com a Arábia Saudita. E é este país que não levantou nenhum problema, que não declarou nenhuma guerra (a guerra Irão-Iraque começou com uma invasão do Iraque), que os EUA colocam no "Eixo do Mal"!
R. - E calhou-lhes muito bem internacionalmente que Shirin Ebadi tenha ganho o Prémio Nobel da Paz. Os EUA ficaram, portanto, sem pretextos para atacar. E que fizeram? Dirigiram-se à Síria e ameaçaram-na.
R. - Creio que os prejudica. Vejamos o Irão: há um movimento pós-islamista, reformista, que está no Governo liderado por Mhoammad Khatami. E, do outro lado do sistema, há uma ala mais dura, mais intransigente. Se os pós-islamistas apelam ao diálogo, se se esforçam pela abertura ao exterior e pelas relações com Ocidente sem nenhum complexo - e se depois o Ocidente coage o país, o ameaça e o inclui no "Eixo do Mal", está a favorecer os mais intransigentes. E estes dizem aos tolerantes: "Vêem? Quereis o diálogo e vejam como eles respondem!" A violência nunca favorece os tolerantes, os liberais. A coacção nunca ajuda as democracias nem as reformas. Só provocam atitudes reactivas.
R. - Se não se altera esta política, se a actuação israelita continuar a mesma, poderá surgir de novo uma união de todos os países árabes. Até agora o mundo árabe não tomou um partido definitivo como na Guerra dos Seis Dias ou na de Yom Kippur: estiveram a sopesar as coisas, ajudaram Arafat, não se imiscuiram. Mas se as coisas continuarem assim, a situação é tão violenta que pode deflagrar não apenas na Palestina mas contaminar outros países.
R. - (longo silêncio) Não sei. A situação é muito frágil em todos. A Turquia também tem estado muito neutral, mas os EUA têm-na pressionado a que entre no Iraque. No Irão estamos prestes a cumprir 25 anos de Revolução e a eleger [em 2005] um novo presidente: favorecidos pelas coacções internacionais, os grupos mais intransigentes estão a levar a cabo um política de repressão com profundos efeitos no interior do país. Não sabemos o que se irá passar nas eleições. Creio que dependerá do que se passar no Iraque e no conflito israelo-palestiniano - mas em ambos as coisas estão a pôr-se muito más.
R. - Eu falei sobretudo de Espanha. Ao contrário da Alemanha, que há muitos anos acolhe milhões de árabes (sobretudo turcos), a imigração em Espanha só começa a crescer agora. Há que ter paciência com certos símbolos externos (que às vezes não entendemos em profundidade), como os véus das mulheres ou outro tipo de costumes - em Inglaterra os hindus andam com os seus turbantes, as indianas que querem usar véu usam, "e no pasa nada". Em Espanha e em Portugal teremos de nos acostumar - eles e nós. E devemos dar-lhes todos os direitos laborais, de educação, de saúde, de assistência social e políticos: a isso chama-se integração! É fundamental que se sintam participantes dos nossos assuntos. E creio que, nos conflitos que vão surgindo dentro das comunidades, há que colocar em primeiro lugar o direito à educação que tem cada emigrante.
R. -Em muitos países árabes sim. O caso do Irão é excepcional: desde a Revolução Islâmica o índice de analfabetismo, que estava em mais de 60 por cento para os homens e mais de 80 por cento para as mulheres, baixou para os 8 por cento da população. O índice de universitários cresceu espectacularmente e as raparigas são 65 por cento dessa população, tendo-se mantido a dar aulas muitos professores com a formação feita do estrangeiro - os laços culturais nunca se romperam. É esta a base sociológica das reformas, mas não podemos exigir que façam uma democracia clone das democracias ocidentais. Porque não deixá-los inventar a sua própria democracia a partir das suas referências culturais?
R. - A minha resposta não é científica, mas sim, digamos, fruto da observação quotidiana. Os principais valores muçulmanos são a procura da harmonia, a diminuição da dependência dos bens materiais, a procura de uma vida espiritual mais intensa. O mundo actual, globalizado, rompeu a solidariedade familiar, com as sociabilidades sindicais, está a deixar o indivíduo sozinho. Ao mesmo tempo perderam-se valores como a honradez, ou a fidelidade, ou o cumprimento da palavra, que são cultivados no mundo muçulmano, onde a sociabilidade é maior.