Suplemento Pública

07-11-2003
marcar artigo

João Afonso, o

Segunda-feira, 03 de Novembro de 2003

João Afonso estava de costas, mas, pelos olhos esbugalhados que via à sua frente, percebeu que alguma coisa não estava bem. Olhou para trás e "nem queria acreditar": quatro estudantes de rabo ao léu garantiam ao ministro Couto dos Santos que não pagariam as propinas. "A minha preocupação imediata foi fazê-los desaparecer dali o mais depressa possível", lembra o então presidente da Associação Académica de Lisboa (AAL). Como no mais absurdo dos filmes, dois funcionários do Centro Cultural de Belém, onde decorria o Congresso Nacional sobre o Ensino Superior, "carregavam descontraidamente duas telas de Vieira da Silva". "Foi o cúmulo do inesperado, ninguém sabia que aquilo ia acontecer", diz João Afonso, hoje arquitecto na Câmara Municipal de Lisboa, "mas deu para fechar os trabalhos com chave de ouro".

João Afonso, 33 anos, entrou na AAL em 1993, depois de ter integrado o Movimento de Estudantes Contra o Aumento de Propinas. Foi o sucessor de Gabriela Seara, militante da JSD. "Quando entrei, o ambiente estava animado, com divisões entre as associações que eram contra o aumento das propinas e as que eram mais próximas da JSD. Mas depois houve uma viragem e o processo de contestação ganhou um novo alento", recorda. João Afonso atravessou o período mais crítico da revolta estudantil: perdeu a conta às manifestações em que participou e chegou a ser atingido, "ao de leve", pelas bastonadas da PSP. "Hoje estou convencido de que a intervenção da polícia animou a nossa luta", comenta.

Olhando para a contestação de hoje, João Afonso não tem a mínima dúvida: "A guerra dos estudantes é perfeitamente justa. Será óptimo se conseguirem ganhar pelo menos algumas batalhas. O que é anedótico é que os mesmos protagonistas - neste Governo temos Manuela Ferreira Leite e tivemos Pedro Lynce - possam cometer os mesmos erros. Dá a sensação de 'déjà-vu'". João Afonso, que confessa que, "em miúdo", andou com "autolocantes de Sá Carneiro na lapela" - "só a infância pode perdoar um erro destes" -, acha que "o ensino superior deve ser gratuito", porque "não é por ser pago que é melhor". "Se eu pagar para votar posso exigir mais do Governo?"

João Afonso abandonou a AAL em Janeiro de 1994 e voltou à Faculdade de Arquitectura para terminar o curso. Participou nos Estados Gerais do PS e foi candidato à Assembleia Municipal pela Política XXI. Hoje é também secretário do conselho nacional da Ordem dos Arquitectos.

João Afonso, o

Segunda-feira, 03 de Novembro de 2003

João Afonso estava de costas, mas, pelos olhos esbugalhados que via à sua frente, percebeu que alguma coisa não estava bem. Olhou para trás e "nem queria acreditar": quatro estudantes de rabo ao léu garantiam ao ministro Couto dos Santos que não pagariam as propinas. "A minha preocupação imediata foi fazê-los desaparecer dali o mais depressa possível", lembra o então presidente da Associação Académica de Lisboa (AAL). Como no mais absurdo dos filmes, dois funcionários do Centro Cultural de Belém, onde decorria o Congresso Nacional sobre o Ensino Superior, "carregavam descontraidamente duas telas de Vieira da Silva". "Foi o cúmulo do inesperado, ninguém sabia que aquilo ia acontecer", diz João Afonso, hoje arquitecto na Câmara Municipal de Lisboa, "mas deu para fechar os trabalhos com chave de ouro".

João Afonso, 33 anos, entrou na AAL em 1993, depois de ter integrado o Movimento de Estudantes Contra o Aumento de Propinas. Foi o sucessor de Gabriela Seara, militante da JSD. "Quando entrei, o ambiente estava animado, com divisões entre as associações que eram contra o aumento das propinas e as que eram mais próximas da JSD. Mas depois houve uma viragem e o processo de contestação ganhou um novo alento", recorda. João Afonso atravessou o período mais crítico da revolta estudantil: perdeu a conta às manifestações em que participou e chegou a ser atingido, "ao de leve", pelas bastonadas da PSP. "Hoje estou convencido de que a intervenção da polícia animou a nossa luta", comenta.

Olhando para a contestação de hoje, João Afonso não tem a mínima dúvida: "A guerra dos estudantes é perfeitamente justa. Será óptimo se conseguirem ganhar pelo menos algumas batalhas. O que é anedótico é que os mesmos protagonistas - neste Governo temos Manuela Ferreira Leite e tivemos Pedro Lynce - possam cometer os mesmos erros. Dá a sensação de 'déjà-vu'". João Afonso, que confessa que, "em miúdo", andou com "autolocantes de Sá Carneiro na lapela" - "só a infância pode perdoar um erro destes" -, acha que "o ensino superior deve ser gratuito", porque "não é por ser pago que é melhor". "Se eu pagar para votar posso exigir mais do Governo?"

João Afonso abandonou a AAL em Janeiro de 1994 e voltou à Faculdade de Arquitectura para terminar o curso. Participou nos Estados Gerais do PS e foi candidato à Assembleia Municipal pela Política XXI. Hoje é também secretário do conselho nacional da Ordem dos Arquitectos.

marcar artigo