Na UE o Português-tipo É Um Pasteleiro de Chaves
Por CLARA VIANA
Sexta-feira, 04 de Junho de 2004
A União Europeia vai retirar esta semana, dos seus serviços on-line, o exemplo em português da arte de bem preencher um "curriculum vitae", nos termos em que este é exigido aos candidatos a eurocratas. A pedido do Ministério português dos Negócios Estrangeiros, que actuou após ter sido questionado pelo PÚBLICO, chegará assim ao fim a carreira de um alegado pasteleiro que desde há dois anos tem sido mostrado como exemplo aos candidatos lusos.
"Não é de todo a situação típica dos portugueses que se candidatam", frisou a porta-voz do MNE, Isabel Gomes, a propósito do que é contado no "modelo europeu de curriculum vitae" em versão portuguesa (www.cedefop.eu. int/transparency). O que é contado, e que foi inventado por um serviço de apoio à UE, resume-se em poucas palavras, embora não faltem pormenores na página a que se pode também aceder directamente a partir do próprio "site" do MNE.
De Salónica, na Grécia, onde tem sede o Cedefop - Centro europeu para o desenvolvimento da formação profissional - saiu então um tal Carlos Rodrigues, nascido em 1960, em França. Filho de emigrantes, foi ali que concluiu o ensino secundário e tirou um curso técnico de pastelaria. Na década de 90 regressou a Portugal, fixando residência em Chaves: sócio-gerente de uma indústria de panificação, é animador do clube de pesca local e para efeito de futuros empregos tem como referência a apresentar o presidente da câmara de uma cidade vizinha.
Os exemplos de candidatos variam segundo as línguas da comunidade, mas nenhum deles tem existência real. Neste mundo virtual, os portugueses ficaram assim com um trabalhador manual quarentão e os espanhóis com uma distribuidora de publicidade desempregada, também quarentona. Mas quando os currículos mudam para inglês ou francês, o mundo também se altera: os seus alegados representantes não só são mais jovens, como sobretudo muito mais qualificados - doutorados ou em vias disso, contando já com uma carreira em organismos internacionais ou afins e com várias publicações.
Os "contactos portugueses"
Desta visão Norte-Sul se encarregou um grupo de trabalho que foi presidido pelo francês Philippe Tissot, que é ainda o responsável por estes serviços. "Não existiu de todo nenhuma intenção de veicular um 'cliché'; pelo contrário, este exemplo mostra que os currículos europeus são uma instrumento de mobilidade", disse a respeito do pasteleiro Carlos Rodrigues, cuja criação atribui aos seus "contactos portugueses". Quem serão eles foi algo que Tissot não desvendou, adiantando no entanto que lá para o final do ano será colocada em rede uma "versão melhorada" do currículo. "Providenciarei para que estas questões sensíveis sejam tidas em conta", assegurou.
Com a intervenção do Ministério dos Negócios Estrangeiros, a nova versão do currículo deverá estar concluída mais cedo do que o previsto por Tissot. Quando ainda não se sabe, o que faz prever que, com a saída de cena de Carlos Rodrigues, agendada para esta semana, o currículo europeu em versão portuguesa fique em branco por uns tempos.
Garante a porta-voz do MNE que o que ali vier a ser inscrito terá de se aproximar do que é hoje a realidade portuguesa na UE. Uma representação mais numerosa, mas também, sobretudo, "sucessivamente mais qualificada", garante. Actualmente existem 1312 portugueses a trabalhar nas instituições da UE. Destes, mais de 400 pertencem à categoria A, que é a mais elevada. E é provável que do país do pasteleiro Carlos Rodrigues saia o próximo presidente da Comissão Europeia.
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Na UE o Português-tipo É Um Pasteleiro de Chaves
Por CLARA VIANA
Sexta-feira, 04 de Junho de 2004
A União Europeia vai retirar esta semana, dos seus serviços on-line, o exemplo em português da arte de bem preencher um "curriculum vitae", nos termos em que este é exigido aos candidatos a eurocratas. A pedido do Ministério português dos Negócios Estrangeiros, que actuou após ter sido questionado pelo PÚBLICO, chegará assim ao fim a carreira de um alegado pasteleiro que desde há dois anos tem sido mostrado como exemplo aos candidatos lusos.
"Não é de todo a situação típica dos portugueses que se candidatam", frisou a porta-voz do MNE, Isabel Gomes, a propósito do que é contado no "modelo europeu de curriculum vitae" em versão portuguesa (www.cedefop.eu. int/transparency). O que é contado, e que foi inventado por um serviço de apoio à UE, resume-se em poucas palavras, embora não faltem pormenores na página a que se pode também aceder directamente a partir do próprio "site" do MNE.
De Salónica, na Grécia, onde tem sede o Cedefop - Centro europeu para o desenvolvimento da formação profissional - saiu então um tal Carlos Rodrigues, nascido em 1960, em França. Filho de emigrantes, foi ali que concluiu o ensino secundário e tirou um curso técnico de pastelaria. Na década de 90 regressou a Portugal, fixando residência em Chaves: sócio-gerente de uma indústria de panificação, é animador do clube de pesca local e para efeito de futuros empregos tem como referência a apresentar o presidente da câmara de uma cidade vizinha.
Os exemplos de candidatos variam segundo as línguas da comunidade, mas nenhum deles tem existência real. Neste mundo virtual, os portugueses ficaram assim com um trabalhador manual quarentão e os espanhóis com uma distribuidora de publicidade desempregada, também quarentona. Mas quando os currículos mudam para inglês ou francês, o mundo também se altera: os seus alegados representantes não só são mais jovens, como sobretudo muito mais qualificados - doutorados ou em vias disso, contando já com uma carreira em organismos internacionais ou afins e com várias publicações.
Os "contactos portugueses"
Desta visão Norte-Sul se encarregou um grupo de trabalho que foi presidido pelo francês Philippe Tissot, que é ainda o responsável por estes serviços. "Não existiu de todo nenhuma intenção de veicular um 'cliché'; pelo contrário, este exemplo mostra que os currículos europeus são uma instrumento de mobilidade", disse a respeito do pasteleiro Carlos Rodrigues, cuja criação atribui aos seus "contactos portugueses". Quem serão eles foi algo que Tissot não desvendou, adiantando no entanto que lá para o final do ano será colocada em rede uma "versão melhorada" do currículo. "Providenciarei para que estas questões sensíveis sejam tidas em conta", assegurou.
Com a intervenção do Ministério dos Negócios Estrangeiros, a nova versão do currículo deverá estar concluída mais cedo do que o previsto por Tissot. Quando ainda não se sabe, o que faz prever que, com a saída de cena de Carlos Rodrigues, agendada para esta semana, o currículo europeu em versão portuguesa fique em branco por uns tempos.
Garante a porta-voz do MNE que o que ali vier a ser inscrito terá de se aproximar do que é hoje a realidade portuguesa na UE. Uma representação mais numerosa, mas também, sobretudo, "sucessivamente mais qualificada", garante. Actualmente existem 1312 portugueses a trabalhar nas instituições da UE. Destes, mais de 400 pertencem à categoria A, que é a mais elevada. E é provável que do país do pasteleiro Carlos Rodrigues saia o próximo presidente da Comissão Europeia.