EXPRESSO: Cartaz

28-05-2002
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O homem da missão impossível?

Augusto Santos Silva, novo ministro da Cultura, passa da sala de aula para o palco das artes

Cristina Margato

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA Augusto Santos Silva

Terça-feira, 3 de Julho de 2001, 9 horas da manhã. No gabinete do Ministério da Educação, na 5 de Outubro, Augusto Santos Silva já arrumou parte dos «dossiers». Diz que passou o dia anterior a trocar impressões com José Sasportes e tem encontro marcado para a tarde com o novo ministro da Educação. Não demonstra entusiasmos nem tristezas. Apenas algum nervosismo. Principalmente quando se lhe pergunta se o facto de ter como toque de telemóvel o som da banda sonora dequer dizer mais alguma coisa. Primeiro brinca. Depois avisa: «Não vai tirar daí conclusões.... Também tenho um diabo em cima da mesa. Mas foi a minha filha que mo ofereceu. Uma pessoa já não pode ter humor consigo própria?»

A conversa está limitada desde o início. Não há abertura para comentários sobre casos concretos a resolver no Ministério que António Guterres lhe atribuiu na sexta-feira anterior. E as afirmações genéricas, como se percebe, estão destinadas a ser evasivas, bastante defensivas. Esquece com frequência o «eu», escuda-se no «nós». Nós o partido, nós o Governo. Uma coisa, porém, faz questão de salientar usando a primeira pessoa: «Pode escrever que saio hoje às 18 horas da escola. Para lá entrei aos 6 anos».

Licencia-se em História, contra a sugestão dos pais. Faz doutoramento em Sociologia, na especialidade da Cultura e da Comunicação em 1992 (no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa). É docente da Faculdade de Economia do Porto, desde 1981 (está requisitado) e tem publicado ensaios amiúde. Curiosamente, quase todos os títulos incluem a palavra Cultura. Mas não tem sido da «chamada alta cultura» (as palavras são dele) de que se tem ocupando. À parte de uma primeira fase em que mergulha na história da cultura portuguesa, publicando livros como «Oliveira Martins e o Socialismo» e «Ensaio da Leitura Crítica» (1979), Santos Silva tem sido um cientista social. Uma história que começa, nos anos 80, na Faculdade de Economia do Porto, com um estudo global desta instituição sobre o Vale do Ave, e para o qual contribui com uma visão cultural. A partir daí seguem-se vários ensaios sobre o que chama «expressões culturais». Dedica as últimas investigações às culturas urbanas em áreas do Porto.

Nasceu no Porto, em 1956. É casado e tem três filhos. Deixa a família no Porto quando aceita, em 1999, «a responsabilidade que tinha enquanto militante do Partido Socialista». Há várias razões pessoais. Acredita que «não vale a pena proceder a uma mudança drástica na organização familiar» e descobre junto de colegas que o lugar de ministro deixava muito pouco tempo livre para a vida familiar. Porém, uma das razões, que não pode ser desligada das pessoais, revela a forma como se vê na política: «É claro que o fim do limite é algures em Outubro de 2003. A função de ministro é muito precária, por razões que não dependem da nossa vontade e da dos outros. Tem a ver com a combinação de vontades e circunstâncias.»

A vontade, neste caso, foi de António Guterres, e Santos Silva não a encara como uma despromoção: «Do ponto de vista profissional e académico a minha especialidade é a Sociologia da Cultura. Há um ciclo de governação no qual eu me revejo e que constitui um compromisso do partido a que pertenço. Dentro das minhas disponibilidades e competências culturais estou à disposição do meu primeiro-ministro.» Mas a verdade é que passa de um dos ministérios mais significativos para um que arrecada menos de 1% do Orçamento de Estado (para não falar nos cortes). O facto mais uma vez não lhe merece comentário concreto, a não ser a afirmação de que, enquanto professor de uma faculdade de Economia, sabe bem que «os desejos são limitados e os recursos escassos, o que obriga a fazer escolhas».

Antes de entrar para o partido em 1990, ainda faz parte do grupo Movimento de Esquerda Socialista. Em 1998 torna-se membro da Comissão Nacional e do Secretariado da Federação Distrital do Porto em 1997. Chega ao Governo para ocupar o lugar de secretário de Estado da Administração Educativa (1999), onde fica apenas um ano. Passa, na última remodelação governativa (2000), a ministro da Educação. A área da Cultura está mais próxima do gosto pessoal que tem demonstrado na vida académica, no entanto esta passagem apenas significa «uma intensificação do ritmo, do volume de trabalho, dos desafios. Significa cumprir mais uma tarefa. Se dissesse que tinha gosto pessoal nesta passagem estaria a dizer que tive menos gosto quando tratei da área da educação o que não é verdade. Gosto muito de escolas. Gosto muito de educação».

O contacto com a política cultural também é anterior à nomeação. Santos Silva coordenou o grupo interministerial para Educação e Ensinos Artísticos (1998-1999). Assunto que parecia ganhar novo fôlego depois das declarações do secretário de Estado de Sasportes no encontro «A Cultura em Diálogo». Realizado no Porto, o encontro foi o palco eleito por Nascimento Baptista para anunciar o lançamento, no próximo ano, de um projecto na área do Ensino Artístico.

Na primeira linha das preocupações de Santos Silva aparece a ideia de que «é obrigação irrenunciável de um Estado democrático, do ponto do vista dos socialistas, intervir com políticas activas de apoio à criação do ponto de vista estrutural: formando redes de equipamentos que permitam o encontro entre criadores e receptores». O novo ministro salienta a necessidade dos concursos serem transparentes, nega a possibilidade de existir «uma cultura de gosto estatal», mas não despreza os critérios de qualidade ou o impacto nos públicos. Promete estar presente nos acontecimentos culturais «em todo o País e não apenas em Lisboa». «Não é forçoso que apareça nas estreias», sublinha. «Também não mandarei anunciar na sexta-feira que vou ao teatro no sábado. O meu princípio é trabalhar com e não contra». Referências indirectas aos antecessores? «Quer o ministro Carrilho quer o ministro Sasportes foram empenhados e tentaram concretizar o programa de Governo. Quando digo concretizar não é acabar». Acabar para Santos Silva significa dar continuidade . Mas sempre que a verba escasseia, a missão corre o risco de se tornar quase impossível.

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O homem da missão impossível?

Augusto Santos Silva, novo ministro da Cultura, passa da sala de aula para o palco das artes

Cristina Margato

ANTÓNIO PEDRO FERREIRA Augusto Santos Silva

Terça-feira, 3 de Julho de 2001, 9 horas da manhã. No gabinete do Ministério da Educação, na 5 de Outubro, Augusto Santos Silva já arrumou parte dos «dossiers». Diz que passou o dia anterior a trocar impressões com José Sasportes e tem encontro marcado para a tarde com o novo ministro da Educação. Não demonstra entusiasmos nem tristezas. Apenas algum nervosismo. Principalmente quando se lhe pergunta se o facto de ter como toque de telemóvel o som da banda sonora dequer dizer mais alguma coisa. Primeiro brinca. Depois avisa: «Não vai tirar daí conclusões.... Também tenho um diabo em cima da mesa. Mas foi a minha filha que mo ofereceu. Uma pessoa já não pode ter humor consigo própria?»

A conversa está limitada desde o início. Não há abertura para comentários sobre casos concretos a resolver no Ministério que António Guterres lhe atribuiu na sexta-feira anterior. E as afirmações genéricas, como se percebe, estão destinadas a ser evasivas, bastante defensivas. Esquece com frequência o «eu», escuda-se no «nós». Nós o partido, nós o Governo. Uma coisa, porém, faz questão de salientar usando a primeira pessoa: «Pode escrever que saio hoje às 18 horas da escola. Para lá entrei aos 6 anos».

Licencia-se em História, contra a sugestão dos pais. Faz doutoramento em Sociologia, na especialidade da Cultura e da Comunicação em 1992 (no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa). É docente da Faculdade de Economia do Porto, desde 1981 (está requisitado) e tem publicado ensaios amiúde. Curiosamente, quase todos os títulos incluem a palavra Cultura. Mas não tem sido da «chamada alta cultura» (as palavras são dele) de que se tem ocupando. À parte de uma primeira fase em que mergulha na história da cultura portuguesa, publicando livros como «Oliveira Martins e o Socialismo» e «Ensaio da Leitura Crítica» (1979), Santos Silva tem sido um cientista social. Uma história que começa, nos anos 80, na Faculdade de Economia do Porto, com um estudo global desta instituição sobre o Vale do Ave, e para o qual contribui com uma visão cultural. A partir daí seguem-se vários ensaios sobre o que chama «expressões culturais». Dedica as últimas investigações às culturas urbanas em áreas do Porto.

Nasceu no Porto, em 1956. É casado e tem três filhos. Deixa a família no Porto quando aceita, em 1999, «a responsabilidade que tinha enquanto militante do Partido Socialista». Há várias razões pessoais. Acredita que «não vale a pena proceder a uma mudança drástica na organização familiar» e descobre junto de colegas que o lugar de ministro deixava muito pouco tempo livre para a vida familiar. Porém, uma das razões, que não pode ser desligada das pessoais, revela a forma como se vê na política: «É claro que o fim do limite é algures em Outubro de 2003. A função de ministro é muito precária, por razões que não dependem da nossa vontade e da dos outros. Tem a ver com a combinação de vontades e circunstâncias.»

A vontade, neste caso, foi de António Guterres, e Santos Silva não a encara como uma despromoção: «Do ponto de vista profissional e académico a minha especialidade é a Sociologia da Cultura. Há um ciclo de governação no qual eu me revejo e que constitui um compromisso do partido a que pertenço. Dentro das minhas disponibilidades e competências culturais estou à disposição do meu primeiro-ministro.» Mas a verdade é que passa de um dos ministérios mais significativos para um que arrecada menos de 1% do Orçamento de Estado (para não falar nos cortes). O facto mais uma vez não lhe merece comentário concreto, a não ser a afirmação de que, enquanto professor de uma faculdade de Economia, sabe bem que «os desejos são limitados e os recursos escassos, o que obriga a fazer escolhas».

Antes de entrar para o partido em 1990, ainda faz parte do grupo Movimento de Esquerda Socialista. Em 1998 torna-se membro da Comissão Nacional e do Secretariado da Federação Distrital do Porto em 1997. Chega ao Governo para ocupar o lugar de secretário de Estado da Administração Educativa (1999), onde fica apenas um ano. Passa, na última remodelação governativa (2000), a ministro da Educação. A área da Cultura está mais próxima do gosto pessoal que tem demonstrado na vida académica, no entanto esta passagem apenas significa «uma intensificação do ritmo, do volume de trabalho, dos desafios. Significa cumprir mais uma tarefa. Se dissesse que tinha gosto pessoal nesta passagem estaria a dizer que tive menos gosto quando tratei da área da educação o que não é verdade. Gosto muito de escolas. Gosto muito de educação».

O contacto com a política cultural também é anterior à nomeação. Santos Silva coordenou o grupo interministerial para Educação e Ensinos Artísticos (1998-1999). Assunto que parecia ganhar novo fôlego depois das declarações do secretário de Estado de Sasportes no encontro «A Cultura em Diálogo». Realizado no Porto, o encontro foi o palco eleito por Nascimento Baptista para anunciar o lançamento, no próximo ano, de um projecto na área do Ensino Artístico.

Na primeira linha das preocupações de Santos Silva aparece a ideia de que «é obrigação irrenunciável de um Estado democrático, do ponto do vista dos socialistas, intervir com políticas activas de apoio à criação do ponto de vista estrutural: formando redes de equipamentos que permitam o encontro entre criadores e receptores». O novo ministro salienta a necessidade dos concursos serem transparentes, nega a possibilidade de existir «uma cultura de gosto estatal», mas não despreza os critérios de qualidade ou o impacto nos públicos. Promete estar presente nos acontecimentos culturais «em todo o País e não apenas em Lisboa». «Não é forçoso que apareça nas estreias», sublinha. «Também não mandarei anunciar na sexta-feira que vou ao teatro no sábado. O meu princípio é trabalhar com e não contra». Referências indirectas aos antecessores? «Quer o ministro Carrilho quer o ministro Sasportes foram empenhados e tentaram concretizar o programa de Governo. Quando digo concretizar não é acabar». Acabar para Santos Silva significa dar continuidade . Mas sempre que a verba escasseia, a missão corre o risco de se tornar quase impossível.

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