José Sócrates Tenta
Sexta-feira, 16 de Julho de 2004 evitar rupturas no PS Enganou-se quem esperava discursos de ruptura de José Sócrates com o passado recente do PS. O ex-ministro do Ambiente formalizou ontem a sua candidatura à liderança do partido, garantindo que quer uma sociedade "com mais igualdade". Convidou para redactor principal da sua moção alguém que deu muitas dores de cabeça ao PS social-cristão: Sérgio Sousa Pinto. E foi cuidadoso com Ferro, com quem, segundo disse, o PS ficou "melhor" do que estava João Pedro Henriques José Sócrates lançou ontem, publicamente, a sua candidatura a secretário-geral do PS. As suas duas intervenções - no anúncio da candidatura e, depois, numa entrevista na RTP 1- foram guiadas pelo mesmo propósito: evitar rupturas com a esquerda do PS e, até, com os partidos à esquerda do PS, nomeadamente o Bloco de Esquerda. Na sede do PS, ao fim da tarde, onde anunciou a candidatura, Sócrates dedicou uma parte importante da sua declaração às "políticas sociais" e à necessidade da sua valorização: "A ambição do PS deve ser, também, a de propor uma nova geração de políticas sociais, baseadas na equidade e na sustentabilidade." Mais adiante acrescentaria que "é preciso deixar claro que o PS não se resigna à tentativa de diminuir e desprestigiar tudo o que é público na sociedade portuguesa". "Nenhuma 'mão invisível' pode substituir" essa "esfera pública", que é "fundamental para a boa sociedade, uma sociedade mais próspera, com mais justiça e com mais igualdade", disse o candidato. Mais tarde, entrevistado na RTP 1, José Sócrates defendeu um "diálogo positivo" do PS com o Bloco de Esquerda, partido em que disse ter registado uma "evolução" nos últimos dois anos. Mas isto sem se esquecer de referir a superioridade numérica da força eleitoral do PS sobre o Bloco ("um partido com tão poucos votos"). "Quem tem confiança em si não olha tanto para os outros", afirmou. José Sócrates sublinhou, por outro lado, que herda o testemunho de todos os ex-líderes do PS - mas tendo o cuidado de sublinhar uma particular "referência", a de Mário Soares. Um sinal, também, de que não ignora o lado esquerdo do seu partido é o facto de ter convidado para redactor principal da sua moção ao congresso do PS o ex-líder da JS Sérgio Sousa Pinto, autor, nos governos de Guterres, de algumas propostas "fracturantes", como a da despenalização do aborto e da consagração das uniões de facto. Sousa Pinto chegou - eleito eurodeputado em 1999 e reeleito em Junho passado - chegou a ser encarado pela esquerda do PS como uma espécie de "delfim", tendo aliás recentemente co-assinado um livro sobre política internacional com Mário Soares. Sócrates revelou-se, por outro lado, cuidadoso com Ferro Rodrigues, sublinhando que "recorda dele" a "coragem moral e firmeza política absolutamente invulgares", acrescentando, na entrevista televisiva, que, depois de Ferro, "o PS está melhor" do que estava antes de o secretário-geral demissionário ter tomado conta do partido, no princípio de 2002. "O PS fica-lhe a dever grandes serviços", afirmou, dizendo ainda que "não vem nos manuais" como há-de um líder político reagir a, por exemplo, a prisão do seu braço direito (Paulo Pedroso). Sócrates disse também ter percebido a "decepção" de Ferro Rodrigues com a decisão do Presidente da República de não convocar eleições legislativas antecipadas. Fez, porém, questão de contextualizar esta decepção do líder demissionário do PS nos efeitos que a decisão de Sampaio teve "na própria liderança" de Ferro. Por outras palavras: insinuou que Ferro só se demitiu porque associou a sua sobrevivência política à decisão de Sampaio. Censurou, por outro lado, as palavras de Ana Gomes face à decisão do Presidente (a dirigente declarou-se "profundamente arrependida" de ter votado Sampaio) considerando estas declarações como "precipitadas". O PS terá de ter "nervos de aço" nos próximos dois anos para lidar com a decisão do PR - disse ainda Sócrates, numa clara indicação de que não vê com bons olhos mais críticas socialistas à decisão de Belém. Seguro será "dirigente" A outra componente da entrevista à RTP 1 em que Sócrates revelou a aposta em não criar rupturas no PS deu-se quando a entrevistadora, Judite de Sousa, o questionou sobre o lugar que António José Seguro (actual líder parlamentar) deverá ter, no seu entender, no futuro PS. "Terá um lugar de dirigente do PS", disse o candidato, sublinhando que ambos são da mesma geração. Segur ponderou avançar com uma candidatura contra Sócrates, tabu que manteve durantes alguns dias, alegadamente sob "pressão" de vários apoios do PS que lhe estariam a chegar. Só anteontem à noite, na reunião da comissão política do PS, é que esclareceu que não será candidato. Na tal nova "geração", Sócrates enquadrou também António Costa e Francisco Assis, com cujo apoio já contava há muito. E garantiu ter também o apoio de António Vitorino - do que, aliás, ninguém duvidava. Jorge Coelho, como se esperava, não faltou ontem ao anúncio da candidatura. O mesmo aconteceu com a "nata" do aparelho socialista portuense - figuras como Orlando Gaspar, Nuno Cardoso e Narciso Miranda. OUTROS TÍTULOS EM DESTAQUE José Sócrates tenta
"António Guterres será sempre o melhor candidato"
"Gosto muito de uma palavra que se chama aventura"
Esquerda do PS à procura
"O Governo não pode estar à solta"
Departamento das Mulheres Socialistas esclarece que não apoia Sócrates
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José Sócrates Tenta
Sexta-feira, 16 de Julho de 2004 evitar rupturas no PS Enganou-se quem esperava discursos de ruptura de José Sócrates com o passado recente do PS. O ex-ministro do Ambiente formalizou ontem a sua candidatura à liderança do partido, garantindo que quer uma sociedade "com mais igualdade". Convidou para redactor principal da sua moção alguém que deu muitas dores de cabeça ao PS social-cristão: Sérgio Sousa Pinto. E foi cuidadoso com Ferro, com quem, segundo disse, o PS ficou "melhor" do que estava João Pedro Henriques José Sócrates lançou ontem, publicamente, a sua candidatura a secretário-geral do PS. As suas duas intervenções - no anúncio da candidatura e, depois, numa entrevista na RTP 1- foram guiadas pelo mesmo propósito: evitar rupturas com a esquerda do PS e, até, com os partidos à esquerda do PS, nomeadamente o Bloco de Esquerda. Na sede do PS, ao fim da tarde, onde anunciou a candidatura, Sócrates dedicou uma parte importante da sua declaração às "políticas sociais" e à necessidade da sua valorização: "A ambição do PS deve ser, também, a de propor uma nova geração de políticas sociais, baseadas na equidade e na sustentabilidade." Mais adiante acrescentaria que "é preciso deixar claro que o PS não se resigna à tentativa de diminuir e desprestigiar tudo o que é público na sociedade portuguesa". "Nenhuma 'mão invisível' pode substituir" essa "esfera pública", que é "fundamental para a boa sociedade, uma sociedade mais próspera, com mais justiça e com mais igualdade", disse o candidato. Mais tarde, entrevistado na RTP 1, José Sócrates defendeu um "diálogo positivo" do PS com o Bloco de Esquerda, partido em que disse ter registado uma "evolução" nos últimos dois anos. Mas isto sem se esquecer de referir a superioridade numérica da força eleitoral do PS sobre o Bloco ("um partido com tão poucos votos"). "Quem tem confiança em si não olha tanto para os outros", afirmou. José Sócrates sublinhou, por outro lado, que herda o testemunho de todos os ex-líderes do PS - mas tendo o cuidado de sublinhar uma particular "referência", a de Mário Soares. Um sinal, também, de que não ignora o lado esquerdo do seu partido é o facto de ter convidado para redactor principal da sua moção ao congresso do PS o ex-líder da JS Sérgio Sousa Pinto, autor, nos governos de Guterres, de algumas propostas "fracturantes", como a da despenalização do aborto e da consagração das uniões de facto. Sousa Pinto chegou - eleito eurodeputado em 1999 e reeleito em Junho passado - chegou a ser encarado pela esquerda do PS como uma espécie de "delfim", tendo aliás recentemente co-assinado um livro sobre política internacional com Mário Soares. Sócrates revelou-se, por outro lado, cuidadoso com Ferro Rodrigues, sublinhando que "recorda dele" a "coragem moral e firmeza política absolutamente invulgares", acrescentando, na entrevista televisiva, que, depois de Ferro, "o PS está melhor" do que estava antes de o secretário-geral demissionário ter tomado conta do partido, no princípio de 2002. "O PS fica-lhe a dever grandes serviços", afirmou, dizendo ainda que "não vem nos manuais" como há-de um líder político reagir a, por exemplo, a prisão do seu braço direito (Paulo Pedroso). Sócrates disse também ter percebido a "decepção" de Ferro Rodrigues com a decisão do Presidente da República de não convocar eleições legislativas antecipadas. Fez, porém, questão de contextualizar esta decepção do líder demissionário do PS nos efeitos que a decisão de Sampaio teve "na própria liderança" de Ferro. Por outras palavras: insinuou que Ferro só se demitiu porque associou a sua sobrevivência política à decisão de Sampaio. Censurou, por outro lado, as palavras de Ana Gomes face à decisão do Presidente (a dirigente declarou-se "profundamente arrependida" de ter votado Sampaio) considerando estas declarações como "precipitadas". O PS terá de ter "nervos de aço" nos próximos dois anos para lidar com a decisão do PR - disse ainda Sócrates, numa clara indicação de que não vê com bons olhos mais críticas socialistas à decisão de Belém. Seguro será "dirigente" A outra componente da entrevista à RTP 1 em que Sócrates revelou a aposta em não criar rupturas no PS deu-se quando a entrevistadora, Judite de Sousa, o questionou sobre o lugar que António José Seguro (actual líder parlamentar) deverá ter, no seu entender, no futuro PS. "Terá um lugar de dirigente do PS", disse o candidato, sublinhando que ambos são da mesma geração. Segur ponderou avançar com uma candidatura contra Sócrates, tabu que manteve durantes alguns dias, alegadamente sob "pressão" de vários apoios do PS que lhe estariam a chegar. Só anteontem à noite, na reunião da comissão política do PS, é que esclareceu que não será candidato. Na tal nova "geração", Sócrates enquadrou também António Costa e Francisco Assis, com cujo apoio já contava há muito. E garantiu ter também o apoio de António Vitorino - do que, aliás, ninguém duvidava. Jorge Coelho, como se esperava, não faltou ontem ao anúncio da candidatura. O mesmo aconteceu com a "nata" do aparelho socialista portuense - figuras como Orlando Gaspar, Nuno Cardoso e Narciso Miranda. OUTROS TÍTULOS EM DESTAQUE José Sócrates tenta
"António Guterres será sempre o melhor candidato"
"Gosto muito de uma palavra que se chama aventura"
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