> Comunidades > Lusofonia > Opinião
O Debate na Assembleia da República sobre o Ensino de Português
Autor: António Justo
Saudamos as iniciativas do PCP e do PSD de apresentarem a debate o tema da defesa da Língua Portuguesa no estrangeiro na Assembleia da República e pelo facto de ter havido um certo consenso por parte do Governo e dos Grupos parlamentares no sentido da definição de uma estratégia global para melhorar, promover e intensificar o Ensino do Português no estrangeiro.
As intervenções de José Cesário PSD e de Rodeia Machado PCP, na descrição da situação em que se encontra o Ensino, podem ser consideradas moderadas na perspectiva da Alemanha. José Cesário ao qualificar a situação de "dramática" e "caótica" e ao apontar para a "total desarticulação" entre os intervenientes da área no estrangeiro e as autoridades governamentais não descreve mais que a realidade. Ao afirmar que o governo se refugia apenas no "paradigma do ensino integrado" nos sistemas curriculares do ensino dos países de acolhimento aponta para uma desculpa de mau pagador dado isso na Alemanha ser possível desde que haja quorum e professores. A realidade porém é que não há procura devido também a uma falta de fomento sistemático da Língua portuguesa a nível académico e à concorrência espanhola e italiana. Regista-se apenas uma certa procura nas academias populares por razões turísticas. Facto é que o governo ao desresponsabilizar-se e desinteressar-se do Ensino paralelo na Alemanha apressa a morte do ensino paralelo nas escolas alemãs, em vez de em colaboração com os professores elaborar uma política mais activa e convencida na promoção do mesmo.
Não é com conceitos desaferidos e que talvez para um Estado ou outro possa constituir receita se elaboram políticas generalizadas e não aferidas e como tal até prejudiciais no concreto. Como podem representantes dum governo afirmarem que estão preocupados com o ensino e não apenas em medidas economicistas ao colocarem ao abandono a maior parte do professorado na Alemanha. No Estado do Hesse e da Renânia Palatinado, que represento, um professor de português do 8° escalão (no topo de carreira na Alemanha e com 49 anos) recebe do Estado alemão um vencimento líquido de 295.000$00 mensais trabalhando 29 horas semanais; o mesmo professor receberia, na sua escola em Portugal, se exercesse lá, 330.000$00 com o subsídio de alimentação, e trabalhando apenas 16 horas semanais. Os colegas alemães com 45 anos recebem do estado alemão um ordenado líquido entre os 500.000$00 e os 550.000$00 mensais; os colegas de Estugarda pagos por Portugal recebem mais do dobro do que recebe o colega do Hesse com a agravante de trabalharem apenas 22 horas lectivas. Naturalmente que isto deinstabiliza os cursos de português das áreas alemãs, desde 1998 deitadas ao abandono por Portugal. Se é verdade o que o deputado Carlos Luís, do PS diz ao afirmar que o Governo "não promete aquilo que não pode cumprir", manifestando-se embora disponível para encontrar soluções e formas de entendimento para valorizar e melhorar o ensino doPortuguês no estrangeiro, esquece que antes de 1998 a situação do ensino e dos professores na Alemanha estava incomparavelmente melhor que hoje com o governo socialista. Quem, para se justificar ou desviar se atreve a fazer comparações com o governo anterior ou não está informado ou é de má fé.
Fernando Rosas, deputado do Bloco de Esquerda ao defender a Língua portuguesa como um instrumento multicultural e não apenas como um elemento de educação, apontou para uma vertente política de inteira actualidade mas que só virá a ser percebida no futuro. Sim o que precisamos é de uma estratégica de difusão com uma administração integradora e responsável. Uma reflexão estratégica para a Língua Portuguesa no estrangeiro é exigência velha dos professores à política mas a que esta não tem respondido.
A ideia de que o Português seja oferecido como segunda língua é benéfica em casos pontuais mas na realidade é mais uma expressão de abdicação e de desánimo na generalidade atendendo a várias circunstâncias entre as quais a concorrência com o Espanhol por um lado como língua com uma política agressiva e por outro de grande procura. É de saudar a promessa de António Braga, deputado socialista e presidente da Comissão Parlamentar da Educação, Ciência e Cultura, de o Grupo Parlamentar do PS, ir apresentar à AR uma proposta de alteração, com vista à fusão dos dois projectos do PSD e PCP. Esperamos que este gogerno venha a ter em conta as propostas que o professorado da Alemanha, deitado ao esquecimento,, tem vindo a fazer.
Problemática e decepcionante é a tomada de posição da senhora secretária de Estado da Administração Educativa, que na sua abordagem se referiu apenas a aspectos atmosféricos reiterando os princípios que tem orientado o governo na desastrosa política de ensino do Português na Alemanha, ao afirmar que as preocupações do governo são questões de utilização dos planos curriculares portugueses, do português como segunda ou terceira língua e reduzindo a melhoria da qualidade de ensino ao fomento de acções de formação de professores, que sempre houve na Alemanha.
Solicitamos do ME abertura e espírito de diálogo com o professorado e o abandono duma política de ensino que começa e acaba na senhora Coordenadora do Ensino, sem qualquer possibilidade de díálogo. Esperamos do Governo uma resposta para os problemas mais imediatos, para, de seguida, podermos todos colaborar para a elaboração e efectivação duma política de ensino não partidária, a bem de Todos e da Nação.
António Justo
Comissão dos Professores de Português da Área Consular de Frankfurt
A.C.Justo@t-online.de
-A-A-
--
Categorias
Entidades
> Comunidades > Lusofonia > Opinião
O Debate na Assembleia da República sobre o Ensino de Português
Autor: António Justo
Saudamos as iniciativas do PCP e do PSD de apresentarem a debate o tema da defesa da Língua Portuguesa no estrangeiro na Assembleia da República e pelo facto de ter havido um certo consenso por parte do Governo e dos Grupos parlamentares no sentido da definição de uma estratégia global para melhorar, promover e intensificar o Ensino do Português no estrangeiro.
As intervenções de José Cesário PSD e de Rodeia Machado PCP, na descrição da situação em que se encontra o Ensino, podem ser consideradas moderadas na perspectiva da Alemanha. José Cesário ao qualificar a situação de "dramática" e "caótica" e ao apontar para a "total desarticulação" entre os intervenientes da área no estrangeiro e as autoridades governamentais não descreve mais que a realidade. Ao afirmar que o governo se refugia apenas no "paradigma do ensino integrado" nos sistemas curriculares do ensino dos países de acolhimento aponta para uma desculpa de mau pagador dado isso na Alemanha ser possível desde que haja quorum e professores. A realidade porém é que não há procura devido também a uma falta de fomento sistemático da Língua portuguesa a nível académico e à concorrência espanhola e italiana. Regista-se apenas uma certa procura nas academias populares por razões turísticas. Facto é que o governo ao desresponsabilizar-se e desinteressar-se do Ensino paralelo na Alemanha apressa a morte do ensino paralelo nas escolas alemãs, em vez de em colaboração com os professores elaborar uma política mais activa e convencida na promoção do mesmo.
Não é com conceitos desaferidos e que talvez para um Estado ou outro possa constituir receita se elaboram políticas generalizadas e não aferidas e como tal até prejudiciais no concreto. Como podem representantes dum governo afirmarem que estão preocupados com o ensino e não apenas em medidas economicistas ao colocarem ao abandono a maior parte do professorado na Alemanha. No Estado do Hesse e da Renânia Palatinado, que represento, um professor de português do 8° escalão (no topo de carreira na Alemanha e com 49 anos) recebe do Estado alemão um vencimento líquido de 295.000$00 mensais trabalhando 29 horas semanais; o mesmo professor receberia, na sua escola em Portugal, se exercesse lá, 330.000$00 com o subsídio de alimentação, e trabalhando apenas 16 horas semanais. Os colegas alemães com 45 anos recebem do estado alemão um ordenado líquido entre os 500.000$00 e os 550.000$00 mensais; os colegas de Estugarda pagos por Portugal recebem mais do dobro do que recebe o colega do Hesse com a agravante de trabalharem apenas 22 horas lectivas. Naturalmente que isto deinstabiliza os cursos de português das áreas alemãs, desde 1998 deitadas ao abandono por Portugal. Se é verdade o que o deputado Carlos Luís, do PS diz ao afirmar que o Governo "não promete aquilo que não pode cumprir", manifestando-se embora disponível para encontrar soluções e formas de entendimento para valorizar e melhorar o ensino doPortuguês no estrangeiro, esquece que antes de 1998 a situação do ensino e dos professores na Alemanha estava incomparavelmente melhor que hoje com o governo socialista. Quem, para se justificar ou desviar se atreve a fazer comparações com o governo anterior ou não está informado ou é de má fé.
Fernando Rosas, deputado do Bloco de Esquerda ao defender a Língua portuguesa como um instrumento multicultural e não apenas como um elemento de educação, apontou para uma vertente política de inteira actualidade mas que só virá a ser percebida no futuro. Sim o que precisamos é de uma estratégica de difusão com uma administração integradora e responsável. Uma reflexão estratégica para a Língua Portuguesa no estrangeiro é exigência velha dos professores à política mas a que esta não tem respondido.
A ideia de que o Português seja oferecido como segunda língua é benéfica em casos pontuais mas na realidade é mais uma expressão de abdicação e de desánimo na generalidade atendendo a várias circunstâncias entre as quais a concorrência com o Espanhol por um lado como língua com uma política agressiva e por outro de grande procura. É de saudar a promessa de António Braga, deputado socialista e presidente da Comissão Parlamentar da Educação, Ciência e Cultura, de o Grupo Parlamentar do PS, ir apresentar à AR uma proposta de alteração, com vista à fusão dos dois projectos do PSD e PCP. Esperamos que este gogerno venha a ter em conta as propostas que o professorado da Alemanha, deitado ao esquecimento,, tem vindo a fazer.
Problemática e decepcionante é a tomada de posição da senhora secretária de Estado da Administração Educativa, que na sua abordagem se referiu apenas a aspectos atmosféricos reiterando os princípios que tem orientado o governo na desastrosa política de ensino do Português na Alemanha, ao afirmar que as preocupações do governo são questões de utilização dos planos curriculares portugueses, do português como segunda ou terceira língua e reduzindo a melhoria da qualidade de ensino ao fomento de acções de formação de professores, que sempre houve na Alemanha.
Solicitamos do ME abertura e espírito de diálogo com o professorado e o abandono duma política de ensino que começa e acaba na senhora Coordenadora do Ensino, sem qualquer possibilidade de díálogo. Esperamos do Governo uma resposta para os problemas mais imediatos, para, de seguida, podermos todos colaborar para a elaboração e efectivação duma política de ensino não partidária, a bem de Todos e da Nação.
António Justo
Comissão dos Professores de Português da Área Consular de Frankfurt
A.C.Justo@t-online.de
-A-A-
--