Os filhos dos pobres e os filhos
dos ricos na escola democrática
Por Maria Filomena Mónica
As boas escolas estão hoje reservadas aos meninos cujos pais têm dinheiro. Aos filhos dos pobres apenas é oferecida a oportunidade de servir de cobaias às experiências que os adolescentes ideológicos do ministério inventam.
Os pais que têm filhos a frequentar escolas públicas já o terão notado. Mas os que não estão nesse caso, e muitos são, ignoram que o sistema escolar
português aboliu os exames até ao final da escolaridade obrigatória. Os meninos vão às aulas, sentam-se diante dos professores, ouvem, ou não ouvem, o que
estes dizem, respondem a "testes", fazem, ou não fazem, trabalhos de casa, mas ninguém é avaliado através de uma prova final.
Mais uma vez, o principal responsável por este dislate é o Ministério. Foi o poder, não os docentes, que considerou serem os exames prejudiciais à saúde
psíquica das crianças. Por alturas do Natal, a secretária de Estado Ana Benavente declarou que os "chumbos" (ou, como agora se diz, as "retenções") em nada
contribuíam para melhorar o desempenho dos alunos. O fundamental era a adopção de "estratégias pedagógicas", as quais, "no respeito pelos objectivos
fixados, para cada ciclo, permitam suprir as lacunas verificadas". Estas declarações haviam sido provocadas pela realização, pouco tempo antes, de umas
provas ditas de aferição. Houve quem, erradamente, as confundisse com exames. Pressurosa, a secretária de Estado veio a terreiro explicar aos indígenas:
"Dissemos, e mantemos, que estas provas não servem para avaliar alunos, não servem para avaliar professores e não servem para avaliar escolas." Em suma, as
provas eram para consumo interno do Ministério.
Vivemos num mundo em que ninguém alunos, professores, escolas deseja ser avaliado. É evidente que, no curto prazo, um mau aluno se sente melhor se não
tiver de ser confrontado com a sua estupidez. A longo prazo, contudo, a ausência de uma avaliação séria é um crime. Já agora advirto os pedagogos para que
não vale a pena virem chamar a minha atenção para os estudos que demonstram estar o sucesso escolar, em grande medida, condicionado pelo meio social. Também
eu li S. Bowles, H. Gintis, P. Bourdieu, J.C. Passeron e até C. Baudelot e R. Establet. Mas sei que, apesar de terem posto o dedo numa ferida, estas teorias
podem ter efeitos nefastos. Ao contribuírem para baixar as expectativas dos professores quanto ao desempenho de alguns alunos (o que afecta a imagem que
estes têm de si próprios), criam um círculo vicioso do tipo "ele é pobre, portanto, há que desculpá-lo"; e "eu sou pobre, portanto, ninguém me vai exigir
nada".
Como tantos outros ideais, também o da igualdade de resultados foi filho de boas intenções. Mas, ao tentar evitar um mal, criou-se um maior. Hoje, os filhos
dos trabalhadores são vítimas de ideologias que, começando por negar, com Ivan Illitch, o valor da escola, terminaram na incapacidade de estimular um aluno.
Como dizia J.S. Mill na sua autobiografia: "Um aluno a quem nunca é pedido algo que ele não é capaz de fazer, nunca fará aquilo de que é capaz."
Voltemos à avaliação. Eis que, de repente, o Ministério parece ter mudado de rumo. Uma amostra de 348 escolas, do 1 até ao 12 ano da escolaridade,
contendo 16.600 alunos, acaba de ser avaliada pela Inspecção-Geral do Ensino. Durante esse trabalho, cujos resultados foram divulgados anteontem,
descobriram-se coisas tão surpreendentes quanto: apenas 43 por cento dos alunos que concluíram o 9 ano tiveram nota positiva em todas as disciplinas; 33
por cento tiveram negativa a Matemática; 21 por cento não conseguiram obter um dez a Português. Ou seja, cerca de um terço dos alunos termina a escolaridade
sem saber fazer contas e um quinto sem saber escrever.
Para meu espanto, o ministro Santos Silva considerou isto "normal". Da mesma opinião já não foram os professores, que reconheceram não ter reflectido
suficientemente sobre a questão do "sucesso dos alunos e da sua aprendizagem". Por seu lado, a inspectora-geral Maria do Carmo Clímaco declarava
"preocupante a pobreza dos registos dos progressos dos alunos".
Mais uma vez, este estudo levanta a questão do chamado "ranking". Por razões labirínticas, o ministério é contra a ordenação das escolas pelo seu
desempenho. É verdade que se verificou um pequeno progresso já é possível aos pais de uma escola e à autarquia respectiva ter acesso à classificação mas
as entidades educativas recusam-se a fornecer a todos os pais um opúsculo com a lista das escolas. O mais interessante, contudo, vem no final da entrevista
de Maria do Carmo Clímaco: "Se a justificação para a existência de rankings é a informação aos pais, esses, na sua larga maioria, não têm condições de
escolha e os que têm já a fazem." Traduzindo: os pobres não têm possibilidade de escolher e os ricos há muito que colocaram os seus filhos nas escolas
privadas.
Há quem argumente que, apesar de não se fazerem exames, os alunos são avaliados no seu dia-a-dia. Isto esquece dois factos: nas cidades, as turmas são
demasiado grandes para que o contacto entre docentes e discentes possa permitir uma classificação rigorosa; nos meios rurais, os professores circulam entre
escolas. Sei de um concelho isolado, Baião, onde a escola local conheceu, no ano passado, 17 professores! O que nos conduz a outra questão, a da colocação
de professores. Em Portugal, em vez de serem as escolas a escolher os docentes, estes são seleccionados por um computador sediado no Ministério.
Aparentemente, o sistema é ideal. Na prática, é o caos. Muitos dos professores não gostam dos locais para onde o computador os manda, aproveitando para
desaparecer à menor oportunidade. O actual sistema só se mantém porque existe uma válvula de escape: o atestado médico.
Provavelmente, era inevitável que, em Portugal, as coisas se tivessem passado como se passaram. Mas lá que é uma tragédia é. As boas escolas estão hoje
reservadas aos meninos cujos pais têm dinheiro. Aos filhos dos pobres apenas é oferecida a oportunidade de servir de cobaias às experiências que os
adolescentes ideológicos do ministério inventam.
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Entidades
Os filhos dos pobres e os filhos
dos ricos na escola democrática
Por Maria Filomena Mónica
As boas escolas estão hoje reservadas aos meninos cujos pais têm dinheiro. Aos filhos dos pobres apenas é oferecida a oportunidade de servir de cobaias às experiências que os adolescentes ideológicos do ministério inventam.
Os pais que têm filhos a frequentar escolas públicas já o terão notado. Mas os que não estão nesse caso, e muitos são, ignoram que o sistema escolar
português aboliu os exames até ao final da escolaridade obrigatória. Os meninos vão às aulas, sentam-se diante dos professores, ouvem, ou não ouvem, o que
estes dizem, respondem a "testes", fazem, ou não fazem, trabalhos de casa, mas ninguém é avaliado através de uma prova final.
Mais uma vez, o principal responsável por este dislate é o Ministério. Foi o poder, não os docentes, que considerou serem os exames prejudiciais à saúde
psíquica das crianças. Por alturas do Natal, a secretária de Estado Ana Benavente declarou que os "chumbos" (ou, como agora se diz, as "retenções") em nada
contribuíam para melhorar o desempenho dos alunos. O fundamental era a adopção de "estratégias pedagógicas", as quais, "no respeito pelos objectivos
fixados, para cada ciclo, permitam suprir as lacunas verificadas". Estas declarações haviam sido provocadas pela realização, pouco tempo antes, de umas
provas ditas de aferição. Houve quem, erradamente, as confundisse com exames. Pressurosa, a secretária de Estado veio a terreiro explicar aos indígenas:
"Dissemos, e mantemos, que estas provas não servem para avaliar alunos, não servem para avaliar professores e não servem para avaliar escolas." Em suma, as
provas eram para consumo interno do Ministério.
Vivemos num mundo em que ninguém alunos, professores, escolas deseja ser avaliado. É evidente que, no curto prazo, um mau aluno se sente melhor se não
tiver de ser confrontado com a sua estupidez. A longo prazo, contudo, a ausência de uma avaliação séria é um crime. Já agora advirto os pedagogos para que
não vale a pena virem chamar a minha atenção para os estudos que demonstram estar o sucesso escolar, em grande medida, condicionado pelo meio social. Também
eu li S. Bowles, H. Gintis, P. Bourdieu, J.C. Passeron e até C. Baudelot e R. Establet. Mas sei que, apesar de terem posto o dedo numa ferida, estas teorias
podem ter efeitos nefastos. Ao contribuírem para baixar as expectativas dos professores quanto ao desempenho de alguns alunos (o que afecta a imagem que
estes têm de si próprios), criam um círculo vicioso do tipo "ele é pobre, portanto, há que desculpá-lo"; e "eu sou pobre, portanto, ninguém me vai exigir
nada".
Como tantos outros ideais, também o da igualdade de resultados foi filho de boas intenções. Mas, ao tentar evitar um mal, criou-se um maior. Hoje, os filhos
dos trabalhadores são vítimas de ideologias que, começando por negar, com Ivan Illitch, o valor da escola, terminaram na incapacidade de estimular um aluno.
Como dizia J.S. Mill na sua autobiografia: "Um aluno a quem nunca é pedido algo que ele não é capaz de fazer, nunca fará aquilo de que é capaz."
Voltemos à avaliação. Eis que, de repente, o Ministério parece ter mudado de rumo. Uma amostra de 348 escolas, do 1 até ao 12 ano da escolaridade,
contendo 16.600 alunos, acaba de ser avaliada pela Inspecção-Geral do Ensino. Durante esse trabalho, cujos resultados foram divulgados anteontem,
descobriram-se coisas tão surpreendentes quanto: apenas 43 por cento dos alunos que concluíram o 9 ano tiveram nota positiva em todas as disciplinas; 33
por cento tiveram negativa a Matemática; 21 por cento não conseguiram obter um dez a Português. Ou seja, cerca de um terço dos alunos termina a escolaridade
sem saber fazer contas e um quinto sem saber escrever.
Para meu espanto, o ministro Santos Silva considerou isto "normal". Da mesma opinião já não foram os professores, que reconheceram não ter reflectido
suficientemente sobre a questão do "sucesso dos alunos e da sua aprendizagem". Por seu lado, a inspectora-geral Maria do Carmo Clímaco declarava
"preocupante a pobreza dos registos dos progressos dos alunos".
Mais uma vez, este estudo levanta a questão do chamado "ranking". Por razões labirínticas, o ministério é contra a ordenação das escolas pelo seu
desempenho. É verdade que se verificou um pequeno progresso já é possível aos pais de uma escola e à autarquia respectiva ter acesso à classificação mas
as entidades educativas recusam-se a fornecer a todos os pais um opúsculo com a lista das escolas. O mais interessante, contudo, vem no final da entrevista
de Maria do Carmo Clímaco: "Se a justificação para a existência de rankings é a informação aos pais, esses, na sua larga maioria, não têm condições de
escolha e os que têm já a fazem." Traduzindo: os pobres não têm possibilidade de escolher e os ricos há muito que colocaram os seus filhos nas escolas
privadas.
Há quem argumente que, apesar de não se fazerem exames, os alunos são avaliados no seu dia-a-dia. Isto esquece dois factos: nas cidades, as turmas são
demasiado grandes para que o contacto entre docentes e discentes possa permitir uma classificação rigorosa; nos meios rurais, os professores circulam entre
escolas. Sei de um concelho isolado, Baião, onde a escola local conheceu, no ano passado, 17 professores! O que nos conduz a outra questão, a da colocação
de professores. Em Portugal, em vez de serem as escolas a escolher os docentes, estes são seleccionados por um computador sediado no Ministério.
Aparentemente, o sistema é ideal. Na prática, é o caos. Muitos dos professores não gostam dos locais para onde o computador os manda, aproveitando para
desaparecer à menor oportunidade. O actual sistema só se mantém porque existe uma válvula de escape: o atestado médico.
Provavelmente, era inevitável que, em Portugal, as coisas se tivessem passado como se passaram. Mas lá que é uma tragédia é. As boas escolas estão hoje
reservadas aos meninos cujos pais têm dinheiro. Aos filhos dos pobres apenas é oferecida a oportunidade de servir de cobaias às experiências que os
adolescentes ideológicos do ministério inventam.