Pode ser, pai, que toda a poesia do mundo esteja nos peixes. Nos peixes dos poetas. A poesia dos peixes que os poetas desovam nos mares se não calhar estarem, como quase sempre, a falar dos rios. Nesse peixe da infância que vinha de enxurrada nas palavras do Ruy Bello e lhe podia ser um sável. Nos peixes em que jamais se abria o rio, o rio de João Cabral de Melo Neto. No peixe que luzia ao pé da estrada, e bem podia estar numa banheira, da criança loura de Pessoa. Lembras-te, pai, quando saímos para pescar gaivotas? Eu já sabia que se podiam apanhar peixes. Lembras-te, pai? Já antes, no Lobito, tinha uma cana. Nunca pesquei um peixe com a cana, pai. Mas sem o dominar, percebia já que existia um mecanismo de atracção entre os peixes e as canas, embora não soubesse ainda que os peixes que se deixam pendurar na cana perdem o rio dos poetas ou o mar que os poetas procuram para desovar. E sabia também que os pescadores de Espinho pescavam peixe com redes e juntas de bois que as puxavam para a praia. E que no Lobito se podiam apanhar peixes com frascos de vidro e pedacinhos de pão. Eu nunca tinha conseguido apanhar peixes com frascos e pão. Mas o Calita conseguia e eu já tinha visto. Em Espinho não. Os pescadores não tinham frascos de vidro. Ou não sabiam que os peixes gostam de pão. Ou não conseguiam apanhá-los tão bem como o Calita. E por isso precisavam das redes e dos bois. Como se apanham gaivotas, pai? Com um laço. E com uma praia para as gaivotas pousarem. E nós tínhamos a praia de Silvalde, pai. Só nossa, de Verão manhã, encoberto. Quando foi, pai? Talvez em setenta e cinco. E o avô Adriano tinha linha de pesca na mercearia para fazermos os laços. Então as gaivotas apanham-se como os peixes, pai. Com linha de pesca. Vamos, pai. Vamos pescar gaivotas. Lembras-te que fomos, pai. Não lembras? Que éramos os únicos na praia. Que a praia de Silvalde, nessa manhã, era uma praia de pousar gaivotas. E que fizemos os laços e estendemos a linha. E que as dunas eram o nosso esconderijo. Será que foi por eu estar sempre a espreitar, pai, que elas não pousaram? Que não, que elas só não pousaram porque nos esquecemos de pôr um peixe dentro do laço. E as gaivotas só caem do céu quando há peixe na praia, peixe de poetas, digo-te agora, pai, que nunca apanhei gaivotas e nem sequer pesquei peixes. Digo-te agora que te vejo, tão distante e tão sereno, escondido na duna. Na duna encoberta dessa manhã de setenta e cinco em que me disseste que as gaivotas se pescam com um laço feito da mesma linha com que se apanham os peixes.
* republicado
Pode ser, pai, que toda a poesia do mundo esteja nos peixes. Nos peixes dos poetas. A poesia dos peixes que os poetas desovam nos mares se não calhar estarem, como quase sempre, a falar dos rios. Nesse peixe da infância que vinha de enxurrada nas palavras do Ruy Bello e lhe podia ser um sável. Nos peixes em que jamais se abria o rio, o rio de João Cabral de Melo Neto. No peixe que luzia ao pé da estrada, e bem podia estar numa banheira, da criança loura de Pessoa. Lembras-te, pai, quando saímos para pescar gaivotas? Eu já sabia que se podiam apanhar peixes. Lembras-te, pai? Já antes, no Lobito, tinha uma cana. Nunca pesquei um peixe com a cana, pai. Mas sem o dominar, percebia já que existia um mecanismo de atracção entre os peixes e as canas, embora não soubesse ainda que os peixes que se deixam pendurar na cana perdem o rio dos poetas ou o mar que os poetas procuram para desovar. E sabia também que os pescadores de Espinho pescavam peixe com redes e juntas de bois que as puxavam para a praia. E que no Lobito se podiam apanhar peixes com frascos de vidro e pedacinhos de pão. Eu nunca tinha conseguido apanhar peixes com frascos e pão. Mas o Calita conseguia e eu já tinha visto. Em Espinho não. Os pescadores não tinham frascos de vidro. Ou não sabiam que os peixes gostam de pão. Ou não conseguiam apanhá-los tão bem como o Calita. E por isso precisavam das redes e dos bois. Como se apanham gaivotas, pai? Com um laço. E com uma praia para as gaivotas pousarem. E nós tínhamos a praia de Silvalde, pai. Só nossa, de Verão manhã, encoberto. Quando foi, pai? Talvez em setenta e cinco. E o avô Adriano tinha linha de pesca na mercearia para fazermos os laços. Então as gaivotas apanham-se como os peixes, pai. Com linha de pesca. Vamos, pai. Vamos pescar gaivotas. Lembras-te que fomos, pai. Não lembras? Que éramos os únicos na praia. Que a praia de Silvalde, nessa manhã, era uma praia de pousar gaivotas. E que fizemos os laços e estendemos a linha. E que as dunas eram o nosso esconderijo. Será que foi por eu estar sempre a espreitar, pai, que elas não pousaram? Que não, que elas só não pousaram porque nos esquecemos de pôr um peixe dentro do laço. E as gaivotas só caem do céu quando há peixe na praia, peixe de poetas, digo-te agora, pai, que nunca apanhei gaivotas e nem sequer pesquei peixes. Digo-te agora que te vejo, tão distante e tão sereno, escondido na duna. Na duna encoberta dessa manhã de setenta e cinco em que me disseste que as gaivotas se pescam com um laço feito da mesma linha com que se apanham os peixes.
* republicado