A desgraça do nosso sucesso

29-10-2013
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Sempre que o ministro das Finanças alemão fala da “chamada crise do euro” refere Portugal como um caso de sucesso. Vítor Gaspar rejubila. Os portugueses, esses, desorientados, não percebem

como é que a destruição de cerca de meio milhão de empregos e uma espiral que era recessiva mas que ameaça tornar-se depressiva possa ser classificada de sucesso. E também não percebem como é possível que, após sucessivas doses cavalares de austeridade, o défice pouco ou nada desça e Schäuble diga, sem se rir, que não há qualquer desvio e que corre tudo como previsto.

Mas a coisa torna-se definitivamente surreal quando, no exacto momento em que o Governo se prepara para voltar a cortar salários da Função Pública, voltar cortar nas pensões, voltar a cortar no subsídio de desemprego, voltar a cortar na saúde, voltar cortar na educação e - novidade - despedir milhares de funcionário públicos, Gaspar venha anunciar que estamos num momento de viragem e que, agora sim, chegou o tempo do investimento. Como é que mais do mesmo, em doses cada vez mais violentas, que só podem agravar a gravíssima crise que vivemos, pode permitir um momento de viragem é algo que só mesmo a Nossa Senhora de Fátima pode explicar.

No mundo de Gaspar, mesmo no meio de uma depressão económica, que tenderá a piorar, o investimento vai arrancar. E vai arrancar porque chegou o seu tempo, o do investimento. Ninguém, começando pelos próprios empresários, percebe como tal milagre possa acontecer. Mas Gaspar acredita, porque, na economia que aprendeu, os milagres são ciência.

No maravilhoso mundo de Gaspar não interessa que os empresários olhem à sua volta e vejam uma economia em derrocada, onde investir é a última das suas prioridades. Porque investir, para Gaspar, é uma coisa que acontece naturalmente, bastando para tal que o Estado corte na despesa, que os juros desçam e que se baixe impostos sobre lucros.

Os modelos dizem que isto cria investimento, mesmo que os investidores digam que não e que só irão investir se houver clientes e expectativas de vendas que o justifiquem. Estamos, pois, perante uma espécie de leninismo de direita, que substitui a vanguarda do proletariado pela do empresariado. Gaspar, o revolucionário, não desiste dos amanhãs que cantam.

Este governo, que é liderado por Vítor Gaspar, tem de cair porque já não representa ninguém. Não representa os interesses dos trabalhadores, não representa os interesses dos desempregados, não representa os interesses dos pensionistas, não representa os interesses dos empresários; em suma: não representa os interesses do País. Representa, apenas e só, a redução ao absurdo de uma estratégia austeritária que falhou em todos os países onde foi testada e que Gaspar, por incapacidade cognitiva, nunca abandonará. Os limites da linguagem de Gaspar são os limites do seu mundo. E Gaspar não tem outra linguagem que não aquela que olha para um deserto e insiste em chamar-lhe sucesso.

João Galamba, Economista, deputado pelo PS

Sempre que o ministro das Finanças alemão fala da “chamada crise do euro” refere Portugal como um caso de sucesso. Vítor Gaspar rejubila. Os portugueses, esses, desorientados, não percebem

como é que a destruição de cerca de meio milhão de empregos e uma espiral que era recessiva mas que ameaça tornar-se depressiva possa ser classificada de sucesso. E também não percebem como é possível que, após sucessivas doses cavalares de austeridade, o défice pouco ou nada desça e Schäuble diga, sem se rir, que não há qualquer desvio e que corre tudo como previsto.

Mas a coisa torna-se definitivamente surreal quando, no exacto momento em que o Governo se prepara para voltar a cortar salários da Função Pública, voltar cortar nas pensões, voltar a cortar no subsídio de desemprego, voltar a cortar na saúde, voltar cortar na educação e - novidade - despedir milhares de funcionário públicos, Gaspar venha anunciar que estamos num momento de viragem e que, agora sim, chegou o tempo do investimento. Como é que mais do mesmo, em doses cada vez mais violentas, que só podem agravar a gravíssima crise que vivemos, pode permitir um momento de viragem é algo que só mesmo a Nossa Senhora de Fátima pode explicar.

No mundo de Gaspar, mesmo no meio de uma depressão económica, que tenderá a piorar, o investimento vai arrancar. E vai arrancar porque chegou o seu tempo, o do investimento. Ninguém, começando pelos próprios empresários, percebe como tal milagre possa acontecer. Mas Gaspar acredita, porque, na economia que aprendeu, os milagres são ciência.

No maravilhoso mundo de Gaspar não interessa que os empresários olhem à sua volta e vejam uma economia em derrocada, onde investir é a última das suas prioridades. Porque investir, para Gaspar, é uma coisa que acontece naturalmente, bastando para tal que o Estado corte na despesa, que os juros desçam e que se baixe impostos sobre lucros.

Os modelos dizem que isto cria investimento, mesmo que os investidores digam que não e que só irão investir se houver clientes e expectativas de vendas que o justifiquem. Estamos, pois, perante uma espécie de leninismo de direita, que substitui a vanguarda do proletariado pela do empresariado. Gaspar, o revolucionário, não desiste dos amanhãs que cantam.

Este governo, que é liderado por Vítor Gaspar, tem de cair porque já não representa ninguém. Não representa os interesses dos trabalhadores, não representa os interesses dos desempregados, não representa os interesses dos pensionistas, não representa os interesses dos empresários; em suma: não representa os interesses do País. Representa, apenas e só, a redução ao absurdo de uma estratégia austeritária que falhou em todos os países onde foi testada e que Gaspar, por incapacidade cognitiva, nunca abandonará. Os limites da linguagem de Gaspar são os limites do seu mundo. E Gaspar não tem outra linguagem que não aquela que olha para um deserto e insiste em chamar-lhe sucesso.

João Galamba, Economista, deputado pelo PS

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