O tom escuro dos olhos tornou-se opaco. A voz deixou de disfarçar a falta de segurança, tremeu e perdeu clareza. Mesmo insistindo na ideia de que não se demitia logo após o escândalo de manipulação dos testes nas emissões de veículos da Volkswagen, detectado nos Estados Unidos, Martin Winterkorn, que era CEO do Grupo germânico desde 2007, não escondeu o profundo incómodo. "Para que fique bem claro: a manipulação na Volkswagen não pode repetir-se. Muitos milhões de pessoas em todo o Mundo confiam nas nossas marcas, carros e tecnologias. Lamento imenso que tenhamos traído essa confiança. Apresento o mais sentido pedido de desculpa aos nossos clientes, às autoridades e ao público em geral", disse.
O pedido não engana, mas não evitou o descalabro inicial em bolsa (quedas de mais de 20%), nem será suficiente para que o Grupo escape à multa, cujo montante pode chegar aos 16 mil milhões de euros, após a descoberta de que milhões de motores TDI, em carros vendidos desde 2009, terão software manipulado para falsear testes de poluição no mercado norte-americano. Numa primeira análise, a marca reservou 6,5 mil milhões para enfrentar os custos. E, na quarta-feira, Winterkorn demitiu-se mesmo.
"Aos funcionários da Volkswagen dirijo também algumas palavras: conheço o esforço e a sinceridade com que fazem o vosso trabalho todos os dias. Claro que, neste momento, muitas coisas são questionadas e compreendo isso. Mas seria errado colocar sob suspeita o trabalho honesto e dedicado de 600 mil pessoas em função dos erros terríveis de algumas. A nossa equipa não merece isso", defendeu.
Merkel exigiu clareza, o ministro francês das Finanças, Michel Sapin, pediu investigação à escala europeia, mas a Comissão, através da porta-voz, Lucia Caudet, num e-mail enviado à agência France Presse, considerou ser "muito cedo para isso". Caudet lembrou que o assunto "está sob investigação na Volkswagen, quer na Alemanha, quer nos Estados Unidos. É prematuro comentar se vão ser estabelecidas medidas específicas de vigilância também na Europa e se os veículos vendidos pela marca na Europa também estarão afectados", referiu.
Ascensão e conflito em Abril
Nascido em Leonberg, estado de Bäden-Wurttenberg, a 24 de Maio de 1947, Winterkorn estudou metalurgia na Universidade de Estugarda entre 1966 e 1973. A carreira começou na Robert BoschGmbH em 1977 e, quatro anos mais tarde, a evidência no desempenho levou-o para o Grupo Volkswagen. Nos anos 90 ganharia ascendente, tornando-se responsável geral para a Alemanha em 1994. Líder da Audi e das subsidiárias Seat e Lamborghini entre 2003 e 2007, a partir de 1 de Janeiro deste último ano assumiu o cargo de CEO do Grupo Volkswagen, tornando-se o herdeiro de Bernd Pischetsrieder. No ano passado foi o segundo executivo mais bem pago na Alemanha: 16,6 milhões de euros, de acordo com o diário "El País".
Em Abril, Winterkorn travara braço-de-ferro com o então presidente do Grupo, Ferdinand Piëch, tendo este colocado em causa o futuro do CEOna empresa. Porém, nessa altura os accionistas defenderam Winterkorn e Piëch não teve outro remédio que não fosse a demissão. Este processo dá razão tardia ao ex-dirigente máximo.
A tentativa de iludir governos e autoridades reguladoras (neste caso a Agência de Protecção Ambiental ou EPA) é considerada uma das acções de maior gravidade no plano de actuação de qualquer empresa. A imprensa internacional recorda o exemplo de manipulação da taxa Libor, usada como referência de juros interbancários, recurso utilizado por entidades como Barclays, UBS e Royal Bank of Scotland e que levou a processos-crime, multas e acordos extra-judiciais no valor de 35 mil milhões de dólares (31,3mil milhões de euros). Outras marcas já passaram pelo pagamento de multas no mercado dos Estados Unidos - em 2014, por exemplo, Hyundai e Kia desembolsaram 100 milhões de dólares, parte de um total de indemnizações correspondente a 300 milhões, na sequência de informação errada acerca dos níveis de poupança de combustível por quilómetros realizados.
Numa fase em que a Volkswagen procura interromper a hegemonia da Toyota como maior construtor automóvel mundial, este escândalo não só compromete o objectivo como representa danos de dimensão incalculável na imagem do Grupo responsável por veículos de marcas como Audi, Bentley, Bugatti, Lamborghini, Ducati, Porsche, Seat, Skoda ou Skania. Além disso, ter construído uma fábrica no Tennessee, investimento que equivaleu a mil milhões de dólares, deixou de ser o trunfo que os alemães esperavam. Outro compromisso de Winterkorn, transformar a empresa no maior fabricante de carros eléctricos à escala mundial, colocando um milhão a circular até 2020, passa a ser quase irrealizável.
O Conselho de Administração do Grupo está agora a analisar a sucessão, após agradecer e referir que Martin Winterkorn "não sabia" da manipulação. O ex-CEO vai ter direito a pensão de 28,6 milhões de euros e pode continuar a usar um carro da empresa.
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O tom escuro dos olhos tornou-se opaco. A voz deixou de disfarçar a falta de segurança, tremeu e perdeu clareza. Mesmo insistindo na ideia de que não se demitia logo após o escândalo de manipulação dos testes nas emissões de veículos da Volkswagen, detectado nos Estados Unidos, Martin Winterkorn, que era CEO do Grupo germânico desde 2007, não escondeu o profundo incómodo. "Para que fique bem claro: a manipulação na Volkswagen não pode repetir-se. Muitos milhões de pessoas em todo o Mundo confiam nas nossas marcas, carros e tecnologias. Lamento imenso que tenhamos traído essa confiança. Apresento o mais sentido pedido de desculpa aos nossos clientes, às autoridades e ao público em geral", disse.
O pedido não engana, mas não evitou o descalabro inicial em bolsa (quedas de mais de 20%), nem será suficiente para que o Grupo escape à multa, cujo montante pode chegar aos 16 mil milhões de euros, após a descoberta de que milhões de motores TDI, em carros vendidos desde 2009, terão software manipulado para falsear testes de poluição no mercado norte-americano. Numa primeira análise, a marca reservou 6,5 mil milhões para enfrentar os custos. E, na quarta-feira, Winterkorn demitiu-se mesmo.
"Aos funcionários da Volkswagen dirijo também algumas palavras: conheço o esforço e a sinceridade com que fazem o vosso trabalho todos os dias. Claro que, neste momento, muitas coisas são questionadas e compreendo isso. Mas seria errado colocar sob suspeita o trabalho honesto e dedicado de 600 mil pessoas em função dos erros terríveis de algumas. A nossa equipa não merece isso", defendeu.
Merkel exigiu clareza, o ministro francês das Finanças, Michel Sapin, pediu investigação à escala europeia, mas a Comissão, através da porta-voz, Lucia Caudet, num e-mail enviado à agência France Presse, considerou ser "muito cedo para isso". Caudet lembrou que o assunto "está sob investigação na Volkswagen, quer na Alemanha, quer nos Estados Unidos. É prematuro comentar se vão ser estabelecidas medidas específicas de vigilância também na Europa e se os veículos vendidos pela marca na Europa também estarão afectados", referiu.
Ascensão e conflito em Abril
Nascido em Leonberg, estado de Bäden-Wurttenberg, a 24 de Maio de 1947, Winterkorn estudou metalurgia na Universidade de Estugarda entre 1966 e 1973. A carreira começou na Robert BoschGmbH em 1977 e, quatro anos mais tarde, a evidência no desempenho levou-o para o Grupo Volkswagen. Nos anos 90 ganharia ascendente, tornando-se responsável geral para a Alemanha em 1994. Líder da Audi e das subsidiárias Seat e Lamborghini entre 2003 e 2007, a partir de 1 de Janeiro deste último ano assumiu o cargo de CEO do Grupo Volkswagen, tornando-se o herdeiro de Bernd Pischetsrieder. No ano passado foi o segundo executivo mais bem pago na Alemanha: 16,6 milhões de euros, de acordo com o diário "El País".
Em Abril, Winterkorn travara braço-de-ferro com o então presidente do Grupo, Ferdinand Piëch, tendo este colocado em causa o futuro do CEOna empresa. Porém, nessa altura os accionistas defenderam Winterkorn e Piëch não teve outro remédio que não fosse a demissão. Este processo dá razão tardia ao ex-dirigente máximo.
A tentativa de iludir governos e autoridades reguladoras (neste caso a Agência de Protecção Ambiental ou EPA) é considerada uma das acções de maior gravidade no plano de actuação de qualquer empresa. A imprensa internacional recorda o exemplo de manipulação da taxa Libor, usada como referência de juros interbancários, recurso utilizado por entidades como Barclays, UBS e Royal Bank of Scotland e que levou a processos-crime, multas e acordos extra-judiciais no valor de 35 mil milhões de dólares (31,3mil milhões de euros). Outras marcas já passaram pelo pagamento de multas no mercado dos Estados Unidos - em 2014, por exemplo, Hyundai e Kia desembolsaram 100 milhões de dólares, parte de um total de indemnizações correspondente a 300 milhões, na sequência de informação errada acerca dos níveis de poupança de combustível por quilómetros realizados.
Numa fase em que a Volkswagen procura interromper a hegemonia da Toyota como maior construtor automóvel mundial, este escândalo não só compromete o objectivo como representa danos de dimensão incalculável na imagem do Grupo responsável por veículos de marcas como Audi, Bentley, Bugatti, Lamborghini, Ducati, Porsche, Seat, Skoda ou Skania. Além disso, ter construído uma fábrica no Tennessee, investimento que equivaleu a mil milhões de dólares, deixou de ser o trunfo que os alemães esperavam. Outro compromisso de Winterkorn, transformar a empresa no maior fabricante de carros eléctricos à escala mundial, colocando um milhão a circular até 2020, passa a ser quase irrealizável.
O Conselho de Administração do Grupo está agora a analisar a sucessão, após agradecer e referir que Martin Winterkorn "não sabia" da manipulação. O ex-CEO vai ter direito a pensão de 28,6 milhões de euros e pode continuar a usar um carro da empresa.