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21-04-2015
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Páginas da História da Confraria do Santíssimo Sacramento de Vila do Conde

por Dr. José Ferreira, coordenador da «Voz da Juventude» "Tempo imemorial" Os Estatutos de 1938, aliás Estatuto-Diploma da Confraria do SS.mo Sacramento de Vila do Conde seguido de Notas Complementares, trazem a certo passo da sua nona nota os dois parágrafos seguintes: "Teve esta Contraria de Vila do Conde a honra de lembrar, na imprensa católica desta arquidiocese, a data da fundação em Roma da primeira Confraria do SS.mo Sacramento na igreja de Santa Maria sopra Minerva, e que foi aprovada por S. S. Paulo III a 30 de Novembro de 1539. Datando da mesma época a nossa Confraria, erecta na Matriz logo depois da sua conclusão, justo era que esta data fôsse celebrada com a maior imponência." Início da "Carta de venda" de 1540 O autor da desta "nota histórica" não sabia a data precisa da instituição. Por isso fala vagamente da "mesma época" da Confraria criada em Roma, apoiando-se com certeza no facto de haver em arquivo um documento de 1540, que é uma "carta de venda" de uns bens que seguramente em data posterior passaram para a posse da Confraria vilacondense. Nas linhas finais desta página, que copia um documento de 1666, menciona-se a "Confraria do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz de S. João Baptista" As actas da Câmara, pelo que vemos no artigo de Carlos Ouvidor da Costa sobre "A Procissão do Corpo de Deus nesta "Villa de Comite"", não confirmam nem desmentem a sua existência nestes anos recuados. Os Estatutos de 1850, por seu lado, eram mais contidos na determinação precisa de uma data, falando apenas "Confraria do Santíssimo Sacramento, erecta e instituída de tempo imemorial na Igreja Matriz da Vila do Conde". Os documentos antigos que existem só aludem a ela no séc. XVII, em 1663. Houvera, 40 anos antes, a instituição de uma "capela" na Matriz, que obrigava a "uma missa cada semana, diante do altar de Sto. António". Bastantes anos à frente, a tal "capela" passou para a posse da Confraria do Santíssimo. Mas a irmandade já existia de muito antes, pois só assim se explica a posse dos muitos bens mencionados em 1731, no livro intitulado Liuro do Recibo dos Cazeiros e Rendas da Confradia. No arquivo conserva-se uma cópia oitocentista de um emprazamento feito em 1666 onde, aí sim, se fala explicitamente da "Confraria do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz de S. João Baptista". Rosto dos Estatutos de 1850 O arquivo Apontador do Cartório (1850) Passado o conturbado período das lutas liberais e da instalação do novo modelo político e administrativo, sopraram sobre a Confraria do Santíssimo Sacramento de Vila do Conde ventos refrescantes de aggiornamento, de que dá testemunho a reforma dos estatutos em 1850, confirmada por alvará assinado pela rainha D. Maria II. Um testemunho mais humilde, mas muito significativo do mesmo empenho renovador é o dado por um caderninho da mesma data, intitulado Apontador do Cartório da Confraria do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz de Vila do Conde. O seu autor, preocupado com a organização do cartório, arruma-o em três colecções. Na primeira, inclui "todos os livros da Confraria", na segunda "os títulos das capelas e legados" da mesma, na terceira "todos os demais documentos e papéis". Depois faz a lista dos livros constantes de cada colecção. Veja-se: Primeira colecção: Livro Apontador do Cartório Livro dos Estatutos da Confraria Livro da Matrícula dos Irmãos Livro das Eleições e Entregas Livro das Actas de Mesa e Juntas da Confraria Livro das Contas da Receita e Despesa da Confraria do ano de 1802 a 1823 Livro das Contas do ano de 1824 e seguintes Livro do Inventário dos Bens e Alfaias da Confraria Livro das Capelas e Legados e Bens em que instituídos Livro dos Mapas dos Foros e Pensões da Confraria Livro do Recibo dos Foros, Pensões e mais Rendimentos da Confraria do ano de 1696 a 1727 Livro dito do ano de 1728 a 1730 Livro dito do ano de 1731 a 1777 Livro dito ao ano de 1778 a 1785 Livro dito do ano de 1786 e seguintes - correntes A colecção das "capelas e legados" incluía os seguintes maços: António Roiz da Silva nº 1 Ana Barroca nº 2 Madalena Ramires nº 3 Ana Carneiro nº 4 André Afonso Felgueira nº 5 Gracia Ferreira nº 6 Branca Anes nº 7 António Ramos nº 8 Maria Antónia nº 9 Isabel da Maia nº 10 Hércules Bravo nº 11 Mariana Ribeiro Raimundo nº 12 Maria Alves Sanches nº 13 Bartolomeu Reis nº 14 Beatriz ou Brites Francisca nº 15 António Maio nº 16 Andresa Nogueira n º17 Francisco Rodrigues nº 18 Afonso da Silva nº 19 Manuel António Correia nº 20 Rev.do Miguel de Pontes nº 21 Salvador d'Abreu nº 22 Simão Afonso nº 23 António do Souto de Resende nº 24 José Leite de Brito nº 25 José António Gavinho nº 26 Maria das Dores Benedita e irmã Ana Luísa de Jesus Lobo nº 27 D. Teresa Ludovina de Azevedo nº 28 Maria dos Anjos nº 29 Agora, a terceira colecção, a dos "diversos documentos e papéis", arrumados também em maços: Escrituras de dinheiro a juro da Confraria - A Compras feitas pela Confraria - B Tombos da Confraria - C Sentenças da Confraria - D Papéis avulsos - E Documentos das contas da Confraria - F Correspondência da Confraria - G Recenseamento e pautas das eleições - H O livrinho completa-se com seis "advertências" a ter em conta no manuseamento e conservação do cartório. Sabendo-se como é reduzido na actualidade o espólio documental desta Confraria, fácil é de ver como é valiosa a informação veiculada por este "apontador". Aliás, visto ser improvável que toda esta documentação tenha sido destruída, quem sabe se não será ainda possível um dia reconstituir, ao menos parcialmente, este arquivo? Como a irmandade continuou até à actualidade, existem hoje mais uns dois ou três livros, porque também todo o resto da documentação produzida se extraviou. O Arquivo Municipal guarda também alguma memória desta Confraria, de finais do século XIX, princípios do XX, quando era obrigatório entregar na Câmara as cont as das irmandades. Os Estatutos de 1938 Estes Estatutos de 1938 são bem mais do que o habitual livro das normas por que se rege uma irmandade, como os de 1850 ou de 1934. Compostos por duas partes - "O Estatuto" e "Notas Regulamentares" -, trazem ainda um breve apêndice a estas notas. O livro, uma brochura impressa, possui um teor marcadamente apologético, provavelmente devida à dinâmica imposta pelo jovem pároco, o P.e Porfírio Alves: cita hinos litúrgicos, contém orações, extractos noticiosos, fotografias de dois bispos, do juiz e do pároco, outras ilustrações. Haveria alguma abundância de dinheiro, pois o "juiz honorário e perpétuo", comendador António Fernandes da Costa, já doara à Confraria "a importante soma de Esc. 4.700$00", como sem grande pudor se alardeia abaixo da sua fotografia. A mesa em exercício ufana-se de em três anos ter elevado o número de irmãos de 296 para 652. Fotografia do jovem sacerdote P.e Porfírio Alves nos Estatutos de 1938 A mística da Confraria Como parte da Igreja, a Confraria do santíssimo deve pugnar pelos valores que a orientam. Os Estatutos de 1838 falam do empenho em "eucaristizar toda a vila". A prossecução deste objectivo começava por dentro, desde o princípio. Leia-se o extracto seguinte: "Cada irmão deve, no dia da sua inscrição nesta Confraria, confessar-se e comungar, e fazer a consagração seguinte, que deve renovar muitas vezes durante tôda a sua vida: Em nome do Padre, do Filho e do Espirito Santo, eu (nome), embora indigno, porém cheio de confiança na divina graça, sob a protecção da Virgem Imaculada Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, e de S. Miguel Arcanjo, S. José, S. Pedro e S. Paulo, do discípulo amado S. João e S. Pascoal Bailão, me entrego totalmente com todo o meu coração, com tôda a minha alma e com tôdas as minhas fôrças a Jesus, verdadeira, rial e substâncialmente presente no Santíssimo Sacramento, escolhendo-O por dono da minha vida e, com o fim de tributar-Lhe as mais esplendidas homenagens na Eucaristia e trabalhar com a maior eficácia, como valente soldado do grande Rei, para que reine o seu amor em mim, na minha familia e em tôda a minha fréguesia, prometo cumprir fielmente o Estatuto da Confraria do SS.mo Sacramento e seguir o seu espírito para glória e amor de Jesus Sacramentado. Confirma em mim, ó meu Deus, a obra da vossa graça. Ó Maria, divina Mãi do Salvador e terna Mãi minha, dirige-me no Serviço de Jesus Eucarístico, afim de conseguir agradar-Lhe e depois da morte tenha a felicidade de louvá-lO por toda a eternidade. Assim seja." Rosto do livro de 1786 onde se registam os foros, os juros e as pensões Também para as sessões da Assembleia Geral se preceitua uma oração, que é apresentada em latim e português. Veja-se a versão vernácula para o início: "V.) Graças e louvores se dêem a todo o momento. R.) Ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento. V.) Bendita seja a Santa e Imaculada Conceição. R.) Da Puríssima Virgem Maria, Mai de Deus. Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fieis, e acendei nêles o fogo do vosso amor. V.) Senhor, enviai o vosso Espírito e tudo será creado... R.) E renovareis a face da terra. Oremos Iluminai, Senhor, nós vo-lo pedimos, as nossas inteligências com a luz da vossa caridade, a-fim-de que possamos conhecer e executar rectamente as obras do vosso santo agrado. Por Jesus Cristo Senhor Nosso. R.) Assim seja." A assembleia devia encerrar-se assim: V.) Confirmai ó Deus... R.) Tudo o que operaste em nós. V.) O Senhor seja convosco. R.) E com o teu espírito. Oremos Concedei-nos Senhor, nós vo-lo suplicamos, o auxílio da vossa graça para que, tendo conhecido por vosso meio o que havemos de fazer, também por vosso intermédio o executemos. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. R.) Assim seja." Às vezes corre-se o risco de pretender ficar com as aparências, com ornamentações, foguetes, festas, esquecendo que falta o móbil autêntico, nascido de uma dinâmica de fé, a mística que através dos tempos animou gerações de fiéis. A festa de 1939 Veja-se como nos Estatutos de 1938 (aprovados em 38 mas publicados em 39), se guarda memória da festa do "Centenário", em 1939: "No dia 11 de Junho do ano corrente realizou-se em Vila do Conde uma apoteótica festa ao SS.mo Sacramento para comemorar o Centenário da Confraria da Igreja Matriz. Já há anos que Vila do Conde prima nas testas ao SS.mo Sacramento; ninguém a iguala em entusiasmo nem no gosto das ornamentações. Não se poupam a sacrifícios o Rev. Senhor P.e Porfírio, Rev. P.e Jorge Machado, Rev. clero da vila, as autoridades administrativas, a Mesa da Confraria e o bom povo vilacondense para imprimirem nestas festas atraentes o sorriso, a alegria e a fé da progressiva vila. Porém êste ano suplantaram as festas tôdas as espectativas e brilho dos demais anos. Nunca vimos tal maravilha! Transformaram a vila num cenário enorme de flôres, trouxeram-nas de tôda a parte e em todos os meios de transporte. Não descuidaram os organizadores a preparação espiritual, que foi feita pelo grande apóstolo da Acção Católica, Senhor P.e Domingos Gonçalves, numa série de prégações a que acorreu o povo todo da vila. No domingo de manhã houve missa e comunhão geral. Ás 10 horas S. Ex.a Rev.ma o Senhor Arcebispo Primaz foi esperado tio extremo da vila por todas as autoridades, pelo activo e zeloso Pároco, por tudo o que havia de representativo na vila e pelo bom povo que não se cansava de manifestar a sua alegria em vivas ao Grande Pastor, que vinha presidir á sua festa. Organizou-se o cortejo em direcção ao salão das Juventudes onde foram apresentadas solenemente as boas vindas. Depois o senhor Arcebispo paramentou-se ajudado pelos Senhores Cónegos Novais e Sousa, Pires, Monsenhor Pereira, Ribeiro e Azevedo, sendo mestres de cerimónias os Rev.dos P.es Miranda e Azevêdo. Formada a procissão, que se dirigiu à Igreja Matriz, S. Ex.a Rev.ma celebrou o Pontifical, havendo ao ofertório sermão. Em lugares de destaque encontravam-se as autoridades da vila, e o seu ilustre filho o catedrático e membro da Câmara Corporativa Senhor Dr. Abel Andrade. Logo que findou o Pontifical dirigiram-se todos os convidados para a residência Paroquial onde foi servido um primoroso jantar; aos brindes falou o senhor Arcebispo Primaz agradecendo o carinho com que foi rodeado em todas as manifestações e saudou o Senhor Dr. Abel Andrade, pondo em destaque as suas belas qualidades; o homenageado agradeceu as palavras do ilustre Antístite, e falaram em seguida os Senhores P.e Porfírio Alves e P.e Jorge Machado. Página de um documento de 1595 Às 5 horas realizou-se a magestosa procissão Eucarística levando S. Ex.a Rev.ma a Sagrada Custódia num cortejo verdadeiramente triunfal. Os tapetes de flores estavam feitos artisticamente e numa enorme extensão, formando lindíssimos feitios alusivos à SS.ma Eucaristia e no trajecto as flôres, lançadas das sacadas engalanadas de colchas de damasco, formavam uma verdadeira nuvem policroma de flôres. Na retaguarda do Pálio e ás lanternas seguiam as pessoas mais gradas da vila, o Senhor Comendador Fernandes da Costa, o Senhor Dr. Abel de Andrade, etc. Junto do rio Ave, a SS.ma Eucaristia foi colocada num estrado muito bem ornamentado, organizando então o Reverendo Pároco um comovente côro falado em que as juventudes católicas e as criancinhas vibraram de entusiasmo e de fé, junto à grande multidão de povo da Vila e forasteiros que acorreram para gozar o maravilhoso espectáculo. No fim lançou o Senhor Arcebispo Primaz a Benção do SS.mo Sacramento de cima do estrado. Reorganizada a procissão, S. Ex.a Rev.ma deu de novo a Benção do SS.mo junto à Câmara Municipal onde o povo deu largas às manifestações espontâneas de fé. Quando S. Ex.a Rev.ma se retirou, o povo deu muitos vivas ao Senhor Arcebispo Primaz, ao Papa e a Cristo Rei. Oxalá que as festas ao SS.mo Sacramento de Vila do Conde nunca diminuam no seu brilho e na sua fé e sirvam de exemplo áqueles que diziam que sem romarias de batuques o nosso povo alegre não podia expandir-se." Vila do Conde, Julho de 2001 José Ferreira Coordenador da «Voz da Juventude»

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Páginas da História da Confraria do Santíssimo Sacramento de Vila do Conde

por Dr. José Ferreira, coordenador da «Voz da Juventude» "Tempo imemorial" Os Estatutos de 1938, aliás Estatuto-Diploma da Confraria do SS.mo Sacramento de Vila do Conde seguido de Notas Complementares, trazem a certo passo da sua nona nota os dois parágrafos seguintes: "Teve esta Contraria de Vila do Conde a honra de lembrar, na imprensa católica desta arquidiocese, a data da fundação em Roma da primeira Confraria do SS.mo Sacramento na igreja de Santa Maria sopra Minerva, e que foi aprovada por S. S. Paulo III a 30 de Novembro de 1539. Datando da mesma época a nossa Confraria, erecta na Matriz logo depois da sua conclusão, justo era que esta data fôsse celebrada com a maior imponência." Início da "Carta de venda" de 1540 O autor da desta "nota histórica" não sabia a data precisa da instituição. Por isso fala vagamente da "mesma época" da Confraria criada em Roma, apoiando-se com certeza no facto de haver em arquivo um documento de 1540, que é uma "carta de venda" de uns bens que seguramente em data posterior passaram para a posse da Confraria vilacondense. Nas linhas finais desta página, que copia um documento de 1666, menciona-se a "Confraria do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz de S. João Baptista" As actas da Câmara, pelo que vemos no artigo de Carlos Ouvidor da Costa sobre "A Procissão do Corpo de Deus nesta "Villa de Comite"", não confirmam nem desmentem a sua existência nestes anos recuados. Os Estatutos de 1850, por seu lado, eram mais contidos na determinação precisa de uma data, falando apenas "Confraria do Santíssimo Sacramento, erecta e instituída de tempo imemorial na Igreja Matriz da Vila do Conde". Os documentos antigos que existem só aludem a ela no séc. XVII, em 1663. Houvera, 40 anos antes, a instituição de uma "capela" na Matriz, que obrigava a "uma missa cada semana, diante do altar de Sto. António". Bastantes anos à frente, a tal "capela" passou para a posse da Confraria do Santíssimo. Mas a irmandade já existia de muito antes, pois só assim se explica a posse dos muitos bens mencionados em 1731, no livro intitulado Liuro do Recibo dos Cazeiros e Rendas da Confradia. No arquivo conserva-se uma cópia oitocentista de um emprazamento feito em 1666 onde, aí sim, se fala explicitamente da "Confraria do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz de S. João Baptista". Rosto dos Estatutos de 1850 O arquivo Apontador do Cartório (1850) Passado o conturbado período das lutas liberais e da instalação do novo modelo político e administrativo, sopraram sobre a Confraria do Santíssimo Sacramento de Vila do Conde ventos refrescantes de aggiornamento, de que dá testemunho a reforma dos estatutos em 1850, confirmada por alvará assinado pela rainha D. Maria II. Um testemunho mais humilde, mas muito significativo do mesmo empenho renovador é o dado por um caderninho da mesma data, intitulado Apontador do Cartório da Confraria do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz de Vila do Conde. O seu autor, preocupado com a organização do cartório, arruma-o em três colecções. Na primeira, inclui "todos os livros da Confraria", na segunda "os títulos das capelas e legados" da mesma, na terceira "todos os demais documentos e papéis". Depois faz a lista dos livros constantes de cada colecção. Veja-se: Primeira colecção: Livro Apontador do Cartório Livro dos Estatutos da Confraria Livro da Matrícula dos Irmãos Livro das Eleições e Entregas Livro das Actas de Mesa e Juntas da Confraria Livro das Contas da Receita e Despesa da Confraria do ano de 1802 a 1823 Livro das Contas do ano de 1824 e seguintes Livro do Inventário dos Bens e Alfaias da Confraria Livro das Capelas e Legados e Bens em que instituídos Livro dos Mapas dos Foros e Pensões da Confraria Livro do Recibo dos Foros, Pensões e mais Rendimentos da Confraria do ano de 1696 a 1727 Livro dito do ano de 1728 a 1730 Livro dito do ano de 1731 a 1777 Livro dito ao ano de 1778 a 1785 Livro dito do ano de 1786 e seguintes - correntes A colecção das "capelas e legados" incluía os seguintes maços: António Roiz da Silva nº 1 Ana Barroca nº 2 Madalena Ramires nº 3 Ana Carneiro nº 4 André Afonso Felgueira nº 5 Gracia Ferreira nº 6 Branca Anes nº 7 António Ramos nº 8 Maria Antónia nº 9 Isabel da Maia nº 10 Hércules Bravo nº 11 Mariana Ribeiro Raimundo nº 12 Maria Alves Sanches nº 13 Bartolomeu Reis nº 14 Beatriz ou Brites Francisca nº 15 António Maio nº 16 Andresa Nogueira n º17 Francisco Rodrigues nº 18 Afonso da Silva nº 19 Manuel António Correia nº 20 Rev.do Miguel de Pontes nº 21 Salvador d'Abreu nº 22 Simão Afonso nº 23 António do Souto de Resende nº 24 José Leite de Brito nº 25 José António Gavinho nº 26 Maria das Dores Benedita e irmã Ana Luísa de Jesus Lobo nº 27 D. Teresa Ludovina de Azevedo nº 28 Maria dos Anjos nº 29 Agora, a terceira colecção, a dos "diversos documentos e papéis", arrumados também em maços: Escrituras de dinheiro a juro da Confraria - A Compras feitas pela Confraria - B Tombos da Confraria - C Sentenças da Confraria - D Papéis avulsos - E Documentos das contas da Confraria - F Correspondência da Confraria - G Recenseamento e pautas das eleições - H O livrinho completa-se com seis "advertências" a ter em conta no manuseamento e conservação do cartório. Sabendo-se como é reduzido na actualidade o espólio documental desta Confraria, fácil é de ver como é valiosa a informação veiculada por este "apontador". Aliás, visto ser improvável que toda esta documentação tenha sido destruída, quem sabe se não será ainda possível um dia reconstituir, ao menos parcialmente, este arquivo? Como a irmandade continuou até à actualidade, existem hoje mais uns dois ou três livros, porque também todo o resto da documentação produzida se extraviou. O Arquivo Municipal guarda também alguma memória desta Confraria, de finais do século XIX, princípios do XX, quando era obrigatório entregar na Câmara as cont as das irmandades. Os Estatutos de 1938 Estes Estatutos de 1938 são bem mais do que o habitual livro das normas por que se rege uma irmandade, como os de 1850 ou de 1934. Compostos por duas partes - "O Estatuto" e "Notas Regulamentares" -, trazem ainda um breve apêndice a estas notas. O livro, uma brochura impressa, possui um teor marcadamente apologético, provavelmente devida à dinâmica imposta pelo jovem pároco, o P.e Porfírio Alves: cita hinos litúrgicos, contém orações, extractos noticiosos, fotografias de dois bispos, do juiz e do pároco, outras ilustrações. Haveria alguma abundância de dinheiro, pois o "juiz honorário e perpétuo", comendador António Fernandes da Costa, já doara à Confraria "a importante soma de Esc. 4.700$00", como sem grande pudor se alardeia abaixo da sua fotografia. A mesa em exercício ufana-se de em três anos ter elevado o número de irmãos de 296 para 652. Fotografia do jovem sacerdote P.e Porfírio Alves nos Estatutos de 1938 A mística da Confraria Como parte da Igreja, a Confraria do santíssimo deve pugnar pelos valores que a orientam. Os Estatutos de 1838 falam do empenho em "eucaristizar toda a vila". A prossecução deste objectivo começava por dentro, desde o princípio. Leia-se o extracto seguinte: "Cada irmão deve, no dia da sua inscrição nesta Confraria, confessar-se e comungar, e fazer a consagração seguinte, que deve renovar muitas vezes durante tôda a sua vida: Em nome do Padre, do Filho e do Espirito Santo, eu (nome), embora indigno, porém cheio de confiança na divina graça, sob a protecção da Virgem Imaculada Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, e de S. Miguel Arcanjo, S. José, S. Pedro e S. Paulo, do discípulo amado S. João e S. Pascoal Bailão, me entrego totalmente com todo o meu coração, com tôda a minha alma e com tôdas as minhas fôrças a Jesus, verdadeira, rial e substâncialmente presente no Santíssimo Sacramento, escolhendo-O por dono da minha vida e, com o fim de tributar-Lhe as mais esplendidas homenagens na Eucaristia e trabalhar com a maior eficácia, como valente soldado do grande Rei, para que reine o seu amor em mim, na minha familia e em tôda a minha fréguesia, prometo cumprir fielmente o Estatuto da Confraria do SS.mo Sacramento e seguir o seu espírito para glória e amor de Jesus Sacramentado. Confirma em mim, ó meu Deus, a obra da vossa graça. Ó Maria, divina Mãi do Salvador e terna Mãi minha, dirige-me no Serviço de Jesus Eucarístico, afim de conseguir agradar-Lhe e depois da morte tenha a felicidade de louvá-lO por toda a eternidade. Assim seja." Rosto do livro de 1786 onde se registam os foros, os juros e as pensões Também para as sessões da Assembleia Geral se preceitua uma oração, que é apresentada em latim e português. Veja-se a versão vernácula para o início: "V.) Graças e louvores se dêem a todo o momento. R.) Ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento. V.) Bendita seja a Santa e Imaculada Conceição. R.) Da Puríssima Virgem Maria, Mai de Deus. Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fieis, e acendei nêles o fogo do vosso amor. V.) Senhor, enviai o vosso Espírito e tudo será creado... R.) E renovareis a face da terra. Oremos Iluminai, Senhor, nós vo-lo pedimos, as nossas inteligências com a luz da vossa caridade, a-fim-de que possamos conhecer e executar rectamente as obras do vosso santo agrado. Por Jesus Cristo Senhor Nosso. R.) Assim seja." A assembleia devia encerrar-se assim: V.) Confirmai ó Deus... R.) Tudo o que operaste em nós. V.) O Senhor seja convosco. R.) E com o teu espírito. Oremos Concedei-nos Senhor, nós vo-lo suplicamos, o auxílio da vossa graça para que, tendo conhecido por vosso meio o que havemos de fazer, também por vosso intermédio o executemos. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. R.) Assim seja." Às vezes corre-se o risco de pretender ficar com as aparências, com ornamentações, foguetes, festas, esquecendo que falta o móbil autêntico, nascido de uma dinâmica de fé, a mística que através dos tempos animou gerações de fiéis. A festa de 1939 Veja-se como nos Estatutos de 1938 (aprovados em 38 mas publicados em 39), se guarda memória da festa do "Centenário", em 1939: "No dia 11 de Junho do ano corrente realizou-se em Vila do Conde uma apoteótica festa ao SS.mo Sacramento para comemorar o Centenário da Confraria da Igreja Matriz. Já há anos que Vila do Conde prima nas testas ao SS.mo Sacramento; ninguém a iguala em entusiasmo nem no gosto das ornamentações. Não se poupam a sacrifícios o Rev. Senhor P.e Porfírio, Rev. P.e Jorge Machado, Rev. clero da vila, as autoridades administrativas, a Mesa da Confraria e o bom povo vilacondense para imprimirem nestas festas atraentes o sorriso, a alegria e a fé da progressiva vila. Porém êste ano suplantaram as festas tôdas as espectativas e brilho dos demais anos. Nunca vimos tal maravilha! Transformaram a vila num cenário enorme de flôres, trouxeram-nas de tôda a parte e em todos os meios de transporte. Não descuidaram os organizadores a preparação espiritual, que foi feita pelo grande apóstolo da Acção Católica, Senhor P.e Domingos Gonçalves, numa série de prégações a que acorreu o povo todo da vila. No domingo de manhã houve missa e comunhão geral. Ás 10 horas S. Ex.a Rev.ma o Senhor Arcebispo Primaz foi esperado tio extremo da vila por todas as autoridades, pelo activo e zeloso Pároco, por tudo o que havia de representativo na vila e pelo bom povo que não se cansava de manifestar a sua alegria em vivas ao Grande Pastor, que vinha presidir á sua festa. Organizou-se o cortejo em direcção ao salão das Juventudes onde foram apresentadas solenemente as boas vindas. Depois o senhor Arcebispo paramentou-se ajudado pelos Senhores Cónegos Novais e Sousa, Pires, Monsenhor Pereira, Ribeiro e Azevedo, sendo mestres de cerimónias os Rev.dos P.es Miranda e Azevêdo. Formada a procissão, que se dirigiu à Igreja Matriz, S. Ex.a Rev.ma celebrou o Pontifical, havendo ao ofertório sermão. Em lugares de destaque encontravam-se as autoridades da vila, e o seu ilustre filho o catedrático e membro da Câmara Corporativa Senhor Dr. Abel Andrade. Logo que findou o Pontifical dirigiram-se todos os convidados para a residência Paroquial onde foi servido um primoroso jantar; aos brindes falou o senhor Arcebispo Primaz agradecendo o carinho com que foi rodeado em todas as manifestações e saudou o Senhor Dr. Abel Andrade, pondo em destaque as suas belas qualidades; o homenageado agradeceu as palavras do ilustre Antístite, e falaram em seguida os Senhores P.e Porfírio Alves e P.e Jorge Machado. Página de um documento de 1595 Às 5 horas realizou-se a magestosa procissão Eucarística levando S. Ex.a Rev.ma a Sagrada Custódia num cortejo verdadeiramente triunfal. Os tapetes de flores estavam feitos artisticamente e numa enorme extensão, formando lindíssimos feitios alusivos à SS.ma Eucaristia e no trajecto as flôres, lançadas das sacadas engalanadas de colchas de damasco, formavam uma verdadeira nuvem policroma de flôres. Na retaguarda do Pálio e ás lanternas seguiam as pessoas mais gradas da vila, o Senhor Comendador Fernandes da Costa, o Senhor Dr. Abel de Andrade, etc. Junto do rio Ave, a SS.ma Eucaristia foi colocada num estrado muito bem ornamentado, organizando então o Reverendo Pároco um comovente côro falado em que as juventudes católicas e as criancinhas vibraram de entusiasmo e de fé, junto à grande multidão de povo da Vila e forasteiros que acorreram para gozar o maravilhoso espectáculo. No fim lançou o Senhor Arcebispo Primaz a Benção do SS.mo Sacramento de cima do estrado. Reorganizada a procissão, S. Ex.a Rev.ma deu de novo a Benção do SS.mo junto à Câmara Municipal onde o povo deu largas às manifestações espontâneas de fé. Quando S. Ex.a Rev.ma se retirou, o povo deu muitos vivas ao Senhor Arcebispo Primaz, ao Papa e a Cristo Rei. Oxalá que as festas ao SS.mo Sacramento de Vila do Conde nunca diminuam no seu brilho e na sua fé e sirvam de exemplo áqueles que diziam que sem romarias de batuques o nosso povo alegre não podia expandir-se." Vila do Conde, Julho de 2001 José Ferreira Coordenador da «Voz da Juventude»

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