O partido enquistado

10-07-2011
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Organismos unicelulares há que, mal vêem ameaçada a sua sobrevivência, tratam de enrijecer a membrana exterior e ficam assim a aguardar melhores momentos, protegidos das intempéries. Volvendo os dias felizes, lá regressam à vida normal.

O PCP representa um outro tipo de adaptação: a avariada. Hoje, os tempos correm de feição para quem se define como pólo de descontentamento; Norte dos ansiosos, desempregados e oprimidos. Enquanto a crise durar, PCP e BE têm o saco dos votos garantidamente cheios. E que se aguardaria do PCP nestes dias de luta esperançosa? Abertura a novas formas de pensar talvez fosse de mais. Mas por que não a uma nova forma de falar? Não teriam tudo a ganhar em, ao menos, fingir que aprenderam algo com as últimas décadas, deixar de fazer de conta que se vive em 1950?

Ao que parece, não. O discurso de hoje de Jerónimo de Sousa continua exclusivamente virado para os fiéis, evitando qualquer tentativa de sedução a apoiantes ou votantes que venham “de fora”. Já não sei bem se o bloco de Leste caiu por causa de uma ofensiva capitalista ou corroído pelas traições dos seus dirigentes dissolutos. Nem quero saber, francamente. Já nem me incomodam as referências ao regime aberrante da Coreia do Norte ou a menção à ditadura castrista como «exemplo revolucionário».

Ignoro se tal alguma vez iria voltar a acontecer, mesmo sem ter ouvido este discurso; mas estou agora certo de que nunca, nunca mais votarei no PCP.

No meio da pesada névoa do jargão de Jerónimo, Albano & companhia, juncado de «contradições insanáveis» e atravancado de ruídos como o «carácter parasitário e decadente do capitalismo», já ninguém consegue mesmo ver o mundo lá fora. Depois de, há uns anos, se terem encarniçado em perseguições aos camaradas menos “firmes”, convenceram-se de que o seu poderzinho cresceu até englobar todo o mundo. Mas foi ao contrário: o PCP encolhe e continuará a encolher até implodir numa espécie de buraco negro de que nada poderá fugir. Todos são inimigos ou malta a merecer pouca confiança: Manuel Alegre quer apenas «suster e combater as possibilidades de deslocação para o PCP». O BE resume-se a uma força «de verbo radical e esquerdista». Mesmo o povo só pode ser é esquizóide, uma vez que deu a maioria absoluta ao PS por causa de um «vasto descontentamento com os Governos do PS-CDS-PP». Claro; o quadradinho da CDU deve ter sido obnubilado pelos esbirros da reacção e ninguém conseguiu canalizar para lá esse vasto repúdio. Isto não é viver no passado. É abraçar uma visão solipsista e disfuncional do universo.

Mal a maré da crise recue, palpita-me que o PCP vai dar consigo naufragado e só, continuado a ecoar os mesmos chavões, mas já para ninguém.

Organismos unicelulares há que, mal vêem ameaçada a sua sobrevivência, tratam de enrijecer a membrana exterior e ficam assim a aguardar melhores momentos, protegidos das intempéries. Volvendo os dias felizes, lá regressam à vida normal.

O PCP representa um outro tipo de adaptação: a avariada. Hoje, os tempos correm de feição para quem se define como pólo de descontentamento; Norte dos ansiosos, desempregados e oprimidos. Enquanto a crise durar, PCP e BE têm o saco dos votos garantidamente cheios. E que se aguardaria do PCP nestes dias de luta esperançosa? Abertura a novas formas de pensar talvez fosse de mais. Mas por que não a uma nova forma de falar? Não teriam tudo a ganhar em, ao menos, fingir que aprenderam algo com as últimas décadas, deixar de fazer de conta que se vive em 1950?

Ao que parece, não. O discurso de hoje de Jerónimo de Sousa continua exclusivamente virado para os fiéis, evitando qualquer tentativa de sedução a apoiantes ou votantes que venham “de fora”. Já não sei bem se o bloco de Leste caiu por causa de uma ofensiva capitalista ou corroído pelas traições dos seus dirigentes dissolutos. Nem quero saber, francamente. Já nem me incomodam as referências ao regime aberrante da Coreia do Norte ou a menção à ditadura castrista como «exemplo revolucionário».

Ignoro se tal alguma vez iria voltar a acontecer, mesmo sem ter ouvido este discurso; mas estou agora certo de que nunca, nunca mais votarei no PCP.

No meio da pesada névoa do jargão de Jerónimo, Albano & companhia, juncado de «contradições insanáveis» e atravancado de ruídos como o «carácter parasitário e decadente do capitalismo», já ninguém consegue mesmo ver o mundo lá fora. Depois de, há uns anos, se terem encarniçado em perseguições aos camaradas menos “firmes”, convenceram-se de que o seu poderzinho cresceu até englobar todo o mundo. Mas foi ao contrário: o PCP encolhe e continuará a encolher até implodir numa espécie de buraco negro de que nada poderá fugir. Todos são inimigos ou malta a merecer pouca confiança: Manuel Alegre quer apenas «suster e combater as possibilidades de deslocação para o PCP». O BE resume-se a uma força «de verbo radical e esquerdista». Mesmo o povo só pode ser é esquizóide, uma vez que deu a maioria absoluta ao PS por causa de um «vasto descontentamento com os Governos do PS-CDS-PP». Claro; o quadradinho da CDU deve ter sido obnubilado pelos esbirros da reacção e ninguém conseguiu canalizar para lá esse vasto repúdio. Isto não é viver no passado. É abraçar uma visão solipsista e disfuncional do universo.

Mal a maré da crise recue, palpita-me que o PCP vai dar consigo naufragado e só, continuado a ecoar os mesmos chavões, mas já para ninguém.

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