Sobre a minha proposta de acabar com as claques de futebol vários leitores deixam protestos e perguntas. Um deles é Sir Haiva, destacado membro da Fúria Azul. Para quem não sabe a Fúria Azul é a claque organizada do Clube de Futebol Os Belenenses, esse clube catita da cidade de Lisboa. Bem. Os adeptos da Fúria Azul são quase tão numerosos como os liberais da escola de Viena. Cinco ou seis membros com uma média de idades perto dos setenta anos. Aliás, sei de fonte segura que a “claque” foi proibida de gritar durante os jogos porque o esforço podia provocar problemas cardíacos aos “ultra”. Para além do mais, consta que os berros provocavam um eco desalmado, o que por vezes desconcentrava os jogadores.Deixemos de lado o Sir Haiva e o Belenenses. Só por terem a mania das grandezas é que podiam julgar que este poste era para eles. Tratemos da matéria de facto.E a festa? E as coreografias?É muito giro. E isso compensa as agressões, os roubos e as cadeiras voadoras que normalmente acertam em quem, desconhecendo a realidade, só ali foi ver um jogo de futebol?Falo por mim. Canto, salto e grito. Nunca precisei de fazer parte de uma claque para o fazer. Também nunca precisei de roubar chocolates em postos de abastecimento, disparar very lights ou de rachar cabeças com tacos de basebol para “apoiar o clube”. Abdico com prazer das coreografias da claque benfiquista em nome da tranquilidade de saber que não levo com uma pedra da calçada só porque levei a minha camisa verde para o estádio da luz.Mais. Nos grandes clubes (realidade que o Sir Haiva desconhece) a existência de duas ou três claques distintas causa mais chinfrim que festa. Uns gritam Benfica. Outros gritam SLB. Uns cantam o “glorioso” os outros “ser benfiquista”. E quando falta uma claque adversária, para não perderem a prática, costumam distribuir fruta uns aos outros. Em causa devem estar diferenças ideológicas irreconciliáveis. É absurdo.Há diferenças entre as claques e os dirigentes que “incendeiam os adeptos”?Esse é um problema dos adeptos. Não entendo sequer a relação entre as fanfarronices dos presidentes e o roubo de chocolates em postos de abastecimento. Mas admitindo que existe uma relação. Será que há diferenças entre as duas espécies? Claro que sim. Os dirigentes vêm os jogos em camarotes onde o champagne é à borla. Os adeptos vêm os jogos em cadeiras de plástico proibidos de consumir álcool dentro do estádio. Os dirigentes acabam a noite numa boite com umas meninas brasileiras. Os adeptos acabam a noite numa cela de prisão com uns meninos brasileiros. Os adeptos racham umas cabeças à conta do amor ao clube e das últimas provocações do presidente. Os dirigentes racham umas garrafas entre eles à conta das quotas dos adeptos. Há diferenças. Claro. Uns são parvos por profissão. Outros são parvos por ingenuidade.E um último argumento. O meu filho tem dois anos. No futuro, devo evitar levá-lo ao futebol só porque há uns selvagens que se matam à conta do Visconde de Alvalade não ter nascido no bairro de benfica? Em vez de me pedirem isso, que tal acabar com as claques?[Rodrigo Moita de Deus]
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Sobre a minha proposta de acabar com as claques de futebol vários leitores deixam protestos e perguntas. Um deles é Sir Haiva, destacado membro da Fúria Azul. Para quem não sabe a Fúria Azul é a claque organizada do Clube de Futebol Os Belenenses, esse clube catita da cidade de Lisboa. Bem. Os adeptos da Fúria Azul são quase tão numerosos como os liberais da escola de Viena. Cinco ou seis membros com uma média de idades perto dos setenta anos. Aliás, sei de fonte segura que a “claque” foi proibida de gritar durante os jogos porque o esforço podia provocar problemas cardíacos aos “ultra”. Para além do mais, consta que os berros provocavam um eco desalmado, o que por vezes desconcentrava os jogadores.Deixemos de lado o Sir Haiva e o Belenenses. Só por terem a mania das grandezas é que podiam julgar que este poste era para eles. Tratemos da matéria de facto.E a festa? E as coreografias?É muito giro. E isso compensa as agressões, os roubos e as cadeiras voadoras que normalmente acertam em quem, desconhecendo a realidade, só ali foi ver um jogo de futebol?Falo por mim. Canto, salto e grito. Nunca precisei de fazer parte de uma claque para o fazer. Também nunca precisei de roubar chocolates em postos de abastecimento, disparar very lights ou de rachar cabeças com tacos de basebol para “apoiar o clube”. Abdico com prazer das coreografias da claque benfiquista em nome da tranquilidade de saber que não levo com uma pedra da calçada só porque levei a minha camisa verde para o estádio da luz.Mais. Nos grandes clubes (realidade que o Sir Haiva desconhece) a existência de duas ou três claques distintas causa mais chinfrim que festa. Uns gritam Benfica. Outros gritam SLB. Uns cantam o “glorioso” os outros “ser benfiquista”. E quando falta uma claque adversária, para não perderem a prática, costumam distribuir fruta uns aos outros. Em causa devem estar diferenças ideológicas irreconciliáveis. É absurdo.Há diferenças entre as claques e os dirigentes que “incendeiam os adeptos”?Esse é um problema dos adeptos. Não entendo sequer a relação entre as fanfarronices dos presidentes e o roubo de chocolates em postos de abastecimento. Mas admitindo que existe uma relação. Será que há diferenças entre as duas espécies? Claro que sim. Os dirigentes vêm os jogos em camarotes onde o champagne é à borla. Os adeptos vêm os jogos em cadeiras de plástico proibidos de consumir álcool dentro do estádio. Os dirigentes acabam a noite numa boite com umas meninas brasileiras. Os adeptos acabam a noite numa cela de prisão com uns meninos brasileiros. Os adeptos racham umas cabeças à conta do amor ao clube e das últimas provocações do presidente. Os dirigentes racham umas garrafas entre eles à conta das quotas dos adeptos. Há diferenças. Claro. Uns são parvos por profissão. Outros são parvos por ingenuidade.E um último argumento. O meu filho tem dois anos. No futuro, devo evitar levá-lo ao futebol só porque há uns selvagens que se matam à conta do Visconde de Alvalade não ter nascido no bairro de benfica? Em vez de me pedirem isso, que tal acabar com as claques?[Rodrigo Moita de Deus]