Vasco Graça Moura viveu, não morreu

12-10-2015
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Pensei em vários temas para iniciar esta crónica semanal que, a partir de hoje, publicarei neste canto de opinião. O nome destas "prosas" foi escolhido com o intuito de afirmar uma opinião livre mas consciente, parcial mas sem preconceitos, transparente e sobretudo sem cerimónia.

Decidi por isso homenagear alguém que foi sempre livre, falou e escreveu sem cerimónia, foi mordaz sempre que necessário, parcial porque tinha opinião e de direita por convicção, mas como poucos, sempre sem preconceito.

Muitos recordarão sempre Vasco Graça Moura como escritor notável, poeta marcante, ou o incrível tradutor - o melhor que no mundo - d' "os italianos", mas também como o tradutor "oficial" de Dante, Moliére, Rostand, Racine, ou até como letrista de fados. Outros, que com ele lidaram de perto, lembrarão o Vasco como alguém de notável e mordaz humor, dilacerante e oportuno como poucos mas, sobretudo, um bom amigo e um bom "garfo".

Como Homem, era um de nós, mas não se tratava de um mero mortal: era um génio com múltiplos talentos.

Vasco Graça Moura foi também político, muito político e sobretudo politicamente incorreto, era assim que exprimia a sua liberdade. De direita convicto e coerente, nunca deixou de dar a sua opinião mesmo que isso significasse ficar sozinho a "pregar no deserto". Por isso mesmo sempre a direita o admirou e a esquerda o respeitou, por vezes até odiou.

Mas se há algo que sempre o distinguiu de muitos intelectuais, e sobretudo de notáveis escritores da esquerda portuguesa, como Saramago e outros, de quem até era amigo, era o seu significado de liberdade. Vasco atuou sempre manifestando sem vergonha a sua linha de direita, sem perseguições. Se fez dela a sua marca, sempre o fez sem qualquer preconceito ideológico. O seu funeral é prova disso, lá estava a esquerda com quem mantinha uma saudável picardia intelectual que tantas páginas ajudou a preencher.

Vasco salvou os "escritores comunistas"

Recordo por isso um momento do seu trajeto que muito me impressionou e que revelou sobretudo um dos principais traços do seu caracter, traço esse que muitos hoje esquecem, ou preferem não recordar. Ao longo de dez anos, entre 79 a 89, Vasco dirigiu a Imprensa Nacional Casa da Moeda e deu um forte impulso à sua área editorial, até aí pouco relevante. Mas o que distinguiu a sua ação ao longo desses dez anos foi ter recuperado a memória da literatura portuguesa. Reeditou muitos dos clássicos, reavivando autores esquecidos ou proibidos pela ditadura, publicando obras que já não se encontravam no mercado há décadas e até séculos, em especial os chamados "escritores comunistas".

Sim, foi Vasco Graça Moura, esse intelectual de direita, que recuperou a obra literária "gauche". Deu voz a todas as vertentes da cultura literária social e política, sempre sem preconceito. Foi nisso que foi diferente, marcadamente de direita, mas sem preconceito, não hesitou em recuperar os textos de esquerda, dos quais discordaria, mas que jamais deixaria escondidos ou proibidos. Esta foi mais uma das diferentes lições de liberdade, e de democracia, que deu a muitos pseudo pais de "Abril".

Tal como reconheceu a Assembleia da República, num voto de pesar após a sua morte, Vasco Graça Moura foi ao longo da sua vida um "verdadeiro Embaixador de Portugal, da Cultura portuguesa e da nossa língua." Nos 10 anos em que representou Portugal no Parlamento Europeu, foi também a referência da cultura europeia em Bruxelas. Aí foi o principal defensor da Língua Portuguesa, mas programas como a Europeana que permitiu que obras, arquivos, bibliotecas e imagens se tornassem acessíveis a todos os europeus, o Programa Cultura 2000 ou mesmo o Programa Erasmus Mundus nasceram graças à sua visão, ao seu empenho e à sua genialidade.

Mas não se ficou pelas áreas da cultura como muitos pensariam à partida. O Vasco, emprestou a sua inteligência e acutilância a debates sobre temas tão diversos como as alterações climáticas, os direitos liberdades e garantias, o comércio internacional, ou a política externa da União, sempre com polémica, normalmente contra o mainstream instalado, mas raramente sem ironia ou quase sempre com a força das cacetadas verbais, em que as "cacetadas" faziam questão de nunca serem físicas" como recentemente recordava Miguel Esteves Cardoso.

Vasco Graça Moura teve uma vida cheia, e em cheio. Tal só acontece quando se tem convicções. Lutou sempre por elas, sem hesitações, nem calculismos de qualquer natureza. É isto que dá verdadeiro sentido à vida e àquilo a que chamamos liberdade.

Vasco Graça Moura fez do mundo a sua casa e da palavra o seu reino. Nasceu homem, morreu monumento. Consola-nos saber que o Vasco se divertiu com isto tudo e foi, sobretudo, feliz.

Pensei em vários temas para iniciar esta crónica semanal que, a partir de hoje, publicarei neste canto de opinião. O nome destas "prosas" foi escolhido com o intuito de afirmar uma opinião livre mas consciente, parcial mas sem preconceitos, transparente e sobretudo sem cerimónia.

Decidi por isso homenagear alguém que foi sempre livre, falou e escreveu sem cerimónia, foi mordaz sempre que necessário, parcial porque tinha opinião e de direita por convicção, mas como poucos, sempre sem preconceito.

Muitos recordarão sempre Vasco Graça Moura como escritor notável, poeta marcante, ou o incrível tradutor - o melhor que no mundo - d' "os italianos", mas também como o tradutor "oficial" de Dante, Moliére, Rostand, Racine, ou até como letrista de fados. Outros, que com ele lidaram de perto, lembrarão o Vasco como alguém de notável e mordaz humor, dilacerante e oportuno como poucos mas, sobretudo, um bom amigo e um bom "garfo".

Como Homem, era um de nós, mas não se tratava de um mero mortal: era um génio com múltiplos talentos.

Vasco Graça Moura foi também político, muito político e sobretudo politicamente incorreto, era assim que exprimia a sua liberdade. De direita convicto e coerente, nunca deixou de dar a sua opinião mesmo que isso significasse ficar sozinho a "pregar no deserto". Por isso mesmo sempre a direita o admirou e a esquerda o respeitou, por vezes até odiou.

Mas se há algo que sempre o distinguiu de muitos intelectuais, e sobretudo de notáveis escritores da esquerda portuguesa, como Saramago e outros, de quem até era amigo, era o seu significado de liberdade. Vasco atuou sempre manifestando sem vergonha a sua linha de direita, sem perseguições. Se fez dela a sua marca, sempre o fez sem qualquer preconceito ideológico. O seu funeral é prova disso, lá estava a esquerda com quem mantinha uma saudável picardia intelectual que tantas páginas ajudou a preencher.

Vasco salvou os "escritores comunistas"

Recordo por isso um momento do seu trajeto que muito me impressionou e que revelou sobretudo um dos principais traços do seu caracter, traço esse que muitos hoje esquecem, ou preferem não recordar. Ao longo de dez anos, entre 79 a 89, Vasco dirigiu a Imprensa Nacional Casa da Moeda e deu um forte impulso à sua área editorial, até aí pouco relevante. Mas o que distinguiu a sua ação ao longo desses dez anos foi ter recuperado a memória da literatura portuguesa. Reeditou muitos dos clássicos, reavivando autores esquecidos ou proibidos pela ditadura, publicando obras que já não se encontravam no mercado há décadas e até séculos, em especial os chamados "escritores comunistas".

Sim, foi Vasco Graça Moura, esse intelectual de direita, que recuperou a obra literária "gauche". Deu voz a todas as vertentes da cultura literária social e política, sempre sem preconceito. Foi nisso que foi diferente, marcadamente de direita, mas sem preconceito, não hesitou em recuperar os textos de esquerda, dos quais discordaria, mas que jamais deixaria escondidos ou proibidos. Esta foi mais uma das diferentes lições de liberdade, e de democracia, que deu a muitos pseudo pais de "Abril".

Tal como reconheceu a Assembleia da República, num voto de pesar após a sua morte, Vasco Graça Moura foi ao longo da sua vida um "verdadeiro Embaixador de Portugal, da Cultura portuguesa e da nossa língua." Nos 10 anos em que representou Portugal no Parlamento Europeu, foi também a referência da cultura europeia em Bruxelas. Aí foi o principal defensor da Língua Portuguesa, mas programas como a Europeana que permitiu que obras, arquivos, bibliotecas e imagens se tornassem acessíveis a todos os europeus, o Programa Cultura 2000 ou mesmo o Programa Erasmus Mundus nasceram graças à sua visão, ao seu empenho e à sua genialidade.

Mas não se ficou pelas áreas da cultura como muitos pensariam à partida. O Vasco, emprestou a sua inteligência e acutilância a debates sobre temas tão diversos como as alterações climáticas, os direitos liberdades e garantias, o comércio internacional, ou a política externa da União, sempre com polémica, normalmente contra o mainstream instalado, mas raramente sem ironia ou quase sempre com a força das cacetadas verbais, em que as "cacetadas" faziam questão de nunca serem físicas" como recentemente recordava Miguel Esteves Cardoso.

Vasco Graça Moura teve uma vida cheia, e em cheio. Tal só acontece quando se tem convicções. Lutou sempre por elas, sem hesitações, nem calculismos de qualquer natureza. É isto que dá verdadeiro sentido à vida e àquilo a que chamamos liberdade.

Vasco Graça Moura fez do mundo a sua casa e da palavra o seu reino. Nasceu homem, morreu monumento. Consola-nos saber que o Vasco se divertiu com isto tudo e foi, sobretudo, feliz.

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