Funes, el memorioso: Do PSD e das elites

06-07-2011
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Vasco Pulido Valente explica-o claramente na sua obra de historiador: o grande drama secular de Portugal é a quase completa ausência de uma classe média autónoma e independente do Estado.A classe média portuguesa não é o produto de nenhuma revolução industrial que nunca existiu. Foi criada pelo Estado, alimenta-se do Estado e subsiste à custa do Estado. Em Portugal, o emprego público é (foi sempre) o meio normal e óbvio de aceder à classe média. O sonho de qualquer bom pai de família português é conseguir “meter” os filhos numa qualquer repartição pública, de onde saiam apenas aposentados.Natural e legitimamente, esta classe média privilegia, acima de tudo, a sua própria estabilidade e segurança. É contra todo e qualquer risco e reagirá sempre com toda a firmeza contra qualquer esboço de reforma séria que ameace tocar na mais pequena das suas pequenas prorrogativas.A troco desta segurança, aceita de bom grado alienar completamente a sua liberdade e o seu direito de pensar pela própria cabeça, valores que, de resto, nunca estimou excessivamente. Pensar é ousar e ousar envolve o gosto pela aventura a que é completamente avessa. A subserviência e a cerviz dobrada constituem o seu estado natural em relação a todo o poder instituído. E se alguma vez a classe média se revolta, é apenas contra um poder fraco. Não por contra ele se sentir forte, mas por ser um poder que, pela sua fraqueza, põe em causa o seu estatuto e a sua sobrevivência. Os seus líderes preferidos são os líderes fortes, como Salazar ou Cavaco Silva, que lhe oferecem a perspectiva do poder perpétuo.É nesta classe média que o Partido Socialista colhe o núcleo duro do seu eleitorado. São os funcionários públicos que elegem o PS. E são, evidentemente, os funcionários públicos que elegem o PSD. É da deslocação de votos dos funcionários desta para aquela força política que se fazem os movimentos eleitorais.Acontece, todavia, que o PSD possuía uma particularidade que o distinguia dos demais partidos políticos: era o partido da pequeníssima classe média portuguesa que não dependia do Estado e, neste sentido, dos únicos cidadãos deste país verdadeiramente autónomos, independentes e livres. Consequentemente, ousados.Para lá do funcionalismo, o PS é a maçonaria. Para lá do funcionalismo, o PSD era o pequeno comerciante, o pequeno e médio industrial, o profissional liberal, o médio agricultor, próspero e bem sucedido.E é aqui que a vitória de Luís Filipe Menezes na passada sexta-feira assume a dimensão de tragédia nacional. Não pela escolha de Menezes em si, que essa é completamente irrelevante, mas pelo que sociológica e simbolicamente ela representa: a morte dessa pequena classe média autónoma e independente do Estado.Aquela classe média livre, ambiciosa, empreendedora, indiferente aos poderes instituídos, constituía a única esperança de um futuro mais radioso para o país.Os últimos vinte anos, contudo, não foram favoráveis ao seu desenvolvimento. Com a integração na União Europeia, o pequeno comércio e a agricultura desapareceram. O pequeno industrial aprendeu a concorrer aos subsídios comunitários e perdeu os valores e a vergonha. Passeia hoje de Ferrari diante da fábrica onde os trabalhadores aguardam pelos salários em atraso; protesta contra a China e a Índia – que receberam as encomendas de mão de obra barata das grandes marcas do vestuário e calçado que antigamente eram suas – e exige, como os outros, que o Estado lhe dê a mão. O médico está hoje, também ele, reduzido a um vulgar funcionário público e o jovem advogado, ou vive pobremente de umas miseráveis oficiosas pagas pelo Estado, ou é um mero empregado dos grandes escritórios que fazem os negócios com esse mesmo Estado.A classe média livre e independente, que nunca teve verdadeiro significado no país, mas cujo crescimento era crucial para o nosso desenvolvimento, em vez de crescer, transformou-se numa espécie em vias de extinção.Por outro lado, a par deste enfraquecimento progressivo do melhor do país e do melhor do PSD, o partido começou a formar na sua escola de crime, a JSD, uma clique inútil que se criou no seu interior, que nunca teve vida fora do partido e que hoje, atingida a idade adulta, precisa do partido para se sustentar a si à família que entretanto constituiu e está, por isso, disposta a tudo, a tudo, para assegurar o domínio do aparelho partidário.Foi esta gente que chegou na sexta-feira ao poder do PSD – não, como se diz por aí, contra os barões do partido, esses, também, meros funcionários públicos que, com medo de ofenderem Sócrates e porem em causa os seus negócios privados, nem sequer se candidataram – mas contra a verdadeira elite do partido: a quase extinta classe média independente portuguesa.É por isso, só por isso, que a eleição de Menezes é mais do que a desgraça do PSD. É a desgraça do país.Mas, se calhar, a tragédia começou antes. E a eleição de Menezes é só uma consequência.


Vasco Pulido Valente explica-o claramente na sua obra de historiador: o grande drama secular de Portugal é a quase completa ausência de uma classe média autónoma e independente do Estado.A classe média portuguesa não é o produto de nenhuma revolução industrial que nunca existiu. Foi criada pelo Estado, alimenta-se do Estado e subsiste à custa do Estado. Em Portugal, o emprego público é (foi sempre) o meio normal e óbvio de aceder à classe média. O sonho de qualquer bom pai de família português é conseguir “meter” os filhos numa qualquer repartição pública, de onde saiam apenas aposentados.Natural e legitimamente, esta classe média privilegia, acima de tudo, a sua própria estabilidade e segurança. É contra todo e qualquer risco e reagirá sempre com toda a firmeza contra qualquer esboço de reforma séria que ameace tocar na mais pequena das suas pequenas prorrogativas.A troco desta segurança, aceita de bom grado alienar completamente a sua liberdade e o seu direito de pensar pela própria cabeça, valores que, de resto, nunca estimou excessivamente. Pensar é ousar e ousar envolve o gosto pela aventura a que é completamente avessa. A subserviência e a cerviz dobrada constituem o seu estado natural em relação a todo o poder instituído. E se alguma vez a classe média se revolta, é apenas contra um poder fraco. Não por contra ele se sentir forte, mas por ser um poder que, pela sua fraqueza, põe em causa o seu estatuto e a sua sobrevivência. Os seus líderes preferidos são os líderes fortes, como Salazar ou Cavaco Silva, que lhe oferecem a perspectiva do poder perpétuo.É nesta classe média que o Partido Socialista colhe o núcleo duro do seu eleitorado. São os funcionários públicos que elegem o PS. E são, evidentemente, os funcionários públicos que elegem o PSD. É da deslocação de votos dos funcionários desta para aquela força política que se fazem os movimentos eleitorais.Acontece, todavia, que o PSD possuía uma particularidade que o distinguia dos demais partidos políticos: era o partido da pequeníssima classe média portuguesa que não dependia do Estado e, neste sentido, dos únicos cidadãos deste país verdadeiramente autónomos, independentes e livres. Consequentemente, ousados.Para lá do funcionalismo, o PS é a maçonaria. Para lá do funcionalismo, o PSD era o pequeno comerciante, o pequeno e médio industrial, o profissional liberal, o médio agricultor, próspero e bem sucedido.E é aqui que a vitória de Luís Filipe Menezes na passada sexta-feira assume a dimensão de tragédia nacional. Não pela escolha de Menezes em si, que essa é completamente irrelevante, mas pelo que sociológica e simbolicamente ela representa: a morte dessa pequena classe média autónoma e independente do Estado.Aquela classe média livre, ambiciosa, empreendedora, indiferente aos poderes instituídos, constituía a única esperança de um futuro mais radioso para o país.Os últimos vinte anos, contudo, não foram favoráveis ao seu desenvolvimento. Com a integração na União Europeia, o pequeno comércio e a agricultura desapareceram. O pequeno industrial aprendeu a concorrer aos subsídios comunitários e perdeu os valores e a vergonha. Passeia hoje de Ferrari diante da fábrica onde os trabalhadores aguardam pelos salários em atraso; protesta contra a China e a Índia – que receberam as encomendas de mão de obra barata das grandes marcas do vestuário e calçado que antigamente eram suas – e exige, como os outros, que o Estado lhe dê a mão. O médico está hoje, também ele, reduzido a um vulgar funcionário público e o jovem advogado, ou vive pobremente de umas miseráveis oficiosas pagas pelo Estado, ou é um mero empregado dos grandes escritórios que fazem os negócios com esse mesmo Estado.A classe média livre e independente, que nunca teve verdadeiro significado no país, mas cujo crescimento era crucial para o nosso desenvolvimento, em vez de crescer, transformou-se numa espécie em vias de extinção.Por outro lado, a par deste enfraquecimento progressivo do melhor do país e do melhor do PSD, o partido começou a formar na sua escola de crime, a JSD, uma clique inútil que se criou no seu interior, que nunca teve vida fora do partido e que hoje, atingida a idade adulta, precisa do partido para se sustentar a si à família que entretanto constituiu e está, por isso, disposta a tudo, a tudo, para assegurar o domínio do aparelho partidário.Foi esta gente que chegou na sexta-feira ao poder do PSD – não, como se diz por aí, contra os barões do partido, esses, também, meros funcionários públicos que, com medo de ofenderem Sócrates e porem em causa os seus negócios privados, nem sequer se candidataram – mas contra a verdadeira elite do partido: a quase extinta classe média independente portuguesa.É por isso, só por isso, que a eleição de Menezes é mais do que a desgraça do PSD. É a desgraça do país.Mas, se calhar, a tragédia começou antes. E a eleição de Menezes é só uma consequência.

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