A noite temperada guia-me os passos de Agosto, do Marquês até à Praça.Perto desse ponto ignoto e misterioso onde a Rua Faria Guimarães se faz Fonseca Cardoso, um casal inglês (ou de fala inglesa) pergunta-me pelo "Hotel Tryp". Com o sem abrigo no vão de granito da Caixa Geral de Depósitos, a puta She-male do viaduto de Gonçalo Cristóvão e o gato preto que por volta da estação da Trindade me salta ao caminho assustando-me, hão-de ser os únicos seres vivos com quem me cruzo, a pé, no caminho todo.A Avenida dos Aliados está praticamente deserta. A meio, na esplanada do "Guarany", há um par de namorados a tomar café. Dois pretos saem do túnel do metro. Aqui e ali, perdidos na noite, vultos fugazes buscam um autocarro.Na esplanada da "Sumol" na plataforma central, o empregado apressa-se a atender-me. Sou o único cliente.- Um café, por favor - peço eu.- Café, não temos. Sabe, o tempo que estamos aqui não justifica que montemos uma máquina de café.- ???- É! Em Setembro já vamos embora. Não podemos ficar aqui, porque depois querem montar a árvore de Natal e fazer não sei o quê. Não valia a pena instalarmos a máquina do café. É preciso água e tudo...Com a garrafa de "sumol" de laranja na mão, meditativo e melancólico, passam-me pelos olhos imagens das noites de festa e comércio aberto, na semana anterior, em Santa Maria da Feira. Recordo também a Plaza Mayor de Ciudad Rodrigo, dois dias antes, a regurgitar de vida e de conversas, de gente saída à rua, sem outro pretexto que não conversar. Longínquo, dos confins perdidos da memória, chega-me o jardim esquecido de uma vilória alemã, onde uma orquestra de metais amarelos e os decotes opulentos de um serviço tradicional de cerveja aniquilavam a proverbial sisudez germânica. Em Milão, rodeados pela turba lombarda do Verão, o professor Valença falou-me, pela primeira vez, de correio electrónico.A Avenida está praticamente deserta. O par do "Guarany" partiu há muito. Os pretos do metro desapareceram para os lados da Rua do Almada. São dez e meia da noite. Para lá da baixa, nos lares de Campanhã, do Bonfim, de Paranhos, pressente-se a tristeza depressiva e infinita das ondas hertzianas a debitarem a novela mal representada de uma puta improvável, protegida por um camionista filósofo e por uma tia de bairro fino, produtora de vinhos.Este fim de semana regressam ao Porto as avionetas da "Red Bull Air Race". São esperados seiscentos ou setecentos mil forasteiros. Alguém sugerirá, acaso, que a cidade está viva.Sim! Com a vida dos cemitérios no dia primeiro de Novembro...
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A noite temperada guia-me os passos de Agosto, do Marquês até à Praça.Perto desse ponto ignoto e misterioso onde a Rua Faria Guimarães se faz Fonseca Cardoso, um casal inglês (ou de fala inglesa) pergunta-me pelo "Hotel Tryp". Com o sem abrigo no vão de granito da Caixa Geral de Depósitos, a puta She-male do viaduto de Gonçalo Cristóvão e o gato preto que por volta da estação da Trindade me salta ao caminho assustando-me, hão-de ser os únicos seres vivos com quem me cruzo, a pé, no caminho todo.A Avenida dos Aliados está praticamente deserta. A meio, na esplanada do "Guarany", há um par de namorados a tomar café. Dois pretos saem do túnel do metro. Aqui e ali, perdidos na noite, vultos fugazes buscam um autocarro.Na esplanada da "Sumol" na plataforma central, o empregado apressa-se a atender-me. Sou o único cliente.- Um café, por favor - peço eu.- Café, não temos. Sabe, o tempo que estamos aqui não justifica que montemos uma máquina de café.- ???- É! Em Setembro já vamos embora. Não podemos ficar aqui, porque depois querem montar a árvore de Natal e fazer não sei o quê. Não valia a pena instalarmos a máquina do café. É preciso água e tudo...Com a garrafa de "sumol" de laranja na mão, meditativo e melancólico, passam-me pelos olhos imagens das noites de festa e comércio aberto, na semana anterior, em Santa Maria da Feira. Recordo também a Plaza Mayor de Ciudad Rodrigo, dois dias antes, a regurgitar de vida e de conversas, de gente saída à rua, sem outro pretexto que não conversar. Longínquo, dos confins perdidos da memória, chega-me o jardim esquecido de uma vilória alemã, onde uma orquestra de metais amarelos e os decotes opulentos de um serviço tradicional de cerveja aniquilavam a proverbial sisudez germânica. Em Milão, rodeados pela turba lombarda do Verão, o professor Valença falou-me, pela primeira vez, de correio electrónico.A Avenida está praticamente deserta. O par do "Guarany" partiu há muito. Os pretos do metro desapareceram para os lados da Rua do Almada. São dez e meia da noite. Para lá da baixa, nos lares de Campanhã, do Bonfim, de Paranhos, pressente-se a tristeza depressiva e infinita das ondas hertzianas a debitarem a novela mal representada de uma puta improvável, protegida por um camionista filósofo e por uma tia de bairro fino, produtora de vinhos.Este fim de semana regressam ao Porto as avionetas da "Red Bull Air Race". São esperados seiscentos ou setecentos mil forasteiros. Alguém sugerirá, acaso, que a cidade está viva.Sim! Com a vida dos cemitérios no dia primeiro de Novembro...