Funes, el memorioso: Miseráveis fiascos (dedicado a sleep well)

05-07-2011
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Encontrei uma pretaQue estava a chorar,Pedi-lhe uma lágrimaPara a analisar.-Olhou-me nos olhos,Como se eu fosse maluco,Disse uma asneiraE mandou-me bugiar.-Na literatura, no cinema, na música, nas artes plásticas, na arte em geral, não há caminho mais seguro para atingir o fiasco do que a ideia de que a composição estética tem que trazer inerente uma mensagem explícita, geralmente do tipo "moral da história".É a intenção explícita de ser portador de uma mensagem de carácter moral que faz o quadro "Guernica", por exemplo, o produto miserável do pior Picasso.É a obsessão doentia de transmitir ao público uma mensagem (que uma outra obsessão, a do politicamente correcto, impõe que seja falsamente subversiva e rebelde) que faz do teatro contemporâneo o espectáculo risível e decadente que ele é.Inversamente, ainda a título de exemplo, a genialidade da "Mona Lisa" resulta de o seu sorriso ter posto toda a gente à procura de uma mensagem que não está lá.E a imortalidade do Pessoa decorre de a sua "Mensagem" não pretender transmitir mensagem nenhuma. Ao menos, à maneira grotesca das fábulas de Esopo ou dos poemas de Neruda.Com a sua moralzinha de ir buscar água num caneco à fonte, "Lágrima de Preta" pretende ser um libelo contra o racismo. É apenas um libelo contra a boa literatura.O que é estranho, porque António Gedeão até é um dos melhores poetas portugueses da segunda metade do séc. XX.


Encontrei uma pretaQue estava a chorar,Pedi-lhe uma lágrimaPara a analisar.-Olhou-me nos olhos,Como se eu fosse maluco,Disse uma asneiraE mandou-me bugiar.-Na literatura, no cinema, na música, nas artes plásticas, na arte em geral, não há caminho mais seguro para atingir o fiasco do que a ideia de que a composição estética tem que trazer inerente uma mensagem explícita, geralmente do tipo "moral da história".É a intenção explícita de ser portador de uma mensagem de carácter moral que faz o quadro "Guernica", por exemplo, o produto miserável do pior Picasso.É a obsessão doentia de transmitir ao público uma mensagem (que uma outra obsessão, a do politicamente correcto, impõe que seja falsamente subversiva e rebelde) que faz do teatro contemporâneo o espectáculo risível e decadente que ele é.Inversamente, ainda a título de exemplo, a genialidade da "Mona Lisa" resulta de o seu sorriso ter posto toda a gente à procura de uma mensagem que não está lá.E a imortalidade do Pessoa decorre de a sua "Mensagem" não pretender transmitir mensagem nenhuma. Ao menos, à maneira grotesca das fábulas de Esopo ou dos poemas de Neruda.Com a sua moralzinha de ir buscar água num caneco à fonte, "Lágrima de Preta" pretende ser um libelo contra o racismo. É apenas um libelo contra a boa literatura.O que é estranho, porque António Gedeão até é um dos melhores poetas portugueses da segunda metade do séc. XX.

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