Octávio V. Gonçalves: Denúncia da subserviência de alguma comunicação social à vergonhosa máquina de propaganda de Sócrates

30-06-2011
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José Sócrates e os cogumelos de BenlhevaiJoão Miguel TavaresIn JN, 12/05/2009Caro leitor: sempre que lhe vierem dizer que a comunicação social portuguesa é muito agressiva e pouco escrupulosa, lembre-se dos cogumelos de Benlhevai. A tarde de sexta-feira ia a meio quando a TVI24 decidiu fazer um directo da fábrica de cogumelos Sousacamp, em Benlhevai, onde o primeiro-ministro fazia uma distintíssima visita. Eu não tenho nada contra cogumelos, e muito menos contra Benlhevai. Mas o que se passou nessa tarde é um pequeno exemplo de como o grande problema da comunicação social nunca foi o excesso de irreverência ou a falta de escrúpulos, mas sim o respeitinho pelo poder e a devoção às instituições, pondo-se a jeito de tudo o que é propaganda governamental.Em Benlhevai estava o primeiro-ministro. O ministro da Agricultura. Televisões. A Lusa. E cogumelos. A TVI24 levou um carro de exteriores para um directo que consistiu em acompanhar três anúncios, qual deles o mais ridículo: dois contratos de investimento que vão criar a loucura de 165 postos de trabalho (em tempo de vacas magras, se for preciso Sócrates até convoca as câmaras para anunciar a contratação da sua nova empregada doméstica); o aumento para 28 dos "túneis de produção de substrato", que parece ser uma coisa que faz os cogumelos muito felizes; e como bónus a notícia de que o Governo vai aumentar as ajudas para a "agricultura de montanha", coisa que deve preocupar para aí o João Garcia, e só quando não está a trepar os Himalaias.O interesse noticioso desta viagem de estudo pelos cogumelos de Benlhevai é obviamente nulo. Mas se está lá o primeiro-ministro a comunicação social tem de ir. Porque vai sempre. E depois tem de passar umas imagens nos telejornais. Porque passa sempre. É uma espécie de contrato não escrito entre o primeiro e o quarto poderes, que Sócrates aproveitou como nenhum outro. E por isso devemos ser o país do Ocidente onde os ministros mais desfilam pela televisão, com cada espirro legislativo e cada tabuleta descerrada a merecer ampla cobertura mediática.Para sermos justos, o Governo não é o único beneficiário de toda esta disponibilidade. Ainda recentemente, após a entrevista de José Sócrates à RTP, as TV foram a correr pôr os microfones na boca dos partidos com assento parlamentar (incluindo Os Verdes, para as clássicas "reacções". Mas porquê, meu Deus? Num país onde os media andam a ser tão acusados de serem terríveis para o nosso querido engenheiro, alguém devia explicar porquê então esse tempo de antena permanente, esta disponibilidade perpétua para escutar o que partidos e Governo têm para dizer, mesmo que quase sempre seja uma mão-cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Todos os dias nos enfiam cogumelos pela goela abaixo - e ainda protestam.Nota pessoal:É, absolutamente, vergonhosa e destituída de critério jornalístico a forma como as televisões ignoram muitas iniciativas da sociedade civil, relativas a verdadeiros problemas do país (veja-se o caso da educação que não é merecedor de debates e de coberturas noticiosas à altura da gravidade dos problemas que afectam as escolas), para irem, todos os dias, quais cordeirinhos amansados, atrás da máquina de propaganda de Sócrates, efectuar directos de "cogumelos", de "painéis solares", que afinal não o são, ou de uma irrelevante "creche". Um dia destes, ainda somos confrontados com um directo sobre a inauguração do portão de acesso ao anexo de uma qualquer casa em Pias, para a qual Sócrates tenha sido convidado, na qualidade de financiador indirecto pela via do rendimento de inserção.


José Sócrates e os cogumelos de BenlhevaiJoão Miguel TavaresIn JN, 12/05/2009Caro leitor: sempre que lhe vierem dizer que a comunicação social portuguesa é muito agressiva e pouco escrupulosa, lembre-se dos cogumelos de Benlhevai. A tarde de sexta-feira ia a meio quando a TVI24 decidiu fazer um directo da fábrica de cogumelos Sousacamp, em Benlhevai, onde o primeiro-ministro fazia uma distintíssima visita. Eu não tenho nada contra cogumelos, e muito menos contra Benlhevai. Mas o que se passou nessa tarde é um pequeno exemplo de como o grande problema da comunicação social nunca foi o excesso de irreverência ou a falta de escrúpulos, mas sim o respeitinho pelo poder e a devoção às instituições, pondo-se a jeito de tudo o que é propaganda governamental.Em Benlhevai estava o primeiro-ministro. O ministro da Agricultura. Televisões. A Lusa. E cogumelos. A TVI24 levou um carro de exteriores para um directo que consistiu em acompanhar três anúncios, qual deles o mais ridículo: dois contratos de investimento que vão criar a loucura de 165 postos de trabalho (em tempo de vacas magras, se for preciso Sócrates até convoca as câmaras para anunciar a contratação da sua nova empregada doméstica); o aumento para 28 dos "túneis de produção de substrato", que parece ser uma coisa que faz os cogumelos muito felizes; e como bónus a notícia de que o Governo vai aumentar as ajudas para a "agricultura de montanha", coisa que deve preocupar para aí o João Garcia, e só quando não está a trepar os Himalaias.O interesse noticioso desta viagem de estudo pelos cogumelos de Benlhevai é obviamente nulo. Mas se está lá o primeiro-ministro a comunicação social tem de ir. Porque vai sempre. E depois tem de passar umas imagens nos telejornais. Porque passa sempre. É uma espécie de contrato não escrito entre o primeiro e o quarto poderes, que Sócrates aproveitou como nenhum outro. E por isso devemos ser o país do Ocidente onde os ministros mais desfilam pela televisão, com cada espirro legislativo e cada tabuleta descerrada a merecer ampla cobertura mediática.Para sermos justos, o Governo não é o único beneficiário de toda esta disponibilidade. Ainda recentemente, após a entrevista de José Sócrates à RTP, as TV foram a correr pôr os microfones na boca dos partidos com assento parlamentar (incluindo Os Verdes, para as clássicas "reacções". Mas porquê, meu Deus? Num país onde os media andam a ser tão acusados de serem terríveis para o nosso querido engenheiro, alguém devia explicar porquê então esse tempo de antena permanente, esta disponibilidade perpétua para escutar o que partidos e Governo têm para dizer, mesmo que quase sempre seja uma mão-cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Todos os dias nos enfiam cogumelos pela goela abaixo - e ainda protestam.Nota pessoal:É, absolutamente, vergonhosa e destituída de critério jornalístico a forma como as televisões ignoram muitas iniciativas da sociedade civil, relativas a verdadeiros problemas do país (veja-se o caso da educação que não é merecedor de debates e de coberturas noticiosas à altura da gravidade dos problemas que afectam as escolas), para irem, todos os dias, quais cordeirinhos amansados, atrás da máquina de propaganda de Sócrates, efectuar directos de "cogumelos", de "painéis solares", que afinal não o são, ou de uma irrelevante "creche". Um dia destes, ainda somos confrontados com um directo sobre a inauguração do portão de acesso ao anexo de uma qualquer casa em Pias, para a qual Sócrates tenha sido convidado, na qualidade de financiador indirecto pela via do rendimento de inserção.

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