Octávio V. Gonçalves: O que eu queria mesmo, mesmo, era poder contratar

24-01-2012
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In Público, 29/10/2010 (Clicar na imagem para aumentar. Obrigado, Zé!)
A pretexto de criticar os rankings das escolas (talvez sacudindo a água do capote pela circunstância de a Escola Básica 2,3 Teixeira Lopes, que integra o agrupamento que dirige, ser, no ranking do Público, a 2ª pior escola básica do concelho de Vila Nova de Gaia), este director constrói uma falácia argumentativa de cabo a rabo para fazer depender o sucesso educativo de uma condição fundamental que se confunde com uma ambição privada, ou seja, a possibilidade de poder ser Sua Excelência a contratar os professores.
E a falácia sustenta-se nos seguintes truques, vícios e extrapolações indevidas:
- o autor da crónica não apresenta dados ou estudos (porque não dispõe dos mesmos) que lhe permitam estabelecer qualquer relação de causalidade ou sequer mera associação entre a contratação dos professores pelas escolas e a verificação de maior sucesso educativo por parte dos alunos. Pelo contrário, nas escolas TEIP parece ter ocorrido o efeito inverso. Poder-se-ia invocar o caso dos colégios privados, mas tal também não colhe, porque aí estamos perante uma outra filosofia organizacional e pedagógica, sem um modelo de avaliação contraproducente, tralhas pedagógicas ou secundarizações sistémicas de uma aposta crucial e exigente nas aprendizagens dos alunos;
- esconde-se que o insucesso educativo possa resultar do triunfo do eduquês e da implementação de políticas educativas que negligenciaram o esforço e o empenho dos alunos e impuseram um paradigma de ocupação e de entretenimento facilitista, algo que não se verifica em muitas escolas do ensino privado;
- não se prova que os critérios de contratação de uma escola ou de um director sejam melhores e mais transparentes do que as classificações académicas e a experiência profissional que se encontram reflectidas na graduação profissional dos professores. O que se pode exigir é celeridade nos processos de colocação e de substituição dos professores, assim como maior autonomia da escola para actuar nos (felizmente raros) casos de incumprimento reiterado dos deveres e das exigências pedagógico-científicas a que um professor está vinculado;
- conhecendo-se a falta de escrúpulos e de exemplaridade de muitas pessoas, a tendência para predominarem redes de interesses político-partidários ou de amizades, o caminho que se abria para criar relações de dependências e subserviências pessoais e locais, assim como a exclusão daqueles que não dispusessem dos "conhecimentos" e dos "contactos" certos, era expectável que o ambiente nas escolas viesse a assumir contornos de vassalagem medieval, incompatíveis com a natureza e a missão de uma escola pública que deve garantir a todos os professores e candidatos a professores condições de igualdade de acesso, apenas em função de critérios universais e iguais para todos;
- o que se deveria reclamar era a autonomia pedagógica das escolas para adaptarem determinados currículos, mas, sobretudo, para que se pudessem organizar e mobilizar à volta do investimento nas aprendizagens dos alunos e na resposta organizada e sistemática às suas dificuldades, ao invés de se sobrecarregarem os professores com jogos teatrais de hetero-avaliação, com reuniões e com papeladas que só atrapalham.
Os sindicatos, os movimentos de professores e os professores devem opor-se a esta ambição de alguns directores que, num país refém de cunhas, apadrinhamentos e demais amiguismos, está bom de ver o resultado que daí adviria.
Como exporei, num próximo post, farei depender o meu voto, nas próximas eleições legislativas, também do compromisso público dos partidos em negarem esta pretensão de contratadores a este tipo de caudilhos escolares.

In Público, 29/10/2010 (Clicar na imagem para aumentar. Obrigado, Zé!)
A pretexto de criticar os rankings das escolas (talvez sacudindo a água do capote pela circunstância de a Escola Básica 2,3 Teixeira Lopes, que integra o agrupamento que dirige, ser, no ranking do Público, a 2ª pior escola básica do concelho de Vila Nova de Gaia), este director constrói uma falácia argumentativa de cabo a rabo para fazer depender o sucesso educativo de uma condição fundamental que se confunde com uma ambição privada, ou seja, a possibilidade de poder ser Sua Excelência a contratar os professores.
E a falácia sustenta-se nos seguintes truques, vícios e extrapolações indevidas:
- o autor da crónica não apresenta dados ou estudos (porque não dispõe dos mesmos) que lhe permitam estabelecer qualquer relação de causalidade ou sequer mera associação entre a contratação dos professores pelas escolas e a verificação de maior sucesso educativo por parte dos alunos. Pelo contrário, nas escolas TEIP parece ter ocorrido o efeito inverso. Poder-se-ia invocar o caso dos colégios privados, mas tal também não colhe, porque aí estamos perante uma outra filosofia organizacional e pedagógica, sem um modelo de avaliação contraproducente, tralhas pedagógicas ou secundarizações sistémicas de uma aposta crucial e exigente nas aprendizagens dos alunos;
- esconde-se que o insucesso educativo possa resultar do triunfo do eduquês e da implementação de políticas educativas que negligenciaram o esforço e o empenho dos alunos e impuseram um paradigma de ocupação e de entretenimento facilitista, algo que não se verifica em muitas escolas do ensino privado;
- não se prova que os critérios de contratação de uma escola ou de um director sejam melhores e mais transparentes do que as classificações académicas e a experiência profissional que se encontram reflectidas na graduação profissional dos professores. O que se pode exigir é celeridade nos processos de colocação e de substituição dos professores, assim como maior autonomia da escola para actuar nos (felizmente raros) casos de incumprimento reiterado dos deveres e das exigências pedagógico-científicas a que um professor está vinculado;
- conhecendo-se a falta de escrúpulos e de exemplaridade de muitas pessoas, a tendência para predominarem redes de interesses político-partidários ou de amizades, o caminho que se abria para criar relações de dependências e subserviências pessoais e locais, assim como a exclusão daqueles que não dispusessem dos "conhecimentos" e dos "contactos" certos, era expectável que o ambiente nas escolas viesse a assumir contornos de vassalagem medieval, incompatíveis com a natureza e a missão de uma escola pública que deve garantir a todos os professores e candidatos a professores condições de igualdade de acesso, apenas em função de critérios universais e iguais para todos;
- o que se deveria reclamar era a autonomia pedagógica das escolas para adaptarem determinados currículos, mas, sobretudo, para que se pudessem organizar e mobilizar à volta do investimento nas aprendizagens dos alunos e na resposta organizada e sistemática às suas dificuldades, ao invés de se sobrecarregarem os professores com jogos teatrais de hetero-avaliação, com reuniões e com papeladas que só atrapalham.
Os sindicatos, os movimentos de professores e os professores devem opor-se a esta ambição de alguns directores que, num país refém de cunhas, apadrinhamentos e demais amiguismos, está bom de ver o resultado que daí adviria.
Como exporei, num próximo post, farei depender o meu voto, nas próximas eleições legislativas, também do compromisso público dos partidos em negarem esta pretensão de contratadores a este tipo de caudilhos escolares.

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