Algibeira: A Divisão do Mundo

03-10-2009
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ilustração de Lauren H"Caiu a noite chegou a hora da caça ao caracol" Provérbio cabindaTal como outros valores culturais, o sistema dos provérbios assenta num património de conhecimentos facilmente reconhecível pela comunidade, que o aprende integrado num sistema de ensino baseado no aproveitamento da singularidade do indivíduo, enquanto parte de um todo comunitário, onde a solidariedade é cultivada como dado adquirido a não perder.A agilidade do espírito, adestrada num quotidiano que a estimula, é perfeitamente capaz de actualizar receitas antigas, modernizar a língua e tornar de uso comum um património que de outra maneira se perderia no imenso limbo do passado a descobrir em museus, fossilizado nos pressupostos que o tornaram vivo numa época histórica determinada.Este domínio da linguagem, muito para lá da mera utilização da palavra, pertence a todos, constituindo uma arma de recurso à disposição, cujo papel no apaziguamento de tensões internas dos indivíduos e das sociedades já foi reconhecido.Os provérbios, parte deste sistema gramatical onde a história, o conto e o pequeno apontamento de escárnio e maldizer também tomam lugar, sintetizam de certa forma maneiras de pensar e encarar o mundo, iludir o tempo e viver com justiça. Mesmo em tribunal, o recurso a esta forma de linguagem cifrada (mas que todos conhecem) é utilizado, por vezes, segundo um enquadramento tão particular que as partes em litígio se esquecem do verdadeiro motivo que ali as levou, para se entregarem ao exercício da palavra, puro gozo, ao delírio de descobrir o provérbio radical, que deixe sem palavras o lado opositor.As mulheres fazem (faziam) desta arte um amplo recurso, escolhendo formas de enfeitar as tampas de madeira das suas panelas que, uma vez postas em relação especial no espaço fechado que lhes é destinado, serviam para uma troca de mensagens destinadas a atingir o alvo, conscientes de que "coração, cabeça e estômago" são entidades sempre associadas por esta ordem ou pela inversa.Assim, depressa descobriram a correspondência entre objecto visualizado e provérbio inscrito, fornecendo, com a comida preparada de forma esmerada, o resto da cadeia para a eficácia da mensagem.A linguagem do amor ficou assim servida por um acréscimo de recursos, onde cartas esculpidas celebram e dão notícia de promessas e juramentos arrancados ao coração da madeira.Deve-se esta arte (em certos locais completamente extinta) a uma consciência bem enraizada sobre a consistência da palavra: uma vez gravada e tornada pública, perdura muito para além das outras levadas pelo vento ou pelo canto do martindindi.Tratava-se de uma avaliação consciente da importância da cristalização na madeira do estado real dos sentimentos, de uma peculiar gestão do amor, na esperança de que a tradição não sendo já o que era nem sempre deixa de ser o que parece.Artífices da palavra de madeira eram encarregues de a fazer falar de forma especial. Uma mulher visitava o artista e estabelecia com ele um convénio de curta duração. Em troca da partilha de sonhos e da revelação das estórias íntimas da família, conseguia fazê-lo arrancar, do coração da floresta, a madeira com todos os nós necessários à elaboração do discurso.Embalado pela palavra, o artista ia lavrando, na tampa de uma panela, um primeiro esboço de uma escrita iluminada, a gravação dos sons da alma em tom de confissão.Por vezes, a consulta a um especialista de provérbios, sábio de todas as linguagens, era o último recurso para evitar repetições e pôr de pé um sistema do simbólico imparável a partir desse momento.Ao que sei, esta linguagem anda hoje perdida: as pessoas vêem as imagens mas perderam a noção de conjunto. Com a desculpa de uma apressada realidade de plástico, ignora-se a floresta e escolhe-se o caminho mais curto. Entre o que se escreve e o que se lê deixou de haver ligação. Regressou-se à verbalização e os conceitos esvaziaram-se em caricaturas da verdade.As tampas que falam são recusadas em busca dos outros segredos, que, em boa verdade hoje não são meus, nem teus, nem de quem os há-de apanhar.Ana Paula Tavaresin Jornal Público,Edição de Domingo, 27 de Dezembro de 1998


ilustração de Lauren H"Caiu a noite chegou a hora da caça ao caracol" Provérbio cabindaTal como outros valores culturais, o sistema dos provérbios assenta num património de conhecimentos facilmente reconhecível pela comunidade, que o aprende integrado num sistema de ensino baseado no aproveitamento da singularidade do indivíduo, enquanto parte de um todo comunitário, onde a solidariedade é cultivada como dado adquirido a não perder.A agilidade do espírito, adestrada num quotidiano que a estimula, é perfeitamente capaz de actualizar receitas antigas, modernizar a língua e tornar de uso comum um património que de outra maneira se perderia no imenso limbo do passado a descobrir em museus, fossilizado nos pressupostos que o tornaram vivo numa época histórica determinada.Este domínio da linguagem, muito para lá da mera utilização da palavra, pertence a todos, constituindo uma arma de recurso à disposição, cujo papel no apaziguamento de tensões internas dos indivíduos e das sociedades já foi reconhecido.Os provérbios, parte deste sistema gramatical onde a história, o conto e o pequeno apontamento de escárnio e maldizer também tomam lugar, sintetizam de certa forma maneiras de pensar e encarar o mundo, iludir o tempo e viver com justiça. Mesmo em tribunal, o recurso a esta forma de linguagem cifrada (mas que todos conhecem) é utilizado, por vezes, segundo um enquadramento tão particular que as partes em litígio se esquecem do verdadeiro motivo que ali as levou, para se entregarem ao exercício da palavra, puro gozo, ao delírio de descobrir o provérbio radical, que deixe sem palavras o lado opositor.As mulheres fazem (faziam) desta arte um amplo recurso, escolhendo formas de enfeitar as tampas de madeira das suas panelas que, uma vez postas em relação especial no espaço fechado que lhes é destinado, serviam para uma troca de mensagens destinadas a atingir o alvo, conscientes de que "coração, cabeça e estômago" são entidades sempre associadas por esta ordem ou pela inversa.Assim, depressa descobriram a correspondência entre objecto visualizado e provérbio inscrito, fornecendo, com a comida preparada de forma esmerada, o resto da cadeia para a eficácia da mensagem.A linguagem do amor ficou assim servida por um acréscimo de recursos, onde cartas esculpidas celebram e dão notícia de promessas e juramentos arrancados ao coração da madeira.Deve-se esta arte (em certos locais completamente extinta) a uma consciência bem enraizada sobre a consistência da palavra: uma vez gravada e tornada pública, perdura muito para além das outras levadas pelo vento ou pelo canto do martindindi.Tratava-se de uma avaliação consciente da importância da cristalização na madeira do estado real dos sentimentos, de uma peculiar gestão do amor, na esperança de que a tradição não sendo já o que era nem sempre deixa de ser o que parece.Artífices da palavra de madeira eram encarregues de a fazer falar de forma especial. Uma mulher visitava o artista e estabelecia com ele um convénio de curta duração. Em troca da partilha de sonhos e da revelação das estórias íntimas da família, conseguia fazê-lo arrancar, do coração da floresta, a madeira com todos os nós necessários à elaboração do discurso.Embalado pela palavra, o artista ia lavrando, na tampa de uma panela, um primeiro esboço de uma escrita iluminada, a gravação dos sons da alma em tom de confissão.Por vezes, a consulta a um especialista de provérbios, sábio de todas as linguagens, era o último recurso para evitar repetições e pôr de pé um sistema do simbólico imparável a partir desse momento.Ao que sei, esta linguagem anda hoje perdida: as pessoas vêem as imagens mas perderam a noção de conjunto. Com a desculpa de uma apressada realidade de plástico, ignora-se a floresta e escolhe-se o caminho mais curto. Entre o que se escreve e o que se lê deixou de haver ligação. Regressou-se à verbalização e os conceitos esvaziaram-se em caricaturas da verdade.As tampas que falam são recusadas em busca dos outros segredos, que, em boa verdade hoje não são meus, nem teus, nem de quem os há-de apanhar.Ana Paula Tavaresin Jornal Público,Edição de Domingo, 27 de Dezembro de 1998

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