EXPRESSO: Cartaz

23-02-2008
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RECENSÕES

O Falecido Sr. Shakespeare de Robert Nye (Temas e Debates, 2002, trad. de Lucinda Santos Silva, 450 págs., €28,50) William Shakespeare «foi um homem necessário» (pág. 414). Necessário à literatura, não haja dúvida. E, enquanto isso, pouco importa o que se diga da sua biografia. Os homens amam-se em vida; na morte, quando há, ama-se-lhes a obra. Tudo o resto é ficção e «crede que a ficção é a melhor biografia», tanto mais que «as nossas vidas reais são ficções» (pág. 345). Daí que este O Falecido Sr. Shakespeare se ocupe mais da obra que do homem, procurando encontrar algumas soluções interpretativas no exercício de ficcionalizar certos episódios da sua vida. Ao absurdo das situações, junta-se a herança do registo da oratura e da antiguidade clássica, a par de narrativas sobre a família e coetâneos do dramaturgo, através dos quais o autor joga no espaço da malícia (por vezes com descritivos de muito mau-gosto, em contraste com o conjunto de capítulos onde se busca uma identificação plausível para a figura da Dark Lady dos sonetos do bardo — págs. 314 a 337 — esses, sim, de um picante nada boçal). Não foi Shakespeare que escreveu os textos e os poemas que se lhe atribuem (velha querela), mas sim outro por ele? Pergunta redundante; vai dar ao mesmo. E o mesmo é a sua obra, um todo supremamente artístico que aqui se glorifica. William Shakespeare «foi um homem necessário» (pág. 414). Necessário à literatura, não haja dúvida. E, enquanto isso, pouco importa o que se diga da sua biografia. Os homens amam-se em vida; na morte, quando há, ama-se-lhes a obra. Tudo o resto é ficção e «crede que a ficção é a melhor biografia», tanto mais que «as nossas vidas reais são ficções» (pág. 345). Daí que estese ocupe mais da obra que do homem, procurando encontrar algumas soluções interpretativas no exercício de ficcionalizar certos episódios da sua vida. Ao absurdo das situações, junta-se a herança do registo da oratura e da antiguidade clássica, a par de narrativas sobre a família e coetâneos do dramaturgo, através dos quais o autor joga no espaço da malícia (por vezes com descritivos de muito mau-gosto, em contraste com o conjunto de capítulos onde se busca uma identificação plausível para a figura da Dark Lady dos sonetos do bardo — págs. 314 a 337 — esses, sim, de um picante nada boçal). Não foi Shakespeare que escreveu os textos e os poemas que se lhe atribuem (velha querela), mas sim outro por ele? Pergunta redundante; vai dar ao mesmo. E o mesmo é a sua obra, um todo supremamente artístico que aqui se glorifica. DÓRIS GRAÇA DIAS

Estória do Homem Que Comeu a Sua Morte de Ascênsio de Freitas (Caminho, 2002, 294 págs., €16,80) «Eh! Nazaré!... Um mar de sangue escorreu-lhe pelas pernas. E ela teve medo de olhar para baixo, para si mesma, e apertou o filhito com força. Tinha na cara um alvoroço de espanto e de angústia. O que é isto, Virgem do céu?...» (pág. 29). «(...) Sua Excelência teve notícia dos alaridos que o povo fazia em volta da árvore aonde que o mulato estava em vagarosa vida de pássaro desvoador. E lhe garantiram-lhe, em juramento das cinco chagas, que aquele homem lá, o Idomundo, era um cuchecucheiro grande, nsengo adivinhador (...), milagrento dono de feitiços» (pág. 265). Entre a história do alucinante parto da Nazaré Rojoa e a da metamorfose do Idomundo em tal-qualmente um pássaro medeiam 43 anos (de 1959 a 2002). Quem se maravilhou com essa obra-prima da literatura moçambicana de língua portuguesa que é O Canto da Sangardata (Prémio Pen 2002), perguntando-se de onde teria surgido esse Ascênsio de Freitas, tem agora oportunidade, nesta antologia de contos, de descobrir o seu percurso literário, no mínimo curioso, feito de uma língua comum, mas de dois mundos diferentes, dois linguajares diversos, de estilos adequados, próprios. Partindo do neo-realismo português (rude mas sensível a questões sociais), AF vai-se moçambicanizando através de uma escrita não só de sons e ritmos «(en)cantados», mas também da interiorização de uma malícia pícara que é traço das gentes com quem conviveu durante 30 anos. Enfim, o que se pode chamar de mestiçagem «in progress»... Nota final: os três últimos contos anunciam, de modo prometedor (são os melhores desta colectânea, na nossa opinião), uma nova obra (aos 78 anos!), intitulada Estórias da Terra Desabrigada. Só nos resta esperar. «Eh! Nazaré!... Um mar de sangue escorreu-lhe pelas pernas. E ela teve medo de olhar para baixo, para si mesma, e apertou o filhito com força. Tinha na cara um alvoroço de espanto e de angústia. O que é isto, Virgem do céu?...» (pág. 29). «(...) Sua Excelência teve notícia dos alaridos que o povo fazia em volta da árvore aonde que o mulato estava em vagarosa vida de pássaro desvoador. E lhe garantiram-lhe, em juramento das cinco chagas, que aquele homem lá, o Idomundo, era um cuchecucheiro grande, nsengo adivinhador (...), milagrento dono de feitiços» (pág. 265). Entre a história do alucinante parto da Nazaré Rojoa e a da metamorfose do Idomundo em tal-qualmente um pássaro medeiam 43 anos (de 1959 a 2002). Quem se maravilhou com essa obra-prima da literatura moçambicana de língua portuguesa que é(Prémio Pen 2002), perguntando-se de onde teria surgido esse Ascênsio de Freitas, tem agora oportunidade, nesta antologia de contos, de descobrir o seu percurso literário, no mínimo curioso, feito de uma língua comum, mas de dois mundos diferentes, dois linguajares diversos, de estilos adequados, próprios. Partindo do neo-realismo português (rude mas sensível a questões sociais), AF vai-se moçambicanizando através de uma escrita não só de sons e ritmos «(en)cantados», mas também da interiorização de uma malícia pícara que é traço das gentes com quem conviveu durante 30 anos. Enfim, o que se pode chamar de mestiçagem «in progress»... Nota final: os três últimos contos anunciam, de modo prometedor (são os melhores desta colectânea, na nossa opinião), uma nova obra (aos 78 anos!), intitulada. Só nos resta esperar. JOSÉ MOREIRA

Já Bocage não Sou de José Jorge Letria (Europa-América, 2002, 118 págs., €12,99) Quase a completar três décadas de actividade literária (Janeiro de 2003), José Jorge Letria regressa à ficção, após a contística de Os Amotinados do Vento (1993) e A Mão Esquerda de Cervantes (1998). A estreia no «romance» — de facto, uma novela lírica — dá-nos, em primeira pessoa, os últimos momentos de Bocage, Dezembro de 1805. O poeta agoniza na casa bairro altina da irmã, o que mais doridamente convoca a ausência da mãe numa vida de 40 anos. A par disso, no jogo de vocativos, correm-lhe na retina maiúsculas por que se perdeu: entre o modelo Camões (que recobre o campo semântico da Poesia, ou da Musa) e o adversário enfim reconciliado José Agostinho de Macedo (coisas da «alma portuguesa», com tanto de hipocrisia como de abertura ao reencontro), percebemos as difíceis relações com Lisboa ou um Portugal hesitante interpelado no cair do pano. Seria injusto, porém, não atentar na sede de transcendência que perpassa e anima o derradeiro soneto — de cujo quebrado inicial sai o título —, o qual, colocado na abertura, inspira a narração e assiste ao próprio fazer em 14 capítulos. No capítulo XV, o ser aquém de si, ou de transição (até periodológica), olha-nos do Além, acreditando que a «pequenez nacional» (pág. 26) se traduzirá em reconciliação da Pátria com os seus poetas. Introdução excelente ao conhecimento de um Bocage longe da imagem abjecta e anedótica que a inveja favoreceu, inteiramo-nos, ainda, do quadro epocal condicionado pelos «moscas» de Pina Manique, com traços de inelutável actualidade, o que fará as delícias de quem não dominar os medos e nomes do tempo. Questionando prospectivamente o fingidor pessoano (pág. 77), temos aqui um elogio da poesia, qual «palavra na funda» (pág. 13) humilde contra Golias autoritários, que exemplifica e nomeia, mesmo, a págs. 89-90. Recomendo correcção de Assentis para Assentiz; de João Xavier da Mata para de Matos; sobretudo, no soneto, liberdade poética requer «gente impia» e não «ímpia», de modo a termos decassílabo rimado. Quase a completar três décadas de actividade literária (Janeiro de 2003), José Jorge Letria regressa à ficção, após a contística de(1993) e(1998). A estreia no «romance» — de facto, uma novela lírica — dá-nos, em primeira pessoa, os últimos momentos de Bocage, Dezembro de 1805. O poeta agoniza na casa bairro altina da irmã, o que mais doridamente convoca a ausência da mãe numa vida de 40 anos. A par disso, no jogo de vocativos, correm-lhe na retina maiúsculas por que se perdeu: entre o modelo Camões (que recobre o campo semântico da Poesia, ou da Musa) e o adversário enfim reconciliado José Agostinho de Macedo (coisas da «alma portuguesa», com tanto de hipocrisia como de abertura ao reencontro), percebemos as difíceis relações com Lisboa ou um Portugal hesitante interpelado no cair do pano. Seria injusto, porém, não atentar na sede de transcendência que perpassa e anima o derradeiro soneto — de cujo quebrado inicial sai o título —, o qual, colocado na abertura, inspira a narração e assiste ao próprio fazer em 14 capítulos. No capítulo XV, o ser aquém de si, ou de transição (até periodológica), olha-nos do Além, acreditando que a «pequenez nacional» (pág. 26) se traduzirá em reconciliação da Pátria com os seus poetas. Introdução excelente ao conhecimento de um Bocage longe da imagem abjecta e anedótica que a inveja favoreceu, inteiramo-nos, ainda, do quadro epocal condicionado pelos «moscas» de Pina Manique, com traços de inelutável actualidade, o que fará as delícias de quem não dominar os medos e nomes do tempo. Questionando prospectivamente o fingidor pessoano (pág. 77), temos aqui um elogio da poesia, qual «palavra na funda» (pág. 13) humilde contra Golias autoritários, que exemplifica e nomeia, mesmo, a págs. 89-90. Recomendo correcção de Assentis para Assentiz; de João Xavier da Mata para de Matos; sobretudo, no soneto, liberdade poética requer «gente impia» e não «ímpia», de modo a termos decassílabo rimado. ERNESTO RODRIGUES

Os Guarda-Redes Morrem ao Domingo de José do Carmo Francisco (Padrões Culturais, 2002, 115 págs.) Será o futebol um desporto triste? Logo desde o título, as narrativas de Os Guarda-Redes Morrem ao Domingo investem num tom menor. Há por ali muitos dentes cerrados, há altivez, há sonho, decerto algum prazer, mas falta um espectáculo de alegria. A «festa» do futebol? O ficcionista castelhano Javier Marías descreveu-a convincentemente em Selvagens e Sentimentais. Mas um informado dos bastidores do futebol português, como é o jornalista (e, em outra das suas vidas, poeta) José do Carmo Francisco, dá do futebol português um antes nostálgico que eufórico quadro. E também ele é convincente, sobretudo quando reconstitui em onze contos outras tantas experiências de praticantes. Quase dói ouvir um deles confessar: «Muita gente não sabe, mas o actual guarda-redes da selecção era meu suplente.» Não é esta a mais triste das frases? Em qualquer profissão? Está visto: as lembranças são aqui, o mais das vezes, deprimentes. «O duche nunca limpa essa memória interior de cada jogo.» E assim pode certo Gaspar do Estrela de Portalegre, «habilidoso» ponta-esquerda, abandonar o futebol, para se dedicar ao xadrez e ao cinema, sim, mas igualmente «por não gostar da violência». José do Carmo Francisco di-lo assim mesmo, como se fosse óbvio. E se calhar é. Pior que todos ainda está o guarda-redes, na mais ingrata das tarefas. «Como se cada jogo fosse um julgamento perante um júri que nada perdoa, nada esquece, nada se dispõe a disfarçar.» Fecha-se então o livro. E a expressão «doente da bola» ganha um brilho novo. Será o futebol um desporto triste? Logo desde o título, as narrativas deinvestem num tom menor. Há por ali muitos dentes cerrados, há altivez, há sonho, decerto algum prazer, mas falta um espectáculo de alegria. A «festa» do futebol? O ficcionista castelhano Javier Marías descreveu-a convincentemente emMas um informado dos bastidores do futebol português, como é o jornalista (e, em outra das suas vidas, poeta) José do Carmo Francisco, dá do futebol português um antes nostálgico que eufórico quadro. E também ele é convincente, sobretudo quando reconstitui em onze contos outras tantas experiências de praticantes. Quase dói ouvir um deles confessar: «Muita gente não sabe, mas o actual guarda-redes da selecção era meu suplente.» Não é esta a mais triste das frases? Em qualquer profissão? Está visto: as lembranças são aqui, o mais das vezes, deprimentes. «O duche nunca limpa essa memória interior de cada jogo.» E assim pode certo Gaspar do Estrela de Portalegre, «habilidoso» ponta-esquerda, abandonar o futebol, para se dedicar ao xadrez e ao cinema, sim, mas igualmente «por não gostar da violência». José do Carmo Francisco di-lo assim mesmo, como se fosse óbvio. E se calhar é. Pior que todos ainda está o guarda-redes, na mais ingrata das tarefas. «Como se cada jogo fosse um julgamento perante um júri que nada perdoa, nada esquece, nada se dispõe a disfarçar.» Fecha-se então o livro. E a expressão «doente da bola» ganha um brilho novo. FERNANDO VENÂNCIO

Uma História da Linguagem de Steven Roger Fischer (Temas e Debates, 2002, trad. de Maria Isabel Gonçalves Tomás, 226 págs., €18,12) Centralizada na «faculdade mais fascinante do mundo natural» (pág. 7), esta obra constitui uma iniciação no mundo linguístico. Dirigida quer a meros curiosos, quer aos estudantes de introdução aos estudos linguísticos, percorre a via que liga o futuro ao passado, a tecnologia à natureza; elevando questões alusivas aos aspectos distintos e essenciais da natureza e evolução humana. Trata-se de uma história ímpar que, decorrente da compreensão da linguagem como meio de troca de informação, estende a análise às linguagens animais — entre outras, a química das formigas e a dança das abelhas. Encetada com a abordagem de macroquestões, o autor vai estreitando a exposição: «das linguagens de todos os seres animais às linguagens específicas dos primatas, das linguagens do Homo Sapiens, em geral, às macrofamílias das línguas humanas; da análise de famílias específicas de línguas à utilização que a nova sociedade global em que vivemos faz da linguagem e ao futuro do inglês no momento em que a humanidade começa a colonizar o sistema solar» (pág. 7). Lança um alerta sobre os benefícios e prejuízos da adopção de uma linguagem única. Centralizada na «faculdade mais fascinante do mundo natural» (pág. 7), esta obra constitui uma iniciação no mundo linguístico. Dirigida quer a meros curiosos, quer aos estudantes de introdução aos estudos linguísticos, percorre a via que liga o futuro ao passado, a tecnologia à natureza; elevando questões alusivas aos aspectos distintos e essenciais da natureza e evolução humana. Trata-se de uma história ímpar que, decorrente da compreensão da linguagem como meio de troca de informação, estende a análise às linguagens animais — entre outras, a química das formigas e a dança das abelhas. Encetada com a abordagem de macroquestões, o autor vai estreitando a exposição: «das linguagens de todos os seres animais às linguagens específicas dos primatas, das linguagens do Homo Sapiens, em geral, às macrofamílias das línguas humanas; da análise de famílias específicas de línguas à utilização que a nova sociedade global em que vivemos faz da linguagem e ao futuro do inglês no momento em que a humanidade começa a colonizar o sistema solar» (pág. 7). Lança um alerta sobre os benefícios e prejuízos da adopção de uma linguagem única. MARIA JOÃO CABRITA

Metafísica do Amor de Arthur Schopenhauer (Guimarães, 2002, trad. de Delfim de Brito, 68 págs., €3,95) Foi mais pela observação da vida que pela leitura que a questão do amor se impôs a Arthur Schopenhauer como tema filosófico. Complemento de O Mundo como Vontade e Representação (1819), Metafísica do Amor emana de uma concepção da humanidade em que a vontade e o interesse da espécie se sobrepõe à vontade dos indivíduos. Ao mostrar que pela geração futura o homem imortaliza a vontade e que o seu «ser em si» reside mais na espécie que no indivíduo, o niilista enquadra a metafísica do amor no seio da sua «filosofia da vontade». A reprodução surge, no horizonte desta metafísica, como estratégia da vontade face à morte. Sendo o mais forte de todos os instintos, sob desígnio de vencer o mal hipoteca a felicidade de cada um ao futuro. Schopenhauer mostra-nos como nas questões do amor a natureza acaba por ludibriar o indivíduo: o casamento por amor é o que melhor realiza o interesse da espécie mas o mais infeliz do ponto de vista individual. O sacrifício desfaz qualquer ilusão amorosa e o desencanto cresce à medida que nos afastamos da idade propícia à procriação. No amor é como vontade da espécie que a vontade dos indivíduos atinge a sua maior potência. Foi mais pela observação da vida que pela leitura que a questão do amor se impôs a Arthur Schopenhauer como tema filosófico.(1819),emana de uma concepção da humanidade em que a vontade e o interesse da espécie se sobrepõe à vontade dos indivíduos. Ao mostrar que pela geração futura o homem imortaliza a vontade e que o seu «ser em si» reside mais na espécie que no indivíduo, o niilista enquadra a metafísica do amor no seio da sua «filosofia da vontade». A reprodução surge, no horizonte desta metafísica, como estratégia da vontade face à morte. Sendo o mais forte de todos os instintos, sob desígnio de vencer o mal hipoteca a felicidade de cada um ao futuro. Schopenhauer mostra-nos como nas questões do amor a natureza acaba por ludibriar o indivíduo: o casamento por amor é o que melhor realiza o interesse da espécie mas o mais infeliz do ponto de vista individual. O sacrifício desfaz qualquer ilusão amorosa e o desencanto cresce à medida que nos afastamos da idade propícia à procriação. No amor é como vontade da espécie que a vontade dos indivíduos atinge a sua maior potência. M. J. C.

A Tripla Corda de Hillary Putnam (Piaget, 2002, trad. de Lígia Teopisto, 290 págs., €18,90) Na esteira de O Realismo do Rosto Humano (Piaget, 1999), este estudo alumia o «realismo natural» como via explicativa do ancoramento da linguagem ao mundo; como alternativa ao «realismo metafísico» que, não obstante evite o cepticismo, nos lança num horizonte inumano, conduzindo a tradição analítica para um beco sem saída. Defensor de um programa que pretende humanizar a filosofia, Putnam combate a ideia de que a verdade não é uma propriedade essencial da linguagem — avançada pelos adeptos do relativismo, solipsismo e historicismo — e mostra como a referência na linguagem é, em grande medida, determinada por um trabalho de equipa no seio da comunidade linguística. Na via entre a «metafísica reaccionária» e o «relativismo irresponsável», neste estudo apresenta a sua perspectiva sobre a percepção e os antigos enigmas espírito-corpo. Questionando a possibilidade da verdade objectiva, critica tanto o empirismo quanto o idealismo e advoga um retorno ao «realismo natural». Compilação das conferências do filósofo sobre John Dewey (1994) e Josiah Royce (1997), A Tripla Corda encerra com um esclarecimento sobre o papel na causalidade no comportamento humano e o facto de os pensamentos e sensações possuírem ou não existência própria. Na esteira de(Piaget, 1999), este estudo alumia o «realismo natural» como via explicativa do ancoramento da linguagem ao mundo; como alternativa ao «realismo metafísico» que, não obstante evite o cepticismo, nos lança num horizonte inumano, conduzindo a tradição analítica para um beco sem saída. Defensor de um programa que pretende humanizar a filosofia, Putnam combate a ideia de que a verdade não é uma propriedade essencial da linguagem — avançada pelos adeptos do relativismo, solipsismo e historicismo — e mostra como a referência na linguagem é, em grande medida, determinada por um trabalho de equipa no seio da comunidade linguística. Na via entre a «metafísica reaccionária» e o «relativismo irresponsável», neste estudo apresenta a sua perspectiva sobre a percepção e os antigos enigmas espírito-corpo. Questionando a possibilidade da verdade objectiva, critica tanto o empirismo quanto o idealismo e advoga um retorno ao «realismo natural». Compilação das conferências do filósofo sobre John Dewey (1994) e Josiah Royce (1997),encerra com um esclarecimento sobre o papel na causalidade no comportamento humano e o facto de os pensamentos e sensações possuírem ou não existência própria. M.J.C.

Desafios da Educação - Ideias para uma Política Educativa no Século XXI de Marçal Grilo (Oficina do Livro, 2002, 174 págs., €13) O volume reúne textos de conferências proferidas e de artigos publicados após o autor ter abandonado funções governativas. Apresentam-se organizados em duas partes — Educação e Sociedade e Ensino Superior. Detenhamo-nos na primeira. Em diagnóstico lapidar, o autor refere como «constrangimentos que condicionam e limitam o desenvolvimento» (pág. 32) do país, entre outros, «a dificuldade de largos sectores da sociedade portuguesa em assumirem a importância da educação e do saber como bases essenciais do desenvolvimento e da realização pessoal» e «a consolidação de uma comunicação social que, com raras excepções, assenta quase exclusivamente no efémero e no superficial, sem mostrar capacidade mobilizadora da opinião pública para questões mais relevantes» (pág. 33). Sobre o papel eminentemente deseducativo do sistema televisivo actual, afirma que «a imbecilidade é maior na televisão do que na própria vida real» (pág. 36), propondo a reforma do serviço público a fim de «lançar uma televisão que possa ser para o grande público um factor educativo» de acordo com o mote «o atraente sem ser sensacionalista e o cultural sem ser enfadonho» (pág. 43). Os textos da segunda parte relacionam o Ensino Superior nacional com as mudanças que na Europa do Atlântico aos Urais se têm verificado desde a Declaração de Bolonha. O volume reúne textos de conferências proferidas e de artigos publicados após o autor ter abandonado funções governativas. Apresentam-se organizados em duas partes — Educação e Sociedade e Ensino Superior. Detenhamo-nos na primeira. Em diagnóstico lapidar, o autor refere como «constrangimentos que condicionam e limitam o desenvolvimento» (pág. 32) do país, entre outros, «a dificuldade de largos sectores da sociedade portuguesa em assumirem a importância da educação e do saber como bases essenciais do desenvolvimento e da realização pessoal» e «a consolidação de uma comunicação social que, com raras excepções, assenta quase exclusivamente no efémero e no superficial, sem mostrar capacidade mobilizadora da opinião pública para questões mais relevantes» (pág. 33). Sobre o papel eminentemente deseducativo do sistema televisivo actual, afirma que «a imbecilidade é maior na televisão do que na própria vida real» (pág. 36), propondo a reforma do serviço público a fim de «lançar uma televisão que possa ser para o grande público um factor educativo» de acordo com o mote «o atraente sem ser sensacionalista e o cultural sem ser enfadonho» (pág. 43). Os textos da segunda parte relacionam o Ensino Superior nacional com as mudanças que na Europa do Atlântico aos Urais se têm verificado desde a Declaração de Bolonha. JOÃO RICARDO MENDONÇA

RECENSÕES

O Falecido Sr. Shakespeare de Robert Nye (Temas e Debates, 2002, trad. de Lucinda Santos Silva, 450 págs., €28,50) William Shakespeare «foi um homem necessário» (pág. 414). Necessário à literatura, não haja dúvida. E, enquanto isso, pouco importa o que se diga da sua biografia. Os homens amam-se em vida; na morte, quando há, ama-se-lhes a obra. Tudo o resto é ficção e «crede que a ficção é a melhor biografia», tanto mais que «as nossas vidas reais são ficções» (pág. 345). Daí que este O Falecido Sr. Shakespeare se ocupe mais da obra que do homem, procurando encontrar algumas soluções interpretativas no exercício de ficcionalizar certos episódios da sua vida. Ao absurdo das situações, junta-se a herança do registo da oratura e da antiguidade clássica, a par de narrativas sobre a família e coetâneos do dramaturgo, através dos quais o autor joga no espaço da malícia (por vezes com descritivos de muito mau-gosto, em contraste com o conjunto de capítulos onde se busca uma identificação plausível para a figura da Dark Lady dos sonetos do bardo — págs. 314 a 337 — esses, sim, de um picante nada boçal). Não foi Shakespeare que escreveu os textos e os poemas que se lhe atribuem (velha querela), mas sim outro por ele? Pergunta redundante; vai dar ao mesmo. E o mesmo é a sua obra, um todo supremamente artístico que aqui se glorifica. William Shakespeare «foi um homem necessário» (pág. 414). Necessário à literatura, não haja dúvida. E, enquanto isso, pouco importa o que se diga da sua biografia. Os homens amam-se em vida; na morte, quando há, ama-se-lhes a obra. Tudo o resto é ficção e «crede que a ficção é a melhor biografia», tanto mais que «as nossas vidas reais são ficções» (pág. 345). Daí que estese ocupe mais da obra que do homem, procurando encontrar algumas soluções interpretativas no exercício de ficcionalizar certos episódios da sua vida. Ao absurdo das situações, junta-se a herança do registo da oratura e da antiguidade clássica, a par de narrativas sobre a família e coetâneos do dramaturgo, através dos quais o autor joga no espaço da malícia (por vezes com descritivos de muito mau-gosto, em contraste com o conjunto de capítulos onde se busca uma identificação plausível para a figura da Dark Lady dos sonetos do bardo — págs. 314 a 337 — esses, sim, de um picante nada boçal). Não foi Shakespeare que escreveu os textos e os poemas que se lhe atribuem (velha querela), mas sim outro por ele? Pergunta redundante; vai dar ao mesmo. E o mesmo é a sua obra, um todo supremamente artístico que aqui se glorifica. DÓRIS GRAÇA DIAS

Estória do Homem Que Comeu a Sua Morte de Ascênsio de Freitas (Caminho, 2002, 294 págs., €16,80) «Eh! Nazaré!... Um mar de sangue escorreu-lhe pelas pernas. E ela teve medo de olhar para baixo, para si mesma, e apertou o filhito com força. Tinha na cara um alvoroço de espanto e de angústia. O que é isto, Virgem do céu?...» (pág. 29). «(...) Sua Excelência teve notícia dos alaridos que o povo fazia em volta da árvore aonde que o mulato estava em vagarosa vida de pássaro desvoador. E lhe garantiram-lhe, em juramento das cinco chagas, que aquele homem lá, o Idomundo, era um cuchecucheiro grande, nsengo adivinhador (...), milagrento dono de feitiços» (pág. 265). Entre a história do alucinante parto da Nazaré Rojoa e a da metamorfose do Idomundo em tal-qualmente um pássaro medeiam 43 anos (de 1959 a 2002). Quem se maravilhou com essa obra-prima da literatura moçambicana de língua portuguesa que é O Canto da Sangardata (Prémio Pen 2002), perguntando-se de onde teria surgido esse Ascênsio de Freitas, tem agora oportunidade, nesta antologia de contos, de descobrir o seu percurso literário, no mínimo curioso, feito de uma língua comum, mas de dois mundos diferentes, dois linguajares diversos, de estilos adequados, próprios. Partindo do neo-realismo português (rude mas sensível a questões sociais), AF vai-se moçambicanizando através de uma escrita não só de sons e ritmos «(en)cantados», mas também da interiorização de uma malícia pícara que é traço das gentes com quem conviveu durante 30 anos. Enfim, o que se pode chamar de mestiçagem «in progress»... Nota final: os três últimos contos anunciam, de modo prometedor (são os melhores desta colectânea, na nossa opinião), uma nova obra (aos 78 anos!), intitulada Estórias da Terra Desabrigada. Só nos resta esperar. «Eh! Nazaré!... Um mar de sangue escorreu-lhe pelas pernas. E ela teve medo de olhar para baixo, para si mesma, e apertou o filhito com força. Tinha na cara um alvoroço de espanto e de angústia. O que é isto, Virgem do céu?...» (pág. 29). «(...) Sua Excelência teve notícia dos alaridos que o povo fazia em volta da árvore aonde que o mulato estava em vagarosa vida de pássaro desvoador. E lhe garantiram-lhe, em juramento das cinco chagas, que aquele homem lá, o Idomundo, era um cuchecucheiro grande, nsengo adivinhador (...), milagrento dono de feitiços» (pág. 265). Entre a história do alucinante parto da Nazaré Rojoa e a da metamorfose do Idomundo em tal-qualmente um pássaro medeiam 43 anos (de 1959 a 2002). Quem se maravilhou com essa obra-prima da literatura moçambicana de língua portuguesa que é(Prémio Pen 2002), perguntando-se de onde teria surgido esse Ascênsio de Freitas, tem agora oportunidade, nesta antologia de contos, de descobrir o seu percurso literário, no mínimo curioso, feito de uma língua comum, mas de dois mundos diferentes, dois linguajares diversos, de estilos adequados, próprios. Partindo do neo-realismo português (rude mas sensível a questões sociais), AF vai-se moçambicanizando através de uma escrita não só de sons e ritmos «(en)cantados», mas também da interiorização de uma malícia pícara que é traço das gentes com quem conviveu durante 30 anos. Enfim, o que se pode chamar de mestiçagem «in progress»... Nota final: os três últimos contos anunciam, de modo prometedor (são os melhores desta colectânea, na nossa opinião), uma nova obra (aos 78 anos!), intitulada. Só nos resta esperar. JOSÉ MOREIRA

Já Bocage não Sou de José Jorge Letria (Europa-América, 2002, 118 págs., €12,99) Quase a completar três décadas de actividade literária (Janeiro de 2003), José Jorge Letria regressa à ficção, após a contística de Os Amotinados do Vento (1993) e A Mão Esquerda de Cervantes (1998). A estreia no «romance» — de facto, uma novela lírica — dá-nos, em primeira pessoa, os últimos momentos de Bocage, Dezembro de 1805. O poeta agoniza na casa bairro altina da irmã, o que mais doridamente convoca a ausência da mãe numa vida de 40 anos. A par disso, no jogo de vocativos, correm-lhe na retina maiúsculas por que se perdeu: entre o modelo Camões (que recobre o campo semântico da Poesia, ou da Musa) e o adversário enfim reconciliado José Agostinho de Macedo (coisas da «alma portuguesa», com tanto de hipocrisia como de abertura ao reencontro), percebemos as difíceis relações com Lisboa ou um Portugal hesitante interpelado no cair do pano. Seria injusto, porém, não atentar na sede de transcendência que perpassa e anima o derradeiro soneto — de cujo quebrado inicial sai o título —, o qual, colocado na abertura, inspira a narração e assiste ao próprio fazer em 14 capítulos. No capítulo XV, o ser aquém de si, ou de transição (até periodológica), olha-nos do Além, acreditando que a «pequenez nacional» (pág. 26) se traduzirá em reconciliação da Pátria com os seus poetas. Introdução excelente ao conhecimento de um Bocage longe da imagem abjecta e anedótica que a inveja favoreceu, inteiramo-nos, ainda, do quadro epocal condicionado pelos «moscas» de Pina Manique, com traços de inelutável actualidade, o que fará as delícias de quem não dominar os medos e nomes do tempo. Questionando prospectivamente o fingidor pessoano (pág. 77), temos aqui um elogio da poesia, qual «palavra na funda» (pág. 13) humilde contra Golias autoritários, que exemplifica e nomeia, mesmo, a págs. 89-90. Recomendo correcção de Assentis para Assentiz; de João Xavier da Mata para de Matos; sobretudo, no soneto, liberdade poética requer «gente impia» e não «ímpia», de modo a termos decassílabo rimado. Quase a completar três décadas de actividade literária (Janeiro de 2003), José Jorge Letria regressa à ficção, após a contística de(1993) e(1998). A estreia no «romance» — de facto, uma novela lírica — dá-nos, em primeira pessoa, os últimos momentos de Bocage, Dezembro de 1805. O poeta agoniza na casa bairro altina da irmã, o que mais doridamente convoca a ausência da mãe numa vida de 40 anos. A par disso, no jogo de vocativos, correm-lhe na retina maiúsculas por que se perdeu: entre o modelo Camões (que recobre o campo semântico da Poesia, ou da Musa) e o adversário enfim reconciliado José Agostinho de Macedo (coisas da «alma portuguesa», com tanto de hipocrisia como de abertura ao reencontro), percebemos as difíceis relações com Lisboa ou um Portugal hesitante interpelado no cair do pano. Seria injusto, porém, não atentar na sede de transcendência que perpassa e anima o derradeiro soneto — de cujo quebrado inicial sai o título —, o qual, colocado na abertura, inspira a narração e assiste ao próprio fazer em 14 capítulos. No capítulo XV, o ser aquém de si, ou de transição (até periodológica), olha-nos do Além, acreditando que a «pequenez nacional» (pág. 26) se traduzirá em reconciliação da Pátria com os seus poetas. Introdução excelente ao conhecimento de um Bocage longe da imagem abjecta e anedótica que a inveja favoreceu, inteiramo-nos, ainda, do quadro epocal condicionado pelos «moscas» de Pina Manique, com traços de inelutável actualidade, o que fará as delícias de quem não dominar os medos e nomes do tempo. Questionando prospectivamente o fingidor pessoano (pág. 77), temos aqui um elogio da poesia, qual «palavra na funda» (pág. 13) humilde contra Golias autoritários, que exemplifica e nomeia, mesmo, a págs. 89-90. Recomendo correcção de Assentis para Assentiz; de João Xavier da Mata para de Matos; sobretudo, no soneto, liberdade poética requer «gente impia» e não «ímpia», de modo a termos decassílabo rimado. ERNESTO RODRIGUES

Os Guarda-Redes Morrem ao Domingo de José do Carmo Francisco (Padrões Culturais, 2002, 115 págs.) Será o futebol um desporto triste? Logo desde o título, as narrativas de Os Guarda-Redes Morrem ao Domingo investem num tom menor. Há por ali muitos dentes cerrados, há altivez, há sonho, decerto algum prazer, mas falta um espectáculo de alegria. A «festa» do futebol? O ficcionista castelhano Javier Marías descreveu-a convincentemente em Selvagens e Sentimentais. Mas um informado dos bastidores do futebol português, como é o jornalista (e, em outra das suas vidas, poeta) José do Carmo Francisco, dá do futebol português um antes nostálgico que eufórico quadro. E também ele é convincente, sobretudo quando reconstitui em onze contos outras tantas experiências de praticantes. Quase dói ouvir um deles confessar: «Muita gente não sabe, mas o actual guarda-redes da selecção era meu suplente.» Não é esta a mais triste das frases? Em qualquer profissão? Está visto: as lembranças são aqui, o mais das vezes, deprimentes. «O duche nunca limpa essa memória interior de cada jogo.» E assim pode certo Gaspar do Estrela de Portalegre, «habilidoso» ponta-esquerda, abandonar o futebol, para se dedicar ao xadrez e ao cinema, sim, mas igualmente «por não gostar da violência». José do Carmo Francisco di-lo assim mesmo, como se fosse óbvio. E se calhar é. Pior que todos ainda está o guarda-redes, na mais ingrata das tarefas. «Como se cada jogo fosse um julgamento perante um júri que nada perdoa, nada esquece, nada se dispõe a disfarçar.» Fecha-se então o livro. E a expressão «doente da bola» ganha um brilho novo. Será o futebol um desporto triste? Logo desde o título, as narrativas deinvestem num tom menor. Há por ali muitos dentes cerrados, há altivez, há sonho, decerto algum prazer, mas falta um espectáculo de alegria. A «festa» do futebol? O ficcionista castelhano Javier Marías descreveu-a convincentemente emMas um informado dos bastidores do futebol português, como é o jornalista (e, em outra das suas vidas, poeta) José do Carmo Francisco, dá do futebol português um antes nostálgico que eufórico quadro. E também ele é convincente, sobretudo quando reconstitui em onze contos outras tantas experiências de praticantes. Quase dói ouvir um deles confessar: «Muita gente não sabe, mas o actual guarda-redes da selecção era meu suplente.» Não é esta a mais triste das frases? Em qualquer profissão? Está visto: as lembranças são aqui, o mais das vezes, deprimentes. «O duche nunca limpa essa memória interior de cada jogo.» E assim pode certo Gaspar do Estrela de Portalegre, «habilidoso» ponta-esquerda, abandonar o futebol, para se dedicar ao xadrez e ao cinema, sim, mas igualmente «por não gostar da violência». José do Carmo Francisco di-lo assim mesmo, como se fosse óbvio. E se calhar é. Pior que todos ainda está o guarda-redes, na mais ingrata das tarefas. «Como se cada jogo fosse um julgamento perante um júri que nada perdoa, nada esquece, nada se dispõe a disfarçar.» Fecha-se então o livro. E a expressão «doente da bola» ganha um brilho novo. FERNANDO VENÂNCIO

Uma História da Linguagem de Steven Roger Fischer (Temas e Debates, 2002, trad. de Maria Isabel Gonçalves Tomás, 226 págs., €18,12) Centralizada na «faculdade mais fascinante do mundo natural» (pág. 7), esta obra constitui uma iniciação no mundo linguístico. Dirigida quer a meros curiosos, quer aos estudantes de introdução aos estudos linguísticos, percorre a via que liga o futuro ao passado, a tecnologia à natureza; elevando questões alusivas aos aspectos distintos e essenciais da natureza e evolução humana. Trata-se de uma história ímpar que, decorrente da compreensão da linguagem como meio de troca de informação, estende a análise às linguagens animais — entre outras, a química das formigas e a dança das abelhas. Encetada com a abordagem de macroquestões, o autor vai estreitando a exposição: «das linguagens de todos os seres animais às linguagens específicas dos primatas, das linguagens do Homo Sapiens, em geral, às macrofamílias das línguas humanas; da análise de famílias específicas de línguas à utilização que a nova sociedade global em que vivemos faz da linguagem e ao futuro do inglês no momento em que a humanidade começa a colonizar o sistema solar» (pág. 7). Lança um alerta sobre os benefícios e prejuízos da adopção de uma linguagem única. Centralizada na «faculdade mais fascinante do mundo natural» (pág. 7), esta obra constitui uma iniciação no mundo linguístico. Dirigida quer a meros curiosos, quer aos estudantes de introdução aos estudos linguísticos, percorre a via que liga o futuro ao passado, a tecnologia à natureza; elevando questões alusivas aos aspectos distintos e essenciais da natureza e evolução humana. Trata-se de uma história ímpar que, decorrente da compreensão da linguagem como meio de troca de informação, estende a análise às linguagens animais — entre outras, a química das formigas e a dança das abelhas. Encetada com a abordagem de macroquestões, o autor vai estreitando a exposição: «das linguagens de todos os seres animais às linguagens específicas dos primatas, das linguagens do Homo Sapiens, em geral, às macrofamílias das línguas humanas; da análise de famílias específicas de línguas à utilização que a nova sociedade global em que vivemos faz da linguagem e ao futuro do inglês no momento em que a humanidade começa a colonizar o sistema solar» (pág. 7). Lança um alerta sobre os benefícios e prejuízos da adopção de uma linguagem única. MARIA JOÃO CABRITA

Metafísica do Amor de Arthur Schopenhauer (Guimarães, 2002, trad. de Delfim de Brito, 68 págs., €3,95) Foi mais pela observação da vida que pela leitura que a questão do amor se impôs a Arthur Schopenhauer como tema filosófico. Complemento de O Mundo como Vontade e Representação (1819), Metafísica do Amor emana de uma concepção da humanidade em que a vontade e o interesse da espécie se sobrepõe à vontade dos indivíduos. Ao mostrar que pela geração futura o homem imortaliza a vontade e que o seu «ser em si» reside mais na espécie que no indivíduo, o niilista enquadra a metafísica do amor no seio da sua «filosofia da vontade». A reprodução surge, no horizonte desta metafísica, como estratégia da vontade face à morte. Sendo o mais forte de todos os instintos, sob desígnio de vencer o mal hipoteca a felicidade de cada um ao futuro. Schopenhauer mostra-nos como nas questões do amor a natureza acaba por ludibriar o indivíduo: o casamento por amor é o que melhor realiza o interesse da espécie mas o mais infeliz do ponto de vista individual. O sacrifício desfaz qualquer ilusão amorosa e o desencanto cresce à medida que nos afastamos da idade propícia à procriação. No amor é como vontade da espécie que a vontade dos indivíduos atinge a sua maior potência. Foi mais pela observação da vida que pela leitura que a questão do amor se impôs a Arthur Schopenhauer como tema filosófico.(1819),emana de uma concepção da humanidade em que a vontade e o interesse da espécie se sobrepõe à vontade dos indivíduos. Ao mostrar que pela geração futura o homem imortaliza a vontade e que o seu «ser em si» reside mais na espécie que no indivíduo, o niilista enquadra a metafísica do amor no seio da sua «filosofia da vontade». A reprodução surge, no horizonte desta metafísica, como estratégia da vontade face à morte. Sendo o mais forte de todos os instintos, sob desígnio de vencer o mal hipoteca a felicidade de cada um ao futuro. Schopenhauer mostra-nos como nas questões do amor a natureza acaba por ludibriar o indivíduo: o casamento por amor é o que melhor realiza o interesse da espécie mas o mais infeliz do ponto de vista individual. O sacrifício desfaz qualquer ilusão amorosa e o desencanto cresce à medida que nos afastamos da idade propícia à procriação. No amor é como vontade da espécie que a vontade dos indivíduos atinge a sua maior potência. M. J. C.

A Tripla Corda de Hillary Putnam (Piaget, 2002, trad. de Lígia Teopisto, 290 págs., €18,90) Na esteira de O Realismo do Rosto Humano (Piaget, 1999), este estudo alumia o «realismo natural» como via explicativa do ancoramento da linguagem ao mundo; como alternativa ao «realismo metafísico» que, não obstante evite o cepticismo, nos lança num horizonte inumano, conduzindo a tradição analítica para um beco sem saída. Defensor de um programa que pretende humanizar a filosofia, Putnam combate a ideia de que a verdade não é uma propriedade essencial da linguagem — avançada pelos adeptos do relativismo, solipsismo e historicismo — e mostra como a referência na linguagem é, em grande medida, determinada por um trabalho de equipa no seio da comunidade linguística. Na via entre a «metafísica reaccionária» e o «relativismo irresponsável», neste estudo apresenta a sua perspectiva sobre a percepção e os antigos enigmas espírito-corpo. Questionando a possibilidade da verdade objectiva, critica tanto o empirismo quanto o idealismo e advoga um retorno ao «realismo natural». Compilação das conferências do filósofo sobre John Dewey (1994) e Josiah Royce (1997), A Tripla Corda encerra com um esclarecimento sobre o papel na causalidade no comportamento humano e o facto de os pensamentos e sensações possuírem ou não existência própria. Na esteira de(Piaget, 1999), este estudo alumia o «realismo natural» como via explicativa do ancoramento da linguagem ao mundo; como alternativa ao «realismo metafísico» que, não obstante evite o cepticismo, nos lança num horizonte inumano, conduzindo a tradição analítica para um beco sem saída. Defensor de um programa que pretende humanizar a filosofia, Putnam combate a ideia de que a verdade não é uma propriedade essencial da linguagem — avançada pelos adeptos do relativismo, solipsismo e historicismo — e mostra como a referência na linguagem é, em grande medida, determinada por um trabalho de equipa no seio da comunidade linguística. Na via entre a «metafísica reaccionária» e o «relativismo irresponsável», neste estudo apresenta a sua perspectiva sobre a percepção e os antigos enigmas espírito-corpo. Questionando a possibilidade da verdade objectiva, critica tanto o empirismo quanto o idealismo e advoga um retorno ao «realismo natural». Compilação das conferências do filósofo sobre John Dewey (1994) e Josiah Royce (1997),encerra com um esclarecimento sobre o papel na causalidade no comportamento humano e o facto de os pensamentos e sensações possuírem ou não existência própria. M.J.C.

Desafios da Educação - Ideias para uma Política Educativa no Século XXI de Marçal Grilo (Oficina do Livro, 2002, 174 págs., €13) O volume reúne textos de conferências proferidas e de artigos publicados após o autor ter abandonado funções governativas. Apresentam-se organizados em duas partes — Educação e Sociedade e Ensino Superior. Detenhamo-nos na primeira. Em diagnóstico lapidar, o autor refere como «constrangimentos que condicionam e limitam o desenvolvimento» (pág. 32) do país, entre outros, «a dificuldade de largos sectores da sociedade portuguesa em assumirem a importância da educação e do saber como bases essenciais do desenvolvimento e da realização pessoal» e «a consolidação de uma comunicação social que, com raras excepções, assenta quase exclusivamente no efémero e no superficial, sem mostrar capacidade mobilizadora da opinião pública para questões mais relevantes» (pág. 33). Sobre o papel eminentemente deseducativo do sistema televisivo actual, afirma que «a imbecilidade é maior na televisão do que na própria vida real» (pág. 36), propondo a reforma do serviço público a fim de «lançar uma televisão que possa ser para o grande público um factor educativo» de acordo com o mote «o atraente sem ser sensacionalista e o cultural sem ser enfadonho» (pág. 43). Os textos da segunda parte relacionam o Ensino Superior nacional com as mudanças que na Europa do Atlântico aos Urais se têm verificado desde a Declaração de Bolonha. O volume reúne textos de conferências proferidas e de artigos publicados após o autor ter abandonado funções governativas. Apresentam-se organizados em duas partes — Educação e Sociedade e Ensino Superior. Detenhamo-nos na primeira. Em diagnóstico lapidar, o autor refere como «constrangimentos que condicionam e limitam o desenvolvimento» (pág. 32) do país, entre outros, «a dificuldade de largos sectores da sociedade portuguesa em assumirem a importância da educação e do saber como bases essenciais do desenvolvimento e da realização pessoal» e «a consolidação de uma comunicação social que, com raras excepções, assenta quase exclusivamente no efémero e no superficial, sem mostrar capacidade mobilizadora da opinião pública para questões mais relevantes» (pág. 33). Sobre o papel eminentemente deseducativo do sistema televisivo actual, afirma que «a imbecilidade é maior na televisão do que na própria vida real» (pág. 36), propondo a reforma do serviço público a fim de «lançar uma televisão que possa ser para o grande público um factor educativo» de acordo com o mote «o atraente sem ser sensacionalista e o cultural sem ser enfadonho» (pág. 43). Os textos da segunda parte relacionam o Ensino Superior nacional com as mudanças que na Europa do Atlântico aos Urais se têm verificado desde a Declaração de Bolonha. JOÃO RICARDO MENDONÇA

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