A hora de Matilde
A vida pregou várias partidas a Matilde de Sousa Franco, que sobreviveu sempre com um sorriso. Os amigos não se espantam. «Parece frágil mas é uma rocha», diz quem a conhece. Na primeira entrevista após a morte do marido, fala dos 24 anos de vida a dois e conta como foram os últimos dias da campanha das europeias Alterar tamanho LUIZ CARVALHO Matilde Sousa Franco fotografada na terça-feira desta semana, na sua casa da Lapa A calma com que enfrenta a tragédia é o traço que mais espanta. Matilde Pessoa de Figueiredo Sousa Franco está sozinha em casa. Acabou a Missa de Sétimo Dia por alma do marido, abre a porta com um sorriso e convida-nos a entrar. Ao som das Quatro Estações de Vivaldi, explica como a música a tranquiliza. Preocupa-se com o calor que abrasa Lisboa, em saber se está bem. «Pus um pouco de maquilhagem neste últimos dias». Para parecer melhor. Para nunca se descompor. Nem mesmo no «momento mais trágico» da sua vida perde a compostura. A calma com que enfrenta a tragédia é o traço que mais espanta. Matilde Pessoa de Figueiredo Sousa Franco está sozinha em casa. Acabou a Missa de Sétimo Dia por alma do marido, abre a porta com um sorriso e convida-nos a entrar. Ao som dasde Vivaldi, explica como a música a tranquiliza. Preocupa-se com o calor que abrasa Lisboa, em saber se está bem.. Para parecer melhor. Para nunca se descompor. Nem mesmo noda sua vida perde a compostura. Não se percebe de onde vem tamanha força. O país assistiu espantado à maneira como acompanhou o marido na campanha eleitoral, como sobreviveu à sua morte, às manifestações populares durante as cerimónias fúnebres. Até mesmo às eleições, que teimou em acompanhar em directo da sede de campanha socialista. Quem a conhece não se espanta. Desde logo porque a museóloga «sempre foi surpreendente», diz Ana de Liz, uma amiga de infância que vê na «fé inabalável» e na «força de carácter» duas características que talharam Matilde desde cedo. «Quem anda com medo, anda muito mal acompanhada» e, para que dúvidas não restem, «ela não tem medo de nada», graças em grande parte a essa «bengala invisível» que a acompanha sempre e que se chama devoção. Foto do casamento, em 1973 A «impressionante contenção», a «calma e a tranquilidade» para enfrentar as horas mais difíceis - e que muitos amigos reconhecem em Matilde - não estavam, porém, inscritas no seu bilhete de identidade. , apara enfrentar as horas mais difíceis - e que muitos amigos reconhecem em Matilde - não estavam, porém, inscritas no seu bilhete de identidade. Nascida há 60 anos, em Lisboa, filha de uma família da alta burguesia, foi uma menina poupada à adversidade. «É verdade que teve uma infância e uma juventude privilegiadas», assume Ângela Lemos Godinho, outra das amigas que guarda para a vida. Cresce num ambiente familiar calmo e culto. O pai, engenheiro militar, estimula os dotes de aluna aplicada da filha e insiste em que siga para a universidade para estudar Línguas. Inteligente e muito curiosa, a filha prossegue a caminhada, mas, à última hora com a caderneta recheada de boas notas, leva a sua ideia avante e acaba sentada nos bancos da faculdade a tirar História. O curso que sempre tinha escolhido. Foto do casal com a mãe de Sousa Franco «É determinada. Sempre foi. Parece débil, mas é uma rocha», diz Ana de Liz. «Tem tudo o que há de mais feminino: é delicada e terna, Mas por dentro é segura e fortíssima», completa Ângela Godinho. Os mais próximos concordam que «nunca foi moldável», nem mesmo perante personalidades muito fortes - como António Sousa Franco - ou pressões aparentemente insuportáveis. , diz Ana de Liz., completa Ângela Godinho. Os mais próximos concordam que, nem mesmo perante personalidades muito fortes - como António Sousa Franco - ou pressões aparentemente insuportáveis. O primeiro desaire que a vida lhe põe pela frente surge no arranque dos anos 70. Matilde casa com um amigo de família, pouco tempo depois nasce a sua filha Inês e a vida tem todos os ingredientes para um feliz álbum de família. No entanto, nos bastidores, o matrimónio é um inferno insuportável. «Foi um terramoto», garantem as amigas, mas Matilde assume a cruz até decidir partir sozinha. Num ápice, muda de vida. Deixa Lisboa e o Palácio de Correio Mor, onde trabalhava como conservadora, e instala-se em Coimbra. Assume o posto de comando do Museu Machado de Castro e passa a viver com a filha num lar de freiras. Tinha decidido esquecer o passado, riscar os homens definitivamente da sua vida e recomeçar tudo do zero. O destino prega-lhe nova partida com um casual reencontro com um companheiro dos tempos de liceu: António Luciano Sousa Franco. O ex-ministro das Finanças, que veio do PSD para a ASDI (uma dissidência do partido) e está agora a tentar esquecer a vida política, passa a rondar Coimbra, arranja todos os pretextos para dar aulas e conferências na cidade dos estudantes. Apaixonam-se e escrevem-se quilómetros de cartas, Matilde passa horas de pé, no corredor do lar, a pôr a conversa telefónica em dia com o seu insuspeito apaixonado. «Foi um namoro completamente tradicional, passado entre Lisboa e Coimbra», recorda Guilherme dOliveira Martins, ex-chefe de Gabinete do professor no Ministério das Finanças e seu assistente em Direito. «Comunicou às pessoas mais próximas e a única dúvida era saber como seria possível adaptar-se à vida de casado». A desarrumação do professor, a compulsão para a compra de livros, pela recolha de materiais para arquivo tornava a gestão doméstica complicada. «Vivia com os pais, numa casa em que os livros subiam pelas paredes», diz Oliveira Martins. O destino prega-lhe nova partida com um casual reencontro com um companheiro dos tempos de liceu: António Luciano Sousa Franco. O ex-ministro das Finanças, que veio do PSD para a ASDI (uma dissidência do partido) e está agora a tentar esquecer a vida política, passa a rondar Coimbra, arranja todos os pretextos para dar aulas e conferências na cidade dos estudantes. Apaixonam-se e escrevem-se quilómetros de cartas, Matilde passa horas de pé, no corredor do lar, a pôr a conversa telefónica em dia com o seu insuspeito apaixonado., recorda Guilherme dOliveira Martins, ex-chefe de Gabinete do professor no Ministério das Finanças e seu assistente em Direito.. A desarrumação do professor, a compulsão para a compra de livros, pela recolha de materiais para arquivo tornava a gestão doméstica complicada., diz Oliveira Martins. O casamento não conseguiu domar esta compulsão intelectual. Comprava centenas de livros, guardava tudo, recortava artigos de jornais, revistas, brochuras. Arrumava tudo em sacos de plástico que cresciam em torre desafiando a gravidade. Catalogava coisas tão diferentes como «revistas de avião, estatísticas, folhetos», explica Oliveira Martins, para dizer que «Matilde conseguiu isolar um pouco o mundo dos livros», restringindo-os a áreas específicas da casa. Graças à mulher, doou milhares à Universidade Católica, mas mesmo assim, muitos garantem que nesta «pequena batalha» foi ele o vitorioso. «A Matilde dizia que a poltrona do António estava submersa. Julgava que era uma figura de estilo. Até que a vi...», diz Ana Liz. O padre Luís França, que seguiu sempre o casal, lembra-se da mesa de jantar preparada para a refeição, mas ainda «com os livros de história que estavam a ler para discutir em conjunto». O casamento não conseguiu domar esta compulsão intelectual. Comprava centenas de livros, guardava tudo, recortava artigos de jornais, revistas, brochuras. Arrumava tudo em sacos de plástico que cresciam em torre desafiando a gravidade. Catalogava coisas tão diferentes como, explica Oliveira Martins, para dizer que, restringindo-os a áreas específicas da casa. Graças à mulher, doou milhares à Universidade Católica, mas mesmo assim, muitos garantem que nestafoi ele o vitorioso., diz Ana Liz. O padre Luís França, que seguiu sempre o casal, lembra-se da mesa de jantar preparada para a refeição, mas ainda ANTÓNIO PEDRO FERREIRA O casal em campanha eleitoral Mas, maior e mais difícil de resolver tinha sido um outro problema. Sobretudo, por ser prévio à hipótese do próprio casamento entre Matilde e António. Ambos «estruturalmente católicos», só concebiam um matrimónio com passagem obrigatória pela Igreja, e as primeiras núpcias de Matilde inviabilizavam o projecto. Uns tios do primeiro marido são os primeiros a sugerir o recurso aos tribunais eclesiásticos. Alguns familiares e amigos prestam-se a testemunhar o drama vivido por Matilde e, finalmente em 1983, o casamento é canonicamente anulado. Mas, maior e mais difícil de resolver tinha sido um outro problema. Sobretudo, por ser prévio à hipótese do próprio casamento entre Matilde e António. Ambos, só concebiam um matrimónio com passagem obrigatória pela Igreja, e as primeiras núpcias de Matilde inviabilizavam o projecto. Uns tios do primeiro marido são os primeiros a sugerir o recurso aos tribunais eclesiásticos. Alguns familiares e amigos prestam-se a testemunhar o drama vivido por Matilde e, finalmente em 1983, o casamento é canonicamente anulado. Meses depois, casam-se, em Coimbra, com Inês, de sete anos, a «abençoar» a cerimónia. Mas o casal começa por viver separado. Matilde tinha ainda trabalho que bastava à frente do Museu Machado de Castro e o professor parte para Lisboa, vivendo com a enteada nos primeiros tempos. ANTÓNIO PEDRO FERREIRA Matilde e a filha Inês com o PS na noite das eleições Quem os conheceu não poupa elogios ao par. «Muito unidos», partilhavam interesses culturais e intelectuais, adoravam estar juntos, «admiravam-se imenso». As pequenas incompatibilidades «eram ultrapassadas. pois mantinham-se muito autónomos». Sousa Franco, por exemplo, gostava de se deitar tarde, esperava pela meia-noite para se deleitar com livros que devorava madrugada fora, sentado no chão e rodeado de papéis. Quem os conheceu não poupa elogios ao par., partilhavam interesses culturais e intelectuais, adoravam estar juntos,. As pequenas incompatibilidades. Sousa Franco, por exemplo, gostava de se deitar tarde, esperava pela meia-noite para se deleitar com livros que devorava madrugada fora, sentado no chão e rodeado de papéis. Matilde prefere a manhã, gostava de madrugar passeando no Jardim da Estrela ou frequentando as aulas de ioga. Metódica e arrumada, «muito perfeccionista», acompanhava o marido, «mas sempre teve uma vida autónoma, respira por ela própria», dizem as amigas. Não chocava com o marido, mas todos garantem que o influenciava, fazia questão de dar a sua opinião e conseguiu «adoçá-lo». Para Guilherme dOliveira Martins «deu-lhe uma família, tranquilizou-o». Era um homem só, filho único, órfão de pai muito cedo. A experiência familiar enriqueceu-o. «A sua paixão era a família», não hesita em dizer Delfina Salvador, a secretária que durante décadas acompanhou o professor. «Tinha um amor tal pela mulher que se esta fatalidade tivesse ocorrido ao contrário, acho que dificilmente sobreviveria», conclui. Do marido e de mais de 20 anos de casamento, Matilde recebeu em troca uma herança ainda incalculável. Ironia do destino, a sua morte trágica deu-lhe um protagonismo político que assumiu de forma surpreendente. A história dirá se lhe abriu um novo caminho. LUIZ CARVALHO O texto de Matilde lido na Missa de Corpo Presente ALBERTO FRIAS Matilde Sousa Franco durante o funeral do marido, que juntou centenas de pessoas entre a Estrela e os Prazeres
Texto e entrevista de Rosa Pedroso Lima A hora de Matilde «O meu marido estava felicíssimo»
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A hora de Matilde
A vida pregou várias partidas a Matilde de Sousa Franco, que sobreviveu sempre com um sorriso. Os amigos não se espantam. «Parece frágil mas é uma rocha», diz quem a conhece. Na primeira entrevista após a morte do marido, fala dos 24 anos de vida a dois e conta como foram os últimos dias da campanha das europeias Alterar tamanho LUIZ CARVALHO Matilde Sousa Franco fotografada na terça-feira desta semana, na sua casa da Lapa A calma com que enfrenta a tragédia é o traço que mais espanta. Matilde Pessoa de Figueiredo Sousa Franco está sozinha em casa. Acabou a Missa de Sétimo Dia por alma do marido, abre a porta com um sorriso e convida-nos a entrar. Ao som das Quatro Estações de Vivaldi, explica como a música a tranquiliza. Preocupa-se com o calor que abrasa Lisboa, em saber se está bem. «Pus um pouco de maquilhagem neste últimos dias». Para parecer melhor. Para nunca se descompor. Nem mesmo no «momento mais trágico» da sua vida perde a compostura. A calma com que enfrenta a tragédia é o traço que mais espanta. Matilde Pessoa de Figueiredo Sousa Franco está sozinha em casa. Acabou a Missa de Sétimo Dia por alma do marido, abre a porta com um sorriso e convida-nos a entrar. Ao som dasde Vivaldi, explica como a música a tranquiliza. Preocupa-se com o calor que abrasa Lisboa, em saber se está bem.. Para parecer melhor. Para nunca se descompor. Nem mesmo noda sua vida perde a compostura. Não se percebe de onde vem tamanha força. O país assistiu espantado à maneira como acompanhou o marido na campanha eleitoral, como sobreviveu à sua morte, às manifestações populares durante as cerimónias fúnebres. Até mesmo às eleições, que teimou em acompanhar em directo da sede de campanha socialista. Quem a conhece não se espanta. Desde logo porque a museóloga «sempre foi surpreendente», diz Ana de Liz, uma amiga de infância que vê na «fé inabalável» e na «força de carácter» duas características que talharam Matilde desde cedo. «Quem anda com medo, anda muito mal acompanhada» e, para que dúvidas não restem, «ela não tem medo de nada», graças em grande parte a essa «bengala invisível» que a acompanha sempre e que se chama devoção. Foto do casamento, em 1973 A «impressionante contenção», a «calma e a tranquilidade» para enfrentar as horas mais difíceis - e que muitos amigos reconhecem em Matilde - não estavam, porém, inscritas no seu bilhete de identidade. , apara enfrentar as horas mais difíceis - e que muitos amigos reconhecem em Matilde - não estavam, porém, inscritas no seu bilhete de identidade. Nascida há 60 anos, em Lisboa, filha de uma família da alta burguesia, foi uma menina poupada à adversidade. «É verdade que teve uma infância e uma juventude privilegiadas», assume Ângela Lemos Godinho, outra das amigas que guarda para a vida. Cresce num ambiente familiar calmo e culto. O pai, engenheiro militar, estimula os dotes de aluna aplicada da filha e insiste em que siga para a universidade para estudar Línguas. Inteligente e muito curiosa, a filha prossegue a caminhada, mas, à última hora com a caderneta recheada de boas notas, leva a sua ideia avante e acaba sentada nos bancos da faculdade a tirar História. O curso que sempre tinha escolhido. Foto do casal com a mãe de Sousa Franco «É determinada. Sempre foi. Parece débil, mas é uma rocha», diz Ana de Liz. «Tem tudo o que há de mais feminino: é delicada e terna, Mas por dentro é segura e fortíssima», completa Ângela Godinho. Os mais próximos concordam que «nunca foi moldável», nem mesmo perante personalidades muito fortes - como António Sousa Franco - ou pressões aparentemente insuportáveis. , diz Ana de Liz., completa Ângela Godinho. Os mais próximos concordam que, nem mesmo perante personalidades muito fortes - como António Sousa Franco - ou pressões aparentemente insuportáveis. O primeiro desaire que a vida lhe põe pela frente surge no arranque dos anos 70. Matilde casa com um amigo de família, pouco tempo depois nasce a sua filha Inês e a vida tem todos os ingredientes para um feliz álbum de família. No entanto, nos bastidores, o matrimónio é um inferno insuportável. «Foi um terramoto», garantem as amigas, mas Matilde assume a cruz até decidir partir sozinha. Num ápice, muda de vida. Deixa Lisboa e o Palácio de Correio Mor, onde trabalhava como conservadora, e instala-se em Coimbra. Assume o posto de comando do Museu Machado de Castro e passa a viver com a filha num lar de freiras. Tinha decidido esquecer o passado, riscar os homens definitivamente da sua vida e recomeçar tudo do zero. O destino prega-lhe nova partida com um casual reencontro com um companheiro dos tempos de liceu: António Luciano Sousa Franco. O ex-ministro das Finanças, que veio do PSD para a ASDI (uma dissidência do partido) e está agora a tentar esquecer a vida política, passa a rondar Coimbra, arranja todos os pretextos para dar aulas e conferências na cidade dos estudantes. Apaixonam-se e escrevem-se quilómetros de cartas, Matilde passa horas de pé, no corredor do lar, a pôr a conversa telefónica em dia com o seu insuspeito apaixonado. «Foi um namoro completamente tradicional, passado entre Lisboa e Coimbra», recorda Guilherme dOliveira Martins, ex-chefe de Gabinete do professor no Ministério das Finanças e seu assistente em Direito. «Comunicou às pessoas mais próximas e a única dúvida era saber como seria possível adaptar-se à vida de casado». A desarrumação do professor, a compulsão para a compra de livros, pela recolha de materiais para arquivo tornava a gestão doméstica complicada. «Vivia com os pais, numa casa em que os livros subiam pelas paredes», diz Oliveira Martins. O destino prega-lhe nova partida com um casual reencontro com um companheiro dos tempos de liceu: António Luciano Sousa Franco. O ex-ministro das Finanças, que veio do PSD para a ASDI (uma dissidência do partido) e está agora a tentar esquecer a vida política, passa a rondar Coimbra, arranja todos os pretextos para dar aulas e conferências na cidade dos estudantes. Apaixonam-se e escrevem-se quilómetros de cartas, Matilde passa horas de pé, no corredor do lar, a pôr a conversa telefónica em dia com o seu insuspeito apaixonado., recorda Guilherme dOliveira Martins, ex-chefe de Gabinete do professor no Ministério das Finanças e seu assistente em Direito.. A desarrumação do professor, a compulsão para a compra de livros, pela recolha de materiais para arquivo tornava a gestão doméstica complicada., diz Oliveira Martins. O casamento não conseguiu domar esta compulsão intelectual. Comprava centenas de livros, guardava tudo, recortava artigos de jornais, revistas, brochuras. Arrumava tudo em sacos de plástico que cresciam em torre desafiando a gravidade. Catalogava coisas tão diferentes como «revistas de avião, estatísticas, folhetos», explica Oliveira Martins, para dizer que «Matilde conseguiu isolar um pouco o mundo dos livros», restringindo-os a áreas específicas da casa. Graças à mulher, doou milhares à Universidade Católica, mas mesmo assim, muitos garantem que nesta «pequena batalha» foi ele o vitorioso. «A Matilde dizia que a poltrona do António estava submersa. Julgava que era uma figura de estilo. Até que a vi...», diz Ana Liz. O padre Luís França, que seguiu sempre o casal, lembra-se da mesa de jantar preparada para a refeição, mas ainda «com os livros de história que estavam a ler para discutir em conjunto». O casamento não conseguiu domar esta compulsão intelectual. Comprava centenas de livros, guardava tudo, recortava artigos de jornais, revistas, brochuras. Arrumava tudo em sacos de plástico que cresciam em torre desafiando a gravidade. Catalogava coisas tão diferentes como, explica Oliveira Martins, para dizer que, restringindo-os a áreas específicas da casa. Graças à mulher, doou milhares à Universidade Católica, mas mesmo assim, muitos garantem que nestafoi ele o vitorioso., diz Ana Liz. O padre Luís França, que seguiu sempre o casal, lembra-se da mesa de jantar preparada para a refeição, mas ainda ANTÓNIO PEDRO FERREIRA O casal em campanha eleitoral Mas, maior e mais difícil de resolver tinha sido um outro problema. Sobretudo, por ser prévio à hipótese do próprio casamento entre Matilde e António. Ambos «estruturalmente católicos», só concebiam um matrimónio com passagem obrigatória pela Igreja, e as primeiras núpcias de Matilde inviabilizavam o projecto. Uns tios do primeiro marido são os primeiros a sugerir o recurso aos tribunais eclesiásticos. Alguns familiares e amigos prestam-se a testemunhar o drama vivido por Matilde e, finalmente em 1983, o casamento é canonicamente anulado. Mas, maior e mais difícil de resolver tinha sido um outro problema. Sobretudo, por ser prévio à hipótese do próprio casamento entre Matilde e António. Ambos, só concebiam um matrimónio com passagem obrigatória pela Igreja, e as primeiras núpcias de Matilde inviabilizavam o projecto. Uns tios do primeiro marido são os primeiros a sugerir o recurso aos tribunais eclesiásticos. Alguns familiares e amigos prestam-se a testemunhar o drama vivido por Matilde e, finalmente em 1983, o casamento é canonicamente anulado. Meses depois, casam-se, em Coimbra, com Inês, de sete anos, a «abençoar» a cerimónia. Mas o casal começa por viver separado. Matilde tinha ainda trabalho que bastava à frente do Museu Machado de Castro e o professor parte para Lisboa, vivendo com a enteada nos primeiros tempos. ANTÓNIO PEDRO FERREIRA Matilde e a filha Inês com o PS na noite das eleições Quem os conheceu não poupa elogios ao par. «Muito unidos», partilhavam interesses culturais e intelectuais, adoravam estar juntos, «admiravam-se imenso». As pequenas incompatibilidades «eram ultrapassadas. pois mantinham-se muito autónomos». Sousa Franco, por exemplo, gostava de se deitar tarde, esperava pela meia-noite para se deleitar com livros que devorava madrugada fora, sentado no chão e rodeado de papéis. Quem os conheceu não poupa elogios ao par., partilhavam interesses culturais e intelectuais, adoravam estar juntos,. As pequenas incompatibilidades. Sousa Franco, por exemplo, gostava de se deitar tarde, esperava pela meia-noite para se deleitar com livros que devorava madrugada fora, sentado no chão e rodeado de papéis. Matilde prefere a manhã, gostava de madrugar passeando no Jardim da Estrela ou frequentando as aulas de ioga. Metódica e arrumada, «muito perfeccionista», acompanhava o marido, «mas sempre teve uma vida autónoma, respira por ela própria», dizem as amigas. Não chocava com o marido, mas todos garantem que o influenciava, fazia questão de dar a sua opinião e conseguiu «adoçá-lo». Para Guilherme dOliveira Martins «deu-lhe uma família, tranquilizou-o». Era um homem só, filho único, órfão de pai muito cedo. A experiência familiar enriqueceu-o. «A sua paixão era a família», não hesita em dizer Delfina Salvador, a secretária que durante décadas acompanhou o professor. «Tinha um amor tal pela mulher que se esta fatalidade tivesse ocorrido ao contrário, acho que dificilmente sobreviveria», conclui. Do marido e de mais de 20 anos de casamento, Matilde recebeu em troca uma herança ainda incalculável. Ironia do destino, a sua morte trágica deu-lhe um protagonismo político que assumiu de forma surpreendente. A história dirá se lhe abriu um novo caminho. LUIZ CARVALHO O texto de Matilde lido na Missa de Corpo Presente ALBERTO FRIAS Matilde Sousa Franco durante o funeral do marido, que juntou centenas de pessoas entre a Estrela e os Prazeres
Texto e entrevista de Rosa Pedroso Lima A hora de Matilde «O meu marido estava felicíssimo»