Às vezes acontece-me concordar com o Emanuel Bento. São momentos raros e que por isso devem ser assinalados. Apesar da amizade que nos une, temos divergências claras de cariz ideológico. O que não impede que eu reconheça ao Bento capacidades de escrita e de argumentação muito acima da média.É verdade que a política internacional não se faz só nos gabinetes, faz-se com a presença, como diz o Bento. É verdade que um Estado que se quer soberano tem de ter capacidade de projectar força.Portugal tem, nos últimos anos, apostado no envio de militares para missões de manutenção de paz - sublinhe-se, de manutenção de paz - no estrangeiro. O comportamento desses homens, e dessas mulheres, em cenário de conflito, tem sido meritório, contribuindo mais para a imagem do país do que alguns projectos megalómanos, nos quais o "prolongamento é sempre a melhor parte". Eu próprio estive com as tropas portuguesas no Kosovo, no final de 2000. Vivi durante alguns dias no "Aquartelamento D. Afonso Henriques", próximo de Klina, pequena e destroçada cidade kosovar. Vi o trabalho que se estava a fazer. Conheci um capelão que, todos os sábados, chamava ao aquartelamento as crianças da cidade, dando-lhes oportunidade de practicarem modalidades como futebol ou basquetebol. De irem à sala de vídeo ver filmes projectados num pequeno ecrã. De aprenderem português. De terem uma refeição decente. A iniciativa começou por atrair meia dúzia de "gaiatos" das redondezas e, algumas semanas depois, levava verdadeiras multidões de miúdos ao aquartelamento.Vi o respeito e a admiração com que eram olhados os militares lusos. Vi kosovares em sentido enquanto tocava "A Portuguesa". Soube, depois, que a gente de Klina se organizou para procurar evitar que as tropas nacionais partissem, pois sentia-se protegida sob a bandeira verde-e-vermelha.Em Timor, é sobejamente conhecido o trabalho dos homens e das mulheres do Exército de Portugal.Estou em crer que no Iraque a GNR honrará o nome do país e da própria corporação. Não falte coragem, disciplina e determinação. A missão é muito difícil e acarreta riscos superiores. Mas foi feito algum esforço no sentido de dotar os militares que partiram de meios técnicos e logísticos eficazes, e capazes de assegurar a operacionalidade.Resta-nos agora, mais do que discutir a legitimidade da guerra (eu, pessoalmente, não conheço nehuma guerra legítima, mas isso é outra conversa), desejar boa-sorte a quem partiu. E esperar um feliz regresso.Gonçalo Nuno Santos
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Às vezes acontece-me concordar com o Emanuel Bento. São momentos raros e que por isso devem ser assinalados. Apesar da amizade que nos une, temos divergências claras de cariz ideológico. O que não impede que eu reconheça ao Bento capacidades de escrita e de argumentação muito acima da média.É verdade que a política internacional não se faz só nos gabinetes, faz-se com a presença, como diz o Bento. É verdade que um Estado que se quer soberano tem de ter capacidade de projectar força.Portugal tem, nos últimos anos, apostado no envio de militares para missões de manutenção de paz - sublinhe-se, de manutenção de paz - no estrangeiro. O comportamento desses homens, e dessas mulheres, em cenário de conflito, tem sido meritório, contribuindo mais para a imagem do país do que alguns projectos megalómanos, nos quais o "prolongamento é sempre a melhor parte". Eu próprio estive com as tropas portuguesas no Kosovo, no final de 2000. Vivi durante alguns dias no "Aquartelamento D. Afonso Henriques", próximo de Klina, pequena e destroçada cidade kosovar. Vi o trabalho que se estava a fazer. Conheci um capelão que, todos os sábados, chamava ao aquartelamento as crianças da cidade, dando-lhes oportunidade de practicarem modalidades como futebol ou basquetebol. De irem à sala de vídeo ver filmes projectados num pequeno ecrã. De aprenderem português. De terem uma refeição decente. A iniciativa começou por atrair meia dúzia de "gaiatos" das redondezas e, algumas semanas depois, levava verdadeiras multidões de miúdos ao aquartelamento.Vi o respeito e a admiração com que eram olhados os militares lusos. Vi kosovares em sentido enquanto tocava "A Portuguesa". Soube, depois, que a gente de Klina se organizou para procurar evitar que as tropas nacionais partissem, pois sentia-se protegida sob a bandeira verde-e-vermelha.Em Timor, é sobejamente conhecido o trabalho dos homens e das mulheres do Exército de Portugal.Estou em crer que no Iraque a GNR honrará o nome do país e da própria corporação. Não falte coragem, disciplina e determinação. A missão é muito difícil e acarreta riscos superiores. Mas foi feito algum esforço no sentido de dotar os militares que partiram de meios técnicos e logísticos eficazes, e capazes de assegurar a operacionalidade.Resta-nos agora, mais do que discutir a legitimidade da guerra (eu, pessoalmente, não conheço nehuma guerra legítima, mas isso é outra conversa), desejar boa-sorte a quem partiu. E esperar um feliz regresso.Gonçalo Nuno Santos