CyberCultura e Democracia Online: O Feiticeiro Vodu e seus Zombies

03-10-2009
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Este título pode parecer estranho, mas ele tem a sua razão de ser. Vodun é o nome foneticamente correcto do complexo cultual popularmente chamado vodu. Trata-se de uma "religião" sincrética dos negros do Haiti que combina elementos cristãos com elementos africanos, especialmente originários de Daomé, que foram introduzidos na região caraíba pelos escravos negros, nos quais tem origem a população actual. Os fundadores do clã de Daomé são conhecidos como tovodun e é deles que provém o culto vodu. Os ritos de vodu são basicamente rituais familiares com ofertas e sacrifícios acompanhados de cânticos e de danças, nos quais vários deuses são personificados e invocados para assistirem à cerimónia. À medida que cada deus é invocado com a sua saudação tocada nos tambores, os dançarinos que os representam vão ficando possuídos. O comportamento de transe dos devotos e o êxtase dos adoradores dão um aspecto sinistro à cerimónia, donde resultou a sua má reputação universal. O termo zombie deriva desta tradição popular haitiana e é usado para referir um «morto vivo», castigado por ter cometido algum crime e condenado a vaguear errante, balbuciando e olhando atentamente com os seus olhos mortos, obedecendo cegamente às ordens de algum sacerdote ou xamã do culto vodu. Wade Davis (1985, 1988) descreveu a poção neurofarmacológica que os praticantes do vodu preparam e que tem supostamente a propriedade de pôr um ser humano num estado semelhante à morte. Estes seres são enterrados vivos durante alguns dias e, posteriormente, são exumados. É-lhes administrado um alucinogéno que provoca desorientação e amnésia, após a qual se convertem em seres errantes como os zombies dos filmes de terror e, por vezes, acabam por ser escravizados pelos seus «feiticeiros». Conforme refere Daniel Dennett, os filósofos retomaram este termo para referir uma categoria distinta de ser humano imaginário: um zombie filosófico é ou seria um ser humano que, apesar de exibir uma conduta perfeitamente normal ou natural, não é consciente e, portanto, é uma espécie de autómato. Ora, a leitura da obra "Consciousness Explained" de Daniel Dennett (1991) permite-nos retribuir-lhe a prática de vodu, no seu sentido originário. Como? Afirmando que o feiticeiro vodu é Daniel Dennett e que os seus zombies são todos aqueles que, de um modo ou de outro, lhe obedecem quando julgam ter descoberto a solução para o velho problema da consciência. Todos negam a ontologia da primeira pessoa, portanto, a existência de estados subjectivos e conscientes. Como se sabe, Dennett, na sua obra «Consciousness Explained», nega a existência dos sentimentos e das experiências subjectivos, portanto, as qualias, e, quando ataca o "teatro cartesiano", opondo-lhe o "modelo dos esboços múltiplos da consciência", não o faz para defender a ideia de que tais estados ocorram difusamente em todo o cérebro, uma hipótese plausível se levarmos em conta a memória, mas para negar a existência de um "local unificado das nossas experiências conscientes", como se a consciência fosse simplesmente a implementação de um certo tipo de "programa ou programas de computador numa máquina paralela" que evolui na natureza. Apesar de pretender ser muito científica no sentido duro do termo, porquanto parece estar em sintonia com a "visão científica do mundo" assumida dogmáticamente como a mais correcta, a teoria de Dennett não dá conta dos estudos neurocientíficos, em particular dos estudos que usam a ressonância magnética funcional para «observar» os correlatos neurais das experiências cognitivas, místicas e estéticas, e, o que é ainda mais grave, omite praticamente toda a «história dogmática da filosofia», preferindo fingir que pensa pela sua própria cabeça, quando realmente mais não faz do que retomar os velhos problemas da escolástica. Por isso, estas novas tentativas anglo-saxónicas de solucionar o problema da consciência, sem o recurso aos conhecimentos adquiridos ao longo da história da filosofia, condenam a filosofia da mente a um estado de indigência muito preocupante, além de incentivar a opinião em detrimento do conhecimento, sobretudo daquele que procura «dizer a verdade» (Canguilhem). De uma ou de outra forma, tanto o feiticeiro Daniel Dennett quanto os seus escravos alucinados pela sua falsa solução que nega que o cérebro produza estados internos qualitativos conscientes, já que rejeita a existência de tais coisas, afiguram-se-me como zombies destituídos de consciência, sobretudo de consciência histórica (Gadamer), que se comportam aparentemente como seres humanos naturais, a avaliar pelos seus comportamentos externos, analisados do ponto de vista da terceira pessoa, como se eles, em conformidade com a sua própria perspectiva, fossem destituídos de uma ontologia da primeira pessoa. Contudo, como demonstrou Sartre nas suas primeiras obras, os cientistas analisam o comportamento das outras pessoas a partir do ponto de vista da terceira pessoa, como se fossem destituídas de uma ontologia da primeira pessoa, embora eles próprios não queiram abdicar da sua subjectividade. A "heterofenomenologia" é aplicada aos outros, porque esse é o procedimento científico normal, mas não se aplica aos próprios que reservam um estatuto fenomenológico especial. Ora, uma tal visão revela a miséria desta filosofia da mente, na qual, falando com rigor, só o feiticeiro não seria um zombie, dado controlar os outros reduzidos a meros autómatos obedientes às suas orientações heterofenomenológicas. J Francisco Saraiva de Sousa


Este título pode parecer estranho, mas ele tem a sua razão de ser. Vodun é o nome foneticamente correcto do complexo cultual popularmente chamado vodu. Trata-se de uma "religião" sincrética dos negros do Haiti que combina elementos cristãos com elementos africanos, especialmente originários de Daomé, que foram introduzidos na região caraíba pelos escravos negros, nos quais tem origem a população actual. Os fundadores do clã de Daomé são conhecidos como tovodun e é deles que provém o culto vodu. Os ritos de vodu são basicamente rituais familiares com ofertas e sacrifícios acompanhados de cânticos e de danças, nos quais vários deuses são personificados e invocados para assistirem à cerimónia. À medida que cada deus é invocado com a sua saudação tocada nos tambores, os dançarinos que os representam vão ficando possuídos. O comportamento de transe dos devotos e o êxtase dos adoradores dão um aspecto sinistro à cerimónia, donde resultou a sua má reputação universal. O termo zombie deriva desta tradição popular haitiana e é usado para referir um «morto vivo», castigado por ter cometido algum crime e condenado a vaguear errante, balbuciando e olhando atentamente com os seus olhos mortos, obedecendo cegamente às ordens de algum sacerdote ou xamã do culto vodu. Wade Davis (1985, 1988) descreveu a poção neurofarmacológica que os praticantes do vodu preparam e que tem supostamente a propriedade de pôr um ser humano num estado semelhante à morte. Estes seres são enterrados vivos durante alguns dias e, posteriormente, são exumados. É-lhes administrado um alucinogéno que provoca desorientação e amnésia, após a qual se convertem em seres errantes como os zombies dos filmes de terror e, por vezes, acabam por ser escravizados pelos seus «feiticeiros». Conforme refere Daniel Dennett, os filósofos retomaram este termo para referir uma categoria distinta de ser humano imaginário: um zombie filosófico é ou seria um ser humano que, apesar de exibir uma conduta perfeitamente normal ou natural, não é consciente e, portanto, é uma espécie de autómato. Ora, a leitura da obra "Consciousness Explained" de Daniel Dennett (1991) permite-nos retribuir-lhe a prática de vodu, no seu sentido originário. Como? Afirmando que o feiticeiro vodu é Daniel Dennett e que os seus zombies são todos aqueles que, de um modo ou de outro, lhe obedecem quando julgam ter descoberto a solução para o velho problema da consciência. Todos negam a ontologia da primeira pessoa, portanto, a existência de estados subjectivos e conscientes. Como se sabe, Dennett, na sua obra «Consciousness Explained», nega a existência dos sentimentos e das experiências subjectivos, portanto, as qualias, e, quando ataca o "teatro cartesiano", opondo-lhe o "modelo dos esboços múltiplos da consciência", não o faz para defender a ideia de que tais estados ocorram difusamente em todo o cérebro, uma hipótese plausível se levarmos em conta a memória, mas para negar a existência de um "local unificado das nossas experiências conscientes", como se a consciência fosse simplesmente a implementação de um certo tipo de "programa ou programas de computador numa máquina paralela" que evolui na natureza. Apesar de pretender ser muito científica no sentido duro do termo, porquanto parece estar em sintonia com a "visão científica do mundo" assumida dogmáticamente como a mais correcta, a teoria de Dennett não dá conta dos estudos neurocientíficos, em particular dos estudos que usam a ressonância magnética funcional para «observar» os correlatos neurais das experiências cognitivas, místicas e estéticas, e, o que é ainda mais grave, omite praticamente toda a «história dogmática da filosofia», preferindo fingir que pensa pela sua própria cabeça, quando realmente mais não faz do que retomar os velhos problemas da escolástica. Por isso, estas novas tentativas anglo-saxónicas de solucionar o problema da consciência, sem o recurso aos conhecimentos adquiridos ao longo da história da filosofia, condenam a filosofia da mente a um estado de indigência muito preocupante, além de incentivar a opinião em detrimento do conhecimento, sobretudo daquele que procura «dizer a verdade» (Canguilhem). De uma ou de outra forma, tanto o feiticeiro Daniel Dennett quanto os seus escravos alucinados pela sua falsa solução que nega que o cérebro produza estados internos qualitativos conscientes, já que rejeita a existência de tais coisas, afiguram-se-me como zombies destituídos de consciência, sobretudo de consciência histórica (Gadamer), que se comportam aparentemente como seres humanos naturais, a avaliar pelos seus comportamentos externos, analisados do ponto de vista da terceira pessoa, como se eles, em conformidade com a sua própria perspectiva, fossem destituídos de uma ontologia da primeira pessoa. Contudo, como demonstrou Sartre nas suas primeiras obras, os cientistas analisam o comportamento das outras pessoas a partir do ponto de vista da terceira pessoa, como se fossem destituídas de uma ontologia da primeira pessoa, embora eles próprios não queiram abdicar da sua subjectividade. A "heterofenomenologia" é aplicada aos outros, porque esse é o procedimento científico normal, mas não se aplica aos próprios que reservam um estatuto fenomenológico especial. Ora, uma tal visão revela a miséria desta filosofia da mente, na qual, falando com rigor, só o feiticeiro não seria um zombie, dado controlar os outros reduzidos a meros autómatos obedientes às suas orientações heterofenomenológicas. J Francisco Saraiva de Sousa

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