(René Magritte, La Magie Noire, Musée Royaux des Beaux-arts, Brussels, Belgium)Este amorTão violentoTão frágilTão ternoTão desesperadoEste amorBelo como o diaE mau como o tempoJacques PrévertEle ia a caminho do Chiado, para participar numa conversa com Ian McEwan sobre a importância dos mal-entendidos nas relações pessoais, a propósito do lançamento do libreto Por Ti, mas Brigitte ia sair na Avenida, de maneira que só tinham duas paragens para estarem juntos. Ainda conseguiram apresentar-se e trocar emails…Ficou a saber que ela integrara muito recentemente a Orquestra Sinfónica Portuguesa. Que era de Leipzig, mas tinha passado os primeiros treze anos em Seattle. O seu sorriso era amplo e aberto e o seu inglês era perfeito, não tinha nem a mais leve sombra de sotaque. Devem ter conversado para aí uns onze minutos – quinze minutos no máximo. Quando ela saiu, ele já sabia que tinha acontecido algo de gigantesco… pelo menos para ele. Não podia saber o que é que Brigitte estava a sentir mas, quando se despediram, ele sabia que tinha encontrado a mulher da sua vida… O amor reinventa as necessidades a uma velocidade alucinante. O Amar não acaba, como escreveu Clarisse Lispector, e tal como para a escritora, sentiu que o mundo era dele e estava à sua espera. E ele queria ir ao encontro do que o esperava. O seu sentir provava que Brigitte, cuja existência ele desconhecia poucos minutos antes, já adquirira o estatuto de desejo incontrolável. De súbito as palavras da Primavera de Grieg ecoaram na sua cabeça: “mais uma vez aconteceu o milagre, mais uma vez me foi concedida a felicidade”. Uma janela aberta para a própria quinta-essência da felicidade. Sentiu que ia morrer se a perdesse de vista naquela estação de metro – morrer por alguém que se entranhara na sua vida apenas às dezoito horas e quarenta e cinco minutos daquele chuvoso final de tarde do mês de Junho, nesta estranha cidade chamada Lisboa…Luís Galego
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(René Magritte, La Magie Noire, Musée Royaux des Beaux-arts, Brussels, Belgium)Este amorTão violentoTão frágilTão ternoTão desesperadoEste amorBelo como o diaE mau como o tempoJacques PrévertEle ia a caminho do Chiado, para participar numa conversa com Ian McEwan sobre a importância dos mal-entendidos nas relações pessoais, a propósito do lançamento do libreto Por Ti, mas Brigitte ia sair na Avenida, de maneira que só tinham duas paragens para estarem juntos. Ainda conseguiram apresentar-se e trocar emails…Ficou a saber que ela integrara muito recentemente a Orquestra Sinfónica Portuguesa. Que era de Leipzig, mas tinha passado os primeiros treze anos em Seattle. O seu sorriso era amplo e aberto e o seu inglês era perfeito, não tinha nem a mais leve sombra de sotaque. Devem ter conversado para aí uns onze minutos – quinze minutos no máximo. Quando ela saiu, ele já sabia que tinha acontecido algo de gigantesco… pelo menos para ele. Não podia saber o que é que Brigitte estava a sentir mas, quando se despediram, ele sabia que tinha encontrado a mulher da sua vida… O amor reinventa as necessidades a uma velocidade alucinante. O Amar não acaba, como escreveu Clarisse Lispector, e tal como para a escritora, sentiu que o mundo era dele e estava à sua espera. E ele queria ir ao encontro do que o esperava. O seu sentir provava que Brigitte, cuja existência ele desconhecia poucos minutos antes, já adquirira o estatuto de desejo incontrolável. De súbito as palavras da Primavera de Grieg ecoaram na sua cabeça: “mais uma vez aconteceu o milagre, mais uma vez me foi concedida a felicidade”. Uma janela aberta para a própria quinta-essência da felicidade. Sentiu que ia morrer se a perdesse de vista naquela estação de metro – morrer por alguém que se entranhara na sua vida apenas às dezoito horas e quarenta e cinco minutos daquele chuvoso final de tarde do mês de Junho, nesta estranha cidade chamada Lisboa…Luís Galego