Mais Évora: “A bem da Nação”

23-05-2009
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«Em Março deste ano realizou-se uma Assembleia Municipal Extraordinária que teve como tema as alterações climáticas. Apesar do modelo de assembleia adoptado e que, em minha opinião, apenas afasta os cidadãos da participação desejada, conseguiu extrair-se um conjunto de reflexões e de informações de grande utilidade para a tarefa urgente e necessária da preservação da vida, sob as suas diversas formas, no nosso planeta. Numa dessas intervenções, Ana Maria Silva, eleita pela CDU, sublinhou, acompanhando as preocupações de uma das convidadas, que a expansão dos perímetros urbanos resultariam em claro prejuízo para o ambiente, pelo incremento de deslocações pendulares entre outras consequências igualmente gravosas, sugerindo a rectificação de tais opções no PDM recentemente aprovado.Dias antes desta Assembleia Municipal extraordinária, saiu num jornal diário uma entrevista à mesma eleita pela CDU, onde, na qualidade de professora universitária, defendia que a expansão de perímetros urbanos, com a criação de novas centralidades teria custos ambientais elevados e seria um exemplo de má prática na defesa do ambiente.Até aqui tudo parecia pacífico, dentro das mais elementares princípios que devem enformar o exercício da cidadania. O que saiu fora destes tais princípios elementares, foi a reacção do Presidente da Câmara, que em vez de alinhar no debate esgrimindo argumentos e convicções, resolveu, imaginem, fazer queixa da Professora Doutora Ana Maria Silva ao Reitor da Universidade de Évora, através de um ofício onde o estilo delatório nos remete para outros tempos.Pretenderia o Senhor Presidente afastar a professora da actividade docente? Pretenderia que o Reitor aplicasse algum castigo, que corrigisse a atrevida que ousou questionar as opções da proposta de revisão do PDM? Não o sabemos, mas ficámos a saber pelas palavras que o próprio proferiu na Assembleia Municipal da passada sexta-feira, que é um defensor do método utilizado e que não se mostra minimamente incomodado com o facto de ir fazer queixa à entidade patronal de uma eleita, por palavras por esta produzidas no exercício de direitos de cidadania constitucionalmente garantidos.A queixa apresentada não teve qualquer consequência para a vida da Professora Ana Maria Silva, mas não deixa de ser reveladora do entendimento que o Senhor Presidente da Câmara tem sobre o exercício da democracia e do livre debate de ideias. Com tal entendimento qualquer dia teremos queixas apresentadas aos órgãos de polícia criminal, para que ponham na ordem todos os que ousem questionar as certezas absolutas de que só existe um caminho: aquele que for lavrado pelo iluminado edil. Quando isso acontecer quase que aposto que a missiva indignada terminará com a frase “a bem da nação”.»Eduardo Luciano[DIANAFM, 03.07.2008]

«Em Março deste ano realizou-se uma Assembleia Municipal Extraordinária que teve como tema as alterações climáticas. Apesar do modelo de assembleia adoptado e que, em minha opinião, apenas afasta os cidadãos da participação desejada, conseguiu extrair-se um conjunto de reflexões e de informações de grande utilidade para a tarefa urgente e necessária da preservação da vida, sob as suas diversas formas, no nosso planeta. Numa dessas intervenções, Ana Maria Silva, eleita pela CDU, sublinhou, acompanhando as preocupações de uma das convidadas, que a expansão dos perímetros urbanos resultariam em claro prejuízo para o ambiente, pelo incremento de deslocações pendulares entre outras consequências igualmente gravosas, sugerindo a rectificação de tais opções no PDM recentemente aprovado.Dias antes desta Assembleia Municipal extraordinária, saiu num jornal diário uma entrevista à mesma eleita pela CDU, onde, na qualidade de professora universitária, defendia que a expansão de perímetros urbanos, com a criação de novas centralidades teria custos ambientais elevados e seria um exemplo de má prática na defesa do ambiente.Até aqui tudo parecia pacífico, dentro das mais elementares princípios que devem enformar o exercício da cidadania. O que saiu fora destes tais princípios elementares, foi a reacção do Presidente da Câmara, que em vez de alinhar no debate esgrimindo argumentos e convicções, resolveu, imaginem, fazer queixa da Professora Doutora Ana Maria Silva ao Reitor da Universidade de Évora, através de um ofício onde o estilo delatório nos remete para outros tempos.Pretenderia o Senhor Presidente afastar a professora da actividade docente? Pretenderia que o Reitor aplicasse algum castigo, que corrigisse a atrevida que ousou questionar as opções da proposta de revisão do PDM? Não o sabemos, mas ficámos a saber pelas palavras que o próprio proferiu na Assembleia Municipal da passada sexta-feira, que é um defensor do método utilizado e que não se mostra minimamente incomodado com o facto de ir fazer queixa à entidade patronal de uma eleita, por palavras por esta produzidas no exercício de direitos de cidadania constitucionalmente garantidos.A queixa apresentada não teve qualquer consequência para a vida da Professora Ana Maria Silva, mas não deixa de ser reveladora do entendimento que o Senhor Presidente da Câmara tem sobre o exercício da democracia e do livre debate de ideias. Com tal entendimento qualquer dia teremos queixas apresentadas aos órgãos de polícia criminal, para que ponham na ordem todos os que ousem questionar as certezas absolutas de que só existe um caminho: aquele que for lavrado pelo iluminado edil. Quando isso acontecer quase que aposto que a missiva indignada terminará com a frase “a bem da nação”.»Eduardo Luciano[DIANAFM, 03.07.2008]

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