Aos 71 anos de idade, Manuel dos Reis é um dos últimos afinadores de pianos do país. Nasceu na freguesia piscatória da Cova- Gala, na Figueira da Foz, corria o longínquo ano de 1932. Oriundo de uma família de pescadores do bacalhau, de parcos recursos económicos, cedo soube que a música era aquilo que desejada para a vida. Aos cinco anos de idade, Manuel dos Reis já frequentava os bailes e arraias da freguesia, onde se mostrava interessado pelos instrumentos musicais. “Só queria estar ao pé das filarmónicas para observar e ouvir com atenção os instrumentos”, recorda, ao JN, o músico.Mas tudo começou realmente quando, aos 10 anos de idade e através de um familiar, ingressou num colégio em Espinho, dando aqui os primeiros passos na música. “Comecei como toda a gente por aprender o solfejo, imprescindível para quem quer seguir a vida musical”, contou.A “força” que sentia em perseguir o seu sonho não desmotivou, nem mesmo em 1944 com a II Guerra Mundial ou com a crise que se sentia em Portugal. “A música era o meu sonho e tinha que o levar até ao fim”, sustentou Manuel dos Reis.Depois do exame de conservatório, aos 17 anos, o pianista regressa à cidade da praia da Claridade, ocupando-se a tocar piano nos restaurantes e cafés existentes na zona nobre. “Dantes todos os estabelecimentos em volta do Casino tinham música privada e eu tocava nesses sítios como forma de me sustentar”, relembra, com saudosismo. Invisual de nascença, Manuel dos Reis vê apenas a 20%, mas nem assim deixou de lutar pelo seu desejo de tocar piano. Um sorriso natural é esboçado quando os seus dedos deslizam sobre as teclas de um piano. “Sinto a liberdade quando estou a tocar. É um sentimento indiscritível”, sustentou o septuagenário.Em 1951, com apenas 19 anos de idade, tornou-se afinador, tendo sido contratado pelo Casino da Figueira onde prestou os seus serviços ao longo de três décadas. A partir dos anos 50 a fama de bom afinador espalhou-se pelo país e logo os melhores pianistas portugueses, e não só, bem como os conservatórios regionais o solicitaram para prestar assistência aos seus pianos.Entre os nomes conhecidos para quem Manuel dos Reis trabalhou consta o malogrado pianista espanhol Chegundo Galarza, um dos mais conceituados tocadores de piano da altura. Hoje, aos 71 anos, o figueirense ainda trabalha com nomes sonantes do panorama nacional como Maria João Pires, António Vitorino de Almeida e José de Atalaia, colaborando ainda com os conservatórios de Castelo Branco e Covilhã.Entre histórias engraçadas e períodos “menos bons”, Manuel dos Reis olha para o futuro da profissão com “bastante preocupação”. “Já não há muitos afinadores. Podem-se contar pelos dedos das duas mãos”, desabafa.Os motivos para a extinção de afinadores do país prende-se, entre outros, com as novas tecnologias que “colocam em risco esta profissão”. “Os instrumentos electrónicos substituíram os tradicionais, uma vez que são mais transportáveis e baratos”, reflecte Manuel dos Reis.Também a juventude aprece “andar arredada” da profissão de afinador de piano. “Estão mais preocupados com outros divertimentos” condena o pianista.Manuel dos Reis ainda hoje continua a alegrar bailes e convívios. Nasceu com a música e quer morrer com ela. “Serei sempre fiel até ao fim ao sonho que toda a vida persegui”, afirma entre um sorriso. Objectos indispensáveis na sua profissão:1-Afinador“Este é o utensílio mais importante em todo o processo de afinação”. De facto, o afinador tem como finalidade “testar” os sons pela afinação universal. Tal como o Quilo, o Litro e o Metro, também a música tem uma medida padrão. “A afinação não deve ser feita de qualquer maneira” diz Manuel dos Reis, frisando que é um trabalho que necessita de “muita concentração e silêncio” para ser bem executada.2-DiapasãoEste pequeno “instrumento” dá apenas uma nota (Lá) considerada o ponto padrão para a afinação de todo o piano. Um diapasão é composto por um total de 440 ciclos (vibrações). Nas décadas de 40 e 50, o diapasão antecedia o afinador.3–Corda de PianoUma corda de piano poder ser de cobre ou de aço, sendo que o último é o material mais usual. O arame de cobre serve para enrolar em espiral à volta do arame de aço que é colocado na parte esquerda do piano, tornando as cordas mais grossas, denominadas bordões. “A corda de piano é a essência da música”, afirma Manuel dos Reis.4- Chave de AfinarA chave de afinar é introduzida na cravelha (peça em ferro). Com um boca octógona (8 lados), a chave depois de introduzida na cravelha permite enrolar a corda de piano esticando-a até dar o som desejado pelo afinador.5– Separador de CordasEste objecto é, entre todos, o que mais destaque merece uma vez que cada afinador “cria” o seu próprio separador de cordas. Estes utensílios à afinação não se vendem em lojas mas são “fundamentais” na ajuda ao afinador. O separador de Manuel dos Reis é construído com madeira e borracha (utilizada nas ponta e em forma de cunha). Medidas: Largura: 1 cm quadrado. Comprimento: 15 cm de comprimento.“É imprescindível pois cada tecla tem três cordas iguais e com este instrumento conseguimos abafar o som de duas das cordas e assim ter apenas obter o som da corda que queremos afinar”, explicou Manuel dos Reis.
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Aos 71 anos de idade, Manuel dos Reis é um dos últimos afinadores de pianos do país. Nasceu na freguesia piscatória da Cova- Gala, na Figueira da Foz, corria o longínquo ano de 1932. Oriundo de uma família de pescadores do bacalhau, de parcos recursos económicos, cedo soube que a música era aquilo que desejada para a vida. Aos cinco anos de idade, Manuel dos Reis já frequentava os bailes e arraias da freguesia, onde se mostrava interessado pelos instrumentos musicais. “Só queria estar ao pé das filarmónicas para observar e ouvir com atenção os instrumentos”, recorda, ao JN, o músico.Mas tudo começou realmente quando, aos 10 anos de idade e através de um familiar, ingressou num colégio em Espinho, dando aqui os primeiros passos na música. “Comecei como toda a gente por aprender o solfejo, imprescindível para quem quer seguir a vida musical”, contou.A “força” que sentia em perseguir o seu sonho não desmotivou, nem mesmo em 1944 com a II Guerra Mundial ou com a crise que se sentia em Portugal. “A música era o meu sonho e tinha que o levar até ao fim”, sustentou Manuel dos Reis.Depois do exame de conservatório, aos 17 anos, o pianista regressa à cidade da praia da Claridade, ocupando-se a tocar piano nos restaurantes e cafés existentes na zona nobre. “Dantes todos os estabelecimentos em volta do Casino tinham música privada e eu tocava nesses sítios como forma de me sustentar”, relembra, com saudosismo. Invisual de nascença, Manuel dos Reis vê apenas a 20%, mas nem assim deixou de lutar pelo seu desejo de tocar piano. Um sorriso natural é esboçado quando os seus dedos deslizam sobre as teclas de um piano. “Sinto a liberdade quando estou a tocar. É um sentimento indiscritível”, sustentou o septuagenário.Em 1951, com apenas 19 anos de idade, tornou-se afinador, tendo sido contratado pelo Casino da Figueira onde prestou os seus serviços ao longo de três décadas. A partir dos anos 50 a fama de bom afinador espalhou-se pelo país e logo os melhores pianistas portugueses, e não só, bem como os conservatórios regionais o solicitaram para prestar assistência aos seus pianos.Entre os nomes conhecidos para quem Manuel dos Reis trabalhou consta o malogrado pianista espanhol Chegundo Galarza, um dos mais conceituados tocadores de piano da altura. Hoje, aos 71 anos, o figueirense ainda trabalha com nomes sonantes do panorama nacional como Maria João Pires, António Vitorino de Almeida e José de Atalaia, colaborando ainda com os conservatórios de Castelo Branco e Covilhã.Entre histórias engraçadas e períodos “menos bons”, Manuel dos Reis olha para o futuro da profissão com “bastante preocupação”. “Já não há muitos afinadores. Podem-se contar pelos dedos das duas mãos”, desabafa.Os motivos para a extinção de afinadores do país prende-se, entre outros, com as novas tecnologias que “colocam em risco esta profissão”. “Os instrumentos electrónicos substituíram os tradicionais, uma vez que são mais transportáveis e baratos”, reflecte Manuel dos Reis.Também a juventude aprece “andar arredada” da profissão de afinador de piano. “Estão mais preocupados com outros divertimentos” condena o pianista.Manuel dos Reis ainda hoje continua a alegrar bailes e convívios. Nasceu com a música e quer morrer com ela. “Serei sempre fiel até ao fim ao sonho que toda a vida persegui”, afirma entre um sorriso. Objectos indispensáveis na sua profissão:1-Afinador“Este é o utensílio mais importante em todo o processo de afinação”. De facto, o afinador tem como finalidade “testar” os sons pela afinação universal. Tal como o Quilo, o Litro e o Metro, também a música tem uma medida padrão. “A afinação não deve ser feita de qualquer maneira” diz Manuel dos Reis, frisando que é um trabalho que necessita de “muita concentração e silêncio” para ser bem executada.2-DiapasãoEste pequeno “instrumento” dá apenas uma nota (Lá) considerada o ponto padrão para a afinação de todo o piano. Um diapasão é composto por um total de 440 ciclos (vibrações). Nas décadas de 40 e 50, o diapasão antecedia o afinador.3–Corda de PianoUma corda de piano poder ser de cobre ou de aço, sendo que o último é o material mais usual. O arame de cobre serve para enrolar em espiral à volta do arame de aço que é colocado na parte esquerda do piano, tornando as cordas mais grossas, denominadas bordões. “A corda de piano é a essência da música”, afirma Manuel dos Reis.4- Chave de AfinarA chave de afinar é introduzida na cravelha (peça em ferro). Com um boca octógona (8 lados), a chave depois de introduzida na cravelha permite enrolar a corda de piano esticando-a até dar o som desejado pelo afinador.5– Separador de CordasEste objecto é, entre todos, o que mais destaque merece uma vez que cada afinador “cria” o seu próprio separador de cordas. Estes utensílios à afinação não se vendem em lojas mas são “fundamentais” na ajuda ao afinador. O separador de Manuel dos Reis é construído com madeira e borracha (utilizada nas ponta e em forma de cunha). Medidas: Largura: 1 cm quadrado. Comprimento: 15 cm de comprimento.“É imprescindível pois cada tecla tem três cordas iguais e com este instrumento conseguimos abafar o som de duas das cordas e assim ter apenas obter o som da corda que queremos afinar”, explicou Manuel dos Reis.