Não é de bom tom chamar bairro ao que se vê nas fotos: urbanização, por ser palavra mais comprida, seria mais aceitável; mas o nome oficial, dignamente multissilábico, é Conjunto Habitacional da Bouça. Um dos paradoxos nacionais nesta era de comunicação pletórica é que, entre os vários modos de dizer a mesma coisa, sempre optemos pelo mais complicado. A perífrase e o eufemismo nunca como hoje tiveram tanta voga em Portugal.Situado no cruzamento entre as ruas da Boavista e das Águas Férreas, o Bairro da Bouça, projectado por Siza Vieira, ficou incompleto quando há quase trinta anos recebeu os primeiros moradores. Fizeram-se então menos de metade das habitações previstas. Mas, na versão inacabada, o bairro tinha algo que a versão completa, a inaugurar no próximo 25 de Abril, ainda não tem. Tinha árvores, plátanos jovens que eram quase o único adorno vegetal nos mil metros de extensão da rua da Boavista. Em toda a rua, estreito corredor enfumarado de trânsito, não há hoje uma árvore que nos ajude a respirar. Oxalá se plantem, no bairro renovado, muitas árvores que compensem as que foram sacrificadas - e também disfarcem os paredões cinzentos que rematam os pátios entre os blocos. (Mas não estou muito optimista: calcar a terra com um cilindro compressor, como se vê na segunda foto, não é a preparação ideal para o plantio de árvores.)Ainda correrão as águas férreas que deram nome à rua e à quinta que existiu na vizinhança? Por certo há muito entubadas, a nenhuma árvore tais águas podem aproveitar. Além do bairro, outro dilúvio de betão se prepara para obliterar de vez a memória da quinta e das suas águas: trata-se da cidade judiciária, mega-complexo que justificará também a abertura de uma nova via no quarteirão entre a rua da Boavista e a Lapa.
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Não é de bom tom chamar bairro ao que se vê nas fotos: urbanização, por ser palavra mais comprida, seria mais aceitável; mas o nome oficial, dignamente multissilábico, é Conjunto Habitacional da Bouça. Um dos paradoxos nacionais nesta era de comunicação pletórica é que, entre os vários modos de dizer a mesma coisa, sempre optemos pelo mais complicado. A perífrase e o eufemismo nunca como hoje tiveram tanta voga em Portugal.Situado no cruzamento entre as ruas da Boavista e das Águas Férreas, o Bairro da Bouça, projectado por Siza Vieira, ficou incompleto quando há quase trinta anos recebeu os primeiros moradores. Fizeram-se então menos de metade das habitações previstas. Mas, na versão inacabada, o bairro tinha algo que a versão completa, a inaugurar no próximo 25 de Abril, ainda não tem. Tinha árvores, plátanos jovens que eram quase o único adorno vegetal nos mil metros de extensão da rua da Boavista. Em toda a rua, estreito corredor enfumarado de trânsito, não há hoje uma árvore que nos ajude a respirar. Oxalá se plantem, no bairro renovado, muitas árvores que compensem as que foram sacrificadas - e também disfarcem os paredões cinzentos que rematam os pátios entre os blocos. (Mas não estou muito optimista: calcar a terra com um cilindro compressor, como se vê na segunda foto, não é a preparação ideal para o plantio de árvores.)Ainda correrão as águas férreas que deram nome à rua e à quinta que existiu na vizinhança? Por certo há muito entubadas, a nenhuma árvore tais águas podem aproveitar. Além do bairro, outro dilúvio de betão se prepara para obliterar de vez a memória da quinta e das suas águas: trata-se da cidade judiciária, mega-complexo que justificará também a abertura de uma nova via no quarteirão entre a rua da Boavista e a Lapa.