Dia da Criança - Poemas de autores diversosOS PUTOS· Ary dos SantosUma bola de pano num charcoUm sorriso traquina, um chutoNa ladeira a correr, um arcoE no céu no olhar dum putoUma fisga que atira a esperançaUm pardal de calções astutoE a força de ser criançaContra a força dum chui que é brutoParecem bandos de pardais à soltaOs putos, os putosSão como índios, capitães da maltaOs putos, os putosMas quando a tarde cai vai-se a revoltaSentam-se ao colo do paiÉ a ternura que voltaE ouvem-no a falar do homem novoSão os putos deste povo a aprenderem a ser homensAs caricas brilhando na mãoA vontade que salta ao eixoE um puto que diz que nãoSe a porrada vier não deixoUm berlinde abafado na escolaUm pião na algibeira sem corE um puto que pede esmolaPorque a fome lhe abafa a dorMas quando a tarde cai vai-se a revoltaSentam-se ao colo do paiÉ a ternura que voltaE ouvem-no a falar do homem novoSão os putos deste povo a aprenderem a ser homens__________Os Meninos do Huambo· Manuel Rui MonteiroCom fios feitos de lágrimas passadasOs meninos do Huambo fazem alegriaConstroem sonhos com os mais velhos de mãos dadasE no céu descobrem estrelas de magiaCom os lábios de dizer nova poesiaSoletram as estrelas como letrasE vão juntando no céu como pedrinhasEstrelas letras para fazer novas palavrasOs meninos à volta da fogueiraVão aprender coisas de sonho e de verdadeVão aprender como se ganha uma bandeiraVão saber o que custou a liberdadeCom os sorrisos mais lindos do planaltoFazem continhas engraçadas de somarSomam beijos com flores e com suorE subtraem manhã cedo por luarDividem a chuva miudinha pelo milhoMultiplicam o vento pelo marSoltam ao céu as estrelas já escritasConstelações que brilham sempre sem pararOs meninos à volta da fogueiraVão aprender coisas de sonho e de verdadeVão aprender como se ganha uma bandeiraVão saber o que custou a liberdadePalavras sempre novas, sempre novasPalavras deste tempo sempre novoPorque os meninos inventaram coisas novasE até já dizem que as estrelas são do povoAssim contentes à voltinha da fogueiraJuntam palavras deste tempo sempre novoPorque os meninos inventaram coisas novasE até já dizem que as estrelas são do povo__________MENINO DO BAIRRO NEGRO · Letra e música de José AfonsoOlha o sol que vai nascendoAnda ver o marOs meninos vão correndoVer o sol chegarSe até dá gosto cantarSe toda a terra sorriQuem te não há-de amarMenino a tiSe não é fúria a razãoSe toda a gente quiserUm dia hás-de aprenderHaja o que houverNegro bairro negroBairro negroOnde não há pãoNão há sossegoMenino pobre o teu larQueira ou não queira o papãoHá-de um dia cantarEsta canção__________Dia de Natal· António GedeãoHoje é dia de era bom.É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,de falar e de ouvir com mavioso tom,de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.Comove tanta fraternidade universal.É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,como se de anjos fosse,numa toada doce,de violas e banjos,Entoa gravemente um hino ao Criador.E mal se extinguem os clamores plangentes,a voz do locutoranuncia o melhor dos detergentes.De novo a melopeia inunda a Terra e o Céue as vozes crescem num fervor patético.(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suase fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimentoe compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.Mas a maior felicidade é a da gente pequena.Naquela véspera santaa sua comoção é tanta, tanta, tanta,que nem dorme serena.Cada meninoabre um olhinhona noite incertapara ver se a aurorajá está desperta.De manhãzinha,salta da cama,corre à cozinhamesmo em pijama.Ah!!!!!!!!!!Na branda maciezada matutina luzaguarda-o a surpresado Menino Jesus.Jesuso doce Jesus,o mesmo que nasceu na manjedoura,veio pôr no sapatinhodo Pedrinhouma metralhadora.Que alegriareinou naquela casa em todo o santo dia!O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,fuzilava tudo com devastadoras rajadase obrigava as criadasa caírem no chão como se fossem mortas:Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.Já está!E fazia-as erguer para de novo matá-las.E até mesmo a mamã e o sisudo papáfingiamque caíamcrivados de balas.Dia de Confraternização Universal,Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,de Sonhos e Venturas.É dia de Natal.Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.Glória a Deus nas Alturas.__________O menino negro não entrou na roda· Geraldo Bessa VictorO menino negro não entrou na rodadas crianças brancas - as crianças brancasque brincavam todas numa roda vivade canções festivas, gargalhadas francas...O menino negro não entrou na roda.E chegou o vento junto das crianças- e bailou com elas e cantou com elasas canções e danças das suaves brisas,as canções e danças das brutais procelas.O menino negro não entrou na roda.Pássaros, em bando, voaram chilreandosobre as cabecinhas lindas dos meninose pousaram todos em redor. Por fim,bailaram seus vôos, cantando seus hinos ...O menino negro não entrou na roda."Venha cá, pretinho, venha cá brincar"- disse um dos meninos com seu ar feliz.A mamã, zelosa, logo fez reparo;o menino branco já não quis, não quis ...o menino negro não entrou na roda.O menino negro não entrou na rodadas crianças brancas. Desolado, absorto,ficou só, parado com olhar cego,ficou só, calado com voz de morto.__________A NEVE * Augusto Gil- Luar de Janeiro, 1909Batem leve, levemente,como quem chama por mim...Será chuva? Será gente?Gente não é, certamentee a chuva não bate assim...É talvez a ventania;mas há pouco, há poucochinho,nem uma agulha buliana quieta melancoliados pinheiros do caminho...Quem bate, assim, levemente,com tão estranha leveza,que mal se ouve, mal se sente?Não é chuva, nem é gente,nem é vento, com certeza.Fui ver. A neve caíado azul cinzento do céu,branca e leve, branca e fria...Há quanto tempo a não via!E que saudade, Deus meu!Olho-a através da vidraça.Pôs tudo da cor do linho.Passa gente e, quando passa,os passos imprime e traçana brancura do caminho...Fico olhando esses sinaisda pobre gente que avança,e noto, por entre os mais,os traços miniaturaisde uns pezitos de criança...E descalcinhos, doridos...a neve deixa inda vê-los,primeiro, bem definidos,- depois em sulcos compridos,porque não podia erguê-los!...Que quem já é pecadorsofra tormentos... enfim!Mas as crianças, Senhor,porque lhes dais tanta dor?!...Porque padecem assim?!E uma infinita tristeza,uma funda turbaçãoentra em mim, fica em mim presa.Cai neve na natureza...– e cai no meu coração.__________Menino de oiro· José Afonso( 1929 - 1987 )O meu menino é d'oiroÉ d'oiro finoNão façam caso que é pequeninoO meu menino é d'oiroD'oiro fagueiroHei-de levá-lo no meu veleiro.Venham aves do céuPousar de mansinhoPor sobre os ombros do meu meninoDo meu menino, do meu meninoVenha comigo venhamQue eu não vou sóLevo o menino no meu trenó.Quantos sonhos ligeiros p'ra teu sossegoMenino avaro não tenhas medoOnde fores no teu sonhoQuero ir contigoMenino de oiro sou teu amigoVenham altas montanhasVentos do marQue o meu meninoNasceu p'r'amarVenha comigo venhamQue eu não vou sóLevo o menino no meu trenó.O meu menino é d'oiroÉ d'oiro é de oiro fino ....Venham altas montanhasVentos do mar ....
Categorias
Entidades
Dia da Criança - Poemas de autores diversosOS PUTOS· Ary dos SantosUma bola de pano num charcoUm sorriso traquina, um chutoNa ladeira a correr, um arcoE no céu no olhar dum putoUma fisga que atira a esperançaUm pardal de calções astutoE a força de ser criançaContra a força dum chui que é brutoParecem bandos de pardais à soltaOs putos, os putosSão como índios, capitães da maltaOs putos, os putosMas quando a tarde cai vai-se a revoltaSentam-se ao colo do paiÉ a ternura que voltaE ouvem-no a falar do homem novoSão os putos deste povo a aprenderem a ser homensAs caricas brilhando na mãoA vontade que salta ao eixoE um puto que diz que nãoSe a porrada vier não deixoUm berlinde abafado na escolaUm pião na algibeira sem corE um puto que pede esmolaPorque a fome lhe abafa a dorMas quando a tarde cai vai-se a revoltaSentam-se ao colo do paiÉ a ternura que voltaE ouvem-no a falar do homem novoSão os putos deste povo a aprenderem a ser homens__________Os Meninos do Huambo· Manuel Rui MonteiroCom fios feitos de lágrimas passadasOs meninos do Huambo fazem alegriaConstroem sonhos com os mais velhos de mãos dadasE no céu descobrem estrelas de magiaCom os lábios de dizer nova poesiaSoletram as estrelas como letrasE vão juntando no céu como pedrinhasEstrelas letras para fazer novas palavrasOs meninos à volta da fogueiraVão aprender coisas de sonho e de verdadeVão aprender como se ganha uma bandeiraVão saber o que custou a liberdadeCom os sorrisos mais lindos do planaltoFazem continhas engraçadas de somarSomam beijos com flores e com suorE subtraem manhã cedo por luarDividem a chuva miudinha pelo milhoMultiplicam o vento pelo marSoltam ao céu as estrelas já escritasConstelações que brilham sempre sem pararOs meninos à volta da fogueiraVão aprender coisas de sonho e de verdadeVão aprender como se ganha uma bandeiraVão saber o que custou a liberdadePalavras sempre novas, sempre novasPalavras deste tempo sempre novoPorque os meninos inventaram coisas novasE até já dizem que as estrelas são do povoAssim contentes à voltinha da fogueiraJuntam palavras deste tempo sempre novoPorque os meninos inventaram coisas novasE até já dizem que as estrelas são do povo__________MENINO DO BAIRRO NEGRO · Letra e música de José AfonsoOlha o sol que vai nascendoAnda ver o marOs meninos vão correndoVer o sol chegarSe até dá gosto cantarSe toda a terra sorriQuem te não há-de amarMenino a tiSe não é fúria a razãoSe toda a gente quiserUm dia hás-de aprenderHaja o que houverNegro bairro negroBairro negroOnde não há pãoNão há sossegoMenino pobre o teu larQueira ou não queira o papãoHá-de um dia cantarEsta canção__________Dia de Natal· António GedeãoHoje é dia de era bom.É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,de falar e de ouvir com mavioso tom,de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.Comove tanta fraternidade universal.É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,como se de anjos fosse,numa toada doce,de violas e banjos,Entoa gravemente um hino ao Criador.E mal se extinguem os clamores plangentes,a voz do locutoranuncia o melhor dos detergentes.De novo a melopeia inunda a Terra e o Céue as vozes crescem num fervor patético.(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suase fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimentoe compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.Mas a maior felicidade é a da gente pequena.Naquela véspera santaa sua comoção é tanta, tanta, tanta,que nem dorme serena.Cada meninoabre um olhinhona noite incertapara ver se a aurorajá está desperta.De manhãzinha,salta da cama,corre à cozinhamesmo em pijama.Ah!!!!!!!!!!Na branda maciezada matutina luzaguarda-o a surpresado Menino Jesus.Jesuso doce Jesus,o mesmo que nasceu na manjedoura,veio pôr no sapatinhodo Pedrinhouma metralhadora.Que alegriareinou naquela casa em todo o santo dia!O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,fuzilava tudo com devastadoras rajadase obrigava as criadasa caírem no chão como se fossem mortas:Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.Já está!E fazia-as erguer para de novo matá-las.E até mesmo a mamã e o sisudo papáfingiamque caíamcrivados de balas.Dia de Confraternização Universal,Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,de Sonhos e Venturas.É dia de Natal.Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.Glória a Deus nas Alturas.__________O menino negro não entrou na roda· Geraldo Bessa VictorO menino negro não entrou na rodadas crianças brancas - as crianças brancasque brincavam todas numa roda vivade canções festivas, gargalhadas francas...O menino negro não entrou na roda.E chegou o vento junto das crianças- e bailou com elas e cantou com elasas canções e danças das suaves brisas,as canções e danças das brutais procelas.O menino negro não entrou na roda.Pássaros, em bando, voaram chilreandosobre as cabecinhas lindas dos meninose pousaram todos em redor. Por fim,bailaram seus vôos, cantando seus hinos ...O menino negro não entrou na roda."Venha cá, pretinho, venha cá brincar"- disse um dos meninos com seu ar feliz.A mamã, zelosa, logo fez reparo;o menino branco já não quis, não quis ...o menino negro não entrou na roda.O menino negro não entrou na rodadas crianças brancas. Desolado, absorto,ficou só, parado com olhar cego,ficou só, calado com voz de morto.__________A NEVE * Augusto Gil- Luar de Janeiro, 1909Batem leve, levemente,como quem chama por mim...Será chuva? Será gente?Gente não é, certamentee a chuva não bate assim...É talvez a ventania;mas há pouco, há poucochinho,nem uma agulha buliana quieta melancoliados pinheiros do caminho...Quem bate, assim, levemente,com tão estranha leveza,que mal se ouve, mal se sente?Não é chuva, nem é gente,nem é vento, com certeza.Fui ver. A neve caíado azul cinzento do céu,branca e leve, branca e fria...Há quanto tempo a não via!E que saudade, Deus meu!Olho-a através da vidraça.Pôs tudo da cor do linho.Passa gente e, quando passa,os passos imprime e traçana brancura do caminho...Fico olhando esses sinaisda pobre gente que avança,e noto, por entre os mais,os traços miniaturaisde uns pezitos de criança...E descalcinhos, doridos...a neve deixa inda vê-los,primeiro, bem definidos,- depois em sulcos compridos,porque não podia erguê-los!...Que quem já é pecadorsofra tormentos... enfim!Mas as crianças, Senhor,porque lhes dais tanta dor?!...Porque padecem assim?!E uma infinita tristeza,uma funda turbaçãoentra em mim, fica em mim presa.Cai neve na natureza...– e cai no meu coração.__________Menino de oiro· José Afonso( 1929 - 1987 )O meu menino é d'oiroÉ d'oiro finoNão façam caso que é pequeninoO meu menino é d'oiroD'oiro fagueiroHei-de levá-lo no meu veleiro.Venham aves do céuPousar de mansinhoPor sobre os ombros do meu meninoDo meu menino, do meu meninoVenha comigo venhamQue eu não vou sóLevo o menino no meu trenó.Quantos sonhos ligeiros p'ra teu sossegoMenino avaro não tenhas medoOnde fores no teu sonhoQuero ir contigoMenino de oiro sou teu amigoVenham altas montanhasVentos do marQue o meu meninoNasceu p'r'amarVenha comigo venhamQue eu não vou sóLevo o menino no meu trenó.O meu menino é d'oiroÉ d'oiro é de oiro fino ....Venham altas montanhasVentos do mar ....