XimPi: Torga: A Poesia não morre

28-06-2009
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* Barbosa Tavares Miguel Torga consciencializa a límpida noção da brevidade da vida, utlizando no pórtico de todos os seus diários a expressão do eminente diarista francês Amiel:" cada dia, deixamos um pedaço de nós próprios sobre o caminho"..Do autor se diz que é lamuriento, agónico, queixoso das suas maleitas fisicas que, aos 86 anos, lhe fragilizariam o corpo que não o espírito.Veja-se a argúcia, a limpidez da razão ,a translucidez do olhar sobre o seu mundo em derredor da vida..Evidentemente que Torga não carece deste, nem de outro ignoto escriba que venha a terreiro defender a suas flutuações humorais a sua, por vezes, impertinácia ou rabujice, a contumácia sibilina com que "prenda" os noviços plumitivos -- dizem-nos-- faces aos que abordam as letras sem os prmores do cinzel granitico Torguiano..O autor dos "Diários", entre outras coisas, era uma alma duplamente rejubilante e amarga. A sua obra nao existiria tal a conhecemos não fora a perrmanente confrontação do vivente que comunga com as pedras do seu Marão o mais pungente e inquiridor telurismo, ou, acaso, senão debruçásse implacàvelmente sobre a condição dramática do homem face às múltiplas questionações perante o epílogo da vida..Ora, descarnar a alma, reflectida e demoradamente, com jorros de solar lucidez, haveria fatalmente de dilacerar o autor, tal a implacável questionação ousada que , forçosamente, haveria de, em assomos de agnosticismo e mitigado desespero, amargurar-lhe a alma. .Mas é um Torga de ousadia granítica que faz bandeira da autencidade do seu modo de ser, que constitui fundamentalmente a sua valorizadíssima liberdade, levando-o sem rebuços a escrever no seu último diário XVI, expressões verdadeiras e acres, com este dessasombro., :" É escusado teimar. A ser banal, a dizer banalidades e a pensar banalidades é que o português é português"..Homem ousado, virulento até, é o mesmo que sentindo dolorosamente a vida fenecer, parece implorar.Complacentemente, ternura para as suas Chagas..Reclamando lágrimas para as suas dores, ele o diz, deste jeito: " nasci com a triste sina de esgotar todos os cálices da amargura. Até este agonizar no palco do mundo a pedir lágrimas e a receber apupos e felicitações..Não se escreve lancinante e luminarrmente a vida, sem a ter desse modo vivido—agónica e cruel--, na hora em que a Parca ja enlaçou com os laços visíveis de uma redenção luminosamente enxergada. Daí que a mais justa homenagem a Miguel Torga---homem-escritor-poeta—seja recitar-lhe o seu "REQUIEM POR MIM" que o poeta sabendo-se, dolorosamente mortal, a entrar nos portões do Além, cantara, esperançado na eternidade, à beira do seu nada distante sepulcro , a 10 de Dezembro de 1993, deste jeito. .Aproxima-se o fim.E tenho pena de acabar assim,Em vez de natureza consumada,Ruina humanaInválido do corpoE tolhido da alma.Morto em todos os orgãos e sentidosLongo foi o caminho e desmedidosOs sonhos que nela tive.Mas ninguém viveContra as leis do destino.E o destino não quisQue eu me cumprisse como porfiei.E caisse de pé, num desafio.Rio feliz a ir de encontro ao marDesaguar,E em largo oceano eternizarO seu esplendor torrencial de rio. . Brampton, Dezembro de 1993.in PortugalClub


* Barbosa Tavares Miguel Torga consciencializa a límpida noção da brevidade da vida, utlizando no pórtico de todos os seus diários a expressão do eminente diarista francês Amiel:" cada dia, deixamos um pedaço de nós próprios sobre o caminho"..Do autor se diz que é lamuriento, agónico, queixoso das suas maleitas fisicas que, aos 86 anos, lhe fragilizariam o corpo que não o espírito.Veja-se a argúcia, a limpidez da razão ,a translucidez do olhar sobre o seu mundo em derredor da vida..Evidentemente que Torga não carece deste, nem de outro ignoto escriba que venha a terreiro defender a suas flutuações humorais a sua, por vezes, impertinácia ou rabujice, a contumácia sibilina com que "prenda" os noviços plumitivos -- dizem-nos-- faces aos que abordam as letras sem os prmores do cinzel granitico Torguiano..O autor dos "Diários", entre outras coisas, era uma alma duplamente rejubilante e amarga. A sua obra nao existiria tal a conhecemos não fora a perrmanente confrontação do vivente que comunga com as pedras do seu Marão o mais pungente e inquiridor telurismo, ou, acaso, senão debruçásse implacàvelmente sobre a condição dramática do homem face às múltiplas questionações perante o epílogo da vida..Ora, descarnar a alma, reflectida e demoradamente, com jorros de solar lucidez, haveria fatalmente de dilacerar o autor, tal a implacável questionação ousada que , forçosamente, haveria de, em assomos de agnosticismo e mitigado desespero, amargurar-lhe a alma. .Mas é um Torga de ousadia granítica que faz bandeira da autencidade do seu modo de ser, que constitui fundamentalmente a sua valorizadíssima liberdade, levando-o sem rebuços a escrever no seu último diário XVI, expressões verdadeiras e acres, com este dessasombro., :" É escusado teimar. A ser banal, a dizer banalidades e a pensar banalidades é que o português é português"..Homem ousado, virulento até, é o mesmo que sentindo dolorosamente a vida fenecer, parece implorar.Complacentemente, ternura para as suas Chagas..Reclamando lágrimas para as suas dores, ele o diz, deste jeito: " nasci com a triste sina de esgotar todos os cálices da amargura. Até este agonizar no palco do mundo a pedir lágrimas e a receber apupos e felicitações..Não se escreve lancinante e luminarrmente a vida, sem a ter desse modo vivido—agónica e cruel--, na hora em que a Parca ja enlaçou com os laços visíveis de uma redenção luminosamente enxergada. Daí que a mais justa homenagem a Miguel Torga---homem-escritor-poeta—seja recitar-lhe o seu "REQUIEM POR MIM" que o poeta sabendo-se, dolorosamente mortal, a entrar nos portões do Além, cantara, esperançado na eternidade, à beira do seu nada distante sepulcro , a 10 de Dezembro de 1993, deste jeito. .Aproxima-se o fim.E tenho pena de acabar assim,Em vez de natureza consumada,Ruina humanaInválido do corpoE tolhido da alma.Morto em todos os orgãos e sentidosLongo foi o caminho e desmedidosOs sonhos que nela tive.Mas ninguém viveContra as leis do destino.E o destino não quisQue eu me cumprisse como porfiei.E caisse de pé, num desafio.Rio feliz a ir de encontro ao marDesaguar,E em largo oceano eternizarO seu esplendor torrencial de rio. . Brampton, Dezembro de 1993.in PortugalClub

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