A Arte da Fuga: Reversão

22-06-2005
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O JMF do Terras do Nunca publicou um interessante post. Discordo dele, porque acho que o post é reversível, mas ainda assim obriga-nos a pensar em alguns dos argumentários que por vezes se usam, mesmo neste blogue. Acho o post reversível. Vou tentar:Há uns tempos que andam por aí. Primeiro em jornais de culto, depois nos blogues, agora no mais puro mainstream, ou seja em todo o lado. Até já têm um livro. É possível reconhecê-los a léguas – passam a vida a dizer que o mundo está dominado por uma secreta aliança a que chamam globalização. Vivem, por isso, obcecados com aquilo a que chamam pensamento único. Dizem que estamos dominados, nos media, na política, na universidade, por neo-conservadores mais ou menos assumidos. Eles acham que toda a gente anda com o pensamento formatado por essas teorias libertadoras, de que o capitalismo pode salvar e que é o amigo do desenvolvimento. Eles têm, pois, uma missão – desmontar a cabala global. Por isso, estão sempre do contra. Ou melhor, gostam de dizer que estão sempre do contra. Porque o verdadeiro problema dessa malta é que, verdadeiramente, eles não estão do contra. Eles, à custa de estarem do contra, multiplicaram-se, invadiram toda a esfera pública, e agora são eles já uma espécie de pensamento único.O método é simples – se se fala do Iraque, eles inventam que os que estão a favor da guerra é porque se deixaram enganar por uns campónios evangélicos. Porque nós não percebemos que qualquer paz é sempre preferível a qualquer guerra. Por isso, eles (re)descobriram a verdadeira América. E acham-se proprietários da dita. Por isso, vêem inimigos da verdadeira alma da América em todo o lado. Por exemplo, na própria América. Ah, como eles detestam a outra América – porque a verdadeira América, dizem, está engolida pela outra América. Na outra América, dizem, os evangélicos e neo-conservadores e os media ainda dominam tudo. Na Europa, não. Porque a Europa tem Zapatero. É um dos ídolos deles o Zapatero, não porque provou governar bem e melhorar a vida dos espanhóis, mas porque pôs a Espanha na modernidade. Está agora na sua galeria de heróis. Porque se alguém (quem? os media, as multinacionais, os capitalistas…) se atreve a dizer que a escolha de Zapatero não se deveu a mérito das suas propostas é porque não percebe nada de nada. Relativista até ao tutano é o que está a dar. Esta malta toda tem, de resto, apesar das aparências que eles se esforçam em criar para indicarem o contrário, um cheirinho a Albânia.Domesticamente, esta malta adora zurzir no sistema. Contra aqueles que vivem à custa dos oprimidos e dos trabalhadores. Quem? Adivinharam – os políticos de direita. E os de esquerda também. Menos os deles. Pois é, verdadeiramente, esta malta já não surpreende ninguém.Mas o mais curioso desta malta é que eles nasceram como que em oposição ao Independente e ao estilo de partido de Manuel Monteiro e Paulo Portas. Se não fosse a direita, esta malta não existia. Porque eles só existem em contraponto à direita. Aqueles moinhos de vento contra os quais lutam são única e exclusivamente as ideias da direita. Que eles tomam como corrente dominante da sociedade. É vê-los por aí a argumentar – espreme-se e que sai? Apenas manifestos anti-direita. Mas essa malta não beneficiou apenas da existência da direita, sobretudo da direita no poder, a tal direita cujos valores são hegemónicos. Beneficiou igualmente dos media (a outra face negra da coisa…), a qual, sem quaisquer problemas de consciência, lhes dá espaço generoso.E é assim que está criado o monstro – dois extremismos que se digladiam na praça pública, como se representassem maiorias, quando, no fundo, são pouco mais que nada.

O JMF do Terras do Nunca publicou um interessante post. Discordo dele, porque acho que o post é reversível, mas ainda assim obriga-nos a pensar em alguns dos argumentários que por vezes se usam, mesmo neste blogue. Acho o post reversível. Vou tentar:Há uns tempos que andam por aí. Primeiro em jornais de culto, depois nos blogues, agora no mais puro mainstream, ou seja em todo o lado. Até já têm um livro. É possível reconhecê-los a léguas – passam a vida a dizer que o mundo está dominado por uma secreta aliança a que chamam globalização. Vivem, por isso, obcecados com aquilo a que chamam pensamento único. Dizem que estamos dominados, nos media, na política, na universidade, por neo-conservadores mais ou menos assumidos. Eles acham que toda a gente anda com o pensamento formatado por essas teorias libertadoras, de que o capitalismo pode salvar e que é o amigo do desenvolvimento. Eles têm, pois, uma missão – desmontar a cabala global. Por isso, estão sempre do contra. Ou melhor, gostam de dizer que estão sempre do contra. Porque o verdadeiro problema dessa malta é que, verdadeiramente, eles não estão do contra. Eles, à custa de estarem do contra, multiplicaram-se, invadiram toda a esfera pública, e agora são eles já uma espécie de pensamento único.O método é simples – se se fala do Iraque, eles inventam que os que estão a favor da guerra é porque se deixaram enganar por uns campónios evangélicos. Porque nós não percebemos que qualquer paz é sempre preferível a qualquer guerra. Por isso, eles (re)descobriram a verdadeira América. E acham-se proprietários da dita. Por isso, vêem inimigos da verdadeira alma da América em todo o lado. Por exemplo, na própria América. Ah, como eles detestam a outra América – porque a verdadeira América, dizem, está engolida pela outra América. Na outra América, dizem, os evangélicos e neo-conservadores e os media ainda dominam tudo. Na Europa, não. Porque a Europa tem Zapatero. É um dos ídolos deles o Zapatero, não porque provou governar bem e melhorar a vida dos espanhóis, mas porque pôs a Espanha na modernidade. Está agora na sua galeria de heróis. Porque se alguém (quem? os media, as multinacionais, os capitalistas…) se atreve a dizer que a escolha de Zapatero não se deveu a mérito das suas propostas é porque não percebe nada de nada. Relativista até ao tutano é o que está a dar. Esta malta toda tem, de resto, apesar das aparências que eles se esforçam em criar para indicarem o contrário, um cheirinho a Albânia.Domesticamente, esta malta adora zurzir no sistema. Contra aqueles que vivem à custa dos oprimidos e dos trabalhadores. Quem? Adivinharam – os políticos de direita. E os de esquerda também. Menos os deles. Pois é, verdadeiramente, esta malta já não surpreende ninguém.Mas o mais curioso desta malta é que eles nasceram como que em oposição ao Independente e ao estilo de partido de Manuel Monteiro e Paulo Portas. Se não fosse a direita, esta malta não existia. Porque eles só existem em contraponto à direita. Aqueles moinhos de vento contra os quais lutam são única e exclusivamente as ideias da direita. Que eles tomam como corrente dominante da sociedade. É vê-los por aí a argumentar – espreme-se e que sai? Apenas manifestos anti-direita. Mas essa malta não beneficiou apenas da existência da direita, sobretudo da direita no poder, a tal direita cujos valores são hegemónicos. Beneficiou igualmente dos media (a outra face negra da coisa…), a qual, sem quaisquer problemas de consciência, lhes dá espaço generoso.E é assim que está criado o monstro – dois extremismos que se digladiam na praça pública, como se representassem maiorias, quando, no fundo, são pouco mais que nada.

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