CASTELO DE VIDE: TERRORISMO AMBIENTAL

21-07-2005
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TERRORISMO AMBIENTAL

A Oriente como a Ocidente, da China e do Japão à Florida, as alterações climáticas com o seu cortejo de inundações devastadores estão na ordem do dia, a fazer dezenas de mortos, centenas e centenas de feridos, num cenário de tragédia e desolação a que se somam prejuízos materiais impossíveis de contabilizar. O furacão “Ivan”, com ventos a mais 250 km/H virou calamidade nas Caraíbas, flagelou a República Dominicana, passou pela Jamaica, (mais de 50 mortos) e dirige-se agora em direcção do México. “À espera que o pesadelo passe”, dizia um comentador televisivo. Curiosamente, toda a informação sobre estas tragédias está marcada pelo signo da fatalidade. Pois bem: mesmo que alguma incerteza científica pudesse pairar sobre a relação Poluição/ Alterações Climáticas, o princípio de precaução deveria prevalecer e consequentes medidas deveriam ser tomadas. A mesma precaução deveria prevalecer relativamente aos transgénicos e às manipulações genéticas.

A questão das alterações climáticas devia convidar os responsáveis políticos a promover um amplo debate que reunisse, não só ambientalistas, mas diferentes especialistas dos vários sectores envolvidos. Há que colocar a questão de saber como são exercidas as actividades económicas. A Economia é um subsistema das actividades humanas nas quais ela está incluída e não separada. Actividades que por seu turno são um subsistema da biosfera de que a Economia não está desligada. Ora, o que se produz é que o actual modelo económico está a ameaçar e a pôr em perigo o sistema global em que se inclui. Daí o conflito entre Economia e Ambiente. Há que reconsiderar as lógicas económicas assentes no lucro imediato e mecânico, as quais não poderão desenvolver-se de modo sustentado se a natureza continuar a ser gravemente lesada. Essa mesma natureza, como bem apontou Jean-Paul Maréchal, que lhes fornece gratuitamente as fontes materiais e energéticas e cuja capacidade de absorção de actividades perversas não é ilimitada. O bom senso levaria pois a supor que em questões ambientais, a norma não deveria ser imposta pelo mercado que, entregue a si próprio, agride a biosfera e é um produtor de desequilíbrios, mas sim fundada numa lógica da reprodução do meio natural. Como falar então de racionalidade económica nestas condições, com desprezo pela Ecologia e pela Ética? Não há fatalidade. A questão é antes de saber em que medida um sem número de actividades económicas predadoras romperam o equilíbrio homeostático, o que as políticas energéticas não poderão por mais tempo ignorar e silenciar

Os jornalistas e comentadores televisivos inundam os ecrãs com imagens de tragédia deixadas pelos furacões…e falam em pesadelo. Resta saber se os pesadelos aparecem por obra e graça do Espírito Santo. Até Freud se riria disso… É para quando um debate televisivo sério, alargado, abrangente, sobre questões ambientais e alterações climáticas? Não que eu pessoalmente esteja interessado em nele participar, por razões que não vêm agora para o caso…mas onde estão os jornalistas a exigir às suas Direcções de Programação se debrucem sobre o tema, eles que parecem ser tão sensíveis as pequenas tragédias individuais e ao caso local, a coberto de pretensas solidariedades? Ventilar a questão das alterações ambientais não puxa audiência como o faz o “Big Brother”? Mas as audiências criam-se, constroem-se, não se anda a rabo delas… O que se passa é que há certas audiências que não convém sejam promovidas. Lá se ia o tacho e a côdea, sobretudo a visibilidade pirosa nos ecrãs. E continuam-se a noticiar fatalidades e o pesadelo de “Ivan o Terrível”. Onde está esse debate televisivo que reúna científicos e gente qualificada na matéria, de diferentes formações ou filiações. Uma coisa a sério, que não seja um encontro de parodiantes numa coutada de caça. Um debate que explicite, nomeadamente, o que é que está em causa no protocolo de Quioto, que muitos não assinaram, que ponha a questão das quotas…de poluição, que equacione problemáticas em torno de Economia e Ambiente, que explique o que significa o aquecimento global, “ uma ameaça bem maior que as armas de destruição maciça”, nos dizeres de Blix, o ex-inspector-chefe de armamento da ONU para o Iraque. Os senhores jornalistas noticiam, noticiam as tragédias mas, por detrás de cada furacão nenhum enquadramento, nenhuma procura das causas prováveis, das problemáticas em jogo. Esta a nova censura, sem botas cardadas, bem mais insidiosa que a censura do antigamente. A História vos julgará.

A.B.P.

TERRORISMO AMBIENTAL

A Oriente como a Ocidente, da China e do Japão à Florida, as alterações climáticas com o seu cortejo de inundações devastadores estão na ordem do dia, a fazer dezenas de mortos, centenas e centenas de feridos, num cenário de tragédia e desolação a que se somam prejuízos materiais impossíveis de contabilizar. O furacão “Ivan”, com ventos a mais 250 km/H virou calamidade nas Caraíbas, flagelou a República Dominicana, passou pela Jamaica, (mais de 50 mortos) e dirige-se agora em direcção do México. “À espera que o pesadelo passe”, dizia um comentador televisivo. Curiosamente, toda a informação sobre estas tragédias está marcada pelo signo da fatalidade. Pois bem: mesmo que alguma incerteza científica pudesse pairar sobre a relação Poluição/ Alterações Climáticas, o princípio de precaução deveria prevalecer e consequentes medidas deveriam ser tomadas. A mesma precaução deveria prevalecer relativamente aos transgénicos e às manipulações genéticas.

A questão das alterações climáticas devia convidar os responsáveis políticos a promover um amplo debate que reunisse, não só ambientalistas, mas diferentes especialistas dos vários sectores envolvidos. Há que colocar a questão de saber como são exercidas as actividades económicas. A Economia é um subsistema das actividades humanas nas quais ela está incluída e não separada. Actividades que por seu turno são um subsistema da biosfera de que a Economia não está desligada. Ora, o que se produz é que o actual modelo económico está a ameaçar e a pôr em perigo o sistema global em que se inclui. Daí o conflito entre Economia e Ambiente. Há que reconsiderar as lógicas económicas assentes no lucro imediato e mecânico, as quais não poderão desenvolver-se de modo sustentado se a natureza continuar a ser gravemente lesada. Essa mesma natureza, como bem apontou Jean-Paul Maréchal, que lhes fornece gratuitamente as fontes materiais e energéticas e cuja capacidade de absorção de actividades perversas não é ilimitada. O bom senso levaria pois a supor que em questões ambientais, a norma não deveria ser imposta pelo mercado que, entregue a si próprio, agride a biosfera e é um produtor de desequilíbrios, mas sim fundada numa lógica da reprodução do meio natural. Como falar então de racionalidade económica nestas condições, com desprezo pela Ecologia e pela Ética? Não há fatalidade. A questão é antes de saber em que medida um sem número de actividades económicas predadoras romperam o equilíbrio homeostático, o que as políticas energéticas não poderão por mais tempo ignorar e silenciar

Os jornalistas e comentadores televisivos inundam os ecrãs com imagens de tragédia deixadas pelos furacões…e falam em pesadelo. Resta saber se os pesadelos aparecem por obra e graça do Espírito Santo. Até Freud se riria disso… É para quando um debate televisivo sério, alargado, abrangente, sobre questões ambientais e alterações climáticas? Não que eu pessoalmente esteja interessado em nele participar, por razões que não vêm agora para o caso…mas onde estão os jornalistas a exigir às suas Direcções de Programação se debrucem sobre o tema, eles que parecem ser tão sensíveis as pequenas tragédias individuais e ao caso local, a coberto de pretensas solidariedades? Ventilar a questão das alterações ambientais não puxa audiência como o faz o “Big Brother”? Mas as audiências criam-se, constroem-se, não se anda a rabo delas… O que se passa é que há certas audiências que não convém sejam promovidas. Lá se ia o tacho e a côdea, sobretudo a visibilidade pirosa nos ecrãs. E continuam-se a noticiar fatalidades e o pesadelo de “Ivan o Terrível”. Onde está esse debate televisivo que reúna científicos e gente qualificada na matéria, de diferentes formações ou filiações. Uma coisa a sério, que não seja um encontro de parodiantes numa coutada de caça. Um debate que explicite, nomeadamente, o que é que está em causa no protocolo de Quioto, que muitos não assinaram, que ponha a questão das quotas…de poluição, que equacione problemáticas em torno de Economia e Ambiente, que explique o que significa o aquecimento global, “ uma ameaça bem maior que as armas de destruição maciça”, nos dizeres de Blix, o ex-inspector-chefe de armamento da ONU para o Iraque. Os senhores jornalistas noticiam, noticiam as tragédias mas, por detrás de cada furacão nenhum enquadramento, nenhuma procura das causas prováveis, das problemáticas em jogo. Esta a nova censura, sem botas cardadas, bem mais insidiosa que a censura do antigamente. A História vos julgará.

A.B.P.

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