ABRUPTO

04-08-2010
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BOM ANO

To leave the old with a burst of song;

To recall the right and forgive the wrong;

To forget the things that bind you fast

To the vain regrets of the year that's past.

COISAS SIMPLES

Paula Moderschon-Becker Paula Moderschon-Becker

PELA MANH�

O frio aperta. O sol brilha. Os montes t�m o recorte habitual. � faca. Primeira s�rie de colinas, segunda s�rie de montes. Depois o mar. Uma sirene toca ao longe. Aqui � um som rar�ssimo no Inverno. Uma segunda sirene. Sil�ncio. O som de algu�m que varre o ch�o. Alguma coisa de muito errado aconteceu. Ao longe.

O frio aperta. O sol brilha. Os montes t�m o recorte habitual. � faca. Primeira s�rie de colinas, segunda s�rie de montes. Depois o mar. Uma sirene toca ao longe. Aqui � um som rar�ssimo no Inverno. Uma segunda sirene. Sil�ncio. O som de algu�m que varre o ch�o. Alguma coisa de muito errado aconteceu. Ao longe.

EARLY MORNING BLOGS 397

In the Park

You have forty-nine days between

death and rebirth if you're a Buddhist.

Even the smallest soul could swim

the English Channel in that time

or climb, like a ten-month-old child,

every step of the Washington Monument

to travel across, up, down, over or through

--you won't know till you get there which to do.

He laid on me for a few seconds

said Roscoe Black, who lived to tell

about his skirmish with a grizzly bear

in Glacier Park. He laid on me not doing anything. I could feel his heart

beating against my heart.

Never mind lie and lay, the whole world

confuses them. For Roscoe Black you might say

all forty-nine days flew by.

I was raised on the Old Testament.

In it God talks to Moses, Noah,

Samuel, and they answer.

People confer with angels. Certain

animals converse with humans.

It's a simple world, full of crossovers.

Heaven's an airy Somewhere, and God

has a nasty temper when provoked,

but if there's a Hell, little is made of it.

No longtailed Devil, no eternal fire,

and no choosing what to come back as.

When the grizzly bear appears, he lies/lays down

on atheist and zealot. In the pitch-dark

each of us waits for him in Glacier Park.

(Maxine Kumin)

*

Bom dia! (Maxine Kumin)Bom dia!

O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: "S� O TEMPO � MESMO NOSSO"

"Nada nos pertence (...), s� o tempo � mesmo nosso.A natureza concedeu-nos a posse desta coisa transit�ria e evanescente da qual quem quer que seja nos pode expulsar. � t�o grande a insensatez dos homens que aceitam prestar contas de tudo quanto - mau grado o seu valor m�nimo, ou nulo, e pelo menos certamente recuper�vel - lhes � emprestado, mas ningu�m se julga na obriga��o de justificar o tempo que recebeu, apesar de este ser o �nico bem que, por maior que seja a nossa gratid�o, nunca podemos restituir."

L�cio Aneu S�neca , Cartas a Luc�lio (Carta 1), enviado por Jo�o Costa L�cio Aneu S�neca , Cartas a Luc�lio (Carta 1), enviado por Jo�o Costa

APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA: DESEJAR SER

"A mais poderosa inclina��o e o mais poderoso apetite do homem � desejar ser. Bem nos conhecia este natural o dem�nio, quando esta foi a primeira pedra sobre que fundou a ru�na a nossos primeiros pais. A primeira coisa que lhe disse e que lhe prometeu foi que seriam: Eritis (G�n. 3,5), e este eritis, este sereis foi o que destruiu o mundo. N�o est� o erro em desejarem os homens ser, mas est� em n�o desejarem ser o que importa. Uns desejam ser ricos, outros desejam ser nobres, outros desejam ser s�bios, outros desejam ser poderosos, outros desejam ser conhecidos e afamados, e quase todos desejam tudo isto, e todos erram. S� uma coisa devem os homens desejar ser, que � ser santos. Assim emendou Deus o sereis do dem�nio com outro sereis, dizendo: Sancti eritis, quia Ego sanctus sum . O dem�nio disse: Sereis como Deus, sendo s�bios; e Deus disse: Sereis como Deus, sendo santos. E vai tanto de um sereis a outro sereis, que o sereis do dem�nio n�o s� nos tirou o ser como Deus, mas tirou-nos tamb�m o ser, porque nos tirou o ser santos, e o sereis de Deus, exortando-nos a ser santos, como ele �, n�o s� nos restitui o ser como Deus, sen�o tamb�m o ser. Quando Mois�s perguntou a Deus o que era, respondeu Deus definindo-se: Ego sum qui sum (�x. 3,14): Eu sou o que sou � porque s� Deus tem por ess�ncia o ser. Agora diz a todos os homens por boca do mesmo Mois�s: Se sois t�o amigos e t�o ambiciosos de ser, sede santos, e sereis, porque tudo o que n�o � ser santo, � n�o ser. Sede rei, sede imperador, sede papa: se n�o sois santo, n�o sois nada. Pelo contr�rio, ainda que sejais a mais vil e mais desprezada criatura do mundo, se sois santo, sois tudo o que pode chegar a ser o maior e mais bem afortunado homem, porque sois como aquele que s� � e s� tem ser, que � Deus. Todo o outro ser, por maior que pare�a, n�o �, porque vem a parar em n�o ser. S� o ser santo � o verdadeiro ser, porque � o que s� �, e o que h� de permanecer por toda a eternidade."

O MELHOR LIVRO DE DIVULGA��O CULTURAL DE 2004

Felipe Fernandez Armesto, Ideas that changed the world , Londres, DK, 2004.

A traduzir absolutamente. Felipe Fernandez Armesto,, Londres, DK, 2004.A traduzir absolutamente.

A MINHA LISTA DE N�O-FIC��O NACIONAL DE 2004

(Por ordem alfab�tica)

Paulo Ventura Ara�jo / Maria Pires de Carvalho / Manuela Delgado Le�o Ramos, � Sombra de �rvores com Hist�ria , Porto, Campo Aberto, 2004

(Um livro de amadores, no grande sentido da palavra, dos autores do blogue

Maria Jo�o Avillez, Conversas com �lvaro Cunhal e Outras Lembran�as , Lisboa, Temas e Debates, 2004

(As melhores entrevistas de Cunhal num jogo de sedu��o m�tua muito interessante de perceber.)

Jos� Gil, Portugal Hoje. O Medo de Existir , Lisboa, Rel�gio de �gua, 2004

(Nota no Abrupto.)

Fernando Lima, O Meu Tempo com Cavaco Silva , Lisboa, Bertrand Editora, 2004

(Podia ter sido escolhido o original, o segundo volume da autobiografia de Cavaco, mas sendo ambos, o de Lima e o de Cavaco muito stiff , o de Lima tem muita informa��o mesmo que tratada de forma oficiosa e �autorizada�.)

Eduardo Louren�o, Destro�os. O Gib�o de Mestre Gil e Outros Ensaios , Lisboa, Gradiva, 2004

(Nota no Abrupto.)

Frederico Louren�o, Gr�cia Revisitada , Livros Cotovia, 2004

(O autor tem sido, depois de Maria Helena Rocha Pereira, o grande portador do amor perplexo que todos temos com a Gr�cia.)

Dalila Cabrita Mateus, A PIDE/DGS na Guerra Colonial 1961-1974 , Lisboa, Terramar, 2004

(Sobre como os nossos brandos costumes eram ainda �mais� brandos nas col�nias, e como era a PIDE de l�, em guerra.)

Rui Vieira Nery, Para uma Hist�ria do Fado , P�blico, 2004

(Obra revista e aumentada fundamental para nos conhecermos, o pa�s onde � f�cil fazer chorar as paredes e as pedras da cal�ada.)

Leonor Curado Neves (Edi��o), Ant�nio Jos� Saraiva e �scar Lopes: Correspond�ncia , Lisboa, Gradiva, 2004

(Nota no Abrupto.)

Alexandre Pomar, com a colabora��o de Nat�lia Vital e de Rosa Pomar, J�lio Pomar - Catalogue raisonn� I (1942-1968), Paris, Editions de la Diff�rence, 2004

(Nota nos

(Por ordem alfab�tica)Paulo Ventura Ara�jo / Maria Pires de Carvalho / Manuela Delgado Le�o Ramos,, Porto, Campo Aberto, 2004(Um livro de amadores, no grande sentido da palavra, dos autores do blogue Dias com �rvores , para vermos as �rvores e o Porto.)Maria Jo�o Avillez,, Lisboa, Temas e Debates, 2004(As melhores entrevistas de Cunhal num jogo de sedu��o m�tua muito interessante de perceber.)Jos� Gil,, Lisboa, Rel�gio de �gua, 2004(Nota no Abrupto.)Fernando Lima,, Lisboa, Bertrand Editora, 2004(Podia ter sido escolhido o original, o segundo volume da autobiografia de Cavaco, mas sendo ambos, o de Lima e o de Cavaco muito, o de Lima tem muita informa��o mesmo que tratada de forma oficiosa e �autorizada�.)Eduardo Louren�o,, Lisboa, Gradiva, 2004(Nota no Abrupto.)Frederico Louren�o,, Livros Cotovia, 2004(O autor tem sido, depois de Maria Helena Rocha Pereira, o grande portador do amor perplexo que todos temos com a Gr�cia.)Dalila Cabrita Mateus,, Lisboa, Terramar, 2004(Sobre como os nossos brandos costumes eram ainda �mais� brandos nas col�nias, e como era a PIDE de l�, em guerra.)Rui Vieira Nery,, P�blico, 2004(Obra revista e aumentada fundamental para nos conhecermos, o pa�s onde � f�cil fazer chorar as paredes e as pedras da cal�ada.)Leonor Curado Neves (Edi��o),, Lisboa, Gradiva, 2004(Nota no Abrupto.)Alexandre Pomar, com a colabora��o de Nat�lia Vital e de Rosa Pomar,Paris, Editions de la Diff�rence, 2004(Nota nos Estudos sobre Comunismo .)

AR PURO

P.Balke P.Balke

EARLY MORNING BLOGS 396

The Dover Bitch

A Criticism of Life: for Andrews Wanning

So there stood Matthew Arnold and this girl

With the cliffs of England crumbling away behind them,

And he said to her, 'Try to be true to me,

And I'll do the same for you, for things are bad

All over, etc., etc.'

Well now, I knew this girl. It's true she had read

Sophocles in a fairly good translation

And caught that bitter allusion to the sea,

But all the time he was talking she had in mind

The notion of what his whiskers would feel like

On the back of her neck. She told me later on

That after a while she got to looking out

At the lights across the channel, and really felt sad,

Thinking of all the wine and enormous beds

And blandishments in French and the perfumes.

And then she got really angry. To have been brought

All the way down from London, and then be addressed

As a sort of mournful cosmic last resort

Is really tough on a girl, and she was pretty.

Anyway, she watched him pace the room

And finger his watch-chain and seem to sweat a bit,

And then she said one or two unprintable things.

But you mustn't judge her by that. What I mean to say is,

She's really all right. I still see her once in a while

And she always treats me right. We have a drink

And I give her a good time, and perhaps it's a year

Before I see her again, but there she is,

Running to fat, but dependable as they come.

And sometimes I bring her a bottle of Nuit d' Amour.

(Anthony Hecht)

*

Bom dia! (Anthony Hecht)Bom dia!

BIBLIOFILIA: ALGUNS RAY BRADBURY DA COLEC��O

"Last week I turned 82. 82! When I look in the mirror, the person staring back at me is a young boy, with a head and heart filled with dreams and excitement and unquenchable enthusiasm for life. Sure, he's got white hair -- so what! People often ask me how I stay so young, how I've kept such a "youthful" outlook. The answer is simple: Live a life in which you cram yourself with all kinds of metaphors, all kinds of activities, and all kinds of love. And take time to laugh -- find something that makes you truly happy -- every day of your life. That is what I have done, from my earliest days." (Ray Bradbury, "Happy Birthday to Me!")

Em breve acrescentarei Autumn People , a primeira edi��o em quadradinhos da E.C. Comics, com o fabuloso "Touch and Go", uma hist�ria metaf�sica sobre a totalidade e a perfei��o. (Ray Bradbury, "Happy Birthday to Me!")Em breve acrescentarei, a primeira edi��o em quadradinhos da E.C. Comics, com o fabuloso "Touch and Go", uma hist�ria metaf�sica sobre a totalidade e a perfei��o.

A LER

este

este balan�o dos progressos cient�ficos mais significativos de 2004, para se perceber como em quase tudo o que � importante estamos num limiar, na porta, no momento de saltar para novos saberes e novas perguntas. As novas perguntas s�o mais importantes.

INTEND�NCIA

Colocados no Lagartixa e o Jacar� 16 e 17, originalmente publicados na S�bado . Tratam da estrat�gia da coliga��o, do retorno do "Paulinho das Feiras", do Google e do pr�mio do Colocados no VERITAS FILIA TEMPORIS 16 e 17, originalmente publicados na. Tratam da estrat�gia da coliga��o, do retorno do "Paulinho das Feiras", do Google e do pr�mio do Ponto M�dia . A n�mero 17 inclui a lista dos dez mais e menos nacionais de 2004.

O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SOBRE JUDAS

A hip�tese pol�tica: Longe de ser um traidor, Judas ter-se-ia revelado o �nico que verdadeiramente cria no poder de Jesus Cristo.

Anunciado como messias libertador e rei dos judeus, Jesus Cristo tardava em tomar a iniciativa de enfrentar o poderio romano e libertar o seu povo do jugo imperial. Perante a hesita��o de Jesus, Judas quis for��-Lo a agir, criando aquilo a que hoje chamar�amos um facto pol�tico. Vendo-se obrigado a enfrentar a autoridade romana, Jesus Cristo teria, por fim, que fazer apelo aos seus poderes sobrenaturais e expulsar o invasor, deixando os judeus tornarem-se senhores dos seus destinos. Teria, por fim, que se revelar como o Messias Libertador, como Judas acreditava que o era e o desejeva.

O erro de Judas � o erro na an�lise da economia da reden��o; n�o � o erro da trai��o.

De resto, a hip�tese da trai��o encaixa mal no relato b�blico. Com efeito, como explicar, que uma figura p�blica como Jesus, que era seguido nas ruas por um largo n�mero de devotos, que n�o estava escondido, precisasse de ser denunciado? Como explicar que, possu�do por Satan�s, recebidos os trinta dinheiros, Judas n�o os fosse gozar, mas, em vez disso, tivesse corrido a enforcar-se?

Repito: o pecado de Judas n�o foi a trai��o; foi o ter querido conhecer e influenciar os insond�veis des�gnios da Provid�ncia.

Fonte: Jorge Luis Borges - Tr�s vers�es de Judas.

(Ant�nio Cardoso da Concei��o)

*

Ant�nio Cardoso da Concei��o deu-nos a conhecer o texto de Jorge Lu�s Borges - "Tr�s vers�es de Judas" mas n�o fez a liga��o que se impunha com o "Dilema do Prisioneiro". Pressinto que a explora��o deste tema por esse caminho pode trazer conclus�es interessantes. Haver� algu�m a� que queira fazer essa explora��o ?

(Manuel Galv�o) (Ant�nio Cardoso da Concei��o)(Manuel Galv�o)

COISAS SIMPLES

Boucher Boucher

EARLY MORNING BLOGS 395

A Happy Birthday

This evening, I sat by an open window

and read till the light was gone and the book

was no more than a part of the darkness.

I could easily have switched on a lamp,

but I wanted to ride this day down into night,

to sit alone and smooth the unreadable page

with the pale gray ghost of my hand.

(Ted Kooser)

*

Bom dia! (Ted Kooser)Bom dia!

DETALHES

Os que sabem, sabem que � nos detalhes que o dem�nio est�.

Keats � um exemplo dessa aten��o. Descrevia-se a si pr�prio com detalhe � �The fire is at its last click - I am sitting here with my back to it with one foot rather askew upon the rug and the other with the heel a little elevated upon the carpet...� � e pedia aos amigos e familiares que, nas suas cartas, descrevessem com total rigor como estavam naquele preciso momento: est�s sentado(a), de p�, em que parte da sala, em que posi��o, etc. Keats vai mais longe e acredita que o conhecimento dos detalhes do momento concreto da cria��o s�o reveladores para a compreender:

�Could I see the same thing done of any great Man long since dead it would be a great delight: as to know in what position Shakespeare sat when he began "To be or not to be" .

A materialidade da descri��o se levada longe � e os detalhes s�o insaci�veis - conduz a fala ou a escrita a tornarem-se quase inevitavelmente er�ticos. Vox de Nicholson Baker come�a assim �What are you wearing?" he asked.� , uma pergunta do mesmo tipo das de Keats, mesmo quando n�o parece. Os que sabem, sabem que � nos detalhes que o dem�nio est�.Keats � um exemplo dessa aten��o. Descrevia-se a si pr�prio com detalhe �� e pedia aos amigos e familiares que, nas suas cartas, descrevessem com total rigor como estavam naquele preciso momento: est�s sentado(a), de p�, em que parte da sala, em que posi��o, etc. Keats vai mais longe e acredita que o conhecimento dos detalhes do momento concreto da cria��o s�o reveladores para a compreender:A materialidade da descri��o se levada longe � e os detalhes s�o insaci�veis - conduz a fala ou a escrita a tornarem-se quase inevitavelmente er�ticos.de Nicholson Baker come�a assim, uma pergunta do mesmo tipo das de Keats, mesmo quando n�o parece.

APRENDENDO COM DIDEROT SOBRE O AMOR, AS CINZAS E A LEI DA AFINIDADE

O ma Sophie, il me resterait donc un espoir de vous toucher, de vous sentir, de vous aimer, de vous chercher, de m'unir, de me confondre avec vous, quand nous ne serions plus. S'il y avait dans nos principes une loi d'affinit�, s'il nous �tait r�serv� de composer un �tre commun ; si je devais dans la suite des si�cles refaire un tout avec vous ; si les mol�cules de votre amant dissous venaient � s'agiter, � se mouvoir et � rechercher les v�tres �parses dans la nature ! Laissez-moi cette chim�re. Elle m'est douce. Elle m'assurerait l'�ternit� en vous et avec vous." "Le reste de la soir�e s'est pass� � me plaisanter sur mon paradoxe. On m'offrait de belles poires qui vivaient, des raisins qui pensaient. Et moi, je disais : ceux qui se sont aim�s pendant leur vie et qui se font inhumer l'un � c�t� de l'autre ne sont peut-�tre pas si fous qu'on pense. Peut-�tre leurs cendres se pressent, se m�lent et s'unissent. Que sais-je ? Peut-�tre n'ont-elles pas perdu tout sentiment, toute m�moire de leur premier �tat. Peut-�tre ont-elles un reste de chaleur et de vie dont elles jouissent � leur mani�re au fond de l'urne froide qui les renferme. Nous jugeons de la vie des �l�ments par la vie des masses grossi�res. Peut-�tre sont-ce des choses bien diverses. On croit qu'il n'y a qu'un polype ; et pourquoi la nature enti�re ne serait-elle pas du m�me ordre ? Lorsque le polype est divis� en cent mille parties, l'animal primitif n'est plus, mais tous ses principes sont vivants.O ma Sophie, il me resterait donc un espoir de vous toucher, de vous sentir, de vous aimer, de vous chercher, de m'unir, de me confondre avec vous, quand nous ne serions plus. S'il y avait dans nos principes une loi d'affinit�, s'il nous �tait r�serv� de composer un �tre commun ; si je devais dans la suite des si�cles refaire un tout avec vous ; si les mol�cules de votre amant dissous venaient � s'agiter, � se mouvoir et � rechercher les v�tres �parses dans la nature ! Laissez-moi cette chim�re. Elle m'est douce. Elle m'assurerait l'�ternit� en vous et avec vous."

APRENDENDO COM S. TIAGO SOBRE A L�NGUA

1

Meus irm�os, n�o sejam muitos de voc�s mestres, pois voc�s sabem que n�s, os que ensinamos, seremos julgados com maior rigor.

2

Todos trope�amos de muitas maneiras. Se algu�m n�o trope�a no falar, tal homem � perfeito, sendo tamb�m capaz de dominar todo o seu corpo.

3

Quando colocamos freios na boca dos cavalos para que eles nos obede�am, podemos controlar o animal todo.

4

Tomem tamb�m como exemplo os navios; embora sejam t�o grandes e impelidos por fortes ventos, s�o dirigidos por um leme muito pequeno, conforme a vontade do piloto.

5

Semelhantemente, a l�ngua � um pequeno �rg�o do corpo, mas se vangloria de grandes coisas. Vejam como um grande bosque � incendiado por uma pequena fagulha.

6

Assim tamb�m, a l�ngua � um fogo; � um mundo de iniquidade. Colocada entre os membros do nosso corpo, contamina a pessoa por inteiro, incendeia todo o curso de sua vida, sendo ela mesma incendiada pelo inferno.

7

Toda esp�cie de animais, aves, r�pteis e criaturas do mar doma-se e � domada pela esp�cie humana;

8

a l�ngua, por�m, ningu�m consegue domar. Ela � um mal incontrol�vel, cheio de veneno mort�fero.

9

Com a l�ngua bendizemos ao Senhor e Pai, e com ela amaldi�oamos os homens, feitos � semelhan�a de Deus.

10

Da mesma boca procedem b�n��o e maldi��o. Meus irm�os, isto n�o pode ser assim!

11

Acaso pode de uma mesma fonte sair �gua doce e �gua amarga?

12

Meus irm�os, pode uma figueira produzir azeitonas ou uma videira, figos? Da mesma forma, uma fonte de �gua salgada n�o pode produzir �gua doce.

13

Quem � s�bio e tem entendimento entre voc�s? Que o demonstre por seu bom procedimento, mediante obras feitas com a humildade que prov�m da sabedoria.

14

Contudo, se voc�s abrigam no cora��o inveja amarga e ambi��o ego�sta, n�o se gloriem disso, nem neguem a verdade.

15

Esta "sabedoria" n�o vem do c�u, mas � terrena, n�o � espiritual e � demon�aca.

16

Pois onde h� inveja e ambi��o ego�sta, a� h� confus�o e toda esp�cie de males.

17

Mas a sabedoria que vem do alto � antes de tudo pura; depois, pac�fica, am�vel, compreensiva, cheia de miseric�rdia e de bons frutos, imparcial e sincera.

18

O fruto da justi�a semeia-se em paz para os pacificadores.

AR PURO

P. Balke P. Balke

EARLY MORNING BLOGS 394

C'�tait sur un chemin crayeux

C'�tait sur un chemin crayeux

Trois ch�tes de Provence

Qui s'en allaient d'un pas qui danse

Le soleil dans les yeux.

Une enseigne, au bord de la route,

- Azur et jaune d'oeuf, -

Annon�ait : Vin de Ch�teauneuf,

Tonnelles, Casse-cro�te.

Et, tandis que les suit trois fois

Leur ombre violette,

Noir pastou, sous la gloriette,

Toi, tu t'en fous : tu bois...

C'�tait trois ch�tes de Provence,

Des oliviers poudreux,

Et le mistral br�lant aux yeux

Dans un azur immense.

(Paul-Jean Toulet)

*

Bom dia! (Paul-Jean Toulet)Bom dia!

APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA: DOCILIDADE

"Quem n�o � d�cil, senhores, n�o pode ser douto; antes, a mesma docilidade � um sin�nimo da ci�ncia. Disse Deus a Salom�o que pedisse o que quisesse, porque tudo lhe concederia. O que pediu foi docilidade: Dabis servo tuo cor docile ; e o que o Senhor lhe concedeu foi a maior sabedoria que nunca teve, nem ter� outro homem: Dedi tibi cor sapiens, et intelligens in tantum, ut nullus ante te similis tui fuerit nec posto te surrecturus sit . Pois, se Deus tinha prometido a Salom�o que lhe daria o que pedisse, e ele pediu docilidade, como lhe deu ci�ncia? Por isso mesmo. Porque docilidade e ci�ncia s�o a mesma coisa, e n�o podia Deus, segundo a sua promessa, deixar de lhe dar ci�ncia, tendo ele pedido docilidade. Assim lho disse o mesmo Deus: Ecce leci tibi secundum sermones tuos . A ci�ncia nenhuma outra coisa � que o conhecimento claro de muitas verdades, umas em si, que s�o os princ�pios, e outras que delas se seguem, que s�o as conclus�es. E aqueles que n�o t�m docilidade, � como s�o os tenazes do pr�prio ju�zo, e ferrados � sua opini�o � ainda que a verdade se lhes represente, n�o s�o capazes de a receber. Por isso estes tais cada vez sabem menos, e todas as vezes que a opini�o passa a erro, perseveram nele. "

OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: O GR�O DE AREIA QUE TE ATIREI

Esta fotografia � a menos pretensiosa das fotografias. N�o tem vaidade, n�o tem soberba, n�o tem tumulto, n�o � cl�ssica, n�o � moderna, n�o tem cores. � o retrato de uma coisa com valor imenso: o retrato do gr�o de areia que se atirou para Tit�. Ele est� l�, brilhante, na parte de cima da fotografia, um ponto de nada, no meio do nada, uma pequena sonda errante, embrulhada em papel de prata dourado, parecendo vagamente um chap�u. L� vai, sem saber muito bem a qu�. Lan�ado pela esperan�a de saber, lan�ado pela nossa qualidade mais humana: curiosidade, curiosidade, perturbante curiosidade. Como �? De que � feito? Como respira? Pertencem-nos aqueles gases, aquele solo, aquela atmosfera, e, talvez, aquela vida? O meu gr�o de areia paga para ver. Sofrer� no caminho, pode destruir-se, pode durar pouco, mas n�o procura o conforto, nem a seguran�a, nem um pouso certo. Procura uma verdade mais pura que as outras, mais primitiva, menos polu�da. Valente ponto de luz, duro gr�o de areia, sinal da m�o que o deitou, t�o longe para o que n�o se conhece. O teu caminho � o meu. Nenhum outro.

Esta fotografia � a menos pretensiosa das fotografias. N�o tem vaidade, n�o tem soberba, n�o tem tumulto, n�o � cl�ssica, n�o � moderna, n�o tem cores. � o retrato de uma coisa com valor imenso: o retrato do gr�o de areia que se atirou para Tit�. Ele est� l�, brilhante, na parte de cima da fotografia, um ponto de nada, no meio do nada, uma pequena sonda errante, embrulhada em papel de prata dourado, parecendo vagamente um chap�u. L� vai, sem saber muito bem a qu�. Lan�ado pela esperan�a de saber, lan�ado pela nossa qualidade mais humana: curiosidade, curiosidade, perturbante curiosidade. Como �? De que � feito? Como respira? Pertencem-nos aqueles gases, aquele solo, aquela atmosfera, e, talvez, aquela vida? O meu gr�o de areia paga para ver. Sofrer� no caminho, pode destruir-se, pode durar pouco, mas n�o procura o conforto, nem a seguran�a, nem um pouso certo. Procura uma verdade mais pura que as outras, mais primitiva, menos polu�da. Valente ponto de luz, duro gr�o de areia, sinal da m�o que o deitou, t�o longe para o que n�o se conhece. O teu caminho � o meu. Nenhum outro.

OUVINDO

Nat King Cole e Rachmaninov tocado por Stephen Hough. Nat King Cole e Rachmaninov tocado por Stephen Hough.

AR PURO

Peder Balke Peder Balke

EARLY MORNING BLOGS 393

Dark Matter

Scientists at the University of Rome, according to the New York Times, may have finally detected dark matter, the stuff that roughly eighty percent of the universe may be made of.

Like certain superheroes, particles

of dark matter pass through other matter

unimpeded. But anti-gravity, scientists

explain, "still cannot be expected

to reverse the course of a falling apple,

or drive an inflating wedge of nothingness

between lovers." Which may be why

the hero works best alone.

Pals and sidekicks can be helpful,

but women are too curious, too quick

to believe the men they're with

must be, at heart, different men.

Of course they're right. And the hero

is in trouble if he doesn't

keep his other self a secret.

He wants to be in love, to offer

all the confidences a lover should.

But he has to save the world,

again and again. Thus it seems true

that a wedge of nothingness

divides the man and the woman,

but also that the falling of an apple

is irreversible.

The hero must expect evil

to continue. He cannot afford

to be surprised by strangeness.

Or ever expect a life in which

he could only be himself.

(Lawrence Raab)

*

Bom dia! (Lawrence Raab)Bom dia!

NUMA MENSAGEM DE NATAL

esta frase, � N�o � f�cil perdoar, n�o � f�cil compreender quem tenha atitudes que n�s n�o tomar�amos, mas o Natal � isso mesmo tentar fazer o que n�o fazemos normalmente todos os dias �, mostra uma obsess�o. Nem numa mensagem, que � suposto ser proferida na maior das neutralidades e dist�ncia face � luta pol�tica, deixam de vir ao de cima a incubadora e as facadas. N�o h� em S. Bento um espelho que fale a verdade? esta frase, ��, mostra uma obsess�o. Nem numa mensagem, que � suposto ser proferida na maior das neutralidades e dist�ncia face � luta pol�tica, deixam de vir ao de cima a incubadora e as facadas. N�o h� em S. Bento um espelho que fale a verdade?

OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: A NOSSA CASA

Se n�s f�ssemos pessoas de medos, o medo estaria em toda esta imagem. H� ali uma dimens�o que n�o � a nossa. H� ali um frio que n�o � o nosso. H� ali uma for�a que n�o � a nossa. H� ali uma perfei��o que n�o � a nossa. Toda a estranheza do mundo est� ali. Olhando bem, tudo nos � alheio, tudo � inumano e o inumano � o que mais tememos. Medo primeiro, medo ancestral, medo geneticamente inscrito, medo do que n�o sabemos, do que n�o controlamos. N�s confiantes que controlamos, ou seja, possu�mos, a nossa pequena terra, que n�o h� mar, nem gelo, nem tempestade, nem rio, nem montanha que n�o possamos visitar, conquistar, domar com a vontade e a coragem, chegamos aqui e c�est toute une autre affaire!

Claro que h� a beleza, que parece a mais humana de todas as sensa��es. Kant j� tinha percebido que n�o era bem assim, que h� beleza que n�o � humana, que h� beleza que infunde o terror. Ser� que queremos mesmo v�-la? Ser� que confrontados com este mundo, que � o mundo, que � o que est� l� fora, na esquina do nosso pequeno sistema solar, verdadeiramente queremos mais do que saber? Eu sei que sim. Queremos saber, mas vamos querer habitar. Talvez a nossa casa se fa�a sempre contra o medo. Talvez.

(Da sonda Cassini muito longe, esta foto para o Natal dos terrestres.)

Se n�s f�ssemos pessoas de medos, o medo estaria em toda esta imagem. H� ali uma dimens�o que n�o � a nossa. H� ali um frio que n�o � o nosso. H� ali uma for�a que n�o � a nossa. H� ali uma perfei��o que n�o � a nossa. Toda a estranheza do mundo est� ali. Olhando bem, tudo nos � alheio, tudo � inumano e o inumano � o que mais tememos. Medo primeiro, medo ancestral, medo geneticamente inscrito, medo do que n�o sabemos, do que n�o controlamos. N�s confiantes que controlamos, ou seja, possu�mos, a nossa pequena terra, que n�o h� mar, nem gelo, nem tempestade, nem rio, nem montanha que n�o possamos visitar, conquistar, domar com a vontade e a coragem, chegamos aqui eClaro que h� a beleza, que parece a mais humana de todas as sensa��es. Kant j� tinha percebido que n�o era bem assim, que h� beleza que n�o � humana, que h� beleza que infunde o terror. Ser� que queremos mesmo v�-la? Ser� que confrontados com este mundo, que � o mundo, que � o que est� l� fora, na esquina do nosso pequeno sistema solar, verdadeiramente queremos mais do que saber? Eu sei que sim. Queremos saber, mas vamos querer habitar. Talvez a nossa casa se fa�a sempre contra o medo. Talvez.(Da sonda Cassini muito longe, esta foto para o Natal dos terrestres.)

BOAS FESTAS COM COISAS SIMPLES E CERTAS

Paula Modershon-Becker Paula Modershon-Becker

APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA: ESTRELAS

"Come�ando pelo amar e venera��o dos gentios, aquela estrela que trouxe os Magos a Cristo era uma figura celestial e muito ilustre dos pregadores da f�. Assim o diz S. Greg�rio, e os outros padres camumente mas a mesma estrela o disse ainda melhor. Que of�cio foi o daquela estrela? Alumiar, guiar e trazer homens a adorar a Cristo, e n�o outros homens, sen�o homens infi�is e id�latras, nascidos e criados nas trevas da gentilidade. Pois, esse mesmo � a of�cio e exerc�cio, n�o de quaisquer pregadores, sen�o daqueles pregadores de que falamos, e por isso propriamente estrelas de Cristo. Repara muito S. M�ximo, em que esta estrela, que guiou os magos, se chame particularmente estrela de Cristo: Stella ejus e arg�i assim: Todas as outras estrelas n�o s�o, tamb�m, estrelas de Cristo, que como Deus as criou? Sim, s�o. Pois, por que raz�o esta estrela, mais que as outras, se chama especialmente estrela sua: Stella ejus? Porque as outras estrelas foram geralmente criadas para tochas do c�u e do mundo: esta foi criada especialmente para pregadora de Cristo: Quia quamvis omnes ab eo creatae stellae ipsius sint, haec tamen propna Christi erat, quia specialiter Christi nuntiabat adventum. � Muitas outras estrelas h� naquele hemisf�rio muito claras nos resplendores e muita �teis nas influ�ncias, coma as do firmamento, mas estas de que falamos s�o pr�pria e especialmente de Cristo, n�o s� pelo nome de Jesus, com que se professam por suas, mas porque afim, a instituto e o of�cio para que foram criadas, � o mesmo que o da estrela dos Magos, para trazer infi�is e gentios � f� de Cristo. Ora, se estas estrelas fossem t�o diligentes, t�o sol�citas e t�o pontuais em acompanhar, e guiar, e servir aos gentios, como a que acompanhou, guiou e serviu aos Magos, n�o teriam os mesmos gentios muita raz�o de as quererem e estimarem, de sentirem muita sua falta, e de se alegrarem e consolarem muita com sua presen�a? Assim o fizeram os Magos, e assim o diz o evangelista, n�o acabando de encarecer este contentamento: Videntes autem stellam, gavisi sunt gaudio magno valde. Pois, vamos agora seguindo os passas daquela estrela, desde o oriente at� ao pres�pio, e veremos como as que hoje vemos t�o mal vistas e t�o perseguidas, n�o s� imitam e igualam em tudo a estrela dos Magos, mas em tudo a excedem com grandes vantagens."

COISAS SIMPLES

Harriet Backer Harriet Backer

EARLY MORNING BLOGS 392

Ladainha dos p�stumos natais

H�-de vir um Natal e ser� o primeiro

em que se veja � mesa o meu lugar vazio

H�-de vir um Natal e ser� o primeiro

em que h�o-de me lembrar de modo menos n�tido

H�-de vir um Natal e ser� o primeiro

em que s� uma voz me evoque a s�s consigo

H�-de vir um Natal e ser� o primeiro

em que n�o viva j� ningu�m meu conhecido

H�-de vir um Natal e ser� o primeiro

em que nem vivo esteja um verso deste livro

H�-de vir um Natal e ser� o primeiro

em que terei de novo o Nada a s�s comigo

H�-de vir um Natal e ser� o primeiro

em que nem o Natal ter� qualquer sentido

H�-de vir um Natal e ser� o primeiro

em que o Nada retome a cor do Infinito.

(David Mour�o-Ferreira)

*

Bom dia! (David Mour�o-Ferreira)Bom dia!

EST� NA ALTURA

de partir de novo. de partir de novo.

APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA: A VIT�RIA DE CATARINA

"Se na considera��o do n�mero venceu Santa Catarina as Virgens s�bias do Evangelho, reduzindo ela s� a cinquenta, quando elas, sendo cinco, n�o puderam nem souberam reduzir a uma, n�o foi menos ilustre a sua vit�ria na considera��o do sexo. As virgens, sendo mulheres, n�o ensinaram a uma mulher; Catarina, sendo mulher, ensinou a cinquenta homens. O ap�stolo S�o Paulo fiou t�o pouco do g�nero feminino, que a todas as mulheres proibiu o ensinar: Docere autem mulieri non permitto. E que raz�o teve S�o Paulo para um preceito t�o universal e t�o odioso a metade do g�nero humano, e na parte mais sensitiva dele? A raz�o que teve foi a maior de todas as raz�es, que � a experi�ncia: Adam non est seductus, mulier autem seducta in praevaricatione fuit (1 Tim. 2,14): Em Ad�o e Eva � diz o Ap�stolo � se viu a diferen�a que h� entre o entendimento do homem e o da mulher � porque Eva foi enganada, Ad�o n�o. � Ensine logo Ad�o, ensine o homem; Eva e a mulher, n�o ensine. O que s� lhe conv�m, e o que lhe mando, � que aprenda e cale: Mulier in silentio discatt. Segundo este preceito, que mais parece natural que positivo, pois o Ap�stolo o deduz desde Ad�o e Eva, Catarina havia de aprender e calar, como mulher, e os fil�sofos ensinar, como homens, como fil�sofos, como graduados nas suas ci�ncias, e como os primeiros e mais insignes mestres delas. Mas que Catarina fale e os fil�sofos ou�am, que Catarina ensine e os fil�sofos aprendam, que Catarina n�o s� dispute, mas defina, n�o s� argumente, mas conclua, n�o s� impugne, mas ven�a, e tantos homens, e tais se reconhe�am e confessem vencidos, foi vit�ria que de sexo a sexo s� teve um exemplo, e de entendimento a entendimento nenhum."

OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: VOLTANDO A CASA

(A protec��o t�rmica da Opportunity, que a sonda voltou a encontrar ao inverter o caminho que a levou � cratera.)

- Aqui estou, voltando a casa, pisando o mesmo caminho, vendo as mesmas coisas com os meus velhos olhos.

- As mesmas?

- N�o sei. As mesmas. A mudan�a � uma ilus�o.

- Isso � um ilus�o ainda maior. Tudo muda.

- Engano. Eu sou uma adepta tardia de Parm�nides, num mundo em que abundam os partid�rios daquele que fala do rio que corre. Em Marte a �gua j� se foi.

- Tens a certeza?

- Tenho. Nunca nada muda no tempo, as pessoas confundem mudan�a com destino. N�o h� destino, s� encontros. N�o h� tempo, s� h� momentos. N�o h� vento, s� pedras que rolam.

- Para onde?

- Para o seu s�tio. Para o Lugar Universal, para a gravidade. N�o sei. O meu � aqui. (A protec��o t�rmica da Opportunity, que a sonda voltou a encontrar ao inverter o caminho que a levou � cratera.)- Aqui estou, voltando a casa, pisando o mesmo caminho, vendo as mesmas coisas com os meus velhos olhos.- As mesmas?- N�o sei. As mesmas. A mudan�a � uma ilus�o.- Isso � um ilus�o ainda maior. Tudo muda.- Engano. Eu sou uma adepta tardia de Parm�nides, num mundo em que abundam os partid�rios daquele que fala do rio que corre. Em Marte a �gua j� se foi.- Tens a certeza?- Tenho. Nunca nada muda no tempo, as pessoas confundem mudan�a com destino. N�o h� destino, s� encontros. N�o h� tempo, s� h� momentos. N�o h� vento, s� pedras que rolam.- Para onde?- Para o seu s�tio. Para o Lugar Universal, para a gravidade. N�o sei. O meu � aqui.

COISAS SIMPLES: ARRUMAR

Leroy de Barde, Re�nions d'oiseaux �trangers plac�s dans les diff�rentes caisses Leroy de Barde, Re�nions d'oiseaux �trangers plac�s dans les diff�rentes caisses

EARLY MORNING BLOGS 391

Saison fid�le aux coeurs qu'importune la joie

Saison fid�le aux coeurs qu'importune la joie,

Te voil�, ch�re Automne, encore de retour.

La feuille quitte l'arbre, �clatante, et tournoie

Dans les for�ts � jour.

Les aboiements des chiens de chasse au loin d�chirent

L'air inerte o� l'on sent l'odeur des champs mouill�s.

Gonfl�s d'humidit�, les pr�s mornes soupirent

En c�dant sous les pieds.

Les oiseaux voyageurs, par bandes, dans les nues,

Emigrent vers le Sud et les soleils plus chauds.

Les laboureurs, pench�s sur les lentes charrues,

Couronnent les coteaux.

Le soir, � l'horizon, parfois le ciel est rose ;

Des troupes de corbeaux traversent le couchant.

Dans le creux des sillons de la plaine repose,

Pensive, une eau d'argent.

(Charles Gu�rin)

*

Bom dia, belo dia! (Charles Gu�rin)Bom dia, belo dia!

COISAS SIMPLES

Edouard Boubat Edouard Boubat

ANTOLOGIA DA TRAI��O: O COSTUME

Why It Often Rains in the Movies

Because so much consequential thinking

happens in the rain. A steady mist

to recall departures, a bitter downpour

for betrayal. As if the first thing

a man wants to do when he learns his wife

is sleeping with his best friend, and has been

for years, the very first thing

is not to make a drink, and drink it,

and make another, but to walk outside

into bad weather. It's true

that the way we look doesn't always

reveal our feelings. Which is a problem

for the movies. And why somebody has to smash

a mirror, for example, to show he's angry

and full of self-hate, whereas actual people

rarely do this. And rarely sit on benches

in the pouring rain to weep. Is he wondering

why he didn't see it long ago? Is he wondering

if in fact he did, and lied to himself?

And perhaps she also saw the many ways

he'd allowed himself to be deceived. In this city

it will rain all night. So the three of them

return to their houses, and the wife

and her lover go upstairs to bed

while the husband takes a small black pistol

from a drawer, turns it over in his hands,

then puts it back. Thus demonstrating

his inability to respond to passion

with passion. But we don't want him

to shoot his wife, or his friend, or himself.

And we've begun to suspect

that none of this is going to work out,

that we'll leave the theater feeling

vaguely cheated, just as the movie,

turning away from the husband's sorrow,

leaves him to be a man who must continue,

day after day, to walk outside into the rain,

outside and back again, since now there can be

nowhere in this world for him to rest.

(Lawrence Raab) (Lawrence Raab)

O "MEME" DE HOJE

� a palavra "pat�tica" para designar a confer�ncia do almo�o. J� fez o seu caminho.

Outro "meme" que caminhou bastante foi a fotografia de Ant�nio Pedro Ferreira, publicada no Expresso . � a palavra "pat�tica" para designar a confer�ncia do almo�o. J� fez o seu caminho.Outro "meme" que caminhou bastante foi a fotografia de Ant�nio Pedro Ferreira, publicada no

BIBLIOFILIA

W.G.Sebald, After Nature , New York, Modern Library, 2002

...et iam summa procul villarum

culmina fumant maioresque cadunt de montibus umbrae.

Virg�lio W.G.Sebald,, New York, Modern Library, 2002Virg�lio

CONFER�NCIA DE IMPRENSA PAT�TICA

desesperada. A justifica��o do que se passa com recortes de jornais estrangeiros, com as faltas dos outros. E depois aquele sorriso que emerge no Primeiro-ministro sempre que fala dos "outros", dos "alguns", como se viesse l� do fundo um prazer da vitimiza��o e de culpa alheia. Onde Bag�o Felix se zanga, Santana Lopes sorri quando ataca os advers�rios reais e imaginados.

(O inadmiss�vel corte da transmiss�o directa da confer�ncia de imprensa pela RTP, antes de se saber qual era a solu��o do problema do d�fice� Servi�o p�blico.)

Nota suplementar : a RTP n�o podia saber que afinal nada de concreto ia ser anunciado quando interrompeu a emiss�o, portanto fez mal. Se o soubesse isso poderia justificar n�o s� o corte, como at� a n�o-transmiss�o. N�o tendo objecto que n�o fosse o governo exercer o "contradit�rio" face aos seus cr�ticos, ou seja Santana Lopes e Bag�o Felix balbuciarem umas desculpas - e eu garanto-vos que n�o gosto de usar a palavra pejorativa "balbuciar" se n�o fosse mesmo assim - e dizerem que o governo portugu�s faz os mesmos truques or�amentais dos outros, a confer�ncia torna-se ainda mais penosa. Est� de facto a bater-se num fundo muito fundo. desesperada. A justifica��o do que se passa com recortes de jornais estrangeiros, com as faltas dos outros. E depois aquele sorriso que emerge no Primeiro-ministro sempre que fala dos "outros", dos "alguns", como se viesse l� do fundo um prazer da vitimiza��o e de culpa alheia. Onde Bag�o Felix se zanga, Santana Lopes sorri quando ataca os advers�rios reais e imaginados.(O inadmiss�vel corte da transmiss�o directa da confer�ncia de imprensa pela RTP, antes de se saber qual era a solu��o do problema do d�fice� Servi�o p�blico.): a RTP n�o podia saber que afinal nada de concreto ia ser anunciado quando interrompeu a emiss�o, portanto fez mal. Se o soubesse isso poderia justificar n�o s� o corte, como at� a n�o-transmiss�o. N�o tendo objecto que n�o fosse o governo exercer o "contradit�rio" face aos seus cr�ticos, ou seja Santana Lopes e Bag�o Felix balbuciarem umas desculpas - e eu garanto-vos que n�o gosto de usar a palavra pejorativa "balbuciar" se n�o fosse mesmo assim - e dizerem que o governo portugu�s faz os mesmos truques or�amentais dos outros, a confer�ncia torna-se ainda mais penosa. Est� de facto a bater-se num fundo muito fundo.

O NOSSO CAOS

continua todos os dias. Sair disto vai ser complicado. continua todos os dias. Sair disto vai ser complicado.

ANTOLOGIA DA TRAI��O: AS PORTAS DA TRAI��O

Em muitos castelos h� portas da trai��o. Todas t�m uma lenda, uma hist�ria de trai��o. Ficamos a saber assim que as portas s�o dadas a estas actividades e ficam por isso malditas. Quem as atravessa sente, sente que � s� uma quest�o de tempo at� que des�a o traidor com as chaves da confian�a e suba o furtivo para, conquistando, acabar por desprezar o traidor. Foi sempre assim, ser� sempre assim. A trai��o � a actividade que mais corr�i. Em muitos castelos h� portas da trai��o. Todas t�m uma lenda, uma hist�ria de trai��o. Ficamos a saber assim que as portas s�o dadas a estas actividades e ficam por isso malditas. Quem as atravessa sente, sente que � s� uma quest�o de tempo at� que des�a o traidor com as chaves da confian�a e suba o furtivo para, conquistando, acabar por desprezar o traidor. Foi sempre assim, ser� sempre assim. A trai��o � a actividade que mais corr�i.

OUVINDO (2)

O mesmo. A magn�fica Frehel, a bela Pervenche , retratada por Colette, seduzida por Roberty (estes nomes...), prematuramente envelhecida, ganhando a sua " gueule de m�re maquerelle " , que morreu, miser�vel e esquecida, cheia de bebida e drogas num hotel de Pigalle, a cantar antes da "excep��o cultural":

Y'en a qui vous parlent de l'Am�rique

Ils ont des visions de cin�ma

Ils vous disent " quel pays magnifique "

Notre Paris n'est rien aupr�s d'�a

Ces boniments-l� rendent moins timide,

Bref, l'on y part, un jour de cafard...

�a fera un de plus qui, le ventre vide

Le soir � New-York cherchera un dollar

Au milieu des gueus's, des proscrits,

Des �migrants aux c�urs meurtris;

Il pensera, regrettant Paris

O� est-il mon moulin de la Place Blanche ?

Mon tabac et mon bistrot du coin ?

Tous les jours �taient pour moi Dimanche !

O� sont-ils les amis les copains ?

O� sont-ils tous mes vieux bals musette ?

Leurs javas au son de l'accord�on

O� sont-ils tous mes repas sans galette ?

Avec un cornet de frites � dix ronds

O� sont-ils donc ?

D'autres croyant gagner davantage

Font des r�ves d'or encore plus beaux

Pourquoi risquer un si long voyage

Puisque Paris est plein de gogos?

On monte une affaire colossale,

Avec l'argent du bon populo,

Mais un jour, crac...

c'est le gros scandale :

Monsieur courra ce soir au d�p�t !

Et demain on le conduira

Pour dix ann�es � Noum�a.

Encore un de plus qui dira :

O� est-il mon moulin de la Place Blanche ?

Mon tabac et mon bistrot du coin ?

Tous les jours �taient pour moi Dimanche !

O� sont-ils les amis les copains ?

O� sont-ils tous mes vieux bals musette ?

Leurs javas au son de l'accord�on

O� sont-ils tous mes repas sans galette ?

Avec un cornet de frites � dix ronds

O� sont-ils donc ?

Mais Montmartre semble dispara�tre

Car h�las de saison en saison

Des Abbesses � la Place du Tertre,

On d�molit nos vieilles maisons.

Sur les terrains vagues de la butte

De grandes banques na�tront bient�t,

O� ferez-vous alors vos culbutes,

Vous, les pauvres gosses � Poulbot ?

En regrettant le temps jadis

Nous chanterons, songeant � Salis,

Montmartre ton " De Profundis ! "

O� est-il mon moulin de la Place Blanche ?

Mon tabac et mon bistrot du coin ?

Tous les jours �taient pour moi Dimanche !

O� sont-ils les amis les copains ?

O� sont-ils tous mes vieux bals musette ?

Leurs javas au son de l'accord�on

O� sont-ils tous mes repas sans galette ?

Avec un cornet de frites � dix ronds

O� sont-ils donc ? O mesmo. A magn�fica Frehel, a bela, retratada por Colette, seduzida por Roberty (estes nomes...), prematuramente envelhecida, ganhando a sua "" , que morreu, miser�vel e esquecida, cheia de bebida e drogas num hotel de Pigalle, a cantar antes da "excep��o cultural":

OUVINDO

A Fran�a deveria ser completamente insuport�vel nos anos trinta, mas fazia bom cinema e boas can��es. Vento fresco? Aqui est�: a Arletty a cantar " J'enleve ma liguette ", Chevalier o " Chapeau de Zozo ", Ray Ventura " Tout va tr�s bien madame la marquise " (que devia ser o hino do sindicato das empregadas dom�sticas) e Jean Murat " Les gars de la Marine " do filme Le Capitaine Craddock (1931). Tudo mais extinto que os dinossauros.

Les gars de la Marine

Quand on est matelot

On est toujours sur l'eau.

On visite le monde,

C'est l'm�tier le plus beau !

Du P�l' Sud au P�l' Nord,

Dans chaque petit port,

Plus d'une fille blonde

Nous garde ses tr�sors.

Pas besoin de pognon.

Mais comm' compensation,

� toutes nous donnons

Un p'tit morceau d'nos pompons !

{Refrain:}

Voil� les gars de la marine,

Quand on est dans les cols bleus

On n'a jamais froid aux yeux.

Partout du Chili jusqu'en Chine,

On les r'�oit � bras ouverts,

Les vieux loups d' mer.

Quand une fille les chagrine

Ils se consol'nt avec la mer !

Voil� les gars de la marine,

Du plus p'tit jusqu'au plus grand,

Du moussaillon au commandant.

Les amours d'un col bleu,

�a n'dur' qu'un jour ou deux.

� pein' le temps d'se plaire

Et de se dire adieu !

On a un peu d'chagrin !

�a passe comme un grain !

Les plaisirs de la terre...

C'est pas pour les marins !

Nous n'avons pas le droit

De vivre sous un toit,

Pourquoi une moiti� ?

Quand on a le monde entier !

{au Refrain} A Fran�a deveria ser completamente insuport�vel nos anos trinta, mas fazia bom cinema e boas can��es. Vento fresco? Aqui est�: a Arletty a cantar "", Chevalier o "", Ray Ventura "" (que devia ser o hino do sindicato das empregadas dom�sticas) e Jean Murat "" do filme(1931). Tudo mais extinto que os dinossauros.

POEIRA DE 21 DE DEZEMBRO

Hoje, h� cento e cinquenta e quatro anos, Tolstoy escreveu no seu di�rio: � n�o devo ler romances �. Fez-lhe bem, conseguiu escrever alguns. Oitenta e nove anos mais tarde, tamb�m hoje, Cesare Pavese escrevia: � o amor � a forma mais barata de religi�o �. Deve haver por isso um esp�rito do dia. Tolstoy amava a �humanidade� o que significava que n�o amava ningu�m, e talvez por isso foi capaz de escrever verdadeiras hist�rias de amor como

Hoje, h� cento e cinquenta e quatro anos, Tolstoy escreveu no seu di�rio: ��. Fez-lhe bem, conseguiu escrever alguns. Oitenta e nove anos mais tarde, tamb�m hoje, Cesare Pavese escrevia: ��. Deve haver por isso um esp�rito do dia. Tolstoy amava a �humanidade� o que significava que n�o amava ningu�m, e talvez por isso foi capaz de escrever verdadeiras hist�rias de amor como esta

COISAS SIMPLES

P. Bonnard P. Bonnard

EARLY MORNING BLOGS 390

La destruction

Sans cesse � mes c�t�s s'agite le D�mon ;

Il nage autour de moi comme un air impalpable ;

Je l'avale et le sens qui br�le mon poumon

Et l'emplit d'un d�sir �ternel et coupable.

Parfois il prend, sachant mon grand amour de l'Art,

La forme de la plus s�duisante des femmes,

Et, sous de sp�cieux pr�textes de cafard,

Accoutume ma l�vre � des philtres inf�mes.

Il me conduit ainsi, loin du regard de Dieu,

Haletant et bris� de fatigue, au milieu

Des plaines de l'Ennui, profondes et d�sertes,

Et jette dans mes yeux pleins de confusion

Des v�tements souill�s, des blessures ouvertes,

Et l'appareil sanglant de la Destruction !

(Baudelaire)

*

Bom dia! Bom dia!

ANTOLOGIA DA TRAI��O: JUDAS

� 21 Tendo Jesus dito isto, turbou-se em esp�rito, e afirmou, dizendo: Na verdade, na verdade vos digo que um de v�s me h� de trair.

22 Ent�o os disc�pulos olhavam uns para os outros, duvidando de quem ele falava.

23 Ora, um de seus disc�pulos, aquele a quem Jesus amava, estava reclinado no seio de Jesus.

24 Ent�o Sim�o Pedro fez sinal a este, para que perguntasse quem era aquele de quem ele falava.

25 E, inclinando-se ele sobre o peito de Jesus, disse-lhe: Senhor, quem �?

26 Jesus respondeu: � aquele a quem eu der o bocado molhado. E, molhando o bocado, o deu a Judas Iscariotes, filho de Sim�o.

27 E, ap�s o bocado, entrou nele Satan�s. Disse, pois, Jesus: O que fazes, faze-lo depressa.

28 E nenhum dos que estavam assentados � mesa compreendeu a que prop�sito lhe dissera isto.

29 Porque, como Judas tinha a bolsa, pensavam alguns que Jesus lhe tinha dito: Compra o que nos � necess�rio para a festa; ou que desse alguma coisa aos pobres.

30 E, tendo Judas tomado o bocado, saiu logo. E era j� noite. �

Este fragmento do Evangelho de S. Jo�o � um dos grandes textos sobre a trai��o. A sequ�ncia dram�tica est� toda feita sobre a mentira, o mal-entendido, o engano. Jesus anuncia a trai��o aos ap�stolos, mas n�o diz quem o traiu. Estes ficam curiosos, mas n�o perguntam. Para eles a ideia de trai��o era t�o insuport�vel que temiam falar dela.

Fosse qual fosse o traidor, era um deles, um amigo, um companheiro. A trai��o, rompendo a identidade de um dos que comiam � mesma mesa, conspurcava tudo � volta. Quando ganham coragem para perguntar, fazem-no t�o a medo e de forma t�o amb�gua, que n�o percebem o sentido da resposta. Levantaram-se da mesa convencidos que n�o era bem aquilo que tinham ouvido.

Jesus deu o p�o a Judas, mas o p�o vinha molhado, como se o dem�nio estivesse nessa humidade. � Ap�s o bocado, entrou nele Satan�s �, porque este bocado de p�o era o contr�rio do p�o sacramental que Jesus ensinara os disc�pulos a tomar. No P�o estava Deus, no p�o molhado estava Satan�s. O p�o tamb�m era capaz de trair.

Ent�o Jesus diz palavras ainda mais enigm�ticas: � o que fazes, faze-lo depressa �. Porque � que Jesus disse isto a Judas? Porque para Jesus tamb�m era insuport�vel o espect�culo da trai��o. Se trais, trai j�, exerce j� o of�cio da trai��o, porque, mesmo para Jesus, a presen�a do traidor e a vis�o do acto da trai��o perturbam.

Quando Judas saiu, com Satan�s dentro dele, era noite. Fez-se noite.

Este fragmento do� um dos grandes textos sobre a trai��o. A sequ�ncia dram�tica est� toda feita sobre a mentira, o mal-entendido, o engano. Jesus anuncia a trai��o aos ap�stolos, mas n�o diz quem o traiu. Estes ficam curiosos, mas n�o perguntam. Para eles a ideia de trai��o era t�o insuport�vel que temiam falar dela.Fosse qual fosse o traidor, era um deles, um amigo, um companheiro. A trai��o, rompendo a identidade de um dos que comiam � mesma mesa, conspurcava tudo � volta. Quando ganham coragem para perguntar, fazem-no t�o a medo e de forma t�o amb�gua, que n�o percebem o sentido da resposta. Levantaram-se da mesa convencidos que n�o era bem aquilo que tinham ouvido.Jesus deu o p�o a Judas, mas o p�o vinha molhado, como se o dem�nio estivesse nessa humidade. ��, porque este bocado de p�o era o contr�rio do p�o sacramental que Jesus ensinara os disc�pulos a tomar. No P�o estava Deus, no p�o molhado estava Satan�s. O p�o tamb�m era capaz de trair.Ent�o Jesus diz palavras ainda mais enigm�ticas: ��. Porque � que Jesus disse isto a Judas? Porque para Jesus tamb�m era insuport�vel o espect�culo da trai��o. Se trais, trai j�, exerce j� o of�cio da trai��o, porque, mesmo para Jesus, a presen�a do traidor e a vis�o do acto da trai��o perturbam.Quando Judas saiu, com Satan�s dentro dele, era noite. Fez-se noite.

BIBLIOFILIA PARA COLECCIONADORES

O �ltimo n�mero da Granta tem um ensaio sobre "The Collector", neste caso Joseph Mitchell. Mitchell, depois de escrever Joe Goulds's Secret , pouco mais escreveu e menos publicou. Dedicava-se a andar pelos pr�dios abandonados ou em demoli��o do sul de Manhattan a recolher pregos, bocados de estuque, placas de ferro forjado, velhas tabuletas, n�meros de portas. Recolhia-os e depois classificava-os como um taxidermista. H� fotografias das pe�as e dos r�tulos. Uma forma de loucura mansa, que os coleccionadores conhecem.

*

"Acho que est� a confundir taxidermia (arte de preparar cad�veres para os conservar...) com taxinomia (arte de classificar)."

A.M.R.

*

Obrigado pela precis�o. Neste caso era intencional. Podia ser "abria-os como um taxidermista e classificava-os como um taxinomista", mas n�o sei como se abre um prego.

O �ltimo n�mero datem um ensaio sobre "The Collector", neste caso Joseph Mitchell. Mitchell, depois de escrever, pouco mais escreveu e menos publicou. Dedicava-se a andar pelos pr�dios abandonados ou em demoli��o do sul de Manhattan a recolher pregos, bocados de estuque, placas de ferro forjado, velhas tabuletas, n�meros de portas. Recolhia-os e depois classificava-os como um taxidermista. H� fotografias das pe�as e dos r�tulos. Uma forma de loucura mansa, que os coleccionadores conhecem.A.M.R.Obrigado pela precis�o. Neste caso era intencional. Podia ser "abria-os como um taxidermista e classificava-os como um taxinomista", mas n�o sei como se abre um prego.

UM MUNDO MUITO PR�PRIO

O �ndice do livro Barnab� , que antologia os textos do blogue, � um retrato muito curioso do mundo dos seus autores. Um dos mais loquazes protagonistas da pol�tica portuguesa, Francisco Lou�a, n�o tem uma entrada sequer. Nem Fernando Rosas, Lu�s Fazenda, Ana Drago, merecem uma palavra. A excep��o s�o duas escassas entradas para Miguel Portas. Assim � f�cil.

Mas h� mais: as duas pessoas mais citadas s�o George Bush e eu. Estranho mundo o deles. Onde ser�?

O �ndice do livro, que antologia os textos do blogue, � um retrato muito curioso do mundo dos seus autores. Um dos mais loquazes protagonistas da pol�tica portuguesa, Francisco Lou�a, n�o tem uma entrada sequer. Nem Fernando Rosas, Lu�s Fazenda, Ana Drago, merecem uma palavra. A excep��o s�o duas escassas entradas para Miguel Portas. Assim � f�cil.Mas h� mais: as duas pessoas mais citadas s�o George Bush e eu. Estranho mundo o deles. Onde ser�?

VENTO FRIO

vem. R�pido. vem. R�pido.

APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA: TEMOR

"Toda a santidade e toda a virtude deste mundo, bem considerada, � temor. A maior e mais qualificada fa�anha que neste mundo se fez por Deus foi a de Abra�o. Leva Abra�o seu filho Isac ao monte, ata-o sobre a lenha do sacrif�cio, tira pela espada para lhe cortar a cabe�a; manda-lhe Deus suspender o golpe, e diz estas palavras: Nunc cognovi quod times Deum (G�n. 22, 12): Agora conhe�o, Abra�o, que temes a Deus. � Que temes a Deus? Pois, como assim? Quando Abra�o por amor de Deus sacrifica seu pr�prio filho, quando Abra�o por amor de Deus corta as esperan�as de sua casa, quando Abra�o por amor de Deus mata a seu mesmo amor, parece que ent�o havia de dizer Deus: Agora, Abra�o, conheci que me amas. Mas: agora conheci que me temes? Sim, porque, bem considerada aquela fa�anha de Abra�o, e vista por dentro, como Deus a via, teve mais de temor que de amor. Bem via Abra�o que matar a Isac era matar-se a si mesmo, mas via tamb�m que se o n�o matava, desobedecia, que se desobedecia, ofendia a Deus, que se ofendia a Deus, condenava-se, e este temor de se n�o condenar o pai, foi o que p�s a espada na garganta ao filho. Quando o pai e o filho iam caminhando para o sacrif�cio, diz o texto que levava Abra�o em uma m�o a espada, e na outra o fogo: Ipse vero portabat in manibus ignem et gladium (G�n. 22,6). Oh! que bons dois espelhos para aquela ocasi�o! Na m�o da espada ia a morte do filho; na m�o do fogo ia o inferno do pai. Se obedeces, h�s de matar; se desobedeces, h�s de arder. O amor via-se ao espelho da espada, o temor via-se ao espelho do fogo. � � poss�vel, pai, que h�s de matar o teu filho �nico e amado? E que a vida e o sangue que lhe deste a h�s de derramar com tuas pr�prias m�os? N�o h� de ser assim: viva Isac, e caia rendido o bra�o da espada. Mas, se n�o morrer Isac � replicava o temor � se Isac sacrificado se n�o abrasa neste fogo, h� de ir Abra�o, por desobediente, arder no do inferno. Ou arder Abra�o, ou morrer Isac. Oh! que cruel dilema para um pai! Mas, passar a espada pela garganta de Isac, � um momento � instava o temor � e arder Abra�o no inferno, � uma eternidade: pois, pade�a um instante o filho, para que n�o pene eternamente o pai. Torne-se a levantar o bra�o da espada; e j� ia descarregando resolutamente o golpe, mas acudiu Deus. E como toda esta resolu��o de tirar Abra�o a vida a seu filho foi por temor de n�o ofender a Deus e se condenar, por isso Deus n�o disse: � Agora conheci, Abra�o, que me amas, sen�o, agora conheci que me temes: Nunc cognovi quod times Deum."

COISAS SIMPLES

Jan Bruegel Jan Bruegel

EARLY MORNING BLOGS 389

SOME TREES

These are amazing: each

Joining a neighbor, as though speech

Were a still performance.

Arranging by chance

To meet as far this morning

From the world as agreeing

With it, you and I

Are suddenly what the trees try

To tell us we are:

That their merely being there

Means something; that soon

We may touch, love, explain.

And glad not to have invented

Some comeliness, we are surrounded:

A silence already filled with noises,

A canvas on which emerges

A chorus of smiles, a winter morning.

Place in a puzzling light, and moving,

Our days put on such reticence

These accents seem their own defense.

(John Ashbery)

*

Bom dia! (John Ashbery)Bom dia!

BIBLIOFILIA

Frederico Louren�o, Amar N�o Acaba , Livros Cotovia, 2004

Leiam, leiam, leiam este livro estranho, mem�ria autobiogr�fica da adolesc�ncia, escrita a vinte anos de dist�ncia � muito pouco. Um retrato de uma fam�lia portuguesa pouco portuguesa, que deixou construir � sua volta uma teia cultural vivida nas suas formas mais �pesadas�: a �pera, a m�sica, as l�nguas, o comunitarismo pante�sta de Lanza del Vasto. Este texto � uma surpresa: n�o sabia que algu�m vivia assim entre n�s.

O relato de Frederico Louren�o � umas vezes franco, outras vezes bizarro, pela densidade cultural que parece sempre excessiva. Pode-se viver assim? Pode-se viver sempre dentro do texto dos outros? Pode-se viver sempre dentro dos gestos do bailado, das palavras dos lied , do universo total e absoluto de Wagner? Pode-se viver, amar, face a presen�as t�o intensas e t�o inequ�vocas como as da grande arte? Pode-se viver no meio da beleza transmitida pelas obras de arte sem que estas preencham todo o espa�o do sentimento? O que � que sobra? Pode-se ser feliz num universo t�o povoado de sentido? Duvido, mas tamb�m este livro n�o � sobre a felicidade, mas sim sobre o deslumbramento. Frederico Louren�o,, Livros Cotovia, 2004Leiam, leiam, leiam este livro estranho, mem�ria autobiogr�fica da adolesc�ncia, escrita a vinte anos de dist�ncia � muito pouco. Um retrato de uma fam�lia portuguesa pouco portuguesa, que deixou construir � sua volta uma teia cultural vivida nas suas formas mais �pesadas�: a �pera, a m�sica, as l�nguas, o comunitarismo pante�sta de Lanza del Vasto. Este texto � uma surpresa: n�o sabia que algu�m vivia assim entre n�s.O relato de Frederico Louren�o � umas vezes franco, outras vezes bizarro, pela densidade cultural que parece sempre excessiva. Pode-se viver assim? Pode-se viver sempre dentro do texto dos outros? Pode-se viver sempre dentro dos gestos do bailado, das palavras dos, do universo total e absoluto de Wagner? Pode-se viver, amar, face a presen�as t�o intensas e t�o inequ�vocas como as da grande arte? Pode-se viver no meio da beleza transmitida pelas obras de arte sem que estas preencham todo o espa�o do sentimento? O que � que sobra? Pode-se ser feliz num universo t�o povoado de sentido? Duvido, mas tamb�m este livro n�o � sobre a felicidade, mas sim sobre o deslumbramento.

APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA: MUNDUM IN PARVO, MAGNUM

"Os fil�sofos antigos chamaram ao homem mundo pequeno; por�m, S. Greg�rio Nazianzeno, melhor fil�sofo que todos eles, e por excel�ncia o Te�logo, disse que o mundo comparado com o homem � o pequeno, e o homem, em compara��o do mundo, o mundo grande: Mundum in parvo, magnum. � N�o � o homem um mundo pequeno que est� dentro do mundo grande, mas � um mundo, e s�o muitos mundos grandes, que est�o dentro do pequeno. Baste por prova o cora��o humano, que, sendo uma pequena parte do homem, excede na capacidade a toda a grandeza e redondeza do mundo. Pois, se nenhum homem pode ser capaz de governar toda esta maquina do mundo, que dificuldade ser� haver de governar tantos homens, cada um maior que o mesmo mundo, e mais dificultoso de temperar que todo ele? A demonstra��o � manifesta. Porque nesta m�quina do mundo, entrando tamb�m nela o c�u, as estrelas tem seu curso ordenado, que n�o pervertem jamais; o sol tem seus limites e tr�picos, fora dos quais n�o passa; o mar, com ser um monstro ind�mito, em chegando �s areias p�ra; as �rvores, onde as p�em, n�o se mudam; os peixes contentam-se com o mar, as aves com o ar, os outros animais com a terra. Pelo contr�rio, o homem, monstro ou quimera de todos os elementos, em nenhum lugar p�ra, com nenhuma fortuna se contenta, nenhuma ambi��o nem apetite o farta: tudo perturba, tudo perverte, tudo excede, tudo confunde e, como � maior que o mundo, n�o cabe nele. "

MOMENTOS

Um dirigente pol�tico que se quer afirmar sabe que nem sempre lhe passam � frente oportunidades de mostrar a diferen�a. A S�crates surgiu uma e ele deitou-a fora: deveria demarcar-se de forma inteiramente clara das manig�ncias, ali�s j� contumazes, do PS Porto, uma das organiza��es mais aparelh�sticas de qualquer partido portugu�s, de usar Pinto da Costa como trunfo eleitoral contra Rui Rio. Pinto da Costa n�o est� em posi��o diferente da do antigo deputado do PSD, Cruz Silva, e ,por ser uma personagem de maior relevo social, ainda mais rigor teria que haver. S�crates calou-se para n�o perder os votos dos Super Drag�es, ou pior ainda. Revelou-se. Um dirigente pol�tico que se quer afirmar sabe que nem sempre lhe passam � frente oportunidades de mostrar a diferen�a. A S�crates surgiu uma e ele deitou-a fora: deveria demarcar-se de forma inteiramente clara das manig�ncias, ali�s j� contumazes, do PS Porto, uma das organiza��es mais aparelh�sticas de qualquer partido portugu�s, de usar Pinto da Costa como trunfo eleitoral contra Rui Rio. Pinto da Costa n�o est� em posi��o diferente da do antigo deputado do PSD, Cruz Silva, e ,por ser uma personagem de maior relevo social, ainda mais rigor teria que haver. S�crates calou-se para n�o perder os votos dos Super Drag�es, ou pior ainda. Revelou-se.

A LER

De novo, as

Alguns textos de Luis Rainha no

Louvor � imensa utilidade dos

A p�gina do De novo, as IND�STRIAS CULTURAIS , um bom exemplo de jornalismo especializado que complementa em tempo �til (uma forma "�til" do tempo real) o que (n�o) vem nos jornais.Alguns textos de Luis Rainha no Blogue de Esquerda Louvor � imensa utilidade dos Frescos , mesmo quando n�o funcionam bem e est�o pouco frescos.A p�gina do Clube dos Jornalistas . Pesem todas as objec��es, o Clube dos Jornalistas tem realizado um trabalho de auto-reflex�o sobre o jornalismo que nunca tinha sido feito com esta amplitude e variedade.

COISAS

Andy Warhol Andy Warhol

EARLY MORNING BLOGS 388

Ici de mille fards la tra�son se d�guise

Ici de mille fards la tra�son se d�guise,

Ici mille forfaits pullulent � foison,

Ici ne se punit l'homicide ou poison,

Et la richesse ici par usure est acquise

Ici les grands maisons viennent de b�tardise,

Ici ne se croit rien sans humaine raison,

Ici la volupt� est toujours de saison,

Et d'autant plus y pla�t que moins elle est permise.

Pense le demeurant. Si est-ce toutefois

Qu'on garde encore ici quelque forme de lois,

Et n'en est point du tout la justice bannie.

Ici le grand seigneur n'ach�te l'action,

Et pour priver autrui de sa possession

N'arme son mauvais droit de force et tyrannie.

(Joachim du Bellay)

*

Bom dia! (Joachim du Bellay)Bom dia!

OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: CORES

Cores, um andar acima, outras cores, outro andar acima, novas cores. O que � que se respira nessas cores? Que atmosfera pertence a estas cores? Em Janeiro, quando descermos em Tit�, vamos respirar este ar. Cores, um andar acima, outras cores, outro andar acima, novas cores. O que � que se respira nessas cores? Que atmosfera pertence a estas cores? Em Janeiro, quando descermos em Tit�, vamos respirar este ar.

ANTOLOGIA DA TRAI��O: EFIALTES

Efialtes � nome de dem�nio e de gigante. O meu � um homem. Borges escreveu sobre o dem�nio � Siempre es la pesadilla. / Su horror no es de este mundo." Mas n�o � este o meu traidor. O pesadelo n�o trai quem n�o sonha. O traidor � outro: Efialtes, natural da Tess�lia, traiu os 300 espartanos no desfiladeiro das Term�pilas por ouro. Os 300 espartanos eram �iguais�, Efialtes era diferente. Ensinou a Xerxes um caminho que levava os persas � retaguarda da defesa grega. O traidor n�o recebeu a sua paga, porque Xerxes entretanto viu a sua frota destru�da em Salamina. Xerxes mandou chicotear o mar, mas o mar n�o tinha costas. Como muitos traidores n�o pagou o pre�o da sua trai��o, embora pagasse com a vida uma querela menor com Atenades da Tr�cia. Mas um traidor est� sempre morto antes de morrer. A trai��o � uma morte.

(A seguir: Judas) Efialtes � nome de dem�nio e de gigante. O meu � um homem. Borges escreveu sobre o dem�nio �Mas n�o � este o meu traidor. O pesadelo n�o trai quem n�o sonha. O traidor � outro: Efialtes, natural da Tess�lia, traiu os 300 espartanos no desfiladeiro das Term�pilas por ouro. Os 300 espartanos eram �iguais�, Efialtes era diferente. Ensinou a Xerxes um caminho que levava os persas � retaguarda da defesa grega. O traidor n�o recebeu a sua paga, porque Xerxes entretanto viu a sua frota destru�da em Salamina. Xerxes mandou chicotear o mar, mas o mar n�o tinha costas. Como muitos traidores n�o pagou o pre�o da sua trai��o, embora pagasse com a vida uma querela menor com Atenades da Tr�cia. Mas um traidor est� sempre morto antes de morrer. A trai��o � uma morte.(A seguir: Judas)

UM RETRATO DO PODER: GOZO, PREOCUPA��O, AMBI��O

Esta fotografia de Ant�nio Pedro Ferreira, publicada no Expresso da semana passada, � o melhor retrato do poder que temos. Tudo est� certo, tudo bate certo. Escrevo sobre ela, considerando-a a melhor foto da semana, na S�bado .

Esta fotografia de Ant�nio Pedro Ferreira, publicada noda semana passada, � o melhor retrato do poder que temos. Tudo est� certo, tudo bate certo. Escrevo sobre ela, considerando-a a melhor foto da semana, na

APRENDENDO COM EMILY DICKINSON SOBRE A TRAI��O

Sweet is the swamp with its secrets

Sweet is the swamp with its secrets,

Until we meet a snake;

'Tis then we sigh for houses,

And our departure take

At that enthralling gallop

That only childhood knows.

A snake is summer's treason,

And guile is where it goes.

(Emily Dickinson) (Emily Dickinson)

APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA SOBRE O P�

"Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que n�o � necess�rio entendimento para crer: outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcan�ar. Uma � presente, outra futura, mas a futura v�em-na os olhos, a presente n�o a alcan�a o entendimento. E que duas coisas enigm�ticas s�o estas? Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois p�, e em p� vos haveis de converter. - Sois p�, � a presente; em p� vos haveis de converter, � a futura. O p� futuro, o p� em que nos havemos de converter, v�em-no os olhos; o p� presente, o p� que somos, nem os olhos o v�em, nem o entendimento o alcan�a. Que me diga a Igreja que hei de ser p�: In pulverem reverteris, n�o � necess�rio f� nem entendimento para o crer. Naquelas sepulturas, ou abertas ou cerradas, o est�o vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem p�, as pedras cobrem p�, e tudo o que ali h� � o nada que havemos de ser: tudo p�.

Vamos, para maior exemplo e maior horror, a �sses sepulcros recentes do Vaticano. Se perguntardes de quem s�o p� aquelas cinzas, responder-vos-�o os epit�fios, que s� as distinguem: Aqu�le p� foi Urbano, aqu�le p� foi Inoc�ncio, aqu�le p� foi Alexandre, e �ste que ainda n�o est� de todo desfeito, foi Clemente. De sorte que para eu crer que hei de ser p�, n�o � necess�rio f�, nem entendimento, basta a vista. Mas que me diga e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da f� e da verdade, que n�o s� hei de ser p� de futuro, sen�o que j� sou p� de presente: Pulvis es? Como o pode alcan�ar o entendimento, se os olhos est�o vendo o contr�rio? � poss�vel que �stes olhos que v�em, �stes ouvidos que ouvem, esta l�ngua que fala, estas m�os e �stes bra�os que se movem, �stes p�s que andam e pisam, tudo isto, j� hoje � p�: Pulvis es? Argumento � Igreja com a mesma Igreja: Memento homo. A Igreja diz-me, e sup�e que sou homem: logo n�o sou p�. O homem � uma subst�ncia vivente, sentitiva, racional. O p� vive? N�o. Pois como � p� o vivente? O p� sente? N�o. Pois como � p� o sensitivo? O p� entende e discorre? N�o. Pois como � p� o racional? Enfim, se me concedem que sou homem: Memento homo, como me pregam que sou p�: Quia pulvis es? Nenhuma coisa nos podia estar melhor que n�o ter resposta nem solu��o esta d�vida. Mas a resposta e a solu��o dela ser� a mat�ria do nosso discurso. Para que eu acerte a declarar esta dificultosa verdade, e todos n�s saibamos aproveitar d�ste t�o importante desengano, pe�amos �quela Senhora, que s� foi exce��o d�ste p�, se digne de nos alcan�ar gra�a. Ave Maria. "

OUVINDO

Furac�es pela manh�. N�o est� mal. Dias de Ver�o no Inverno. N�o est� mal. Furac�es pela manh�. N�o est� mal. Dias de Ver�o no Inverno. N�o est� mal.

COISAS SIMPLES

Andy Warhol Andy Warhol

EARLY MORNING BLOGS 387

Mutability

We are as clouds that veil the midnight moon;

How restlessly they speed, and gleam, and quiver,

Streaking the darkness radiantly! -yet soon

Night closes round, and they are lost for ever:

Or like forgotten lyres, whose dissonant strings

Give various response to each varying blast,

To whose frail frame no second motion brings

One mood or modulation like the last.

We rest. -- A dream has power to poison sleep;

We rise. -- One wandering thought pollutes the day;

We feel, conceive or reason, laugh or weep;

Embrace fond woe, or cast our cares away:

It is the same! -- For, be it joy or sorrow,

The path of its departure still is free:

Man's yesterday may ne'er be like his morrow;

Nought may endure but Mutablilty.

(Percy Bysshe Shelley)

*

Bom dia!

(Percy Bysshe Shelley)Bom dia!

A LER / A VER

No s Not�cias que Nunca Saem na Primeira P�gina . Est� longe de ser caso �nico.

sobre Orlando Ribeiro. No Jaquinzinhos . Est� longe de ser caso �nico. P�ginas sobre Orlando Ribeiro.

OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: P�ROLAS

Dione passa em frente de Saturno como uma p�rola intoc�vel, intang�vel. " Noli me tangere " diz, numa l�ngua antiga. "� para mim que olhas, e n�o para a vastid�o que est� atr�s de mim". Dione passa em frente de Saturno como uma p�rola intoc�vel, intang�vel. "" diz, numa l�ngua antiga. "� para mim que olhas, e n�o para a vastid�o que est� atr�s de mim".

AR PURO

Levitan Levitan

EARLY MORNING BLOGS 386

Delight in Disorder

A sweet disorder in the dress

Kindles in clothes a wantonness.

A lawn about the shoulders thrown

Into a fair distraction;

An erring lace which here and there

Enthralls the crimson stomacher;

A cuff neglectful, and thereby

Ribbons to flow confusedly;

A winning wave, deserving note,

In the tempestuous petticoat;

A careless shoestring, in whose tie

I see a wild civility;

Do more bewitch me than when art

Is too precise in every part.

(Robert Herrick)

*

Bom dia! (Robert Herrick)Bom dia!

O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: GRAFIA DO POEMA DE ROSALIA DE CASTRO

Por que n�o fazer com os poemas de Ros�lia o que habitualmente se faz com os cl�ssicos portugueses, a come�ar por Cam�es? Isto �: "actualizar" a grafia... Por exemplo, (escrevo em MAI�SCULO a "actualiza��o") de autoria do Prof. Dr. Ant�nio Gil Hernandez, (...) que � um dos mais l�cidos intelectuais da lusofonia na Galiza que j� conheci. Essa actualiza��o de grafia foi publicada no grupo "Galiza", no yahoo

- CantaM os galos p'ra o dIa

Ergue-te, meu beM, e vai-te.

COmo me hei-de ir,

cOmo me hei-de ir e deixar-te?

- DeSes teus olHiNHos negros

como doas relumbrantes,

AT� �s noSsas m�Os unidas

as b�goas ardentes caeM.

COmo me hei-de ir

sE c'a l�ngua me desVotas

e c'o cora��O me atraIs?

NuM corruncho do teu leito

cariNHosa me abrigaSTE;

c'o teu manso caloriNHo

os frIos p�s me quentaste;

e de aquI Juntos miramos

por Entre o verde ramaGeM

QUAl �a correndo a lUa

por enriba dos pinHares.

COmo queres que te deixe?

COmo, que de ti me aparte

sE mAis que O mel �S

e mAis que as fLoRes sUave?

- MeiguiNH, meiguiNHo, meigo,

meigo que me namoraste,

vai-te de onda miM, meiguiNHo,

antes que o sol se levante.

- Ainda dorme, queridiNHa,

Entre as ondiNHas do mare;

dorme porque me acariNHes

e porque amante me chames,

que S� onda ti, meniNHa,

poSSo contento folgare.

- J� cantaM os paSSariNHos.

Ergue-te, meu beM, que � tarde.

- Deixa que canteM, Marica;

Marica, deixa que canteM...

SE tU sEntes que me v�,

eu relouco por quedar-me.

- Comigo, meu queridiNHo,

mitAD' da noite pasSaSTE.

- Mais eM tanto tU dormIas,

contentEi-me coM mirar-te,

que aSSIM, sorrindo entre soNHos

cUidaVa que eras uM �nGel',

e n�O coM tanta pureza

AO p� duM �nGel' velaSse.

- ASSIM te quero, meu beM,

como uM santo dos altares;

mas fuGe..., que o sol dourado

por riba dos montes saie.

- IrEi; mas d�-me uM biquiNHo

antes que de ti me aparte,

que eSses labiNHos de rosa

inda n�O sei cOmo sabeM.

- CoM mil amores cho dera;

mas teNHo que confeSsar-me,

e mUita vergonHa fora

ter uM pecado t�O grande.

- Pois confEsSa-te, Marica,

que, QUando casar nos casen,

n�O che h�O-de valer, meniNHa,

nEM confesSores nEM frades.

AdEUs, cariNHa de rosa!

- Raparigo, DEUs te gUarde!

...

Houve tantas mudan�as?

(Pedro Santos) (Pedro Santos)

BIBLIOFILIA

Esta foi a minha primeira edi��o do Capital e estava na biblioteca familiar no "Inferno", no arm�rio dos livros proibidos. Antes do 25 de Abril era um livro perigoso. A edi��o n�o era a da obra completa, mas sim a antologia de Lafargue, e fazia parte de uma colec��o francesa "Petite Biblioth�que �conomique" editada na d�cada de noventa do s�culo XIX. O Pref�cio era de Vilfredo Pareto. Tem os meus sublinhados a l�pis muito leve porque n�o se estragava um livro antigo. Um marcador de p�gina, perdido l� dentro, � um quarto de papel dos boletins de voto da Oposi��o do Porto de 1969, rasgado em quatro e que me servia de ficha. Quando acabou o per�odo eleitoral permitido, e antes de fecharem as instala��es do Oposi��o, numa garagem junto do Mercado do Bom Sucesso, fui l� e trouxe alguns milhares de votos sobrantes - era a oposi��o que imprimia os seus pr�prios votos - para servirem de papel e fichas. Esta foi a minha primeira edi��o doe estava na biblioteca familiar no "Inferno", no arm�rio dos livros proibidos. Antes do 25 de Abril era um livro perigoso. A edi��o n�o era a da obra completa, mas sim a antologia de Lafargue, e fazia parte de uma colec��o francesa "Petite Biblioth�que �conomique" editada na d�cada de noventa do s�culo XIX. O Pref�cio era de Vilfredo Pareto. Tem os meus sublinhados a l�pis muito leve porque n�o se estragava um livro antigo. Um marcador de p�gina, perdido l� dentro, � um quarto de papel dos boletins de voto da Oposi��o do Porto de 1969, rasgado em quatro e que me servia de ficha. Quando acabou o per�odo eleitoral permitido, e antes de fecharem as instala��es do Oposi��o, numa garagem junto do Mercado do Bom Sucesso, fui l� e trouxe alguns milhares de votos sobrantes - era a oposi��o que imprimia os seus pr�prios votos - para servirem de papel e fichas.

DR. PORTAS, LEITOR DO ABRUPTO

Um aspecto, que tem sido bastante silenciado da quest�o da coliga��o, para o qual o Abrupto chamou a aten��o � que, concorrendo os dois partidos separados, e n�o havendo uma maioria absoluta de parlamentares dos dois, h� que garantir que o PSD seja o partido mais votado para que o �esquema� de casamento ex post facto da coliga��o tenha viabilidade pol�tica � suscitou o coment�rio do dr. Portas. O dr. Portas claramente n�o acredita que o PSD seja o partido mais votado, sen�o n�o falava disto. Face � probabilidade, em que acredita, que o PS possa ser o partido mais votado, resolveu teorizar uma situa��o em que a coliga��o deva ter prioridade na escolha presidencial para formar governo ap�s as elei��es.

� um argumento de mera propaganda, porque n�o � l�quido que o PS , partido mais votado, n�o possa dar origem a um governo minorit�rio, como os de Guterres que duraram legislatura e meia, que subsista com os votos da esquerda parlamentar, nem que consiga a posteriori qualquer coliga��o com o BE ou o PCP, o que o coloca nos mesmos termos da coliga��o PSD-PP. Acresce que seria interessante ver, o que � poss�vel, a coliga��o a governar com o PS, o partido mais votado, afastado do poder. Tal � poss�vel formalmente, mas criaria um problema de legitimidade pol�tica gerador de instabilidade.

Tudo isto s�o problemas mais que conhecidos, gerados pelo elevado limiar eleitoral necess�rio para se obterem solu��es est�veis de governabilidade. Mas a verdade � que todos se queixam e ningu�m quer alterar a lei eleitoral. Houve v�rias tentativas durante as maiorias de Cavaco para baixar o n�vel de governabilidade solit�ria para cerca de 38% dos votos, mas o PS, raciocinando a curt�ssimo prazo, recusou-o, gerando este problema que era evidente acabaria por lhe bater � porta. Um aspecto, que tem sido bastante silenciado da quest�o da coliga��o, para o qual o Abrupto chamou a aten��o � que, concorrendo os dois partidos separados, e n�o havendo uma maioria absoluta de parlamentares dos dois, h� que garantir que o PSD seja o partido mais votado para que o �esquema� de casamentoda coliga��o tenha viabilidade pol�tica � suscitou o coment�rio do dr. Portas. O dr. Portas claramente n�o acredita que o PSD seja o partido mais votado, sen�o n�o falava disto. Face � probabilidade, em que acredita, que o PS possa ser o partido mais votado, resolveu teorizar uma situa��o em que a coliga��o deva ter prioridade na escolha presidencial para formar governo ap�s as elei��es.� um argumento de mera propaganda, porque n�o � l�quido que o PS , partido mais votado, n�o possa dar origem a um governo minorit�rio, como os de Guterres que duraram legislatura e meia, que subsista com os votos da esquerda parlamentar, nem que consiga a posteriori qualquer coliga��o com o BE ou o PCP, o que o coloca nos mesmos termos da coliga��o PSD-PP. Acresce que seria interessante ver, o que � poss�vel, a coliga��o a governar com o PS, o partido mais votado, afastado do poder. Tal � poss�vel formalmente, mas criaria um problema de legitimidade pol�tica gerador de instabilidade.Tudo isto s�o problemas mais que conhecidos, gerados pelo elevado limiar eleitoral necess�rio para se obterem solu��es est�veis de governabilidade. Mas a verdade � que todos se queixam e ningu�m quer alterar a lei eleitoral. Houve v�rias tentativas durante as maiorias de Cavaco para baixar o n�vel de governabilidade solit�ria para cerca de 38% dos votos, mas o PS, raciocinando a curt�ssimo prazo, recusou-o, gerando este problema que era evidente acabaria por lhe bater � porta.

ATIRADOR FURTIVO

diz o dr. Portas que eu sou. Infelizmente os exemplos que citou, incluindo o meu, s�o de atiradores de primeira linha, bem pouco furtivos. Furtivas s�o as "fontes an�nimas", furtivos s�o os que "passam" not�cias para os jornais, furtivos s�o os que, apoiados em aparelhos de imprensa pagos pelo Estado, os usam para promover e despromover quem lhes conv�m. Esta � uma especialidade que ele conhece bem, como produtor e receptador, n�o � a minha.

Dito isto, bem pobre � a acusa��o a quatro homens, s� com o poder da palavra, da opini�o e do argumento, para os culpar de t�o grandes coisas: a queda de um governo e uma maioria e o fim de uma coliga��o que tinha jurado existir at� 2014.

diz o dr. Portas que eu sou. Infelizmente os exemplos que citou, incluindo o meu, s�o de atiradores de primeira linha, bem pouco furtivos. Furtivas s�o as "fontes an�nimas", furtivos s�o os que "passam" not�cias para os jornais, furtivos s�o os que, apoiados em aparelhos de imprensa pagos pelo Estado, os usam para promover e despromover quem lhes conv�m. Esta � uma especialidade que ele conhece bem, como produtor e receptador, n�o � a minha.Dito isto, bem pobre � a acusa��o a quatro homens, s� com o poder da palavra, da opini�o e do argumento, para os culpar de t�o grandes coisas: a queda de um governo e uma maioria e o fim de uma coliga��o que tinha jurado existir at� 2014.

COISAS SIMPLES

Edmund C. Tarbell Edmund C. Tarbell

O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DE VERG�LIO FERREIRA A THOMAS HARDY

Nature's Questioning

WHEN I look forth at dawning, pool,

Field, flock, and lonely tree,

All seem to look at me

Like chastened children sitting silent in a school;

Their faces dulled, constrained, and worn,

As though the master's ways

Through the long teaching days

Their first terrestrial zest had chilled and overborne.

And on them stirs, in lippings mere

(As if once clear in call,

But now scarce breathed at all)--

"We wonder, ever wonder, why we find us here!

"Has some Vast Imbecility,

Mighty to build and blend,

But impotent to tend,

Framed us in jest, and left us now to hazardry?

"Or come we of an Automaton

Unconscious of our pains?...

Or are we live remains

Of Godhead dying downwards, brain and eye now gone?

"Or is it that some high Plan betides,

As yet not understood,

Of Evil stormed by Good,

We the Forlorn Hope over which Achievement strides?"

Thus things around. No answerer I....

Meanwhile the winds, and rains,

And Earth's old glooms and pains

Are still the same, and gladdest Life Death neighbors nigh.

(Thomas Hardy)

(Filipe V. Castro lembra este poema a prop�sito do texto de Verg�lio Ferreira publicado no Abrupto)

(Thomas Hardy)(Filipe V. Castro lembra este poema a prop�sito do texto de Verg�lio Ferreira publicado no Abrupto)

O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: POPULISMO E CONTE�DOS L�GICO-LINGU�STICOS

"(...) as declara��es de Paulo Portas sobre a apresenta��o dos dois partidos em listas separadas. Dizia mais ou menos isto: sempre tinha sido a favor da bipolariza��o, isto � dois p�los, um do centro (!) para a direita, outro da esquerda, mas contra o bipartidismo (sic), ou seja, sempre defendeu liberdade de escolha dos eleitores em cada p�lo. � �bvio que a segunda asser��o representa o oposto da primeira: com fragmenta��o partid�ria dentro dos p�los n�o h� bipolariza��o. Mas parece que n�o importa: o populismo rompe com as barreiras da linguagem e da l�gica. Nada mais interessa que o articulado formal das palavras, desde que soe bem. Vale tudo."

(Fazenda Martins)

(Fazenda Martins)

O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O FUTURO J� N�O � O QUE ERA

(Enviado por Von)

Como (Enviado por Von)Como a foto n�o � verdadeira , o passado j� n�o � o que era.

TAMB�M J� TE APANHEI, � VAGABUNDO

Ontem, l� estava, com uma ainda quase inexistente cabeleira, no s�tio devido. Que aug�rio nos trazes, vagabundo? Ontem, l� estava, com uma ainda quase inexistente cabeleira, no s�tio devido. Que aug�rio nos trazes, vagabundo?

EARLY MORNING BLOGS 385

�pitaphe d'un paresseux

Jean s'en alla comme il �tait venu,

Mangea le fonds avec le revenu,

Tint les tr�sors chose peu n�cessaire.

Quant � son temps, bien le sut dispenser :

Deux parts en fit, dont il soulait passer

L'une � dormir et l'autre � ne rien faire.

(La Fontaine)

*

Bom dia!

(La Fontaine)Bom dia!

AR PURO

Levitan Levitan

LEMBRANDO

o que escrevi a 3 de Dezembro:

J� SE PERCEBEU

como uma parte da campanha de Santana Lopes ser� feita: o governo caiu porque os grandes interesses econ�micos n�o queriam o OE, as suas medidas de combate � fraude fiscal, e de imposi��o de impostos � banca. � h�bil, apela ao populismo, e aos amadores das teorias da conspira��o, mas n�o � verdade. o que escrevi a 3 de Dezembro:como uma parte da campanha de Santana Lopes ser� feita: o governo caiu porque os grandes interesses econ�micos n�o queriam o OE, as suas medidas de combate � fraude fiscal, e de imposi��o de impostos � banca. � h�bil, apela ao populismo, e aos amadores das teorias da conspira��o, mas n�o � verdade.

A CRISE DO SENTIDO DA AUDI��O

Dois debates entre parlamentares na SIC Not�cias e na RTP2: o grau zero do debate e uma completa incapacidade de ouvir, com destaque para uns jovens parlamentares do PP que falam, falam, falam, sem pararem um minuto para ouvir quanto mais para pensar.(J� n�o falo do cinzentismo do PS, cada vez mais habitual, como se tentassem esconder-se na paisagem ...) Dois debates entre parlamentares na SIC Not�cias e na RTP2: o grau zero do debate e uma completa incapacidade de ouvir, com destaque para uns jovens parlamentares do PP que falam, falam, falam, sem pararem um minuto para ouvir quanto mais para pensar.(J� n�o falo do cinzentismo do PS, cada vez mais habitual, como se tentassem esconder-se na paisagem ...)

A LER

Esta Di�rio Econ�mico .

Acrescento: algu�m ouviu a primeira pergunta que foi feita ao mesmo ministro, no Telejornal das 13 horas de hoje, sobre o novo Media Parque a criar no Monte da Virgem? Qualquer coisa do g�nero, dito logo � cabe�a pelo jornalista, "h� um ano o Monte da Virgem era a imagem perfeita da desola��o e agora � o que se v� (ainda n�o se v�...mas n�o tem import�ncia), como � que foi poss�vel?". A seguir, o ministro brilha. Estava tudo dito na pergunta. Dizer tudo na pergunta � extremamente eficaz.

Outro acrescento: espero que uma atitude de den�ncia resoluta deste tipo de promiscuidades continue caso o PS ganhe as elei��es. Poucas vezes me lembra de ter visto uma maior circula��o de "influ�ncias" entre o governo e as redac��es do que nos governos Guterres, tanto mais eficaz quanto n�o denunciada. Se o caminho dos dias de hoje de aten��o cr�tica n�o � apenas um epifen�meno suscitado pelas in�pcias actuais, (a que n�o � alheia a composi��o pol�tica da �classe�) pode-se melhorar o ar que se respira na comunica��o social .

Esta precis�o do Clube dos Jornalistas sobre as circunst�ncias em que foi feita a entrevista de Morais Sarmento aoAcrescento: algu�m ouviu a primeira pergunta que foi feita ao mesmo ministro, no Telejornal das 13 horas de hoje, sobre o novo Media Parque a criar no Monte da Virgem? Qualquer coisa do g�nero, dito logo � cabe�a pelo jornalista, "h� um ano o Monte da Virgem era a imagem perfeita da desola��o e agora � o que se v� (ainda n�o se v�...mas n�o tem import�ncia), como � que foi poss�vel?". A seguir, o ministro brilha. Estava tudo dito na pergunta. Dizer tudo na pergunta � extremamente eficaz.Outro acrescento: espero que uma atitude de den�ncia resoluta deste tipo de promiscuidades continue caso o PS ganhe as elei��es. Poucas vezes me lembra de ter visto uma maior circula��o de "influ�ncias" entre o governo e as redac��es do que nos governos Guterres, tanto mais eficaz quanto n�o denunciada. Se o caminho dos dias de hoje de aten��o cr�tica n�o � apenas um epifen�meno suscitado pelas in�pcias actuais, (a que n�o � alheia a composi��o pol�tica da �classe�) pode-se melhorar o ar que se respira na comunica��o social .

O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: MEM�RIA DE VERG�LIO FERREIRA

" ...N�s n�o pensamos o tempo em que n�o havia tempo por n�o haver homens que o instaurassem, pela ideia oculta e impens�vel de n�o haver um Universo que se n�o orientasse para a exist�ncia humana. E todavia sabemos que o acaso governou essa orienta��o. N�s n�o conseguimos pensar esse Universo para antes de haver homens e ser impens�vel que se pensasse a quest�o do seu sentido. Mas n�o abdicamos por isso de lho querer encontrar, agora que o homem existe para a tudo questionar. Assim � dificilmente pens�vel o Mundo para l� da esp�cie que � a nossa e se alinha entre as m�ltiplas esp�cies que se v�o extinguindo. Mas � s� pensando como disse, o vazio do Universo sem ningu�m que o consciencialize, que o problema do sentido se pode p�r. N�o h� sentido nenhum, h� s� a obtusidade de tudo estar a�. � preciso repeti-lo,

Mas como � amir�vel pensar que num instante fugitivo dos bili�es e bili�es de anos estelares, uma esp�cie apareceu e gritou � solid�o dos espa�os a sua vinda no que lhe foi dado criar, para imediatamente o Universo inteiro recair na estupidez do seu sil�ncio eterno. Perante quem ou qu� isto tem significado? Porque o n�o tem perante nada. Foi um grito de louco no seu infinitesimal instante de loucura. Esp�cies que findam, estrelas que se apagam, vazio inerte pela exterioridade do sem-fim. Mas houve um momento em que tudo isso existiu s� por haver a mente humana que a fez existir...."

Verg�lio Ferreira, Conta-Corrente , nova s�rie, IV (Enviado por Ant�nio Ferreirinho)

Verg�lio Ferreira,, nova s�rie, IV (Enviado por Ant�nio Ferreirinho)

OS NOVOS DESCOBRIMENTOS:THALASSA! THALASSA!

Xenofonte estava atr�s e ouviu os gritos. Bom militar, pensou que mais uma vez tinha inimigos pela frente num terreno hostil. A retaguarda come�ou a correr na direc��o dos gritos. Mais gritos. Xenofonte montou a cavalo pensando que �alguma coisa de extraordin�rio tinha acontecido� e, � frente da cavalaria, correu a socorrer os seus homens. Ent�o viu e percebeu. Ouviu: "Thalassa! Thalassa!�. O mar. Havia �gua a perder de vista. O mar. Os gregos encontravam o mar que tinham de h� muito perdido. A sua casa. Voltavam.

Mais provas de que houve �gua em Marte. Houve mar.

Xenofonte estava atr�s e ouviu os gritos. Bom militar, pensou que mais uma vez tinha inimigos pela frente num terreno hostil. A retaguarda come�ou a correr na direc��o dos gritos. Mais gritos. Xenofonte montou a cavalo pensando que �alguma coisa de extraordin�rio tinha acontecido� e, � frente da cavalaria, correu a socorrer os seus homens. Ent�o viu e percebeu. Ouviu: "Thalassa! Thalassa!�. O mar. Havia �gua a perder de vista. O mar. Os gregos encontravam o mar que tinham de h� muito perdido. A sua casa. Voltavam.Mais provas de que houve �gua em Marte. Houve mar.

INCONFID�NCIAS

Ponho a nu, salvo seja, o meu computador: o sistema � o Windows XP Professional, os programas b�sicos s�o os da Microsoft Office, mas verdadeiramente usados s� Word, o Access, o Outlook. O browser � o Mozilla Firefox j� na vers�o 1.0. Depois h� o Scansoft Paperport 9.0, um programa para mim indispens�vel e merecedor de todos os elogios, e que uso desde pelo menos a vers�o 5.0. Para al�m disso, uso o Copernic Desktop Search, (e o Copernic Agent Professional,) tendo experimentado o X1 e o Google Desktop, sem nenhum me satisfazer tanto como o Lotus Magellan num passado long�nquo. Uso extensivamente o Access, cada vez mais preocupado com o limite das bases de dados de 2 GB, sem total satisfa��o. J� experimentei o AskSam, com interesse para as suas vantagens, embora o tenha abandonado pelo Access. De novo, vem-me � mem�ria algumas funcionalidades do Lotus Agenda nunca conseguidas de forma simples no Access, embora suspeite que se conhecesse melhor a programa��o pudesse constru�-las no Access. Depois, o tradicional Norton System Works, e blindagem diversa contra a intrus�o e a malvadez.

Parafraseando, para que o computador n�o se tome a s�rio, � suposto que o computador esteja defendido de tudo , menos de mim pr�prio. Ponho a nu, salvo seja, o meu computador: o sistema � o Windows XP Professional, os programas b�sicos s�o os da Microsoft Office, mas verdadeiramente usados s� Word, o Access, o Outlook. O� o Mozilla Firefox j� na vers�o 1.0. Depois h� o Scansoft Paperport 9.0, um programa para mim indispens�vel e merecedor de todos os elogios, e que uso desde pelo menos a vers�o 5.0. Para al�m disso, uso o Copernic Desktop Search, (e o Copernic Agent Professional,) tendo experimentado o X1 e o Google Desktop, sem nenhum me satisfazer tanto como o Lotus Magellan num passado long�nquo. Uso extensivamente o Access, cada vez mais preocupado com o limite das bases de dados de 2 GB, sem total satisfa��o. J� experimentei o AskSam, com interesse para as suas vantagens, embora o tenha abandonado pelo Access. De novo, vem-me � mem�ria algumas funcionalidades do Lotus Agenda nunca conseguidas de forma simples no Access, embora suspeite que se conhecesse melhor a programa��o pudesse constru�-las no Access. Depois, o tradicional Norton System Works, e blindagem diversa contra a intrus�o e a malvadez.Parafraseando, para que o computador n�o se tome a s�rio, � suposto que o computador esteja defendido de tudo , menos de mim pr�prio.

COISAS SIMPLES

Roy Lichtenstein Roy Lichtenstein

EARLY MORNING BLOGS 384

Under Saturn

Do not because this day I have grown saturnine

Imagine that lost love, inseparable from my thought

Because I have no other youth, can make me pine;

For how should I forget the wisdom that you brought,

The comfort that you made? Although my wits have gone

On a fantastic ride, my horse's flanks are spurred

By childish memories of an old cross Pollexfen,

And of a Middleton, whose name you never heard,

And of a red-haired Yeats whose looks, although he died

Before my time, seem like a vivid memory.

You heard that labouring man who had served my people. He said

Upon the open road, near to the Sligo quay -

No, no, not said, but cried it out - 'You have come again,

And surely after twenty years it was time to come.'

I am thinking of a child's vow sworn in vain

Never to leave that valley his fathers called their home.

(William Butler Yeats)

*

Bom dia!

(William Butler Yeats)Bom dia!

APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA: O DESENHO ALT�SSIMO E A F�BRICA SEGUR�SSIMA

"A ordem hier�rquica da provid�ncia divina, no governo de suas criaturas, � governar superiores e s�bditos, mas os s�bditos por meio dos superiores, e os superiores imediatamente por si mesmo. Uma e outra coisa temos nas chaves e nas cadeias de Pedro. Em todo o mundo crist�o n�o h� mais que um superior e um s�bdito, um Pedro e uma Igreja; e este superior e este s�bdito, este Pedro e esta Igreja, quem os governa? A Igreja governa-a a provid�ncia de Pedro, que tem o poder das chaves: Tibi dabo claves regni caelorum; a Pedro governa-o a provid�ncia de Cristo, que o livrou das cadeias de Herodes: Ceciderunt catenae de manibus ejus. Este � o desenho alt�ssimo, e esta a f�brica segur�ssima da suprema provid�ncia. A Igreja segura na provid�ncia de Pedro, e Pedro seguro na provid�ncia de Cristo.

Caso foi verdadeiramente admir�vel, e por isso notado e advertido pelo mesmo historiador sagrado, que cercado S. Pedro de guardas, e atado a duas cadeias, na mesma noite daquele dia em que havia de sair a morrer, como homem sem nenhum temor nem cuidado, estivesse dormindo: In ipsa nocte erat Petrus dormiens. E se passarmos da terra ao mar, n�o � caso menos digno de admira��o que, correndo fortuna a barca de Pedro com uma terr�vel tempestade, Cristo, que ia na mesma barca, tamb�m estivesse dormindo: Ipse vero dormiebat. Cristo e o Vig�rio de Cristo, ambos dormindo? Cristo dormindo no meio da tempestade, e Pedro dormindo no meio das guardas e das cadeias, e ambos com a morte � vista, sem nenhum cuidado? Sim. Na tempestade dorme Cristo, porque a barca est� segura na provid�ncia de Pedro; e nas cadeias dorme Pedro, porque Pedro est� seguro na provid�ncia de Cristo. Debaixo da provid�ncia de Cristo dorme Pedro ao som das cadeias, e debaixo da provid�ncia de Pedro dorme Cristo ao som da tempestade e das ondas. "

POEIRA DE 13 DE DEZEMBRO

Hoje, h� cento e quarenta e nove anos, Thoreau preparava-se para o Inverno. � Agrad�vel �, escreveu, � estar preparado �, ter lenha, batatas, ma��s, na cave. Esperar que a neve descesse e cobrisse a terra de branco. Esperar que os flocos de neve se � entretecessem como uma teia no ar �, esperar por esse mundo de sil�ncio e paz. Esperar, fun��o do Inverno.

*

"A prop�sito do sil�ncio e paz invernais, que vieram por sua vez a prop�sito do Thoreau, lembrei-me dos sil�ncios do Livro das Melancolias do Paulo Mantegazza, resgatado do s�t�o de casa dos meus pais (...)

� Mais que os sil�ncios do homem, eu amo, por�m, os da natureza. Nos bosques de abetos da Noruega, eu bebi os sil�ncios daquela fria e casta natureza nos longos dias que duram meses. Nenhuma ave cantava, nenhum insecto estridulava, nenhuma fera rugia, e at� os meus passos sobre a macia e profunda almofada de brancos l�quenes n�o faziam rumor. Naqueles lugares, o sil�ncio dormia eternamente o seu sono, e eu julgar-me-ia morto, se n�o tivesse tido os olhos abertos para ver, para saborear toda aquela paz tranquila duma vida verde, que vivia sem fazer rumor. "

(R.M.) Hoje, h� cento e quarenta e nove anos, Thoreau preparava-se para o Inverno. ��, escreveu, ��, ter lenha, batatas, ma��s, na cave. Esperar que a neve descesse e cobrisse a terra de branco. Esperar que os flocos de neve se ��, esperar por esse mundo de sil�ncio e paz. Esperar, fun��o do Inverno.(R.M.)

COISAS SIMPLES

Hans Thoma Hans Thoma

APRENDER COM ROSALIA SOBRE OS RAPARIGOS

- Cantan os galos pra o d�a

�rguete, meu ben, e vaite.

- �C�mo me hei de ir,

c�mo me hei de ir e deixarte?

- Deses teus olli�os negros

como doas relumbrantes,

hastra as nosas maus unidas

as b�goas ardentes caen.

�C�mo me hei de ir

si ca lengua me desbotas

e co coras�n me atraes?

Nun corruncho do teu leito

cari�osa me abrigaches;

co teu manso calori�o

os fr�os pes me quentastes;

e de aqu� xuntos miramos

por antre o verde ramaxe

c�l iba correndo a l�a

por enriba dos pinares.

�C�mo queres que te deixe?

�C�mo, que de ti me aparte

si m�is que a mel eres

e m�is que as froles soave?

- Meigui�o, meigui�o, meigo,

meigo que me namoraste,

vaite de onda min, meigui�o,

antes que o sol se levante.

- Ainda dorme, queridi�a,

antre as ondi�as do mare;

dorme porque me acari�es

e porque amante me chames,

que s�lo onda ti, meni�a,

BOM ANO

To leave the old with a burst of song;

To recall the right and forgive the wrong;

To forget the things that bind you fast

To the vain regrets of the year that's past.

COISAS SIMPLES

Paula Moderschon-Becker Paula Moderschon-Becker

PELA MANH�

O frio aperta. O sol brilha. Os montes t�m o recorte habitual. � faca. Primeira s�rie de colinas, segunda s�rie de montes. Depois o mar. Uma sirene toca ao longe. Aqui � um som rar�ssimo no Inverno. Uma segunda sirene. Sil�ncio. O som de algu�m que varre o ch�o. Alguma coisa de muito errado aconteceu. Ao longe.

O frio aperta. O sol brilha. Os montes t�m o recorte habitual. � faca. Primeira s�rie de colinas, segunda s�rie de montes. Depois o mar. Uma sirene toca ao longe. Aqui � um som rar�ssimo no Inverno. Uma segunda sirene. Sil�ncio. O som de algu�m que varre o ch�o. Alguma coisa de muito errado aconteceu. Ao longe.

EARLY MORNING BLOGS 397

In the Park

You have forty-nine days between

death and rebirth if you're a Buddhist.

Even the smallest soul could swim

the English Channel in that time

or climb, like a ten-month-old child,

every step of the Washington Monument

to travel across, up, down, over or through

--you won't know till you get there which to do.

He laid on me for a few seconds

said Roscoe Black, who lived to tell

about his skirmish with a grizzly bear

in Glacier Park. He laid on me not doing anything. I could feel his heart

beating against my heart.

Never mind lie and lay, the whole world

confuses them. For Roscoe Black you might say

all forty-nine days flew by.

I was raised on the Old Testament.

In it God talks to Moses, Noah,

Samuel, and they answer.

People confer with angels. Certain

animals converse with humans.

It's a simple world, full of crossovers.

Heaven's an airy Somewhere, and God

has a nasty temper when provoked,

but if there's a Hell, little is made of it.

No longtailed Devil, no eternal fire,

and no choosing what to come back as.

When the grizzly bear appears, he lies/lays down

on atheist and zealot. In the pitch-dark

each of us waits for him in Glacier Park.

(Maxine Kumin)

*

Bom dia! (Maxine Kumin)Bom dia!

O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: "S� O TEMPO � MESMO NOSSO"

"Nada nos pertence (...), s� o tempo � mesmo nosso.A natureza concedeu-nos a posse desta coisa transit�ria e evanescente da qual quem quer que seja nos pode expulsar. � t�o grande a insensatez dos homens que aceitam prestar contas de tudo quanto - mau grado o seu valor m�nimo, ou nulo, e pelo menos certamente recuper�vel - lhes � emprestado, mas ningu�m se julga na obriga��o de justificar o tempo que recebeu, apesar de este ser o �nico bem que, por maior que seja a nossa gratid�o, nunca podemos restituir."

L�cio Aneu S�neca , Cartas a Luc�lio (Carta 1), enviado por Jo�o Costa L�cio Aneu S�neca , Cartas a Luc�lio (Carta 1), enviado por Jo�o Costa

APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA: DESEJAR SER

"A mais poderosa inclina��o e o mais poderoso apetite do homem � desejar ser. Bem nos conhecia este natural o dem�nio, quando esta foi a primeira pedra sobre que fundou a ru�na a nossos primeiros pais. A primeira coisa que lhe disse e que lhe prometeu foi que seriam: Eritis (G�n. 3,5), e este eritis, este sereis foi o que destruiu o mundo. N�o est� o erro em desejarem os homens ser, mas est� em n�o desejarem ser o que importa. Uns desejam ser ricos, outros desejam ser nobres, outros desejam ser s�bios, outros desejam ser poderosos, outros desejam ser conhecidos e afamados, e quase todos desejam tudo isto, e todos erram. S� uma coisa devem os homens desejar ser, que � ser santos. Assim emendou Deus o sereis do dem�nio com outro sereis, dizendo: Sancti eritis, quia Ego sanctus sum . O dem�nio disse: Sereis como Deus, sendo s�bios; e Deus disse: Sereis como Deus, sendo santos. E vai tanto de um sereis a outro sereis, que o sereis do dem�nio n�o s� nos tirou o ser como Deus, mas tirou-nos tamb�m o ser, porque nos tirou o ser santos, e o sereis de Deus, exortando-nos a ser santos, como ele �, n�o s� nos restitui o ser como Deus, sen�o tamb�m o ser. Quando Mois�s perguntou a Deus o que era, respondeu Deus definindo-se: Ego sum qui sum (�x. 3,14): Eu sou o que sou � porque s� Deus tem por ess�ncia o ser. Agora diz a todos os homens por boca do mesmo Mois�s: Se sois t�o amigos e t�o ambiciosos de ser, sede santos, e sereis, porque tudo o que n�o � ser santo, � n�o ser. Sede rei, sede imperador, sede papa: se n�o sois santo, n�o sois nada. Pelo contr�rio, ainda que sejais a mais vil e mais desprezada criatura do mundo, se sois santo, sois tudo o que pode chegar a ser o maior e mais bem afortunado homem, porque sois como aquele que s� � e s� tem ser, que � Deus. Todo o outro ser, por maior que pare�a, n�o �, porque vem a parar em n�o ser. S� o ser santo � o verdadeiro ser, porque � o que s� �, e o que h� de permanecer por toda a eternidade."

O MELHOR LIVRO DE DIVULGA��O CULTURAL DE 2004

Felipe Fernandez Armesto, Ideas that changed the world , Londres, DK, 2004.

A traduzir absolutamente. Felipe Fernandez Armesto,, Londres, DK, 2004.A traduzir absolutamente.

A MINHA LISTA DE N�O-FIC��O NACIONAL DE 2004

(Por ordem alfab�tica)

Paulo Ventura Ara�jo / Maria Pires de Carvalho / Manuela Delgado Le�o Ramos, � Sombra de �rvores com Hist�ria , Porto, Campo Aberto, 2004

(Um livro de amadores, no grande sentido da palavra, dos autores do blogue

Maria Jo�o Avillez, Conversas com �lvaro Cunhal e Outras Lembran�as , Lisboa, Temas e Debates, 2004

(As melhores entrevistas de Cunhal num jogo de sedu��o m�tua muito interessante de perceber.)

Jos� Gil, Portugal Hoje. O Medo de Existir , Lisboa, Rel�gio de �gua, 2004

(Nota no Abrupto.)

Fernando Lima, O Meu Tempo com Cavaco Silva , Lisboa, Bertrand Editora, 2004

(Podia ter sido escolhido o original, o segundo volume da autobiografia de Cavaco, mas sendo ambos, o de Lima e o de Cavaco muito stiff , o de Lima tem muita informa��o mesmo que tratada de forma oficiosa e �autorizada�.)

Eduardo Louren�o, Destro�os. O Gib�o de Mestre Gil e Outros Ensaios , Lisboa, Gradiva, 2004

(Nota no Abrupto.)

Frederico Louren�o, Gr�cia Revisitada , Livros Cotovia, 2004

(O autor tem sido, depois de Maria Helena Rocha Pereira, o grande portador do amor perplexo que todos temos com a Gr�cia.)

Dalila Cabrita Mateus, A PIDE/DGS na Guerra Colonial 1961-1974 , Lisboa, Terramar, 2004

(Sobre como os nossos brandos costumes eram ainda �mais� brandos nas col�nias, e como era a PIDE de l�, em guerra.)

Rui Vieira Nery, Para uma Hist�ria do Fado , P�blico, 2004

(Obra revista e aumentada fundamental para nos conhecermos, o pa�s onde � f�cil fazer chorar as paredes e as pedras da cal�ada.)

Leonor Curado Neves (Edi��o), Ant�nio Jos� Saraiva e �scar Lopes: Correspond�ncia , Lisboa, Gradiva, 2004

(Nota no Abrupto.)

Alexandre Pomar, com a colabora��o de Nat�lia Vital e de Rosa Pomar, J�lio Pomar - Catalogue raisonn� I (1942-1968), Paris, Editions de la Diff�rence, 2004

(Nota nos

(Por ordem alfab�tica)Paulo Ventura Ara�jo / Maria Pires de Carvalho / Manuela Delgado Le�o Ramos,, Porto, Campo Aberto, 2004(Um livro de amadores, no grande sentido da palavra, dos autores do blogue Dias com �rvores , para vermos as �rvores e o Porto.)Maria Jo�o Avillez,, Lisboa, Temas e Debates, 2004(As melhores entrevistas de Cunhal num jogo de sedu��o m�tua muito interessante de perceber.)Jos� Gil,, Lisboa, Rel�gio de �gua, 2004(Nota no Abrupto.)Fernando Lima,, Lisboa, Bertrand Editora, 2004(Podia ter sido escolhido o original, o segundo volume da autobiografia de Cavaco, mas sendo ambos, o de Lima e o de Cavaco muito, o de Lima tem muita informa��o mesmo que tratada de forma oficiosa e �autorizada�.)Eduardo Louren�o,, Lisboa, Gradiva, 2004(Nota no Abrupto.)Frederico Louren�o,, Livros Cotovia, 2004(O autor tem sido, depois de Maria Helena Rocha Pereira, o grande portador do amor perplexo que todos temos com a Gr�cia.)Dalila Cabrita Mateus,, Lisboa, Terramar, 2004(Sobre como os nossos brandos costumes eram ainda �mais� brandos nas col�nias, e como era a PIDE de l�, em guerra.)Rui Vieira Nery,, P�blico, 2004(Obra revista e aumentada fundamental para nos conhecermos, o pa�s onde � f�cil fazer chorar as paredes e as pedras da cal�ada.)Leonor Curado Neves (Edi��o),, Lisboa, Gradiva, 2004(Nota no Abrupto.)Alexandre Pomar, com a colabora��o de Nat�lia Vital e de Rosa Pomar,Paris, Editions de la Diff�rence, 2004(Nota nos Estudos sobre Comunismo .)

AR PURO

P.Balke P.Balke

EARLY MORNING BLOGS 396

The Dover Bitch

A Criticism of Life: for Andrews Wanning

So there stood Matthew Arnold and this girl

With the cliffs of England crumbling away behind them,

And he said to her, 'Try to be true to me,

And I'll do the same for you, for things are bad

All over, etc., etc.'

Well now, I knew this girl. It's true she had read

Sophocles in a fairly good translation

And caught that bitter allusion to the sea,

But all the time he was talking she had in mind

The notion of what his whiskers would feel like

On the back of her neck. She told me later on

That after a while she got to looking out

At the lights across the channel, and really felt sad,

Thinking of all the wine and enormous beds

And blandishments in French and the perfumes.

And then she got really angry. To have been brought

All the way down from London, and then be addressed

As a sort of mournful cosmic last resort

Is really tough on a girl, and she was pretty.

Anyway, she watched him pace the room

And finger his watch-chain and seem to sweat a bit,

And then she said one or two unprintable things.

But you mustn't judge her by that. What I mean to say is,

She's really all right. I still see her once in a while

And she always treats me right. We have a drink

And I give her a good time, and perhaps it's a year

Before I see her again, but there she is,

Running to fat, but dependable as they come.

And sometimes I bring her a bottle of Nuit d' Amour.

(Anthony Hecht)

*

Bom dia! (Anthony Hecht)Bom dia!

BIBLIOFILIA: ALGUNS RAY BRADBURY DA COLEC��O

"Last week I turned 82. 82! When I look in the mirror, the person staring back at me is a young boy, with a head and heart filled with dreams and excitement and unquenchable enthusiasm for life. Sure, he's got white hair -- so what! People often ask me how I stay so young, how I've kept such a "youthful" outlook. The answer is simple: Live a life in which you cram yourself with all kinds of metaphors, all kinds of activities, and all kinds of love. And take time to laugh -- find something that makes you truly happy -- every day of your life. That is what I have done, from my earliest days." (Ray Bradbury, "Happy Birthday to Me!")

Em breve acrescentarei Autumn People , a primeira edi��o em quadradinhos da E.C. Comics, com o fabuloso "Touch and Go", uma hist�ria metaf�sica sobre a totalidade e a perfei��o. (Ray Bradbury, "Happy Birthday to Me!")Em breve acrescentarei, a primeira edi��o em quadradinhos da E.C. Comics, com o fabuloso "Touch and Go", uma hist�ria metaf�sica sobre a totalidade e a perfei��o.

A LER

este

este balan�o dos progressos cient�ficos mais significativos de 2004, para se perceber como em quase tudo o que � importante estamos num limiar, na porta, no momento de saltar para novos saberes e novas perguntas. As novas perguntas s�o mais importantes.

INTEND�NCIA

Colocados no Lagartixa e o Jacar� 16 e 17, originalmente publicados na S�bado . Tratam da estrat�gia da coliga��o, do retorno do "Paulinho das Feiras", do Google e do pr�mio do Colocados no VERITAS FILIA TEMPORIS 16 e 17, originalmente publicados na. Tratam da estrat�gia da coliga��o, do retorno do "Paulinho das Feiras", do Google e do pr�mio do Ponto M�dia . A n�mero 17 inclui a lista dos dez mais e menos nacionais de 2004.

O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: SOBRE JUDAS

A hip�tese pol�tica: Longe de ser um traidor, Judas ter-se-ia revelado o �nico que verdadeiramente cria no poder de Jesus Cristo.

Anunciado como messias libertador e rei dos judeus, Jesus Cristo tardava em tomar a iniciativa de enfrentar o poderio romano e libertar o seu povo do jugo imperial. Perante a hesita��o de Jesus, Judas quis for��-Lo a agir, criando aquilo a que hoje chamar�amos um facto pol�tico. Vendo-se obrigado a enfrentar a autoridade romana, Jesus Cristo teria, por fim, que fazer apelo aos seus poderes sobrenaturais e expulsar o invasor, deixando os judeus tornarem-se senhores dos seus destinos. Teria, por fim, que se revelar como o Messias Libertador, como Judas acreditava que o era e o desejeva.

O erro de Judas � o erro na an�lise da economia da reden��o; n�o � o erro da trai��o.

De resto, a hip�tese da trai��o encaixa mal no relato b�blico. Com efeito, como explicar, que uma figura p�blica como Jesus, que era seguido nas ruas por um largo n�mero de devotos, que n�o estava escondido, precisasse de ser denunciado? Como explicar que, possu�do por Satan�s, recebidos os trinta dinheiros, Judas n�o os fosse gozar, mas, em vez disso, tivesse corrido a enforcar-se?

Repito: o pecado de Judas n�o foi a trai��o; foi o ter querido conhecer e influenciar os insond�veis des�gnios da Provid�ncia.

Fonte: Jorge Luis Borges - Tr�s vers�es de Judas.

(Ant�nio Cardoso da Concei��o)

*

Ant�nio Cardoso da Concei��o deu-nos a conhecer o texto de Jorge Lu�s Borges - "Tr�s vers�es de Judas" mas n�o fez a liga��o que se impunha com o "Dilema do Prisioneiro". Pressinto que a explora��o deste tema por esse caminho pode trazer conclus�es interessantes. Haver� algu�m a� que queira fazer essa explora��o ?

(Manuel Galv�o) (Ant�nio Cardoso da Concei��o)(Manuel Galv�o)

COISAS SIMPLES

Boucher Boucher

EARLY MORNING BLOGS 395

A Happy Birthday

This evening, I sat by an open window

and read till the light was gone and the book

was no more than a part of the darkness.

I could easily have switched on a lamp,

but I wanted to ride this day down into night,

to sit alone and smooth the unreadable page

with the pale gray ghost of my hand.

(Ted Kooser)

*

Bom dia! (Ted Kooser)Bom dia!

DETALHES

Os que sabem, sabem que � nos detalhes que o dem�nio est�.

Keats � um exemplo dessa aten��o. Descrevia-se a si pr�prio com detalhe � �The fire is at its last click - I am sitting here with my back to it with one foot rather askew upon the rug and the other with the heel a little elevated upon the carpet...� � e pedia aos amigos e familiares que, nas suas cartas, descrevessem com total rigor como estavam naquele preciso momento: est�s sentado(a), de p�, em que parte da sala, em que posi��o, etc. Keats vai mais longe e acredita que o conhecimento dos detalhes do momento concreto da cria��o s�o reveladores para a compreender:

�Could I see the same thing done of any great Man long since dead it would be a great delight: as to know in what position Shakespeare sat when he began "To be or not to be" .

A materialidade da descri��o se levada longe � e os detalhes s�o insaci�veis - conduz a fala ou a escrita a tornarem-se quase inevitavelmente er�ticos. Vox de Nicholson Baker come�a assim �What are you wearing?" he asked.� , uma pergunta do mesmo tipo das de Keats, mesmo quando n�o parece. Os que sabem, sabem que � nos detalhes que o dem�nio est�.Keats � um exemplo dessa aten��o. Descrevia-se a si pr�prio com detalhe �� e pedia aos amigos e familiares que, nas suas cartas, descrevessem com total rigor como estavam naquele preciso momento: est�s sentado(a), de p�, em que parte da sala, em que posi��o, etc. Keats vai mais longe e acredita que o conhecimento dos detalhes do momento concreto da cria��o s�o reveladores para a compreender:A materialidade da descri��o se levada longe � e os detalhes s�o insaci�veis - conduz a fala ou a escrita a tornarem-se quase inevitavelmente er�ticos.de Nicholson Baker come�a assim, uma pergunta do mesmo tipo das de Keats, mesmo quando n�o parece.

APRENDENDO COM DIDEROT SOBRE O AMOR, AS CINZAS E A LEI DA AFINIDADE

O ma Sophie, il me resterait donc un espoir de vous toucher, de vous sentir, de vous aimer, de vous chercher, de m'unir, de me confondre avec vous, quand nous ne serions plus. S'il y avait dans nos principes une loi d'affinit�, s'il nous �tait r�serv� de composer un �tre commun ; si je devais dans la suite des si�cles refaire un tout avec vous ; si les mol�cules de votre amant dissous venaient � s'agiter, � se mouvoir et � rechercher les v�tres �parses dans la nature ! Laissez-moi cette chim�re. Elle m'est douce. Elle m'assurerait l'�ternit� en vous et avec vous." "Le reste de la soir�e s'est pass� � me plaisanter sur mon paradoxe. On m'offrait de belles poires qui vivaient, des raisins qui pensaient. Et moi, je disais : ceux qui se sont aim�s pendant leur vie et qui se font inhumer l'un � c�t� de l'autre ne sont peut-�tre pas si fous qu'on pense. Peut-�tre leurs cendres se pressent, se m�lent et s'unissent. Que sais-je ? Peut-�tre n'ont-elles pas perdu tout sentiment, toute m�moire de leur premier �tat. Peut-�tre ont-elles un reste de chaleur et de vie dont elles jouissent � leur mani�re au fond de l'urne froide qui les renferme. Nous jugeons de la vie des �l�ments par la vie des masses grossi�res. Peut-�tre sont-ce des choses bien diverses. On croit qu'il n'y a qu'un polype ; et pourquoi la nature enti�re ne serait-elle pas du m�me ordre ? Lorsque le polype est divis� en cent mille parties, l'animal primitif n'est plus, mais tous ses principes sont vivants.O ma Sophie, il me resterait donc un espoir de vous toucher, de vous sentir, de vous aimer, de vous chercher, de m'unir, de me confondre avec vous, quand nous ne serions plus. S'il y avait dans nos principes une loi d'affinit�, s'il nous �tait r�serv� de composer un �tre commun ; si je devais dans la suite des si�cles refaire un tout avec vous ; si les mol�cules de votre amant dissous venaient � s'agiter, � se mouvoir et � rechercher les v�tres �parses dans la nature ! Laissez-moi cette chim�re. Elle m'est douce. Elle m'assurerait l'�ternit� en vous et avec vous."

APRENDENDO COM S. TIAGO SOBRE A L�NGUA

1

Meus irm�os, n�o sejam muitos de voc�s mestres, pois voc�s sabem que n�s, os que ensinamos, seremos julgados com maior rigor.

2

Todos trope�amos de muitas maneiras. Se algu�m n�o trope�a no falar, tal homem � perfeito, sendo tamb�m capaz de dominar todo o seu corpo.

3

Quando colocamos freios na boca dos cavalos para que eles nos obede�am, podemos controlar o animal todo.

4

Tomem tamb�m como exemplo os navios; embora sejam t�o grandes e impelidos por fortes ventos, s�o dirigidos por um leme muito pequeno, conforme a vontade do piloto.

5

Semelhantemente, a l�ngua � um pequeno �rg�o do corpo, mas se vangloria de grandes coisas. Vejam como um grande bosque � incendiado por uma pequena fagulha.

6

Assim tamb�m, a l�ngua � um fogo; � um mundo de iniquidade. Colocada entre os membros do nosso corpo, contamina a pessoa por inteiro, incendeia todo o curso de sua vida, sendo ela mesma incendiada pelo inferno.

7

Toda esp�cie de animais, aves, r�pteis e criaturas do mar doma-se e � domada pela esp�cie humana;

8

a l�ngua, por�m, ningu�m consegue domar. Ela � um mal incontrol�vel, cheio de veneno mort�fero.

9

Com a l�ngua bendizemos ao Senhor e Pai, e com ela amaldi�oamos os homens, feitos � semelhan�a de Deus.

10

Da mesma boca procedem b�n��o e maldi��o. Meus irm�os, isto n�o pode ser assim!

11

Acaso pode de uma mesma fonte sair �gua doce e �gua amarga?

12

Meus irm�os, pode uma figueira produzir azeitonas ou uma videira, figos? Da mesma forma, uma fonte de �gua salgada n�o pode produzir �gua doce.

13

Quem � s�bio e tem entendimento entre voc�s? Que o demonstre por seu bom procedimento, mediante obras feitas com a humildade que prov�m da sabedoria.

14

Contudo, se voc�s abrigam no cora��o inveja amarga e ambi��o ego�sta, n�o se gloriem disso, nem neguem a verdade.

15

Esta "sabedoria" n�o vem do c�u, mas � terrena, n�o � espiritual e � demon�aca.

16

Pois onde h� inveja e ambi��o ego�sta, a� h� confus�o e toda esp�cie de males.

17

Mas a sabedoria que vem do alto � antes de tudo pura; depois, pac�fica, am�vel, compreensiva, cheia de miseric�rdia e de bons frutos, imparcial e sincera.

18

O fruto da justi�a semeia-se em paz para os pacificadores.

AR PURO

P. Balke P. Balke

EARLY MORNING BLOGS 394

C'�tait sur un chemin crayeux

C'�tait sur un chemin crayeux

Trois ch�tes de Provence

Qui s'en allaient d'un pas qui danse

Le soleil dans les yeux.

Une enseigne, au bord de la route,

- Azur et jaune d'oeuf, -

Annon�ait : Vin de Ch�teauneuf,

Tonnelles, Casse-cro�te.

Et, tandis que les suit trois fois

Leur ombre violette,

Noir pastou, sous la gloriette,

Toi, tu t'en fous : tu bois...

C'�tait trois ch�tes de Provence,

Des oliviers poudreux,

Et le mistral br�lant aux yeux

Dans un azur immense.

(Paul-Jean Toulet)

*

Bom dia! (Paul-Jean Toulet)Bom dia!

APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA: DOCILIDADE

"Quem n�o � d�cil, senhores, n�o pode ser douto; antes, a mesma docilidade � um sin�nimo da ci�ncia. Disse Deus a Salom�o que pedisse o que quisesse, porque tudo lhe concederia. O que pediu foi docilidade: Dabis servo tuo cor docile ; e o que o Senhor lhe concedeu foi a maior sabedoria que nunca teve, nem ter� outro homem: Dedi tibi cor sapiens, et intelligens in tantum, ut nullus ante te similis tui fuerit nec posto te surrecturus sit . Pois, se Deus tinha prometido a Salom�o que lhe daria o que pedisse, e ele pediu docilidade, como lhe deu ci�ncia? Por isso mesmo. Porque docilidade e ci�ncia s�o a mesma coisa, e n�o podia Deus, segundo a sua promessa, deixar de lhe dar ci�ncia, tendo ele pedido docilidade. Assim lho disse o mesmo Deus: Ecce leci tibi secundum sermones tuos . A ci�ncia nenhuma outra coisa � que o conhecimento claro de muitas verdades, umas em si, que s�o os princ�pios, e outras que delas se seguem, que s�o as conclus�es. E aqueles que n�o t�m docilidade, � como s�o os tenazes do pr�prio ju�zo, e ferrados � sua opini�o � ainda que a verdade se lhes represente, n�o s�o capazes de a receber. Por isso estes tais cada vez sabem menos, e todas as vezes que a opini�o passa a erro, perseveram nele. "

OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: O GR�O DE AREIA QUE TE ATIREI

Esta fotografia � a menos pretensiosa das fotografias. N�o tem vaidade, n�o tem soberba, n�o tem tumulto, n�o � cl�ssica, n�o � moderna, n�o tem cores. � o retrato de uma coisa com valor imenso: o retrato do gr�o de areia que se atirou para Tit�. Ele est� l�, brilhante, na parte de cima da fotografia, um ponto de nada, no meio do nada, uma pequena sonda errante, embrulhada em papel de prata dourado, parecendo vagamente um chap�u. L� vai, sem saber muito bem a qu�. Lan�ado pela esperan�a de saber, lan�ado pela nossa qualidade mais humana: curiosidade, curiosidade, perturbante curiosidade. Como �? De que � feito? Como respira? Pertencem-nos aqueles gases, aquele solo, aquela atmosfera, e, talvez, aquela vida? O meu gr�o de areia paga para ver. Sofrer� no caminho, pode destruir-se, pode durar pouco, mas n�o procura o conforto, nem a seguran�a, nem um pouso certo. Procura uma verdade mais pura que as outras, mais primitiva, menos polu�da. Valente ponto de luz, duro gr�o de areia, sinal da m�o que o deitou, t�o longe para o que n�o se conhece. O teu caminho � o meu. Nenhum outro.

Esta fotografia � a menos pretensiosa das fotografias. N�o tem vaidade, n�o tem soberba, n�o tem tumulto, n�o � cl�ssica, n�o � moderna, n�o tem cores. � o retrato de uma coisa com valor imenso: o retrato do gr�o de areia que se atirou para Tit�. Ele est� l�, brilhante, na parte de cima da fotografia, um ponto de nada, no meio do nada, uma pequena sonda errante, embrulhada em papel de prata dourado, parecendo vagamente um chap�u. L� vai, sem saber muito bem a qu�. Lan�ado pela esperan�a de saber, lan�ado pela nossa qualidade mais humana: curiosidade, curiosidade, perturbante curiosidade. Como �? De que � feito? Como respira? Pertencem-nos aqueles gases, aquele solo, aquela atmosfera, e, talvez, aquela vida? O meu gr�o de areia paga para ver. Sofrer� no caminho, pode destruir-se, pode durar pouco, mas n�o procura o conforto, nem a seguran�a, nem um pouso certo. Procura uma verdade mais pura que as outras, mais primitiva, menos polu�da. Valente ponto de luz, duro gr�o de areia, sinal da m�o que o deitou, t�o longe para o que n�o se conhece. O teu caminho � o meu. Nenhum outro.

OUVINDO

Nat King Cole e Rachmaninov tocado por Stephen Hough. Nat King Cole e Rachmaninov tocado por Stephen Hough.

AR PURO

Peder Balke Peder Balke

EARLY MORNING BLOGS 393

Dark Matter

Scientists at the University of Rome, according to the New York Times, may have finally detected dark matter, the stuff that roughly eighty percent of the universe may be made of.

Like certain superheroes, particles

of dark matter pass through other matter

unimpeded. But anti-gravity, scientists

explain, "still cannot be expected

to reverse the course of a falling apple,

or drive an inflating wedge of nothingness

between lovers." Which may be why

the hero works best alone.

Pals and sidekicks can be helpful,

but women are too curious, too quick

to believe the men they're with

must be, at heart, different men.

Of course they're right. And the hero

is in trouble if he doesn't

keep his other self a secret.

He wants to be in love, to offer

all the confidences a lover should.

But he has to save the world,

again and again. Thus it seems true

that a wedge of nothingness

divides the man and the woman,

but also that the falling of an apple

is irreversible.

The hero must expect evil

to continue. He cannot afford

to be surprised by strangeness.

Or ever expect a life in which

he could only be himself.

(Lawrence Raab)

*

Bom dia! (Lawrence Raab)Bom dia!

NUMA MENSAGEM DE NATAL

esta frase, � N�o � f�cil perdoar, n�o � f�cil compreender quem tenha atitudes que n�s n�o tomar�amos, mas o Natal � isso mesmo tentar fazer o que n�o fazemos normalmente todos os dias �, mostra uma obsess�o. Nem numa mensagem, que � suposto ser proferida na maior das neutralidades e dist�ncia face � luta pol�tica, deixam de vir ao de cima a incubadora e as facadas. N�o h� em S. Bento um espelho que fale a verdade? esta frase, ��, mostra uma obsess�o. Nem numa mensagem, que � suposto ser proferida na maior das neutralidades e dist�ncia face � luta pol�tica, deixam de vir ao de cima a incubadora e as facadas. N�o h� em S. Bento um espelho que fale a verdade?

OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: A NOSSA CASA

Se n�s f�ssemos pessoas de medos, o medo estaria em toda esta imagem. H� ali uma dimens�o que n�o � a nossa. H� ali um frio que n�o � o nosso. H� ali uma for�a que n�o � a nossa. H� ali uma perfei��o que n�o � a nossa. Toda a estranheza do mundo est� ali. Olhando bem, tudo nos � alheio, tudo � inumano e o inumano � o que mais tememos. Medo primeiro, medo ancestral, medo geneticamente inscrito, medo do que n�o sabemos, do que n�o controlamos. N�s confiantes que controlamos, ou seja, possu�mos, a nossa pequena terra, que n�o h� mar, nem gelo, nem tempestade, nem rio, nem montanha que n�o possamos visitar, conquistar, domar com a vontade e a coragem, chegamos aqui e c�est toute une autre affaire!

Claro que h� a beleza, que parece a mais humana de todas as sensa��es. Kant j� tinha percebido que n�o era bem assim, que h� beleza que n�o � humana, que h� beleza que infunde o terror. Ser� que queremos mesmo v�-la? Ser� que confrontados com este mundo, que � o mundo, que � o que est� l� fora, na esquina do nosso pequeno sistema solar, verdadeiramente queremos mais do que saber? Eu sei que sim. Queremos saber, mas vamos querer habitar. Talvez a nossa casa se fa�a sempre contra o medo. Talvez.

(Da sonda Cassini muito longe, esta foto para o Natal dos terrestres.)

Se n�s f�ssemos pessoas de medos, o medo estaria em toda esta imagem. H� ali uma dimens�o que n�o � a nossa. H� ali um frio que n�o � o nosso. H� ali uma for�a que n�o � a nossa. H� ali uma perfei��o que n�o � a nossa. Toda a estranheza do mundo est� ali. Olhando bem, tudo nos � alheio, tudo � inumano e o inumano � o que mais tememos. Medo primeiro, medo ancestral, medo geneticamente inscrito, medo do que n�o sabemos, do que n�o controlamos. N�s confiantes que controlamos, ou seja, possu�mos, a nossa pequena terra, que n�o h� mar, nem gelo, nem tempestade, nem rio, nem montanha que n�o possamos visitar, conquistar, domar com a vontade e a coragem, chegamos aqui eClaro que h� a beleza, que parece a mais humana de todas as sensa��es. Kant j� tinha percebido que n�o era bem assim, que h� beleza que n�o � humana, que h� beleza que infunde o terror. Ser� que queremos mesmo v�-la? Ser� que confrontados com este mundo, que � o mundo, que � o que est� l� fora, na esquina do nosso pequeno sistema solar, verdadeiramente queremos mais do que saber? Eu sei que sim. Queremos saber, mas vamos querer habitar. Talvez a nossa casa se fa�a sempre contra o medo. Talvez.(Da sonda Cassini muito longe, esta foto para o Natal dos terrestres.)

BOAS FESTAS COM COISAS SIMPLES E CERTAS

Paula Modershon-Becker Paula Modershon-Becker

APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA: ESTRELAS

"Come�ando pelo amar e venera��o dos gentios, aquela estrela que trouxe os Magos a Cristo era uma figura celestial e muito ilustre dos pregadores da f�. Assim o diz S. Greg�rio, e os outros padres camumente mas a mesma estrela o disse ainda melhor. Que of�cio foi o daquela estrela? Alumiar, guiar e trazer homens a adorar a Cristo, e n�o outros homens, sen�o homens infi�is e id�latras, nascidos e criados nas trevas da gentilidade. Pois, esse mesmo � a of�cio e exerc�cio, n�o de quaisquer pregadores, sen�o daqueles pregadores de que falamos, e por isso propriamente estrelas de Cristo. Repara muito S. M�ximo, em que esta estrela, que guiou os magos, se chame particularmente estrela de Cristo: Stella ejus e arg�i assim: Todas as outras estrelas n�o s�o, tamb�m, estrelas de Cristo, que como Deus as criou? Sim, s�o. Pois, por que raz�o esta estrela, mais que as outras, se chama especialmente estrela sua: Stella ejus? Porque as outras estrelas foram geralmente criadas para tochas do c�u e do mundo: esta foi criada especialmente para pregadora de Cristo: Quia quamvis omnes ab eo creatae stellae ipsius sint, haec tamen propna Christi erat, quia specialiter Christi nuntiabat adventum. � Muitas outras estrelas h� naquele hemisf�rio muito claras nos resplendores e muita �teis nas influ�ncias, coma as do firmamento, mas estas de que falamos s�o pr�pria e especialmente de Cristo, n�o s� pelo nome de Jesus, com que se professam por suas, mas porque afim, a instituto e o of�cio para que foram criadas, � o mesmo que o da estrela dos Magos, para trazer infi�is e gentios � f� de Cristo. Ora, se estas estrelas fossem t�o diligentes, t�o sol�citas e t�o pontuais em acompanhar, e guiar, e servir aos gentios, como a que acompanhou, guiou e serviu aos Magos, n�o teriam os mesmos gentios muita raz�o de as quererem e estimarem, de sentirem muita sua falta, e de se alegrarem e consolarem muita com sua presen�a? Assim o fizeram os Magos, e assim o diz o evangelista, n�o acabando de encarecer este contentamento: Videntes autem stellam, gavisi sunt gaudio magno valde. Pois, vamos agora seguindo os passas daquela estrela, desde o oriente at� ao pres�pio, e veremos como as que hoje vemos t�o mal vistas e t�o perseguidas, n�o s� imitam e igualam em tudo a estrela dos Magos, mas em tudo a excedem com grandes vantagens."

COISAS SIMPLES

Harriet Backer Harriet Backer

EARLY MORNING BLOGS 392

Ladainha dos p�stumos natais

H�-de vir um Natal e ser� o primeiro

em que se veja � mesa o meu lugar vazio

H�-de vir um Natal e ser� o primeiro

em que h�o-de me lembrar de modo menos n�tido

H�-de vir um Natal e ser� o primeiro

em que s� uma voz me evoque a s�s consigo

H�-de vir um Natal e ser� o primeiro

em que n�o viva j� ningu�m meu conhecido

H�-de vir um Natal e ser� o primeiro

em que nem vivo esteja um verso deste livro

H�-de vir um Natal e ser� o primeiro

em que terei de novo o Nada a s�s comigo

H�-de vir um Natal e ser� o primeiro

em que nem o Natal ter� qualquer sentido

H�-de vir um Natal e ser� o primeiro

em que o Nada retome a cor do Infinito.

(David Mour�o-Ferreira)

*

Bom dia! (David Mour�o-Ferreira)Bom dia!

EST� NA ALTURA

de partir de novo. de partir de novo.

APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA: A VIT�RIA DE CATARINA

"Se na considera��o do n�mero venceu Santa Catarina as Virgens s�bias do Evangelho, reduzindo ela s� a cinquenta, quando elas, sendo cinco, n�o puderam nem souberam reduzir a uma, n�o foi menos ilustre a sua vit�ria na considera��o do sexo. As virgens, sendo mulheres, n�o ensinaram a uma mulher; Catarina, sendo mulher, ensinou a cinquenta homens. O ap�stolo S�o Paulo fiou t�o pouco do g�nero feminino, que a todas as mulheres proibiu o ensinar: Docere autem mulieri non permitto. E que raz�o teve S�o Paulo para um preceito t�o universal e t�o odioso a metade do g�nero humano, e na parte mais sensitiva dele? A raz�o que teve foi a maior de todas as raz�es, que � a experi�ncia: Adam non est seductus, mulier autem seducta in praevaricatione fuit (1 Tim. 2,14): Em Ad�o e Eva � diz o Ap�stolo � se viu a diferen�a que h� entre o entendimento do homem e o da mulher � porque Eva foi enganada, Ad�o n�o. � Ensine logo Ad�o, ensine o homem; Eva e a mulher, n�o ensine. O que s� lhe conv�m, e o que lhe mando, � que aprenda e cale: Mulier in silentio discatt. Segundo este preceito, que mais parece natural que positivo, pois o Ap�stolo o deduz desde Ad�o e Eva, Catarina havia de aprender e calar, como mulher, e os fil�sofos ensinar, como homens, como fil�sofos, como graduados nas suas ci�ncias, e como os primeiros e mais insignes mestres delas. Mas que Catarina fale e os fil�sofos ou�am, que Catarina ensine e os fil�sofos aprendam, que Catarina n�o s� dispute, mas defina, n�o s� argumente, mas conclua, n�o s� impugne, mas ven�a, e tantos homens, e tais se reconhe�am e confessem vencidos, foi vit�ria que de sexo a sexo s� teve um exemplo, e de entendimento a entendimento nenhum."

OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: VOLTANDO A CASA

(A protec��o t�rmica da Opportunity, que a sonda voltou a encontrar ao inverter o caminho que a levou � cratera.)

- Aqui estou, voltando a casa, pisando o mesmo caminho, vendo as mesmas coisas com os meus velhos olhos.

- As mesmas?

- N�o sei. As mesmas. A mudan�a � uma ilus�o.

- Isso � um ilus�o ainda maior. Tudo muda.

- Engano. Eu sou uma adepta tardia de Parm�nides, num mundo em que abundam os partid�rios daquele que fala do rio que corre. Em Marte a �gua j� se foi.

- Tens a certeza?

- Tenho. Nunca nada muda no tempo, as pessoas confundem mudan�a com destino. N�o h� destino, s� encontros. N�o h� tempo, s� h� momentos. N�o h� vento, s� pedras que rolam.

- Para onde?

- Para o seu s�tio. Para o Lugar Universal, para a gravidade. N�o sei. O meu � aqui. (A protec��o t�rmica da Opportunity, que a sonda voltou a encontrar ao inverter o caminho que a levou � cratera.)- Aqui estou, voltando a casa, pisando o mesmo caminho, vendo as mesmas coisas com os meus velhos olhos.- As mesmas?- N�o sei. As mesmas. A mudan�a � uma ilus�o.- Isso � um ilus�o ainda maior. Tudo muda.- Engano. Eu sou uma adepta tardia de Parm�nides, num mundo em que abundam os partid�rios daquele que fala do rio que corre. Em Marte a �gua j� se foi.- Tens a certeza?- Tenho. Nunca nada muda no tempo, as pessoas confundem mudan�a com destino. N�o h� destino, s� encontros. N�o h� tempo, s� h� momentos. N�o h� vento, s� pedras que rolam.- Para onde?- Para o seu s�tio. Para o Lugar Universal, para a gravidade. N�o sei. O meu � aqui.

COISAS SIMPLES: ARRUMAR

Leroy de Barde, Re�nions d'oiseaux �trangers plac�s dans les diff�rentes caisses Leroy de Barde, Re�nions d'oiseaux �trangers plac�s dans les diff�rentes caisses

EARLY MORNING BLOGS 391

Saison fid�le aux coeurs qu'importune la joie

Saison fid�le aux coeurs qu'importune la joie,

Te voil�, ch�re Automne, encore de retour.

La feuille quitte l'arbre, �clatante, et tournoie

Dans les for�ts � jour.

Les aboiements des chiens de chasse au loin d�chirent

L'air inerte o� l'on sent l'odeur des champs mouill�s.

Gonfl�s d'humidit�, les pr�s mornes soupirent

En c�dant sous les pieds.

Les oiseaux voyageurs, par bandes, dans les nues,

Emigrent vers le Sud et les soleils plus chauds.

Les laboureurs, pench�s sur les lentes charrues,

Couronnent les coteaux.

Le soir, � l'horizon, parfois le ciel est rose ;

Des troupes de corbeaux traversent le couchant.

Dans le creux des sillons de la plaine repose,

Pensive, une eau d'argent.

(Charles Gu�rin)

*

Bom dia, belo dia! (Charles Gu�rin)Bom dia, belo dia!

COISAS SIMPLES

Edouard Boubat Edouard Boubat

ANTOLOGIA DA TRAI��O: O COSTUME

Why It Often Rains in the Movies

Because so much consequential thinking

happens in the rain. A steady mist

to recall departures, a bitter downpour

for betrayal. As if the first thing

a man wants to do when he learns his wife

is sleeping with his best friend, and has been

for years, the very first thing

is not to make a drink, and drink it,

and make another, but to walk outside

into bad weather. It's true

that the way we look doesn't always

reveal our feelings. Which is a problem

for the movies. And why somebody has to smash

a mirror, for example, to show he's angry

and full of self-hate, whereas actual people

rarely do this. And rarely sit on benches

in the pouring rain to weep. Is he wondering

why he didn't see it long ago? Is he wondering

if in fact he did, and lied to himself?

And perhaps she also saw the many ways

he'd allowed himself to be deceived. In this city

it will rain all night. So the three of them

return to their houses, and the wife

and her lover go upstairs to bed

while the husband takes a small black pistol

from a drawer, turns it over in his hands,

then puts it back. Thus demonstrating

his inability to respond to passion

with passion. But we don't want him

to shoot his wife, or his friend, or himself.

And we've begun to suspect

that none of this is going to work out,

that we'll leave the theater feeling

vaguely cheated, just as the movie,

turning away from the husband's sorrow,

leaves him to be a man who must continue,

day after day, to walk outside into the rain,

outside and back again, since now there can be

nowhere in this world for him to rest.

(Lawrence Raab) (Lawrence Raab)

O "MEME" DE HOJE

� a palavra "pat�tica" para designar a confer�ncia do almo�o. J� fez o seu caminho.

Outro "meme" que caminhou bastante foi a fotografia de Ant�nio Pedro Ferreira, publicada no Expresso . � a palavra "pat�tica" para designar a confer�ncia do almo�o. J� fez o seu caminho.Outro "meme" que caminhou bastante foi a fotografia de Ant�nio Pedro Ferreira, publicada no

BIBLIOFILIA

W.G.Sebald, After Nature , New York, Modern Library, 2002

...et iam summa procul villarum

culmina fumant maioresque cadunt de montibus umbrae.

Virg�lio W.G.Sebald,, New York, Modern Library, 2002Virg�lio

CONFER�NCIA DE IMPRENSA PAT�TICA

desesperada. A justifica��o do que se passa com recortes de jornais estrangeiros, com as faltas dos outros. E depois aquele sorriso que emerge no Primeiro-ministro sempre que fala dos "outros", dos "alguns", como se viesse l� do fundo um prazer da vitimiza��o e de culpa alheia. Onde Bag�o Felix se zanga, Santana Lopes sorri quando ataca os advers�rios reais e imaginados.

(O inadmiss�vel corte da transmiss�o directa da confer�ncia de imprensa pela RTP, antes de se saber qual era a solu��o do problema do d�fice� Servi�o p�blico.)

Nota suplementar : a RTP n�o podia saber que afinal nada de concreto ia ser anunciado quando interrompeu a emiss�o, portanto fez mal. Se o soubesse isso poderia justificar n�o s� o corte, como at� a n�o-transmiss�o. N�o tendo objecto que n�o fosse o governo exercer o "contradit�rio" face aos seus cr�ticos, ou seja Santana Lopes e Bag�o Felix balbuciarem umas desculpas - e eu garanto-vos que n�o gosto de usar a palavra pejorativa "balbuciar" se n�o fosse mesmo assim - e dizerem que o governo portugu�s faz os mesmos truques or�amentais dos outros, a confer�ncia torna-se ainda mais penosa. Est� de facto a bater-se num fundo muito fundo. desesperada. A justifica��o do que se passa com recortes de jornais estrangeiros, com as faltas dos outros. E depois aquele sorriso que emerge no Primeiro-ministro sempre que fala dos "outros", dos "alguns", como se viesse l� do fundo um prazer da vitimiza��o e de culpa alheia. Onde Bag�o Felix se zanga, Santana Lopes sorri quando ataca os advers�rios reais e imaginados.(O inadmiss�vel corte da transmiss�o directa da confer�ncia de imprensa pela RTP, antes de se saber qual era a solu��o do problema do d�fice� Servi�o p�blico.): a RTP n�o podia saber que afinal nada de concreto ia ser anunciado quando interrompeu a emiss�o, portanto fez mal. Se o soubesse isso poderia justificar n�o s� o corte, como at� a n�o-transmiss�o. N�o tendo objecto que n�o fosse o governo exercer o "contradit�rio" face aos seus cr�ticos, ou seja Santana Lopes e Bag�o Felix balbuciarem umas desculpas - e eu garanto-vos que n�o gosto de usar a palavra pejorativa "balbuciar" se n�o fosse mesmo assim - e dizerem que o governo portugu�s faz os mesmos truques or�amentais dos outros, a confer�ncia torna-se ainda mais penosa. Est� de facto a bater-se num fundo muito fundo.

O NOSSO CAOS

continua todos os dias. Sair disto vai ser complicado. continua todos os dias. Sair disto vai ser complicado.

ANTOLOGIA DA TRAI��O: AS PORTAS DA TRAI��O

Em muitos castelos h� portas da trai��o. Todas t�m uma lenda, uma hist�ria de trai��o. Ficamos a saber assim que as portas s�o dadas a estas actividades e ficam por isso malditas. Quem as atravessa sente, sente que � s� uma quest�o de tempo at� que des�a o traidor com as chaves da confian�a e suba o furtivo para, conquistando, acabar por desprezar o traidor. Foi sempre assim, ser� sempre assim. A trai��o � a actividade que mais corr�i. Em muitos castelos h� portas da trai��o. Todas t�m uma lenda, uma hist�ria de trai��o. Ficamos a saber assim que as portas s�o dadas a estas actividades e ficam por isso malditas. Quem as atravessa sente, sente que � s� uma quest�o de tempo at� que des�a o traidor com as chaves da confian�a e suba o furtivo para, conquistando, acabar por desprezar o traidor. Foi sempre assim, ser� sempre assim. A trai��o � a actividade que mais corr�i.

OUVINDO (2)

O mesmo. A magn�fica Frehel, a bela Pervenche , retratada por Colette, seduzida por Roberty (estes nomes...), prematuramente envelhecida, ganhando a sua " gueule de m�re maquerelle " , que morreu, miser�vel e esquecida, cheia de bebida e drogas num hotel de Pigalle, a cantar antes da "excep��o cultural":

Y'en a qui vous parlent de l'Am�rique

Ils ont des visions de cin�ma

Ils vous disent " quel pays magnifique "

Notre Paris n'est rien aupr�s d'�a

Ces boniments-l� rendent moins timide,

Bref, l'on y part, un jour de cafard...

�a fera un de plus qui, le ventre vide

Le soir � New-York cherchera un dollar

Au milieu des gueus's, des proscrits,

Des �migrants aux c�urs meurtris;

Il pensera, regrettant Paris

O� est-il mon moulin de la Place Blanche ?

Mon tabac et mon bistrot du coin ?

Tous les jours �taient pour moi Dimanche !

O� sont-ils les amis les copains ?

O� sont-ils tous mes vieux bals musette ?

Leurs javas au son de l'accord�on

O� sont-ils tous mes repas sans galette ?

Avec un cornet de frites � dix ronds

O� sont-ils donc ?

D'autres croyant gagner davantage

Font des r�ves d'or encore plus beaux

Pourquoi risquer un si long voyage

Puisque Paris est plein de gogos?

On monte une affaire colossale,

Avec l'argent du bon populo,

Mais un jour, crac...

c'est le gros scandale :

Monsieur courra ce soir au d�p�t !

Et demain on le conduira

Pour dix ann�es � Noum�a.

Encore un de plus qui dira :

O� est-il mon moulin de la Place Blanche ?

Mon tabac et mon bistrot du coin ?

Tous les jours �taient pour moi Dimanche !

O� sont-ils les amis les copains ?

O� sont-ils tous mes vieux bals musette ?

Leurs javas au son de l'accord�on

O� sont-ils tous mes repas sans galette ?

Avec un cornet de frites � dix ronds

O� sont-ils donc ?

Mais Montmartre semble dispara�tre

Car h�las de saison en saison

Des Abbesses � la Place du Tertre,

On d�molit nos vieilles maisons.

Sur les terrains vagues de la butte

De grandes banques na�tront bient�t,

O� ferez-vous alors vos culbutes,

Vous, les pauvres gosses � Poulbot ?

En regrettant le temps jadis

Nous chanterons, songeant � Salis,

Montmartre ton " De Profundis ! "

O� est-il mon moulin de la Place Blanche ?

Mon tabac et mon bistrot du coin ?

Tous les jours �taient pour moi Dimanche !

O� sont-ils les amis les copains ?

O� sont-ils tous mes vieux bals musette ?

Leurs javas au son de l'accord�on

O� sont-ils tous mes repas sans galette ?

Avec un cornet de frites � dix ronds

O� sont-ils donc ? O mesmo. A magn�fica Frehel, a bela, retratada por Colette, seduzida por Roberty (estes nomes...), prematuramente envelhecida, ganhando a sua "" , que morreu, miser�vel e esquecida, cheia de bebida e drogas num hotel de Pigalle, a cantar antes da "excep��o cultural":

OUVINDO

A Fran�a deveria ser completamente insuport�vel nos anos trinta, mas fazia bom cinema e boas can��es. Vento fresco? Aqui est�: a Arletty a cantar " J'enleve ma liguette ", Chevalier o " Chapeau de Zozo ", Ray Ventura " Tout va tr�s bien madame la marquise " (que devia ser o hino do sindicato das empregadas dom�sticas) e Jean Murat " Les gars de la Marine " do filme Le Capitaine Craddock (1931). Tudo mais extinto que os dinossauros.

Les gars de la Marine

Quand on est matelot

On est toujours sur l'eau.

On visite le monde,

C'est l'm�tier le plus beau !

Du P�l' Sud au P�l' Nord,

Dans chaque petit port,

Plus d'une fille blonde

Nous garde ses tr�sors.

Pas besoin de pognon.

Mais comm' compensation,

� toutes nous donnons

Un p'tit morceau d'nos pompons !

{Refrain:}

Voil� les gars de la marine,

Quand on est dans les cols bleus

On n'a jamais froid aux yeux.

Partout du Chili jusqu'en Chine,

On les r'�oit � bras ouverts,

Les vieux loups d' mer.

Quand une fille les chagrine

Ils se consol'nt avec la mer !

Voil� les gars de la marine,

Du plus p'tit jusqu'au plus grand,

Du moussaillon au commandant.

Les amours d'un col bleu,

�a n'dur' qu'un jour ou deux.

� pein' le temps d'se plaire

Et de se dire adieu !

On a un peu d'chagrin !

�a passe comme un grain !

Les plaisirs de la terre...

C'est pas pour les marins !

Nous n'avons pas le droit

De vivre sous un toit,

Pourquoi une moiti� ?

Quand on a le monde entier !

{au Refrain} A Fran�a deveria ser completamente insuport�vel nos anos trinta, mas fazia bom cinema e boas can��es. Vento fresco? Aqui est�: a Arletty a cantar "", Chevalier o "", Ray Ventura "" (que devia ser o hino do sindicato das empregadas dom�sticas) e Jean Murat "" do filme(1931). Tudo mais extinto que os dinossauros.

POEIRA DE 21 DE DEZEMBRO

Hoje, h� cento e cinquenta e quatro anos, Tolstoy escreveu no seu di�rio: � n�o devo ler romances �. Fez-lhe bem, conseguiu escrever alguns. Oitenta e nove anos mais tarde, tamb�m hoje, Cesare Pavese escrevia: � o amor � a forma mais barata de religi�o �. Deve haver por isso um esp�rito do dia. Tolstoy amava a �humanidade� o que significava que n�o amava ningu�m, e talvez por isso foi capaz de escrever verdadeiras hist�rias de amor como

Hoje, h� cento e cinquenta e quatro anos, Tolstoy escreveu no seu di�rio: ��. Fez-lhe bem, conseguiu escrever alguns. Oitenta e nove anos mais tarde, tamb�m hoje, Cesare Pavese escrevia: ��. Deve haver por isso um esp�rito do dia. Tolstoy amava a �humanidade� o que significava que n�o amava ningu�m, e talvez por isso foi capaz de escrever verdadeiras hist�rias de amor como esta

COISAS SIMPLES

P. Bonnard P. Bonnard

EARLY MORNING BLOGS 390

La destruction

Sans cesse � mes c�t�s s'agite le D�mon ;

Il nage autour de moi comme un air impalpable ;

Je l'avale et le sens qui br�le mon poumon

Et l'emplit d'un d�sir �ternel et coupable.

Parfois il prend, sachant mon grand amour de l'Art,

La forme de la plus s�duisante des femmes,

Et, sous de sp�cieux pr�textes de cafard,

Accoutume ma l�vre � des philtres inf�mes.

Il me conduit ainsi, loin du regard de Dieu,

Haletant et bris� de fatigue, au milieu

Des plaines de l'Ennui, profondes et d�sertes,

Et jette dans mes yeux pleins de confusion

Des v�tements souill�s, des blessures ouvertes,

Et l'appareil sanglant de la Destruction !

(Baudelaire)

*

Bom dia! Bom dia!

ANTOLOGIA DA TRAI��O: JUDAS

� 21 Tendo Jesus dito isto, turbou-se em esp�rito, e afirmou, dizendo: Na verdade, na verdade vos digo que um de v�s me h� de trair.

22 Ent�o os disc�pulos olhavam uns para os outros, duvidando de quem ele falava.

23 Ora, um de seus disc�pulos, aquele a quem Jesus amava, estava reclinado no seio de Jesus.

24 Ent�o Sim�o Pedro fez sinal a este, para que perguntasse quem era aquele de quem ele falava.

25 E, inclinando-se ele sobre o peito de Jesus, disse-lhe: Senhor, quem �?

26 Jesus respondeu: � aquele a quem eu der o bocado molhado. E, molhando o bocado, o deu a Judas Iscariotes, filho de Sim�o.

27 E, ap�s o bocado, entrou nele Satan�s. Disse, pois, Jesus: O que fazes, faze-lo depressa.

28 E nenhum dos que estavam assentados � mesa compreendeu a que prop�sito lhe dissera isto.

29 Porque, como Judas tinha a bolsa, pensavam alguns que Jesus lhe tinha dito: Compra o que nos � necess�rio para a festa; ou que desse alguma coisa aos pobres.

30 E, tendo Judas tomado o bocado, saiu logo. E era j� noite. �

Este fragmento do Evangelho de S. Jo�o � um dos grandes textos sobre a trai��o. A sequ�ncia dram�tica est� toda feita sobre a mentira, o mal-entendido, o engano. Jesus anuncia a trai��o aos ap�stolos, mas n�o diz quem o traiu. Estes ficam curiosos, mas n�o perguntam. Para eles a ideia de trai��o era t�o insuport�vel que temiam falar dela.

Fosse qual fosse o traidor, era um deles, um amigo, um companheiro. A trai��o, rompendo a identidade de um dos que comiam � mesma mesa, conspurcava tudo � volta. Quando ganham coragem para perguntar, fazem-no t�o a medo e de forma t�o amb�gua, que n�o percebem o sentido da resposta. Levantaram-se da mesa convencidos que n�o era bem aquilo que tinham ouvido.

Jesus deu o p�o a Judas, mas o p�o vinha molhado, como se o dem�nio estivesse nessa humidade. � Ap�s o bocado, entrou nele Satan�s �, porque este bocado de p�o era o contr�rio do p�o sacramental que Jesus ensinara os disc�pulos a tomar. No P�o estava Deus, no p�o molhado estava Satan�s. O p�o tamb�m era capaz de trair.

Ent�o Jesus diz palavras ainda mais enigm�ticas: � o que fazes, faze-lo depressa �. Porque � que Jesus disse isto a Judas? Porque para Jesus tamb�m era insuport�vel o espect�culo da trai��o. Se trais, trai j�, exerce j� o of�cio da trai��o, porque, mesmo para Jesus, a presen�a do traidor e a vis�o do acto da trai��o perturbam.

Quando Judas saiu, com Satan�s dentro dele, era noite. Fez-se noite.

Este fragmento do� um dos grandes textos sobre a trai��o. A sequ�ncia dram�tica est� toda feita sobre a mentira, o mal-entendido, o engano. Jesus anuncia a trai��o aos ap�stolos, mas n�o diz quem o traiu. Estes ficam curiosos, mas n�o perguntam. Para eles a ideia de trai��o era t�o insuport�vel que temiam falar dela.Fosse qual fosse o traidor, era um deles, um amigo, um companheiro. A trai��o, rompendo a identidade de um dos que comiam � mesma mesa, conspurcava tudo � volta. Quando ganham coragem para perguntar, fazem-no t�o a medo e de forma t�o amb�gua, que n�o percebem o sentido da resposta. Levantaram-se da mesa convencidos que n�o era bem aquilo que tinham ouvido.Jesus deu o p�o a Judas, mas o p�o vinha molhado, como se o dem�nio estivesse nessa humidade. ��, porque este bocado de p�o era o contr�rio do p�o sacramental que Jesus ensinara os disc�pulos a tomar. No P�o estava Deus, no p�o molhado estava Satan�s. O p�o tamb�m era capaz de trair.Ent�o Jesus diz palavras ainda mais enigm�ticas: ��. Porque � que Jesus disse isto a Judas? Porque para Jesus tamb�m era insuport�vel o espect�culo da trai��o. Se trais, trai j�, exerce j� o of�cio da trai��o, porque, mesmo para Jesus, a presen�a do traidor e a vis�o do acto da trai��o perturbam.Quando Judas saiu, com Satan�s dentro dele, era noite. Fez-se noite.

BIBLIOFILIA PARA COLECCIONADORES

O �ltimo n�mero da Granta tem um ensaio sobre "The Collector", neste caso Joseph Mitchell. Mitchell, depois de escrever Joe Goulds's Secret , pouco mais escreveu e menos publicou. Dedicava-se a andar pelos pr�dios abandonados ou em demoli��o do sul de Manhattan a recolher pregos, bocados de estuque, placas de ferro forjado, velhas tabuletas, n�meros de portas. Recolhia-os e depois classificava-os como um taxidermista. H� fotografias das pe�as e dos r�tulos. Uma forma de loucura mansa, que os coleccionadores conhecem.

*

"Acho que est� a confundir taxidermia (arte de preparar cad�veres para os conservar...) com taxinomia (arte de classificar)."

A.M.R.

*

Obrigado pela precis�o. Neste caso era intencional. Podia ser "abria-os como um taxidermista e classificava-os como um taxinomista", mas n�o sei como se abre um prego.

O �ltimo n�mero datem um ensaio sobre "The Collector", neste caso Joseph Mitchell. Mitchell, depois de escrever, pouco mais escreveu e menos publicou. Dedicava-se a andar pelos pr�dios abandonados ou em demoli��o do sul de Manhattan a recolher pregos, bocados de estuque, placas de ferro forjado, velhas tabuletas, n�meros de portas. Recolhia-os e depois classificava-os como um taxidermista. H� fotografias das pe�as e dos r�tulos. Uma forma de loucura mansa, que os coleccionadores conhecem.A.M.R.Obrigado pela precis�o. Neste caso era intencional. Podia ser "abria-os como um taxidermista e classificava-os como um taxinomista", mas n�o sei como se abre um prego.

UM MUNDO MUITO PR�PRIO

O �ndice do livro Barnab� , que antologia os textos do blogue, � um retrato muito curioso do mundo dos seus autores. Um dos mais loquazes protagonistas da pol�tica portuguesa, Francisco Lou�a, n�o tem uma entrada sequer. Nem Fernando Rosas, Lu�s Fazenda, Ana Drago, merecem uma palavra. A excep��o s�o duas escassas entradas para Miguel Portas. Assim � f�cil.

Mas h� mais: as duas pessoas mais citadas s�o George Bush e eu. Estranho mundo o deles. Onde ser�?

O �ndice do livro, que antologia os textos do blogue, � um retrato muito curioso do mundo dos seus autores. Um dos mais loquazes protagonistas da pol�tica portuguesa, Francisco Lou�a, n�o tem uma entrada sequer. Nem Fernando Rosas, Lu�s Fazenda, Ana Drago, merecem uma palavra. A excep��o s�o duas escassas entradas para Miguel Portas. Assim � f�cil.Mas h� mais: as duas pessoas mais citadas s�o George Bush e eu. Estranho mundo o deles. Onde ser�?

VENTO FRIO

vem. R�pido. vem. R�pido.

APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA: TEMOR

"Toda a santidade e toda a virtude deste mundo, bem considerada, � temor. A maior e mais qualificada fa�anha que neste mundo se fez por Deus foi a de Abra�o. Leva Abra�o seu filho Isac ao monte, ata-o sobre a lenha do sacrif�cio, tira pela espada para lhe cortar a cabe�a; manda-lhe Deus suspender o golpe, e diz estas palavras: Nunc cognovi quod times Deum (G�n. 22, 12): Agora conhe�o, Abra�o, que temes a Deus. � Que temes a Deus? Pois, como assim? Quando Abra�o por amor de Deus sacrifica seu pr�prio filho, quando Abra�o por amor de Deus corta as esperan�as de sua casa, quando Abra�o por amor de Deus mata a seu mesmo amor, parece que ent�o havia de dizer Deus: Agora, Abra�o, conheci que me amas. Mas: agora conheci que me temes? Sim, porque, bem considerada aquela fa�anha de Abra�o, e vista por dentro, como Deus a via, teve mais de temor que de amor. Bem via Abra�o que matar a Isac era matar-se a si mesmo, mas via tamb�m que se o n�o matava, desobedecia, que se desobedecia, ofendia a Deus, que se ofendia a Deus, condenava-se, e este temor de se n�o condenar o pai, foi o que p�s a espada na garganta ao filho. Quando o pai e o filho iam caminhando para o sacrif�cio, diz o texto que levava Abra�o em uma m�o a espada, e na outra o fogo: Ipse vero portabat in manibus ignem et gladium (G�n. 22,6). Oh! que bons dois espelhos para aquela ocasi�o! Na m�o da espada ia a morte do filho; na m�o do fogo ia o inferno do pai. Se obedeces, h�s de matar; se desobedeces, h�s de arder. O amor via-se ao espelho da espada, o temor via-se ao espelho do fogo. � � poss�vel, pai, que h�s de matar o teu filho �nico e amado? E que a vida e o sangue que lhe deste a h�s de derramar com tuas pr�prias m�os? N�o h� de ser assim: viva Isac, e caia rendido o bra�o da espada. Mas, se n�o morrer Isac � replicava o temor � se Isac sacrificado se n�o abrasa neste fogo, h� de ir Abra�o, por desobediente, arder no do inferno. Ou arder Abra�o, ou morrer Isac. Oh! que cruel dilema para um pai! Mas, passar a espada pela garganta de Isac, � um momento � instava o temor � e arder Abra�o no inferno, � uma eternidade: pois, pade�a um instante o filho, para que n�o pene eternamente o pai. Torne-se a levantar o bra�o da espada; e j� ia descarregando resolutamente o golpe, mas acudiu Deus. E como toda esta resolu��o de tirar Abra�o a vida a seu filho foi por temor de n�o ofender a Deus e se condenar, por isso Deus n�o disse: � Agora conheci, Abra�o, que me amas, sen�o, agora conheci que me temes: Nunc cognovi quod times Deum."

COISAS SIMPLES

Jan Bruegel Jan Bruegel

EARLY MORNING BLOGS 389

SOME TREES

These are amazing: each

Joining a neighbor, as though speech

Were a still performance.

Arranging by chance

To meet as far this morning

From the world as agreeing

With it, you and I

Are suddenly what the trees try

To tell us we are:

That their merely being there

Means something; that soon

We may touch, love, explain.

And glad not to have invented

Some comeliness, we are surrounded:

A silence already filled with noises,

A canvas on which emerges

A chorus of smiles, a winter morning.

Place in a puzzling light, and moving,

Our days put on such reticence

These accents seem their own defense.

(John Ashbery)

*

Bom dia! (John Ashbery)Bom dia!

BIBLIOFILIA

Frederico Louren�o, Amar N�o Acaba , Livros Cotovia, 2004

Leiam, leiam, leiam este livro estranho, mem�ria autobiogr�fica da adolesc�ncia, escrita a vinte anos de dist�ncia � muito pouco. Um retrato de uma fam�lia portuguesa pouco portuguesa, que deixou construir � sua volta uma teia cultural vivida nas suas formas mais �pesadas�: a �pera, a m�sica, as l�nguas, o comunitarismo pante�sta de Lanza del Vasto. Este texto � uma surpresa: n�o sabia que algu�m vivia assim entre n�s.

O relato de Frederico Louren�o � umas vezes franco, outras vezes bizarro, pela densidade cultural que parece sempre excessiva. Pode-se viver assim? Pode-se viver sempre dentro do texto dos outros? Pode-se viver sempre dentro dos gestos do bailado, das palavras dos lied , do universo total e absoluto de Wagner? Pode-se viver, amar, face a presen�as t�o intensas e t�o inequ�vocas como as da grande arte? Pode-se viver no meio da beleza transmitida pelas obras de arte sem que estas preencham todo o espa�o do sentimento? O que � que sobra? Pode-se ser feliz num universo t�o povoado de sentido? Duvido, mas tamb�m este livro n�o � sobre a felicidade, mas sim sobre o deslumbramento. Frederico Louren�o,, Livros Cotovia, 2004Leiam, leiam, leiam este livro estranho, mem�ria autobiogr�fica da adolesc�ncia, escrita a vinte anos de dist�ncia � muito pouco. Um retrato de uma fam�lia portuguesa pouco portuguesa, que deixou construir � sua volta uma teia cultural vivida nas suas formas mais �pesadas�: a �pera, a m�sica, as l�nguas, o comunitarismo pante�sta de Lanza del Vasto. Este texto � uma surpresa: n�o sabia que algu�m vivia assim entre n�s.O relato de Frederico Louren�o � umas vezes franco, outras vezes bizarro, pela densidade cultural que parece sempre excessiva. Pode-se viver assim? Pode-se viver sempre dentro do texto dos outros? Pode-se viver sempre dentro dos gestos do bailado, das palavras dos, do universo total e absoluto de Wagner? Pode-se viver, amar, face a presen�as t�o intensas e t�o inequ�vocas como as da grande arte? Pode-se viver no meio da beleza transmitida pelas obras de arte sem que estas preencham todo o espa�o do sentimento? O que � que sobra? Pode-se ser feliz num universo t�o povoado de sentido? Duvido, mas tamb�m este livro n�o � sobre a felicidade, mas sim sobre o deslumbramento.

APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA: MUNDUM IN PARVO, MAGNUM

"Os fil�sofos antigos chamaram ao homem mundo pequeno; por�m, S. Greg�rio Nazianzeno, melhor fil�sofo que todos eles, e por excel�ncia o Te�logo, disse que o mundo comparado com o homem � o pequeno, e o homem, em compara��o do mundo, o mundo grande: Mundum in parvo, magnum. � N�o � o homem um mundo pequeno que est� dentro do mundo grande, mas � um mundo, e s�o muitos mundos grandes, que est�o dentro do pequeno. Baste por prova o cora��o humano, que, sendo uma pequena parte do homem, excede na capacidade a toda a grandeza e redondeza do mundo. Pois, se nenhum homem pode ser capaz de governar toda esta maquina do mundo, que dificuldade ser� haver de governar tantos homens, cada um maior que o mesmo mundo, e mais dificultoso de temperar que todo ele? A demonstra��o � manifesta. Porque nesta m�quina do mundo, entrando tamb�m nela o c�u, as estrelas tem seu curso ordenado, que n�o pervertem jamais; o sol tem seus limites e tr�picos, fora dos quais n�o passa; o mar, com ser um monstro ind�mito, em chegando �s areias p�ra; as �rvores, onde as p�em, n�o se mudam; os peixes contentam-se com o mar, as aves com o ar, os outros animais com a terra. Pelo contr�rio, o homem, monstro ou quimera de todos os elementos, em nenhum lugar p�ra, com nenhuma fortuna se contenta, nenhuma ambi��o nem apetite o farta: tudo perturba, tudo perverte, tudo excede, tudo confunde e, como � maior que o mundo, n�o cabe nele. "

MOMENTOS

Um dirigente pol�tico que se quer afirmar sabe que nem sempre lhe passam � frente oportunidades de mostrar a diferen�a. A S�crates surgiu uma e ele deitou-a fora: deveria demarcar-se de forma inteiramente clara das manig�ncias, ali�s j� contumazes, do PS Porto, uma das organiza��es mais aparelh�sticas de qualquer partido portugu�s, de usar Pinto da Costa como trunfo eleitoral contra Rui Rio. Pinto da Costa n�o est� em posi��o diferente da do antigo deputado do PSD, Cruz Silva, e ,por ser uma personagem de maior relevo social, ainda mais rigor teria que haver. S�crates calou-se para n�o perder os votos dos Super Drag�es, ou pior ainda. Revelou-se. Um dirigente pol�tico que se quer afirmar sabe que nem sempre lhe passam � frente oportunidades de mostrar a diferen�a. A S�crates surgiu uma e ele deitou-a fora: deveria demarcar-se de forma inteiramente clara das manig�ncias, ali�s j� contumazes, do PS Porto, uma das organiza��es mais aparelh�sticas de qualquer partido portugu�s, de usar Pinto da Costa como trunfo eleitoral contra Rui Rio. Pinto da Costa n�o est� em posi��o diferente da do antigo deputado do PSD, Cruz Silva, e ,por ser uma personagem de maior relevo social, ainda mais rigor teria que haver. S�crates calou-se para n�o perder os votos dos Super Drag�es, ou pior ainda. Revelou-se.

A LER

De novo, as

Alguns textos de Luis Rainha no

Louvor � imensa utilidade dos

A p�gina do De novo, as IND�STRIAS CULTURAIS , um bom exemplo de jornalismo especializado que complementa em tempo �til (uma forma "�til" do tempo real) o que (n�o) vem nos jornais.Alguns textos de Luis Rainha no Blogue de Esquerda Louvor � imensa utilidade dos Frescos , mesmo quando n�o funcionam bem e est�o pouco frescos.A p�gina do Clube dos Jornalistas . Pesem todas as objec��es, o Clube dos Jornalistas tem realizado um trabalho de auto-reflex�o sobre o jornalismo que nunca tinha sido feito com esta amplitude e variedade.

COISAS

Andy Warhol Andy Warhol

EARLY MORNING BLOGS 388

Ici de mille fards la tra�son se d�guise

Ici de mille fards la tra�son se d�guise,

Ici mille forfaits pullulent � foison,

Ici ne se punit l'homicide ou poison,

Et la richesse ici par usure est acquise

Ici les grands maisons viennent de b�tardise,

Ici ne se croit rien sans humaine raison,

Ici la volupt� est toujours de saison,

Et d'autant plus y pla�t que moins elle est permise.

Pense le demeurant. Si est-ce toutefois

Qu'on garde encore ici quelque forme de lois,

Et n'en est point du tout la justice bannie.

Ici le grand seigneur n'ach�te l'action,

Et pour priver autrui de sa possession

N'arme son mauvais droit de force et tyrannie.

(Joachim du Bellay)

*

Bom dia! (Joachim du Bellay)Bom dia!

OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: CORES

Cores, um andar acima, outras cores, outro andar acima, novas cores. O que � que se respira nessas cores? Que atmosfera pertence a estas cores? Em Janeiro, quando descermos em Tit�, vamos respirar este ar. Cores, um andar acima, outras cores, outro andar acima, novas cores. O que � que se respira nessas cores? Que atmosfera pertence a estas cores? Em Janeiro, quando descermos em Tit�, vamos respirar este ar.

ANTOLOGIA DA TRAI��O: EFIALTES

Efialtes � nome de dem�nio e de gigante. O meu � um homem. Borges escreveu sobre o dem�nio � Siempre es la pesadilla. / Su horror no es de este mundo." Mas n�o � este o meu traidor. O pesadelo n�o trai quem n�o sonha. O traidor � outro: Efialtes, natural da Tess�lia, traiu os 300 espartanos no desfiladeiro das Term�pilas por ouro. Os 300 espartanos eram �iguais�, Efialtes era diferente. Ensinou a Xerxes um caminho que levava os persas � retaguarda da defesa grega. O traidor n�o recebeu a sua paga, porque Xerxes entretanto viu a sua frota destru�da em Salamina. Xerxes mandou chicotear o mar, mas o mar n�o tinha costas. Como muitos traidores n�o pagou o pre�o da sua trai��o, embora pagasse com a vida uma querela menor com Atenades da Tr�cia. Mas um traidor est� sempre morto antes de morrer. A trai��o � uma morte.

(A seguir: Judas) Efialtes � nome de dem�nio e de gigante. O meu � um homem. Borges escreveu sobre o dem�nio �Mas n�o � este o meu traidor. O pesadelo n�o trai quem n�o sonha. O traidor � outro: Efialtes, natural da Tess�lia, traiu os 300 espartanos no desfiladeiro das Term�pilas por ouro. Os 300 espartanos eram �iguais�, Efialtes era diferente. Ensinou a Xerxes um caminho que levava os persas � retaguarda da defesa grega. O traidor n�o recebeu a sua paga, porque Xerxes entretanto viu a sua frota destru�da em Salamina. Xerxes mandou chicotear o mar, mas o mar n�o tinha costas. Como muitos traidores n�o pagou o pre�o da sua trai��o, embora pagasse com a vida uma querela menor com Atenades da Tr�cia. Mas um traidor est� sempre morto antes de morrer. A trai��o � uma morte.(A seguir: Judas)

UM RETRATO DO PODER: GOZO, PREOCUPA��O, AMBI��O

Esta fotografia de Ant�nio Pedro Ferreira, publicada no Expresso da semana passada, � o melhor retrato do poder que temos. Tudo est� certo, tudo bate certo. Escrevo sobre ela, considerando-a a melhor foto da semana, na S�bado .

Esta fotografia de Ant�nio Pedro Ferreira, publicada noda semana passada, � o melhor retrato do poder que temos. Tudo est� certo, tudo bate certo. Escrevo sobre ela, considerando-a a melhor foto da semana, na

APRENDENDO COM EMILY DICKINSON SOBRE A TRAI��O

Sweet is the swamp with its secrets

Sweet is the swamp with its secrets,

Until we meet a snake;

'Tis then we sigh for houses,

And our departure take

At that enthralling gallop

That only childhood knows.

A snake is summer's treason,

And guile is where it goes.

(Emily Dickinson) (Emily Dickinson)

APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA SOBRE O P�

"Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que n�o � necess�rio entendimento para crer: outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcan�ar. Uma � presente, outra futura, mas a futura v�em-na os olhos, a presente n�o a alcan�a o entendimento. E que duas coisas enigm�ticas s�o estas? Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois p�, e em p� vos haveis de converter. - Sois p�, � a presente; em p� vos haveis de converter, � a futura. O p� futuro, o p� em que nos havemos de converter, v�em-no os olhos; o p� presente, o p� que somos, nem os olhos o v�em, nem o entendimento o alcan�a. Que me diga a Igreja que hei de ser p�: In pulverem reverteris, n�o � necess�rio f� nem entendimento para o crer. Naquelas sepulturas, ou abertas ou cerradas, o est�o vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem p�, as pedras cobrem p�, e tudo o que ali h� � o nada que havemos de ser: tudo p�.

Vamos, para maior exemplo e maior horror, a �sses sepulcros recentes do Vaticano. Se perguntardes de quem s�o p� aquelas cinzas, responder-vos-�o os epit�fios, que s� as distinguem: Aqu�le p� foi Urbano, aqu�le p� foi Inoc�ncio, aqu�le p� foi Alexandre, e �ste que ainda n�o est� de todo desfeito, foi Clemente. De sorte que para eu crer que hei de ser p�, n�o � necess�rio f�, nem entendimento, basta a vista. Mas que me diga e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da f� e da verdade, que n�o s� hei de ser p� de futuro, sen�o que j� sou p� de presente: Pulvis es? Como o pode alcan�ar o entendimento, se os olhos est�o vendo o contr�rio? � poss�vel que �stes olhos que v�em, �stes ouvidos que ouvem, esta l�ngua que fala, estas m�os e �stes bra�os que se movem, �stes p�s que andam e pisam, tudo isto, j� hoje � p�: Pulvis es? Argumento � Igreja com a mesma Igreja: Memento homo. A Igreja diz-me, e sup�e que sou homem: logo n�o sou p�. O homem � uma subst�ncia vivente, sentitiva, racional. O p� vive? N�o. Pois como � p� o vivente? O p� sente? N�o. Pois como � p� o sensitivo? O p� entende e discorre? N�o. Pois como � p� o racional? Enfim, se me concedem que sou homem: Memento homo, como me pregam que sou p�: Quia pulvis es? Nenhuma coisa nos podia estar melhor que n�o ter resposta nem solu��o esta d�vida. Mas a resposta e a solu��o dela ser� a mat�ria do nosso discurso. Para que eu acerte a declarar esta dificultosa verdade, e todos n�s saibamos aproveitar d�ste t�o importante desengano, pe�amos �quela Senhora, que s� foi exce��o d�ste p�, se digne de nos alcan�ar gra�a. Ave Maria. "

OUVINDO

Furac�es pela manh�. N�o est� mal. Dias de Ver�o no Inverno. N�o est� mal. Furac�es pela manh�. N�o est� mal. Dias de Ver�o no Inverno. N�o est� mal.

COISAS SIMPLES

Andy Warhol Andy Warhol

EARLY MORNING BLOGS 387

Mutability

We are as clouds that veil the midnight moon;

How restlessly they speed, and gleam, and quiver,

Streaking the darkness radiantly! -yet soon

Night closes round, and they are lost for ever:

Or like forgotten lyres, whose dissonant strings

Give various response to each varying blast,

To whose frail frame no second motion brings

One mood or modulation like the last.

We rest. -- A dream has power to poison sleep;

We rise. -- One wandering thought pollutes the day;

We feel, conceive or reason, laugh or weep;

Embrace fond woe, or cast our cares away:

It is the same! -- For, be it joy or sorrow,

The path of its departure still is free:

Man's yesterday may ne'er be like his morrow;

Nought may endure but Mutablilty.

(Percy Bysshe Shelley)

*

Bom dia!

(Percy Bysshe Shelley)Bom dia!

A LER / A VER

No s Not�cias que Nunca Saem na Primeira P�gina . Est� longe de ser caso �nico.

sobre Orlando Ribeiro. No Jaquinzinhos . Est� longe de ser caso �nico. P�ginas sobre Orlando Ribeiro.

OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: P�ROLAS

Dione passa em frente de Saturno como uma p�rola intoc�vel, intang�vel. " Noli me tangere " diz, numa l�ngua antiga. "� para mim que olhas, e n�o para a vastid�o que est� atr�s de mim". Dione passa em frente de Saturno como uma p�rola intoc�vel, intang�vel. "" diz, numa l�ngua antiga. "� para mim que olhas, e n�o para a vastid�o que est� atr�s de mim".

AR PURO

Levitan Levitan

EARLY MORNING BLOGS 386

Delight in Disorder

A sweet disorder in the dress

Kindles in clothes a wantonness.

A lawn about the shoulders thrown

Into a fair distraction;

An erring lace which here and there

Enthralls the crimson stomacher;

A cuff neglectful, and thereby

Ribbons to flow confusedly;

A winning wave, deserving note,

In the tempestuous petticoat;

A careless shoestring, in whose tie

I see a wild civility;

Do more bewitch me than when art

Is too precise in every part.

(Robert Herrick)

*

Bom dia! (Robert Herrick)Bom dia!

O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: GRAFIA DO POEMA DE ROSALIA DE CASTRO

Por que n�o fazer com os poemas de Ros�lia o que habitualmente se faz com os cl�ssicos portugueses, a come�ar por Cam�es? Isto �: "actualizar" a grafia... Por exemplo, (escrevo em MAI�SCULO a "actualiza��o") de autoria do Prof. Dr. Ant�nio Gil Hernandez, (...) que � um dos mais l�cidos intelectuais da lusofonia na Galiza que j� conheci. Essa actualiza��o de grafia foi publicada no grupo "Galiza", no yahoo

- CantaM os galos p'ra o dIa

Ergue-te, meu beM, e vai-te.

COmo me hei-de ir,

cOmo me hei-de ir e deixar-te?

- DeSes teus olHiNHos negros

como doas relumbrantes,

AT� �s noSsas m�Os unidas

as b�goas ardentes caeM.

COmo me hei-de ir

sE c'a l�ngua me desVotas

e c'o cora��O me atraIs?

NuM corruncho do teu leito

cariNHosa me abrigaSTE;

c'o teu manso caloriNHo

os frIos p�s me quentaste;

e de aquI Juntos miramos

por Entre o verde ramaGeM

QUAl �a correndo a lUa

por enriba dos pinHares.

COmo queres que te deixe?

COmo, que de ti me aparte

sE mAis que O mel �S

e mAis que as fLoRes sUave?

- MeiguiNH, meiguiNHo, meigo,

meigo que me namoraste,

vai-te de onda miM, meiguiNHo,

antes que o sol se levante.

- Ainda dorme, queridiNHa,

Entre as ondiNHas do mare;

dorme porque me acariNHes

e porque amante me chames,

que S� onda ti, meniNHa,

poSSo contento folgare.

- J� cantaM os paSSariNHos.

Ergue-te, meu beM, que � tarde.

- Deixa que canteM, Marica;

Marica, deixa que canteM...

SE tU sEntes que me v�,

eu relouco por quedar-me.

- Comigo, meu queridiNHo,

mitAD' da noite pasSaSTE.

- Mais eM tanto tU dormIas,

contentEi-me coM mirar-te,

que aSSIM, sorrindo entre soNHos

cUidaVa que eras uM �nGel',

e n�O coM tanta pureza

AO p� duM �nGel' velaSse.

- ASSIM te quero, meu beM,

como uM santo dos altares;

mas fuGe..., que o sol dourado

por riba dos montes saie.

- IrEi; mas d�-me uM biquiNHo

antes que de ti me aparte,

que eSses labiNHos de rosa

inda n�O sei cOmo sabeM.

- CoM mil amores cho dera;

mas teNHo que confeSsar-me,

e mUita vergonHa fora

ter uM pecado t�O grande.

- Pois confEsSa-te, Marica,

que, QUando casar nos casen,

n�O che h�O-de valer, meniNHa,

nEM confesSores nEM frades.

AdEUs, cariNHa de rosa!

- Raparigo, DEUs te gUarde!

...

Houve tantas mudan�as?

(Pedro Santos) (Pedro Santos)

BIBLIOFILIA

Esta foi a minha primeira edi��o do Capital e estava na biblioteca familiar no "Inferno", no arm�rio dos livros proibidos. Antes do 25 de Abril era um livro perigoso. A edi��o n�o era a da obra completa, mas sim a antologia de Lafargue, e fazia parte de uma colec��o francesa "Petite Biblioth�que �conomique" editada na d�cada de noventa do s�culo XIX. O Pref�cio era de Vilfredo Pareto. Tem os meus sublinhados a l�pis muito leve porque n�o se estragava um livro antigo. Um marcador de p�gina, perdido l� dentro, � um quarto de papel dos boletins de voto da Oposi��o do Porto de 1969, rasgado em quatro e que me servia de ficha. Quando acabou o per�odo eleitoral permitido, e antes de fecharem as instala��es do Oposi��o, numa garagem junto do Mercado do Bom Sucesso, fui l� e trouxe alguns milhares de votos sobrantes - era a oposi��o que imprimia os seus pr�prios votos - para servirem de papel e fichas. Esta foi a minha primeira edi��o doe estava na biblioteca familiar no "Inferno", no arm�rio dos livros proibidos. Antes do 25 de Abril era um livro perigoso. A edi��o n�o era a da obra completa, mas sim a antologia de Lafargue, e fazia parte de uma colec��o francesa "Petite Biblioth�que �conomique" editada na d�cada de noventa do s�culo XIX. O Pref�cio era de Vilfredo Pareto. Tem os meus sublinhados a l�pis muito leve porque n�o se estragava um livro antigo. Um marcador de p�gina, perdido l� dentro, � um quarto de papel dos boletins de voto da Oposi��o do Porto de 1969, rasgado em quatro e que me servia de ficha. Quando acabou o per�odo eleitoral permitido, e antes de fecharem as instala��es do Oposi��o, numa garagem junto do Mercado do Bom Sucesso, fui l� e trouxe alguns milhares de votos sobrantes - era a oposi��o que imprimia os seus pr�prios votos - para servirem de papel e fichas.

DR. PORTAS, LEITOR DO ABRUPTO

Um aspecto, que tem sido bastante silenciado da quest�o da coliga��o, para o qual o Abrupto chamou a aten��o � que, concorrendo os dois partidos separados, e n�o havendo uma maioria absoluta de parlamentares dos dois, h� que garantir que o PSD seja o partido mais votado para que o �esquema� de casamento ex post facto da coliga��o tenha viabilidade pol�tica � suscitou o coment�rio do dr. Portas. O dr. Portas claramente n�o acredita que o PSD seja o partido mais votado, sen�o n�o falava disto. Face � probabilidade, em que acredita, que o PS possa ser o partido mais votado, resolveu teorizar uma situa��o em que a coliga��o deva ter prioridade na escolha presidencial para formar governo ap�s as elei��es.

� um argumento de mera propaganda, porque n�o � l�quido que o PS , partido mais votado, n�o possa dar origem a um governo minorit�rio, como os de Guterres que duraram legislatura e meia, que subsista com os votos da esquerda parlamentar, nem que consiga a posteriori qualquer coliga��o com o BE ou o PCP, o que o coloca nos mesmos termos da coliga��o PSD-PP. Acresce que seria interessante ver, o que � poss�vel, a coliga��o a governar com o PS, o partido mais votado, afastado do poder. Tal � poss�vel formalmente, mas criaria um problema de legitimidade pol�tica gerador de instabilidade.

Tudo isto s�o problemas mais que conhecidos, gerados pelo elevado limiar eleitoral necess�rio para se obterem solu��es est�veis de governabilidade. Mas a verdade � que todos se queixam e ningu�m quer alterar a lei eleitoral. Houve v�rias tentativas durante as maiorias de Cavaco para baixar o n�vel de governabilidade solit�ria para cerca de 38% dos votos, mas o PS, raciocinando a curt�ssimo prazo, recusou-o, gerando este problema que era evidente acabaria por lhe bater � porta. Um aspecto, que tem sido bastante silenciado da quest�o da coliga��o, para o qual o Abrupto chamou a aten��o � que, concorrendo os dois partidos separados, e n�o havendo uma maioria absoluta de parlamentares dos dois, h� que garantir que o PSD seja o partido mais votado para que o �esquema� de casamentoda coliga��o tenha viabilidade pol�tica � suscitou o coment�rio do dr. Portas. O dr. Portas claramente n�o acredita que o PSD seja o partido mais votado, sen�o n�o falava disto. Face � probabilidade, em que acredita, que o PS possa ser o partido mais votado, resolveu teorizar uma situa��o em que a coliga��o deva ter prioridade na escolha presidencial para formar governo ap�s as elei��es.� um argumento de mera propaganda, porque n�o � l�quido que o PS , partido mais votado, n�o possa dar origem a um governo minorit�rio, como os de Guterres que duraram legislatura e meia, que subsista com os votos da esquerda parlamentar, nem que consiga a posteriori qualquer coliga��o com o BE ou o PCP, o que o coloca nos mesmos termos da coliga��o PSD-PP. Acresce que seria interessante ver, o que � poss�vel, a coliga��o a governar com o PS, o partido mais votado, afastado do poder. Tal � poss�vel formalmente, mas criaria um problema de legitimidade pol�tica gerador de instabilidade.Tudo isto s�o problemas mais que conhecidos, gerados pelo elevado limiar eleitoral necess�rio para se obterem solu��es est�veis de governabilidade. Mas a verdade � que todos se queixam e ningu�m quer alterar a lei eleitoral. Houve v�rias tentativas durante as maiorias de Cavaco para baixar o n�vel de governabilidade solit�ria para cerca de 38% dos votos, mas o PS, raciocinando a curt�ssimo prazo, recusou-o, gerando este problema que era evidente acabaria por lhe bater � porta.

ATIRADOR FURTIVO

diz o dr. Portas que eu sou. Infelizmente os exemplos que citou, incluindo o meu, s�o de atiradores de primeira linha, bem pouco furtivos. Furtivas s�o as "fontes an�nimas", furtivos s�o os que "passam" not�cias para os jornais, furtivos s�o os que, apoiados em aparelhos de imprensa pagos pelo Estado, os usam para promover e despromover quem lhes conv�m. Esta � uma especialidade que ele conhece bem, como produtor e receptador, n�o � a minha.

Dito isto, bem pobre � a acusa��o a quatro homens, s� com o poder da palavra, da opini�o e do argumento, para os culpar de t�o grandes coisas: a queda de um governo e uma maioria e o fim de uma coliga��o que tinha jurado existir at� 2014.

diz o dr. Portas que eu sou. Infelizmente os exemplos que citou, incluindo o meu, s�o de atiradores de primeira linha, bem pouco furtivos. Furtivas s�o as "fontes an�nimas", furtivos s�o os que "passam" not�cias para os jornais, furtivos s�o os que, apoiados em aparelhos de imprensa pagos pelo Estado, os usam para promover e despromover quem lhes conv�m. Esta � uma especialidade que ele conhece bem, como produtor e receptador, n�o � a minha.Dito isto, bem pobre � a acusa��o a quatro homens, s� com o poder da palavra, da opini�o e do argumento, para os culpar de t�o grandes coisas: a queda de um governo e uma maioria e o fim de uma coliga��o que tinha jurado existir at� 2014.

COISAS SIMPLES

Edmund C. Tarbell Edmund C. Tarbell

O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DE VERG�LIO FERREIRA A THOMAS HARDY

Nature's Questioning

WHEN I look forth at dawning, pool,

Field, flock, and lonely tree,

All seem to look at me

Like chastened children sitting silent in a school;

Their faces dulled, constrained, and worn,

As though the master's ways

Through the long teaching days

Their first terrestrial zest had chilled and overborne.

And on them stirs, in lippings mere

(As if once clear in call,

But now scarce breathed at all)--

"We wonder, ever wonder, why we find us here!

"Has some Vast Imbecility,

Mighty to build and blend,

But impotent to tend,

Framed us in jest, and left us now to hazardry?

"Or come we of an Automaton

Unconscious of our pains?...

Or are we live remains

Of Godhead dying downwards, brain and eye now gone?

"Or is it that some high Plan betides,

As yet not understood,

Of Evil stormed by Good,

We the Forlorn Hope over which Achievement strides?"

Thus things around. No answerer I....

Meanwhile the winds, and rains,

And Earth's old glooms and pains

Are still the same, and gladdest Life Death neighbors nigh.

(Thomas Hardy)

(Filipe V. Castro lembra este poema a prop�sito do texto de Verg�lio Ferreira publicado no Abrupto)

(Thomas Hardy)(Filipe V. Castro lembra este poema a prop�sito do texto de Verg�lio Ferreira publicado no Abrupto)

O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: POPULISMO E CONTE�DOS L�GICO-LINGU�STICOS

"(...) as declara��es de Paulo Portas sobre a apresenta��o dos dois partidos em listas separadas. Dizia mais ou menos isto: sempre tinha sido a favor da bipolariza��o, isto � dois p�los, um do centro (!) para a direita, outro da esquerda, mas contra o bipartidismo (sic), ou seja, sempre defendeu liberdade de escolha dos eleitores em cada p�lo. � �bvio que a segunda asser��o representa o oposto da primeira: com fragmenta��o partid�ria dentro dos p�los n�o h� bipolariza��o. Mas parece que n�o importa: o populismo rompe com as barreiras da linguagem e da l�gica. Nada mais interessa que o articulado formal das palavras, desde que soe bem. Vale tudo."

(Fazenda Martins)

(Fazenda Martins)

O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O FUTURO J� N�O � O QUE ERA

(Enviado por Von)

Como (Enviado por Von)Como a foto n�o � verdadeira , o passado j� n�o � o que era.

TAMB�M J� TE APANHEI, � VAGABUNDO

Ontem, l� estava, com uma ainda quase inexistente cabeleira, no s�tio devido. Que aug�rio nos trazes, vagabundo? Ontem, l� estava, com uma ainda quase inexistente cabeleira, no s�tio devido. Que aug�rio nos trazes, vagabundo?

EARLY MORNING BLOGS 385

�pitaphe d'un paresseux

Jean s'en alla comme il �tait venu,

Mangea le fonds avec le revenu,

Tint les tr�sors chose peu n�cessaire.

Quant � son temps, bien le sut dispenser :

Deux parts en fit, dont il soulait passer

L'une � dormir et l'autre � ne rien faire.

(La Fontaine)

*

Bom dia!

(La Fontaine)Bom dia!

AR PURO

Levitan Levitan

LEMBRANDO

o que escrevi a 3 de Dezembro:

J� SE PERCEBEU

como uma parte da campanha de Santana Lopes ser� feita: o governo caiu porque os grandes interesses econ�micos n�o queriam o OE, as suas medidas de combate � fraude fiscal, e de imposi��o de impostos � banca. � h�bil, apela ao populismo, e aos amadores das teorias da conspira��o, mas n�o � verdade. o que escrevi a 3 de Dezembro:como uma parte da campanha de Santana Lopes ser� feita: o governo caiu porque os grandes interesses econ�micos n�o queriam o OE, as suas medidas de combate � fraude fiscal, e de imposi��o de impostos � banca. � h�bil, apela ao populismo, e aos amadores das teorias da conspira��o, mas n�o � verdade.

A CRISE DO SENTIDO DA AUDI��O

Dois debates entre parlamentares na SIC Not�cias e na RTP2: o grau zero do debate e uma completa incapacidade de ouvir, com destaque para uns jovens parlamentares do PP que falam, falam, falam, sem pararem um minuto para ouvir quanto mais para pensar.(J� n�o falo do cinzentismo do PS, cada vez mais habitual, como se tentassem esconder-se na paisagem ...) Dois debates entre parlamentares na SIC Not�cias e na RTP2: o grau zero do debate e uma completa incapacidade de ouvir, com destaque para uns jovens parlamentares do PP que falam, falam, falam, sem pararem um minuto para ouvir quanto mais para pensar.(J� n�o falo do cinzentismo do PS, cada vez mais habitual, como se tentassem esconder-se na paisagem ...)

A LER

Esta Di�rio Econ�mico .

Acrescento: algu�m ouviu a primeira pergunta que foi feita ao mesmo ministro, no Telejornal das 13 horas de hoje, sobre o novo Media Parque a criar no Monte da Virgem? Qualquer coisa do g�nero, dito logo � cabe�a pelo jornalista, "h� um ano o Monte da Virgem era a imagem perfeita da desola��o e agora � o que se v� (ainda n�o se v�...mas n�o tem import�ncia), como � que foi poss�vel?". A seguir, o ministro brilha. Estava tudo dito na pergunta. Dizer tudo na pergunta � extremamente eficaz.

Outro acrescento: espero que uma atitude de den�ncia resoluta deste tipo de promiscuidades continue caso o PS ganhe as elei��es. Poucas vezes me lembra de ter visto uma maior circula��o de "influ�ncias" entre o governo e as redac��es do que nos governos Guterres, tanto mais eficaz quanto n�o denunciada. Se o caminho dos dias de hoje de aten��o cr�tica n�o � apenas um epifen�meno suscitado pelas in�pcias actuais, (a que n�o � alheia a composi��o pol�tica da �classe�) pode-se melhorar o ar que se respira na comunica��o social .

Esta precis�o do Clube dos Jornalistas sobre as circunst�ncias em que foi feita a entrevista de Morais Sarmento aoAcrescento: algu�m ouviu a primeira pergunta que foi feita ao mesmo ministro, no Telejornal das 13 horas de hoje, sobre o novo Media Parque a criar no Monte da Virgem? Qualquer coisa do g�nero, dito logo � cabe�a pelo jornalista, "h� um ano o Monte da Virgem era a imagem perfeita da desola��o e agora � o que se v� (ainda n�o se v�...mas n�o tem import�ncia), como � que foi poss�vel?". A seguir, o ministro brilha. Estava tudo dito na pergunta. Dizer tudo na pergunta � extremamente eficaz.Outro acrescento: espero que uma atitude de den�ncia resoluta deste tipo de promiscuidades continue caso o PS ganhe as elei��es. Poucas vezes me lembra de ter visto uma maior circula��o de "influ�ncias" entre o governo e as redac��es do que nos governos Guterres, tanto mais eficaz quanto n�o denunciada. Se o caminho dos dias de hoje de aten��o cr�tica n�o � apenas um epifen�meno suscitado pelas in�pcias actuais, (a que n�o � alheia a composi��o pol�tica da �classe�) pode-se melhorar o ar que se respira na comunica��o social .

O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: MEM�RIA DE VERG�LIO FERREIRA

" ...N�s n�o pensamos o tempo em que n�o havia tempo por n�o haver homens que o instaurassem, pela ideia oculta e impens�vel de n�o haver um Universo que se n�o orientasse para a exist�ncia humana. E todavia sabemos que o acaso governou essa orienta��o. N�s n�o conseguimos pensar esse Universo para antes de haver homens e ser impens�vel que se pensasse a quest�o do seu sentido. Mas n�o abdicamos por isso de lho querer encontrar, agora que o homem existe para a tudo questionar. Assim � dificilmente pens�vel o Mundo para l� da esp�cie que � a nossa e se alinha entre as m�ltiplas esp�cies que se v�o extinguindo. Mas � s� pensando como disse, o vazio do Universo sem ningu�m que o consciencialize, que o problema do sentido se pode p�r. N�o h� sentido nenhum, h� s� a obtusidade de tudo estar a�. � preciso repeti-lo,

Mas como � amir�vel pensar que num instante fugitivo dos bili�es e bili�es de anos estelares, uma esp�cie apareceu e gritou � solid�o dos espa�os a sua vinda no que lhe foi dado criar, para imediatamente o Universo inteiro recair na estupidez do seu sil�ncio eterno. Perante quem ou qu� isto tem significado? Porque o n�o tem perante nada. Foi um grito de louco no seu infinitesimal instante de loucura. Esp�cies que findam, estrelas que se apagam, vazio inerte pela exterioridade do sem-fim. Mas houve um momento em que tudo isso existiu s� por haver a mente humana que a fez existir...."

Verg�lio Ferreira, Conta-Corrente , nova s�rie, IV (Enviado por Ant�nio Ferreirinho)

Verg�lio Ferreira,, nova s�rie, IV (Enviado por Ant�nio Ferreirinho)

OS NOVOS DESCOBRIMENTOS:THALASSA! THALASSA!

Xenofonte estava atr�s e ouviu os gritos. Bom militar, pensou que mais uma vez tinha inimigos pela frente num terreno hostil. A retaguarda come�ou a correr na direc��o dos gritos. Mais gritos. Xenofonte montou a cavalo pensando que �alguma coisa de extraordin�rio tinha acontecido� e, � frente da cavalaria, correu a socorrer os seus homens. Ent�o viu e percebeu. Ouviu: "Thalassa! Thalassa!�. O mar. Havia �gua a perder de vista. O mar. Os gregos encontravam o mar que tinham de h� muito perdido. A sua casa. Voltavam.

Mais provas de que houve �gua em Marte. Houve mar.

Xenofonte estava atr�s e ouviu os gritos. Bom militar, pensou que mais uma vez tinha inimigos pela frente num terreno hostil. A retaguarda come�ou a correr na direc��o dos gritos. Mais gritos. Xenofonte montou a cavalo pensando que �alguma coisa de extraordin�rio tinha acontecido� e, � frente da cavalaria, correu a socorrer os seus homens. Ent�o viu e percebeu. Ouviu: "Thalassa! Thalassa!�. O mar. Havia �gua a perder de vista. O mar. Os gregos encontravam o mar que tinham de h� muito perdido. A sua casa. Voltavam.Mais provas de que houve �gua em Marte. Houve mar.

INCONFID�NCIAS

Ponho a nu, salvo seja, o meu computador: o sistema � o Windows XP Professional, os programas b�sicos s�o os da Microsoft Office, mas verdadeiramente usados s� Word, o Access, o Outlook. O browser � o Mozilla Firefox j� na vers�o 1.0. Depois h� o Scansoft Paperport 9.0, um programa para mim indispens�vel e merecedor de todos os elogios, e que uso desde pelo menos a vers�o 5.0. Para al�m disso, uso o Copernic Desktop Search, (e o Copernic Agent Professional,) tendo experimentado o X1 e o Google Desktop, sem nenhum me satisfazer tanto como o Lotus Magellan num passado long�nquo. Uso extensivamente o Access, cada vez mais preocupado com o limite das bases de dados de 2 GB, sem total satisfa��o. J� experimentei o AskSam, com interesse para as suas vantagens, embora o tenha abandonado pelo Access. De novo, vem-me � mem�ria algumas funcionalidades do Lotus Agenda nunca conseguidas de forma simples no Access, embora suspeite que se conhecesse melhor a programa��o pudesse constru�-las no Access. Depois, o tradicional Norton System Works, e blindagem diversa contra a intrus�o e a malvadez.

Parafraseando, para que o computador n�o se tome a s�rio, � suposto que o computador esteja defendido de tudo , menos de mim pr�prio. Ponho a nu, salvo seja, o meu computador: o sistema � o Windows XP Professional, os programas b�sicos s�o os da Microsoft Office, mas verdadeiramente usados s� Word, o Access, o Outlook. O� o Mozilla Firefox j� na vers�o 1.0. Depois h� o Scansoft Paperport 9.0, um programa para mim indispens�vel e merecedor de todos os elogios, e que uso desde pelo menos a vers�o 5.0. Para al�m disso, uso o Copernic Desktop Search, (e o Copernic Agent Professional,) tendo experimentado o X1 e o Google Desktop, sem nenhum me satisfazer tanto como o Lotus Magellan num passado long�nquo. Uso extensivamente o Access, cada vez mais preocupado com o limite das bases de dados de 2 GB, sem total satisfa��o. J� experimentei o AskSam, com interesse para as suas vantagens, embora o tenha abandonado pelo Access. De novo, vem-me � mem�ria algumas funcionalidades do Lotus Agenda nunca conseguidas de forma simples no Access, embora suspeite que se conhecesse melhor a programa��o pudesse constru�-las no Access. Depois, o tradicional Norton System Works, e blindagem diversa contra a intrus�o e a malvadez.Parafraseando, para que o computador n�o se tome a s�rio, � suposto que o computador esteja defendido de tudo , menos de mim pr�prio.

COISAS SIMPLES

Roy Lichtenstein Roy Lichtenstein

EARLY MORNING BLOGS 384

Under Saturn

Do not because this day I have grown saturnine

Imagine that lost love, inseparable from my thought

Because I have no other youth, can make me pine;

For how should I forget the wisdom that you brought,

The comfort that you made? Although my wits have gone

On a fantastic ride, my horse's flanks are spurred

By childish memories of an old cross Pollexfen,

And of a Middleton, whose name you never heard,

And of a red-haired Yeats whose looks, although he died

Before my time, seem like a vivid memory.

You heard that labouring man who had served my people. He said

Upon the open road, near to the Sligo quay -

No, no, not said, but cried it out - 'You have come again,

And surely after twenty years it was time to come.'

I am thinking of a child's vow sworn in vain

Never to leave that valley his fathers called their home.

(William Butler Yeats)

*

Bom dia!

(William Butler Yeats)Bom dia!

APRENDENDO COM O PADRE ANT�NIO VIEIRA: O DESENHO ALT�SSIMO E A F�BRICA SEGUR�SSIMA

"A ordem hier�rquica da provid�ncia divina, no governo de suas criaturas, � governar superiores e s�bditos, mas os s�bditos por meio dos superiores, e os superiores imediatamente por si mesmo. Uma e outra coisa temos nas chaves e nas cadeias de Pedro. Em todo o mundo crist�o n�o h� mais que um superior e um s�bdito, um Pedro e uma Igreja; e este superior e este s�bdito, este Pedro e esta Igreja, quem os governa? A Igreja governa-a a provid�ncia de Pedro, que tem o poder das chaves: Tibi dabo claves regni caelorum; a Pedro governa-o a provid�ncia de Cristo, que o livrou das cadeias de Herodes: Ceciderunt catenae de manibus ejus. Este � o desenho alt�ssimo, e esta a f�brica segur�ssima da suprema provid�ncia. A Igreja segura na provid�ncia de Pedro, e Pedro seguro na provid�ncia de Cristo.

Caso foi verdadeiramente admir�vel, e por isso notado e advertido pelo mesmo historiador sagrado, que cercado S. Pedro de guardas, e atado a duas cadeias, na mesma noite daquele dia em que havia de sair a morrer, como homem sem nenhum temor nem cuidado, estivesse dormindo: In ipsa nocte erat Petrus dormiens. E se passarmos da terra ao mar, n�o � caso menos digno de admira��o que, correndo fortuna a barca de Pedro com uma terr�vel tempestade, Cristo, que ia na mesma barca, tamb�m estivesse dormindo: Ipse vero dormiebat. Cristo e o Vig�rio de Cristo, ambos dormindo? Cristo dormindo no meio da tempestade, e Pedro dormindo no meio das guardas e das cadeias, e ambos com a morte � vista, sem nenhum cuidado? Sim. Na tempestade dorme Cristo, porque a barca est� segura na provid�ncia de Pedro; e nas cadeias dorme Pedro, porque Pedro est� seguro na provid�ncia de Cristo. Debaixo da provid�ncia de Cristo dorme Pedro ao som das cadeias, e debaixo da provid�ncia de Pedro dorme Cristo ao som da tempestade e das ondas. "

POEIRA DE 13 DE DEZEMBRO

Hoje, h� cento e quarenta e nove anos, Thoreau preparava-se para o Inverno. � Agrad�vel �, escreveu, � estar preparado �, ter lenha, batatas, ma��s, na cave. Esperar que a neve descesse e cobrisse a terra de branco. Esperar que os flocos de neve se � entretecessem como uma teia no ar �, esperar por esse mundo de sil�ncio e paz. Esperar, fun��o do Inverno.

*

"A prop�sito do sil�ncio e paz invernais, que vieram por sua vez a prop�sito do Thoreau, lembrei-me dos sil�ncios do Livro das Melancolias do Paulo Mantegazza, resgatado do s�t�o de casa dos meus pais (...)

� Mais que os sil�ncios do homem, eu amo, por�m, os da natureza. Nos bosques de abetos da Noruega, eu bebi os sil�ncios daquela fria e casta natureza nos longos dias que duram meses. Nenhuma ave cantava, nenhum insecto estridulava, nenhuma fera rugia, e at� os meus passos sobre a macia e profunda almofada de brancos l�quenes n�o faziam rumor. Naqueles lugares, o sil�ncio dormia eternamente o seu sono, e eu julgar-me-ia morto, se n�o tivesse tido os olhos abertos para ver, para saborear toda aquela paz tranquila duma vida verde, que vivia sem fazer rumor. "

(R.M.) Hoje, h� cento e quarenta e nove anos, Thoreau preparava-se para o Inverno. ��, escreveu, ��, ter lenha, batatas, ma��s, na cave. Esperar que a neve descesse e cobrisse a terra de branco. Esperar que os flocos de neve se ��, esperar por esse mundo de sil�ncio e paz. Esperar, fun��o do Inverno.(R.M.)

COISAS SIMPLES

Hans Thoma Hans Thoma

APRENDER COM ROSALIA SOBRE OS RAPARIGOS

- Cantan os galos pra o d�a

�rguete, meu ben, e vaite.

- �C�mo me hei de ir,

c�mo me hei de ir e deixarte?

- Deses teus olli�os negros

como doas relumbrantes,

hastra as nosas maus unidas

as b�goas ardentes caen.

�C�mo me hei de ir

si ca lengua me desbotas

e co coras�n me atraes?

Nun corruncho do teu leito

cari�osa me abrigaches;

co teu manso calori�o

os fr�os pes me quentastes;

e de aqu� xuntos miramos

por antre o verde ramaxe

c�l iba correndo a l�a

por enriba dos pinares.

�C�mo queres que te deixe?

�C�mo, que de ti me aparte

si m�is que a mel eres

e m�is que as froles soave?

- Meigui�o, meigui�o, meigo,

meigo que me namoraste,

vaite de onda min, meigui�o,

antes que o sol se levante.

- Ainda dorme, queridi�a,

antre as ondi�as do mare;

dorme porque me acari�es

e porque amante me chames,

que s�lo onda ti, meni�a,

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