Quando a América quiser ligar para a Europa

22-11-2010
marcar artigo

A União Europeia tem finalmente uma resposta para o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger, que, nos anos 70, perguntou: "Quando quiser falar com a Europa, a quem devo ligar?" Hoje, telefonar para a Europa tem o custo de uma chamada local. "Se alguém aqui em Washington quiser saber qual é a posição da União Europeia sobre um determinado assunto, neste indicativo telefónico, liga para mim", diz o português João Vale de Almeida, que desde Julho é o novo embaixador da UE em Washington. "É mais fácil ligar para mim do que ligar para 27."

Há uma novidade significativa no cargo: Vale de Almeida é o primeiro embaixador da UE nos Estados Unidos desde a entrada em vigor do Tratado de Lisboa, em Dezembro do ano passado, o que significa que tem "mandato bastante mais vasto" do que os seus antecessores. Desde logo, ele não representa apenas a Comissão Europeia, mas o conjunto da UE. "Cabe-me a mim e não, como antes, à presidência rotativa, a coordenação das actividades da UE em Washington."

Foi Vale de Almeida que negociou directamente com a Casa Branca o agendamento da cimeira UE-EUA em Lisboa, depois do incidente diplomático que levou ao cancelamento de uma cimeira semelhante em Maio, em Madrid. O Presidente americano declinou o convite de Zapatero. Isso e o facto de a diplomacia americana estar a privilegiar países como a China e a Rússia criou em Bruxelas uma ansiedade palpável no que diz respeito às relações transatlânticas. "A relação transatlântica não está a tirar partido do seu potencial", disse Durão Barroso em Julho, numa entrevista ao britânico The Times.

Vale de Almeida considera que o cancelamento da cimeira em Maio se deveu a "um problema de má comunicação". "Foi percebido pelos americanos que os europeus tinham dado como adquirido que teria de haver uma cimeira em Maio, quando talvez não tinha havido suficiente comunicação entre os dois lados para confirmar a disponibilidade do Presidente Obama", diz. "Por outro lado, a posição americana foi comunicada de uma forma menos útil: soube-se que o Presidente não iria à cimeira através da imprensa."

Se isso criou a percepção de que "havia um divórcio e alguma indiferença em relação à Europa", o embaixador nega que ela corresponda a "verdadeiro desinteresse americano".

"A minha impressão, ao fim de quatro meses em Washington, é que existe, da parte das forças políticas americanas, uma clara consciência de que não há nenhuma relação tão convergente, nem tão intensa, como a relação transatlântica", diz. "Agora, a outra sensação que tenho, e que trouxe de Bruxelas, é que esta relação pode dar mais resultados do que aqueles que tem dado até agora."

A cimeira de Lisboa pode representar "um salto qualitativo na relação entre os Estados Unidos e a União Europeia", defende. A agenda esteve concentrada em temas comuns, "prioritários para os americanos e para os europeus", com a economia e a segurança anti-terrorismo no topo. Vale de Almeida espera que as "orientações" saídas de Lisboa possam "daqui a dois anos produzir uma série de resultados que talvez não tenhamos produzido nos últimos anos".

"Os americanos são muito pragmáticos. O presidente Obama gosta de resultados e de coisas concretas, não gosta de palavreados extensos, nem de cimeiras sobre 40 assuntos", diz o embaixador.

O melhor do Público no email Subscreva gratuitamente as newsletters e receba o melhor da actualidade e os trabalhos mais profundos do Público. Subscrever ×

João Vale de Almeida, 53 anos - "Tenho exactamente a idade da comunidade europeia" - é funcionário europeu desde 1982, quatro anos antes da adesão de Portugal. Entre 2004 e 2009, foi chefe de gabinete e conselheiro do presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, bem como o seu representante pessoal (sherpa) nos encontros do G8 e G20. Recentemente, antes da sua nomeação para Washington, ajudou a preparar o Serviço Europeu de Acção Externa, a nova frente diplomática da UE.

Como é que um embaixador da UE se afirma em Washington, sem se impor aos interesses nacionais de outros diplomatas europeus, e quando há embaixadas tradicionalmente mais influentes do que outras?

"Com uma preocupação muito clara de coordenação quase diária com os representantes dos 27 Estados-membros. É essa a minha Bíblia. Tenho consciência de que estou a construir um papel que é novo."

A União Europeia tem finalmente uma resposta para o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger, que, nos anos 70, perguntou: "Quando quiser falar com a Europa, a quem devo ligar?" Hoje, telefonar para a Europa tem o custo de uma chamada local. "Se alguém aqui em Washington quiser saber qual é a posição da União Europeia sobre um determinado assunto, neste indicativo telefónico, liga para mim", diz o português João Vale de Almeida, que desde Julho é o novo embaixador da UE em Washington. "É mais fácil ligar para mim do que ligar para 27."

Há uma novidade significativa no cargo: Vale de Almeida é o primeiro embaixador da UE nos Estados Unidos desde a entrada em vigor do Tratado de Lisboa, em Dezembro do ano passado, o que significa que tem "mandato bastante mais vasto" do que os seus antecessores. Desde logo, ele não representa apenas a Comissão Europeia, mas o conjunto da UE. "Cabe-me a mim e não, como antes, à presidência rotativa, a coordenação das actividades da UE em Washington."

Foi Vale de Almeida que negociou directamente com a Casa Branca o agendamento da cimeira UE-EUA em Lisboa, depois do incidente diplomático que levou ao cancelamento de uma cimeira semelhante em Maio, em Madrid. O Presidente americano declinou o convite de Zapatero. Isso e o facto de a diplomacia americana estar a privilegiar países como a China e a Rússia criou em Bruxelas uma ansiedade palpável no que diz respeito às relações transatlânticas. "A relação transatlântica não está a tirar partido do seu potencial", disse Durão Barroso em Julho, numa entrevista ao britânico The Times.

Vale de Almeida considera que o cancelamento da cimeira em Maio se deveu a "um problema de má comunicação". "Foi percebido pelos americanos que os europeus tinham dado como adquirido que teria de haver uma cimeira em Maio, quando talvez não tinha havido suficiente comunicação entre os dois lados para confirmar a disponibilidade do Presidente Obama", diz. "Por outro lado, a posição americana foi comunicada de uma forma menos útil: soube-se que o Presidente não iria à cimeira através da imprensa."

Se isso criou a percepção de que "havia um divórcio e alguma indiferença em relação à Europa", o embaixador nega que ela corresponda a "verdadeiro desinteresse americano".

"A minha impressão, ao fim de quatro meses em Washington, é que existe, da parte das forças políticas americanas, uma clara consciência de que não há nenhuma relação tão convergente, nem tão intensa, como a relação transatlântica", diz. "Agora, a outra sensação que tenho, e que trouxe de Bruxelas, é que esta relação pode dar mais resultados do que aqueles que tem dado até agora."

A cimeira de Lisboa pode representar "um salto qualitativo na relação entre os Estados Unidos e a União Europeia", defende. A agenda esteve concentrada em temas comuns, "prioritários para os americanos e para os europeus", com a economia e a segurança anti-terrorismo no topo. Vale de Almeida espera que as "orientações" saídas de Lisboa possam "daqui a dois anos produzir uma série de resultados que talvez não tenhamos produzido nos últimos anos".

"Os americanos são muito pragmáticos. O presidente Obama gosta de resultados e de coisas concretas, não gosta de palavreados extensos, nem de cimeiras sobre 40 assuntos", diz o embaixador.

O melhor do Público no email Subscreva gratuitamente as newsletters e receba o melhor da actualidade e os trabalhos mais profundos do Público. Subscrever ×

João Vale de Almeida, 53 anos - "Tenho exactamente a idade da comunidade europeia" - é funcionário europeu desde 1982, quatro anos antes da adesão de Portugal. Entre 2004 e 2009, foi chefe de gabinete e conselheiro do presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, bem como o seu representante pessoal (sherpa) nos encontros do G8 e G20. Recentemente, antes da sua nomeação para Washington, ajudou a preparar o Serviço Europeu de Acção Externa, a nova frente diplomática da UE.

Como é que um embaixador da UE se afirma em Washington, sem se impor aos interesses nacionais de outros diplomatas europeus, e quando há embaixadas tradicionalmente mais influentes do que outras?

"Com uma preocupação muito clara de coordenação quase diária com os representantes dos 27 Estados-membros. É essa a minha Bíblia. Tenho consciência de que estou a construir um papel que é novo."

marcar artigo