Quando li este belo post da João, lembrei-me de hoje ter encarado um curioso outdoor do PS que rezava qualquer coisa do género 'O PS combate a crise e a oposição combate o PS'. O texto do outdoor ecoa precisamente a gritaria desta noite. Ao dizer aquelas inanidades, Sócrates coloca-se num plano não-político qualitativamente diferente da oposição em bloco. Não se trata de haver propostas diversas, divergentes das oposições relativamente ao seu PS. Não. Segundo o "discurso" "socrático", a oposição não propõe, não é alternativa. Tudo se passa como se Sócrates retirasse a condição política às oposições - elas encontram-se num plano moralmente inferior (e não oposto ao mesmo nível), são intrinsecamente desprezíveis, porque se limitam a destruir. Elas são o Caos, o governo é a Ordem. Sócrates grita: 'Não temais! Eles só destroem, mas eu estou aqui para continuar a construção.'Este é um discurso intrinsecamente não-democrático e, num sentido, roça o a-político. Neste ponto de vista, não há o confronto, a concorrência, entre duas "ordens". Há uma "ordem" e uma "desordem". Sócrates não vê "competidores" ou "rivais". Ele vê-se sozinho. Está ele só diante do povo e o povo não tem mais ninguém senão ele. Sócrates não se apresenta realmente como uma escolha entre outras possíveis - porque ele não reconhece os outros como alternativas a si. Os outros existem, não como alternativas possíveis, mas precisamente como "outros impossíveis". Os outros partidos não constroem uma outra coisa. Os outros partidos destroem.Ele é o homem resistente, brutal e providencial que nos salva do "caos" dos outros. Ele grita, berra, quer fazer-se ouvir mais do que os outros, esbraceja, aparece, aparece, aparece sempre - quer ser mais visto do que os outros - porque quer ser só ele a estar no palco, só ele tem uma "forma" para dar - os outros, como "caos", são "informes". E o "caos" é negro, como as campanhas.No parlamento, não há cinco Partidos. Há dois: o PS e "os outros". De um lado, o lado "positivo", "construtivo" e "responsável", temos o PS/governo; do outro, temos a "coligação negativa" ou, fazendo uso das classificações selvagens que só intentam lançar a confusão, temos os "reaccionários de esquerda" ou o "PSD que é um PCP da direita", etc.Este nosso primeiro-ministro retoma a imagem do governante esforçado que luta com unhas e dentes (mesmo que sem princípios) contra estes e aqueles "privilegiados" e que só não "faz mais", coitado, porque o não deixam. Porque há uns malandros que "só dizem mal", são "pessimistas" e "negativistas" e vão sabotando o trabalho do homem.Sócrates pretende fazer vibrar a corda de um "reaccionarismo" profundo que olha sempre com desconfiança para quem não está no Poder e o contesta. Essa disposição, antes de ponderar as partes em confronto, decidiu já que o governo, ou, ainda melhor, o Chefe, merece mais crédito do que aquele que se lhe se opõe.
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Quando li este belo post da João, lembrei-me de hoje ter encarado um curioso outdoor do PS que rezava qualquer coisa do género 'O PS combate a crise e a oposição combate o PS'. O texto do outdoor ecoa precisamente a gritaria desta noite. Ao dizer aquelas inanidades, Sócrates coloca-se num plano não-político qualitativamente diferente da oposição em bloco. Não se trata de haver propostas diversas, divergentes das oposições relativamente ao seu PS. Não. Segundo o "discurso" "socrático", a oposição não propõe, não é alternativa. Tudo se passa como se Sócrates retirasse a condição política às oposições - elas encontram-se num plano moralmente inferior (e não oposto ao mesmo nível), são intrinsecamente desprezíveis, porque se limitam a destruir. Elas são o Caos, o governo é a Ordem. Sócrates grita: 'Não temais! Eles só destroem, mas eu estou aqui para continuar a construção.'Este é um discurso intrinsecamente não-democrático e, num sentido, roça o a-político. Neste ponto de vista, não há o confronto, a concorrência, entre duas "ordens". Há uma "ordem" e uma "desordem". Sócrates não vê "competidores" ou "rivais". Ele vê-se sozinho. Está ele só diante do povo e o povo não tem mais ninguém senão ele. Sócrates não se apresenta realmente como uma escolha entre outras possíveis - porque ele não reconhece os outros como alternativas a si. Os outros existem, não como alternativas possíveis, mas precisamente como "outros impossíveis". Os outros partidos não constroem uma outra coisa. Os outros partidos destroem.Ele é o homem resistente, brutal e providencial que nos salva do "caos" dos outros. Ele grita, berra, quer fazer-se ouvir mais do que os outros, esbraceja, aparece, aparece, aparece sempre - quer ser mais visto do que os outros - porque quer ser só ele a estar no palco, só ele tem uma "forma" para dar - os outros, como "caos", são "informes". E o "caos" é negro, como as campanhas.No parlamento, não há cinco Partidos. Há dois: o PS e "os outros". De um lado, o lado "positivo", "construtivo" e "responsável", temos o PS/governo; do outro, temos a "coligação negativa" ou, fazendo uso das classificações selvagens que só intentam lançar a confusão, temos os "reaccionários de esquerda" ou o "PSD que é um PCP da direita", etc.Este nosso primeiro-ministro retoma a imagem do governante esforçado que luta com unhas e dentes (mesmo que sem princípios) contra estes e aqueles "privilegiados" e que só não "faz mais", coitado, porque o não deixam. Porque há uns malandros que "só dizem mal", são "pessimistas" e "negativistas" e vão sabotando o trabalho do homem.Sócrates pretende fazer vibrar a corda de um "reaccionarismo" profundo que olha sempre com desconfiança para quem não está no Poder e o contesta. Essa disposição, antes de ponderar as partes em confronto, decidiu já que o governo, ou, ainda melhor, o Chefe, merece mais crédito do que aquele que se lhe se opõe.