A catástrofe em que se tornou o Iraque veio recordar-nos uma coisa que deveríamos saber desde Burke e Tocqueville: não basta fazer eleições para ter uma democracia. É preciso "algo" mais - uma sociedade civil forte, uma sólida cultura de tolerância e sobretudo elites verdadeiramente comprometidas com a liberdade. O maior erro de Bush e dos neoconservadores terá sido pensar que se podem exportar as instituições democráticas na ponta de um canhão para latitudes onde a sociedade civil não existe, esmagada entre um Islão tribal e um Estado tirânico, "this utopian fantasy that you can add water and get George Washington everywhere", como disse o republicano John Hulsman. Esquecemo-nos demasiado depressa que George Washington e o resto do kit democrático do Novo Mundo nasceram do sistema representativo medieval e de mil anos de luta entre a Igreja e o Estado no velho continente.A Rússia actual, que sob a capa da democracia está a retomar velhos hábitos da União Soviética e do Império dos czares (se é que alguma vez os perdeu), tais como o silenciamento cirúrgico dos críticos do poder e a brutalidade militar em larga escala, recorda-nos exactamente o mesmo. Não se apagam facilmente séculos de autocracia. A própria Igreja ortodoxa esteve sempre muito próxima do trono, o que simplificou a sua decapitação pelos comunistas, ao contrário do Leste católico onde a perseguição religiosa levou naturalmente à resistência política. Talvez o Ocidente exista, afinal. Talvez seja mais do que uma ideia. Talvez seja mesmo uma civilização, uma forma própria de viver "sob o único governo de Deus e das leis". Talvez o Ocidente seja (quem diria?) a civilização.
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A catástrofe em que se tornou o Iraque veio recordar-nos uma coisa que deveríamos saber desde Burke e Tocqueville: não basta fazer eleições para ter uma democracia. É preciso "algo" mais - uma sociedade civil forte, uma sólida cultura de tolerância e sobretudo elites verdadeiramente comprometidas com a liberdade. O maior erro de Bush e dos neoconservadores terá sido pensar que se podem exportar as instituições democráticas na ponta de um canhão para latitudes onde a sociedade civil não existe, esmagada entre um Islão tribal e um Estado tirânico, "this utopian fantasy that you can add water and get George Washington everywhere", como disse o republicano John Hulsman. Esquecemo-nos demasiado depressa que George Washington e o resto do kit democrático do Novo Mundo nasceram do sistema representativo medieval e de mil anos de luta entre a Igreja e o Estado no velho continente.A Rússia actual, que sob a capa da democracia está a retomar velhos hábitos da União Soviética e do Império dos czares (se é que alguma vez os perdeu), tais como o silenciamento cirúrgico dos críticos do poder e a brutalidade militar em larga escala, recorda-nos exactamente o mesmo. Não se apagam facilmente séculos de autocracia. A própria Igreja ortodoxa esteve sempre muito próxima do trono, o que simplificou a sua decapitação pelos comunistas, ao contrário do Leste católico onde a perseguição religiosa levou naturalmente à resistência política. Talvez o Ocidente exista, afinal. Talvez seja mais do que uma ideia. Talvez seja mesmo uma civilização, uma forma própria de viver "sob o único governo de Deus e das leis". Talvez o Ocidente seja (quem diria?) a civilização.