ambio: A gestão do Parque Natural das serras de Aire e Candeeiros

28-05-2010
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Este post é bastante interessante porque corresponde a uma opinião bastante comum nos meios da conservação sobre a gestão do PNSAC (a fotografia é retirada também do mesmo blog).Vale por isso a pena analisá-lo no que ele tem de essencialmente correcto e no que ele tem de essencialmente errado.No que diz respeito à forma como são tratados os visitantes, à sinalização, à falta de indicação (ou pior, à indicação errada) de horários o post está essencialmente correcto. É um diagnóstico de problemas antigo e consensual. O difícil está no que fazer a partir deste diagnóstico. Não é no entanto essa a matéria que vou tratar neste post, apenas referindo de passagem que existia uma estratégia claramente definida sobre este assunto, cujo estudo base está no site do ICNB, mas que, como de costume, é letra morta.Já quanto à questão da integração da extracção de pedra na gestão da área protegida vale a pena perder algum tempo.O post tem um retrato desencantado e comum: "o actual cenário é já dificilmente aceitável numa área com um estatuto de protecção mínimo. Se as coisas vão ainda mudar para pior (como permite o Ministério do Ambiente) ou para muito pior (como exigem os autarcas), então é melhor acabar com a farsa de que isto é um parque natural. Se só as pedreiras são importantes, se o esforço de preservação da natureza não traz qualquer proveito à região nem aos seus habitantes, então extinga-se o Parque Nacional das Serras de Aire e Candeeiros, e deixem de se atrair visitantes com o engodo de que esta é uma área protegida".No entanto este retrato tem bastantes imprecisões e equívocos.O primeiro (sem qualquer ordem de prioridade ou importância) equívoco é o de que as áreas protegidas existem para os visitantes e que se os visitantes não saem de lá satisfeitos, então mais vale extinguir a área protegida. Isto não é verdade. As áreas protegidas existem enquanto instrumento administrativo de conservação de valores. Este é o ponto a partir do qual faz sentido discutir a classificação ou não de uma área protegida. Dito isto, é verdade que a visitação é uma questão estruturante porque a política de conservação da natureza depende do apoio do público e isso pressupõe uma gestão cuidada da comunicação, o que implica o desenho de modelos de visitação que tenham como objectivo aumentar o apoio do público às políticas de conservação.O segundo equívoco, bem mais sério, é o de confundir as áreas de extracção com a totalidade da área protegida. As áreas de extracção, que são importantes sob bastantes pontos de vista, representam uma percentagem pequena da área total do Parque, e é tendo em conta esse peso relativo que deve ser analisada a sua influência na gestão da área protegida.O terceiro equívoco é o de que as áreas de extracção de pedra são desertos patrimoniais. Isso não é de todo verdade. Não só existe património geológico e espeleológico que é tido em conta na gestão das áreas, embora as pessoas possam não se aperceber facilmente desse aspecto, como há património mesmo nas áreas de extracção. Por exemplo, as escombreiras das pedreiras são provavelmente os sítios onde é mais fácil encontrar Inula montana (não sei se ainda tem este nome). Do mesmo modo, algumas áreas hoje recuperadas (e que não são percebidas pelas pessoas como áreas de antiga extracção) são excelentes laboratórios de evolução e mesmo de construção de novos habitats. Por exemplo, é fácil fazer pontos de água numa área com fortes limitações de água à superfície, e na verdade o enchimento de áreas com escombros consegue criar bolsas de solos mais fundos numa zona onde o substrato de rocha firme está geralmente a escassos centímetros das superfície.Quarto equívoco é esquecer que existem interacções importantes entre pessoas e património natural que não são tidas em atenção no parágrafo que citei. Por exemplo, a gralha de bico vermelho é dependente de áreas de vegetação muito rasteira e, preferencialmente, com utilização pelo gado, o que implica perturbação permanente, com gado e com fogo. Ora se não houver pessoas para fazer isso é muito complicado parar a sucessão ecológica. Dir-se-á que isso em si não é um problema. Eu direi que sendo em parte verdade, também não deixa de ser verdade que as pessoas não estão disponíveis para a perda de património que isso implica. As pedreiras, ao criarem riqueza e emprego são geradoras de recursos importantes para a conservação (incluindo o trabalho agrícola em tempo parcial).Quinto equívoco é considerar-se que do ponto de vista da gestão do território se estaria melhor desclassificando a área, o que está longe de ser verdade. Foi nestas áreas que foram impostas pela primeira vez cauções sistemáticas para a recuperação de pedreiras, o licenciamento destas pedreiras e a fiscalização associada, muito maior que no resto do país, influenciou decisivamente a gestão e o enquadramento legal do sector, muitas áreas foram retiradas da exploração, foi muitas vezes imposto um modelo de gestão que implica a recuperação simultânea de áreas já esgotadas das pedreiras e também aqui se desenvolveram muitas técnicas e modelos de gestão que culminaram em recuperações de extensas áreas de pedreiras pelos seus exploradores. Retirar as áreas de pedreira da área protegida não tinha tido qualquer benefício, e mantê-las dentro da área protegida permitiu uma gestão muito mais cuidada (o que não é o mesmo de dizer que é isenta de erros, muitos foram cometidos, e por alguns deles sou o responsável directo, dizendo com clareza que provavelmente há património natural que hoje não existe por minha responsabilidade).Muitas vezes vi negadas propostas minhas para desenvolver programas de visitação orientados para as áreas de exploração de pedra exactamente porque se entendia (provavelmente com alguma razão) que canalizar visitação para essas áreas criava mais problemas à gestão da área protegida que os que ajudava a resolver.Mas continuo convencido de que é preciso levar as pessoas a essas áreas, discutir o que lá se faz, discutir as razões de cada um e permitir aumentar o grau de compreensão do público face à gestão de situações limite como esta, onde o conflito de interesses públicos divergentes é muito agudo.henrique pereira dos santos


Este post é bastante interessante porque corresponde a uma opinião bastante comum nos meios da conservação sobre a gestão do PNSAC (a fotografia é retirada também do mesmo blog).Vale por isso a pena analisá-lo no que ele tem de essencialmente correcto e no que ele tem de essencialmente errado.No que diz respeito à forma como são tratados os visitantes, à sinalização, à falta de indicação (ou pior, à indicação errada) de horários o post está essencialmente correcto. É um diagnóstico de problemas antigo e consensual. O difícil está no que fazer a partir deste diagnóstico. Não é no entanto essa a matéria que vou tratar neste post, apenas referindo de passagem que existia uma estratégia claramente definida sobre este assunto, cujo estudo base está no site do ICNB, mas que, como de costume, é letra morta.Já quanto à questão da integração da extracção de pedra na gestão da área protegida vale a pena perder algum tempo.O post tem um retrato desencantado e comum: "o actual cenário é já dificilmente aceitável numa área com um estatuto de protecção mínimo. Se as coisas vão ainda mudar para pior (como permite o Ministério do Ambiente) ou para muito pior (como exigem os autarcas), então é melhor acabar com a farsa de que isto é um parque natural. Se só as pedreiras são importantes, se o esforço de preservação da natureza não traz qualquer proveito à região nem aos seus habitantes, então extinga-se o Parque Nacional das Serras de Aire e Candeeiros, e deixem de se atrair visitantes com o engodo de que esta é uma área protegida".No entanto este retrato tem bastantes imprecisões e equívocos.O primeiro (sem qualquer ordem de prioridade ou importância) equívoco é o de que as áreas protegidas existem para os visitantes e que se os visitantes não saem de lá satisfeitos, então mais vale extinguir a área protegida. Isto não é verdade. As áreas protegidas existem enquanto instrumento administrativo de conservação de valores. Este é o ponto a partir do qual faz sentido discutir a classificação ou não de uma área protegida. Dito isto, é verdade que a visitação é uma questão estruturante porque a política de conservação da natureza depende do apoio do público e isso pressupõe uma gestão cuidada da comunicação, o que implica o desenho de modelos de visitação que tenham como objectivo aumentar o apoio do público às políticas de conservação.O segundo equívoco, bem mais sério, é o de confundir as áreas de extracção com a totalidade da área protegida. As áreas de extracção, que são importantes sob bastantes pontos de vista, representam uma percentagem pequena da área total do Parque, e é tendo em conta esse peso relativo que deve ser analisada a sua influência na gestão da área protegida.O terceiro equívoco é o de que as áreas de extracção de pedra são desertos patrimoniais. Isso não é de todo verdade. Não só existe património geológico e espeleológico que é tido em conta na gestão das áreas, embora as pessoas possam não se aperceber facilmente desse aspecto, como há património mesmo nas áreas de extracção. Por exemplo, as escombreiras das pedreiras são provavelmente os sítios onde é mais fácil encontrar Inula montana (não sei se ainda tem este nome). Do mesmo modo, algumas áreas hoje recuperadas (e que não são percebidas pelas pessoas como áreas de antiga extracção) são excelentes laboratórios de evolução e mesmo de construção de novos habitats. Por exemplo, é fácil fazer pontos de água numa área com fortes limitações de água à superfície, e na verdade o enchimento de áreas com escombros consegue criar bolsas de solos mais fundos numa zona onde o substrato de rocha firme está geralmente a escassos centímetros das superfície.Quarto equívoco é esquecer que existem interacções importantes entre pessoas e património natural que não são tidas em atenção no parágrafo que citei. Por exemplo, a gralha de bico vermelho é dependente de áreas de vegetação muito rasteira e, preferencialmente, com utilização pelo gado, o que implica perturbação permanente, com gado e com fogo. Ora se não houver pessoas para fazer isso é muito complicado parar a sucessão ecológica. Dir-se-á que isso em si não é um problema. Eu direi que sendo em parte verdade, também não deixa de ser verdade que as pessoas não estão disponíveis para a perda de património que isso implica. As pedreiras, ao criarem riqueza e emprego são geradoras de recursos importantes para a conservação (incluindo o trabalho agrícola em tempo parcial).Quinto equívoco é considerar-se que do ponto de vista da gestão do território se estaria melhor desclassificando a área, o que está longe de ser verdade. Foi nestas áreas que foram impostas pela primeira vez cauções sistemáticas para a recuperação de pedreiras, o licenciamento destas pedreiras e a fiscalização associada, muito maior que no resto do país, influenciou decisivamente a gestão e o enquadramento legal do sector, muitas áreas foram retiradas da exploração, foi muitas vezes imposto um modelo de gestão que implica a recuperação simultânea de áreas já esgotadas das pedreiras e também aqui se desenvolveram muitas técnicas e modelos de gestão que culminaram em recuperações de extensas áreas de pedreiras pelos seus exploradores. Retirar as áreas de pedreira da área protegida não tinha tido qualquer benefício, e mantê-las dentro da área protegida permitiu uma gestão muito mais cuidada (o que não é o mesmo de dizer que é isenta de erros, muitos foram cometidos, e por alguns deles sou o responsável directo, dizendo com clareza que provavelmente há património natural que hoje não existe por minha responsabilidade).Muitas vezes vi negadas propostas minhas para desenvolver programas de visitação orientados para as áreas de exploração de pedra exactamente porque se entendia (provavelmente com alguma razão) que canalizar visitação para essas áreas criava mais problemas à gestão da área protegida que os que ajudava a resolver.Mas continuo convencido de que é preciso levar as pessoas a essas áreas, discutir o que lá se faz, discutir as razões de cada um e permitir aumentar o grau de compreensão do público face à gestão de situações limite como esta, onde o conflito de interesses públicos divergentes é muito agudo.henrique pereira dos santos

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