O 25 de abril é sempre apresentado como um corte redentor. Nesta doce narrativa que nos apascenta, a III República desfez o Estado Novo em mil pedacinhos, e reiniciou Portugal. Aliás, muito boa gente acha que só faltou a invenção de um calendário soarista para que o corte com o passado fosse imaculadamente democrático. Mas será mesmo assim? Não, não é. Se olharmos para a história através da lupa tocquevilliana, podemos ver várias continuidades entre o Estado Novo e a III República: ADSE (ainda bem), lei das rendas (ainda mal) e, acima de tudo, a Administração do Estado (um pesadelo). É isso mesmo: o esqueleto da democracia é o esqueleto de Salazar.
O Estado de Salazar era autoritário, centralizador e tratava os portugueses como crianças. Após abril, os nossos distintos democratas acolheram, com prazer e proveito, esse autoritarismo paternalista. A nossa impoluta democracia herdou os caboucos do Estado Novo, e nunca demonstrou vontade para os desmantelar. Ou seja, Soares & Cia. criaram uma contradição em termos: uma democracia pluralista encaixada num Estado autoritário. Aqueles pioneiros, liderados por Soares, nunca quiseram criar um Estado realmente democrático (i.e., mais descentralizado). Pior: Soares & Cia. aumentaram e legitimaram o Estado salazarista, através da entrada dos primeiros boys e através da adoção da língua de trapos que durou até 2010. De repente, o autoritarismo centralista de Salazar passou a ser legitimado pelas sílabas dos 'direitos adquiridos' e do 'Estado social'. E, claro, os funcionários públicos multiplicaram-se como cogumelos burocráticos. Em 1976, eram 400 mil. Em 2010, ninguém sabe o seu número (700 mil? 900 mil?).
O nosso Estado democrático é, portanto, a versão XXL do Estado salazarista. Só isto já seria mau per se. Mas este thriller político não fica por aqui. Além de terem perpetuado o Estado salazarista, Soares & Cia. criaram um novo monstro: o tal Estado social. Por outras palavras, um Estado social insustentável foi edificado em cima da insustentável Administração salazarista. Ora, os apertos que estamos a sentir, aqui e agora, derivam desta irmandade burocrática. A montante, o Estado de Salazar emperra a criação de riqueza (ex.: os magistrados estão algures em 1966), e, depois, a jusante, o Estado social e os salários da função pública consomem a pouca riqueza que é criada. É por isso que esta empresa conhecida por 'Salazar, Soares & Cia.' está a falir.
O cantinho do DVD
As adaptações correm dos romances para o cinema. "O Bom Pastor" merecia a inflexão desta regra. Este filme, realizado por Robert De Niro, tem aquela beleza clássica que me deixa as pernas bambas. É um oásis classicista no meio dos 'engraçadistas' pós-moderninhos. O cenário é a formação da CIA, entre a II Guerra e a Guerra Fria. E, com toda esta história nas suas costas, De Niro conta-nos uma história pessoal que é uma espécie de síntese entre Creonte e Antígona: Edward (Matt Damon) segue, sem questionar, a política de Creonte (EUA), porque essa é a única forma de alcançar a redenção pessoal do seu pai (Antígona). Alguém que faça um romance a partir deste filme, se faz favor.
henrique.raposo79@gmail.com
Texto publicado na edição do Expresso de 11 de setembro de 2010
O 25 de abril é sempre apresentado como um corte redentor. Nesta doce narrativa que nos apascenta, a III República desfez o Estado Novo em mil pedacinhos, e reiniciou Portugal. Aliás, muito boa gente acha que só faltou a invenção de um calendário soarista para que o corte com o passado fosse imaculadamente democrático. Mas será mesmo assim? Não, não é. Se olharmos para a história através da lupa tocquevilliana, podemos ver várias continuidades entre o Estado Novo e a III República: ADSE (ainda bem), lei das rendas (ainda mal) e, acima de tudo, a Administração do Estado (um pesadelo). É isso mesmo: o esqueleto da democracia é o esqueleto de Salazar.
O Estado de Salazar era autoritário, centralizador e tratava os portugueses como crianças. Após abril, os nossos distintos democratas acolheram, com prazer e proveito, esse autoritarismo paternalista. A nossa impoluta democracia herdou os caboucos do Estado Novo, e nunca demonstrou vontade para os desmantelar. Ou seja, Soares & Cia. criaram uma contradição em termos: uma democracia pluralista encaixada num Estado autoritário. Aqueles pioneiros, liderados por Soares, nunca quiseram criar um Estado realmente democrático (i.e., mais descentralizado). Pior: Soares & Cia. aumentaram e legitimaram o Estado salazarista, através da entrada dos primeiros boys e através da adoção da língua de trapos que durou até 2010. De repente, o autoritarismo centralista de Salazar passou a ser legitimado pelas sílabas dos 'direitos adquiridos' e do 'Estado social'. E, claro, os funcionários públicos multiplicaram-se como cogumelos burocráticos. Em 1976, eram 400 mil. Em 2010, ninguém sabe o seu número (700 mil? 900 mil?).
O nosso Estado democrático é, portanto, a versão XXL do Estado salazarista. Só isto já seria mau per se. Mas este thriller político não fica por aqui. Além de terem perpetuado o Estado salazarista, Soares & Cia. criaram um novo monstro: o tal Estado social. Por outras palavras, um Estado social insustentável foi edificado em cima da insustentável Administração salazarista. Ora, os apertos que estamos a sentir, aqui e agora, derivam desta irmandade burocrática. A montante, o Estado de Salazar emperra a criação de riqueza (ex.: os magistrados estão algures em 1966), e, depois, a jusante, o Estado social e os salários da função pública consomem a pouca riqueza que é criada. É por isso que esta empresa conhecida por 'Salazar, Soares & Cia.' está a falir.
O cantinho do DVD
As adaptações correm dos romances para o cinema. "O Bom Pastor" merecia a inflexão desta regra. Este filme, realizado por Robert De Niro, tem aquela beleza clássica que me deixa as pernas bambas. É um oásis classicista no meio dos 'engraçadistas' pós-moderninhos. O cenário é a formação da CIA, entre a II Guerra e a Guerra Fria. E, com toda esta história nas suas costas, De Niro conta-nos uma história pessoal que é uma espécie de síntese entre Creonte e Antígona: Edward (Matt Damon) segue, sem questionar, a política de Creonte (EUA), porque essa é a única forma de alcançar a redenção pessoal do seu pai (Antígona). Alguém que faça um romance a partir deste filme, se faz favor.
henrique.raposo79@gmail.com
Texto publicado na edição do Expresso de 11 de setembro de 2010