De Rerum Natura: O neologismo "arruada" no Dicionário da Academia

28-05-2010
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"Na vida não se deveria cometer duas vezes o mesmo erro: há bastante por onde escolher” (Bertrand Russel, 1872-1970).Na última edição do semanário Expresso (16/01/2010) foi noticiado, em escassas linhas, que o PCP, “ao fim de anos de luta, colocou a palavra ‘arruada’ no Dicionário da Academia”. E porque o povo também faz a língua, na essência, refere-se este suelto a Jerónimo de Sousa, secretário-geral do Partido Comunista Português, por ele, em hora de inspiração, logo aproveitada pelos meios de comunicação social, ter sido o padrinho do neologismo arruada na pia baptismal do consagrado Dicionário da Academia de Ciências para significar os passeios de rua dos partidos políticos levados a efeito, por exemplo, na última campanha eleitoral pelas ruas do vetusto Chiado, qual Fénix renascida das cinzas.De forma alguma, esta nova e adoçada realidade de manifestações da nossa vida política servirá de justificação para que se não continue a chamar a atenção para períodos da vida nacional que deviam estar enterrados há muitos anos. Segundo Mário Soares, “voltámos ao tempo da instrumentalização dos sindicatos como ‘correia de transmissão’ do PCP” (Diário de Notícias, 29/01/2008). De igual forma, há décadas, António José Saraiva, tido por Eduardo Lourenço como “uma referência chave da cultura portuguesa”, em artigo publicado no jornal A Tarde (24/05/1983), criticava este modus faciendi da política partidária, ao escrever de forma desassombrada: ”Não se deve confundir a vida política com um estado de agitação convulsiva em que não há regras e em que cada aventureiro (…) manipulando manifestações de rua, impõe a sua lei, como aconteceu nos meses seguintes ao 25 de Abril. A regra do jogo é indispensável a qualquer sociedade organizada”. Este e muitos outros artigos, entrevistas, críticas e conferências da sua autoria, fazem parte de um espólio de mais de mil páginas, coligido, depois da sua morte, por sua irmã, Maria José Saraiva, em volume intitulado Crónicas de António José Saraiva (Quidinovi, Lisboa 2004, p. 671). Em páginas iniciais, aproveita ela o ensejo para dar o justo relevo ao facto de “as suas convicções políticas e sociais continuarem a ter uma actualidade surpreendente”. Assim é, em boa verdade! Neste contexto, ressurgem, como cogumelos em terra húmida, mesmo em nossos dias, manifestações de massas de profissões de cariz intelectual que se deslocam aos magotes como proletários, mas sem disso terem, muitas vezes, consciência, por ruas urbanas que desembocam em grandes praças com destino a verdadeiros comícios políticos, mas não anunciados como tal, empunhando cartazes e palavras de ordem com carácter mais ou menos injurioso. E, por outro lado, assiste-se a manifestações televisionadas da Fenprof, como uma levada a efeito, anos atrás, diante dos portões de uma escola do ensino secundário e na presença dos respectivos alunos com palavras, no mínimo, pouco próprias e com apupos à mistura dirigidos a entidades ministeriais que aí se deslocaram em visita oficial, como se os professores não devessem constituir um exemplo para os alunos, em identificação com a velha e respeitada máxima: “Escola de pais, escola de filhos”. Não discuto, de forma alguma, a justeza deste protesto. Discordo, apenas, da forma como ele foi feito e do local escolhido para ele ser realizado.Numa perspectiva sociológica de comportamento de massas, poder-se-á encontrar razão para tal neste excerto de um texto de Eça de Queiroz: “Quando se quer fazer marchar um regimento não se lhe explica com a subtileza dum protocolo os motivos que levam à guerra: desdobra-se uma bandeira, faz-se soar um clarim e o regimento arremete”. A arruada, também ela, é indubitavelmente de um neologismo soft da vida política em apelo à saída para a rua. Como Napoleão dizia, “a Bélgica é um excelente campo de batalha”. Mutatis mutandi, significa que a rua é um excelente campo de batalha. Em vivência de trinta e tal anos, o Partido Comunista Português sabe isso bem melhor do que ninguém ao conseguir, em manipulação de descontentamentos sociais, mobilizar multidões de contestatários de diferentes estratos profissionais, de orientações políticas opostas ou mesmo apartidários. Vivência que a história recente nos diz ter sido sempre reprimida de forma brutal aos cidadãos dos países de Leste, até à queda do Muro de Berlim ou à chegada do momento em que, na antiga União Soviética, “o relógio do comunismo soou todas as badaladas”, como escreveu Alexander Soljenitzin.Não será chegada a altura de os mais renitentes e aguerridos comunistas portugueses se adaptarem aos padrões de uma desejável democracia do tipo ocidental encarando esta nova realidade europeia que se não compadece com saudosismos de qualquer espécie? Enquanto não for inventada uma máquina do tempo, só em sonhos ou no flash-back cinematográfico é que o tempo volta para trás!


"Na vida não se deveria cometer duas vezes o mesmo erro: há bastante por onde escolher” (Bertrand Russel, 1872-1970).Na última edição do semanário Expresso (16/01/2010) foi noticiado, em escassas linhas, que o PCP, “ao fim de anos de luta, colocou a palavra ‘arruada’ no Dicionário da Academia”. E porque o povo também faz a língua, na essência, refere-se este suelto a Jerónimo de Sousa, secretário-geral do Partido Comunista Português, por ele, em hora de inspiração, logo aproveitada pelos meios de comunicação social, ter sido o padrinho do neologismo arruada na pia baptismal do consagrado Dicionário da Academia de Ciências para significar os passeios de rua dos partidos políticos levados a efeito, por exemplo, na última campanha eleitoral pelas ruas do vetusto Chiado, qual Fénix renascida das cinzas.De forma alguma, esta nova e adoçada realidade de manifestações da nossa vida política servirá de justificação para que se não continue a chamar a atenção para períodos da vida nacional que deviam estar enterrados há muitos anos. Segundo Mário Soares, “voltámos ao tempo da instrumentalização dos sindicatos como ‘correia de transmissão’ do PCP” (Diário de Notícias, 29/01/2008). De igual forma, há décadas, António José Saraiva, tido por Eduardo Lourenço como “uma referência chave da cultura portuguesa”, em artigo publicado no jornal A Tarde (24/05/1983), criticava este modus faciendi da política partidária, ao escrever de forma desassombrada: ”Não se deve confundir a vida política com um estado de agitação convulsiva em que não há regras e em que cada aventureiro (…) manipulando manifestações de rua, impõe a sua lei, como aconteceu nos meses seguintes ao 25 de Abril. A regra do jogo é indispensável a qualquer sociedade organizada”. Este e muitos outros artigos, entrevistas, críticas e conferências da sua autoria, fazem parte de um espólio de mais de mil páginas, coligido, depois da sua morte, por sua irmã, Maria José Saraiva, em volume intitulado Crónicas de António José Saraiva (Quidinovi, Lisboa 2004, p. 671). Em páginas iniciais, aproveita ela o ensejo para dar o justo relevo ao facto de “as suas convicções políticas e sociais continuarem a ter uma actualidade surpreendente”. Assim é, em boa verdade! Neste contexto, ressurgem, como cogumelos em terra húmida, mesmo em nossos dias, manifestações de massas de profissões de cariz intelectual que se deslocam aos magotes como proletários, mas sem disso terem, muitas vezes, consciência, por ruas urbanas que desembocam em grandes praças com destino a verdadeiros comícios políticos, mas não anunciados como tal, empunhando cartazes e palavras de ordem com carácter mais ou menos injurioso. E, por outro lado, assiste-se a manifestações televisionadas da Fenprof, como uma levada a efeito, anos atrás, diante dos portões de uma escola do ensino secundário e na presença dos respectivos alunos com palavras, no mínimo, pouco próprias e com apupos à mistura dirigidos a entidades ministeriais que aí se deslocaram em visita oficial, como se os professores não devessem constituir um exemplo para os alunos, em identificação com a velha e respeitada máxima: “Escola de pais, escola de filhos”. Não discuto, de forma alguma, a justeza deste protesto. Discordo, apenas, da forma como ele foi feito e do local escolhido para ele ser realizado.Numa perspectiva sociológica de comportamento de massas, poder-se-á encontrar razão para tal neste excerto de um texto de Eça de Queiroz: “Quando se quer fazer marchar um regimento não se lhe explica com a subtileza dum protocolo os motivos que levam à guerra: desdobra-se uma bandeira, faz-se soar um clarim e o regimento arremete”. A arruada, também ela, é indubitavelmente de um neologismo soft da vida política em apelo à saída para a rua. Como Napoleão dizia, “a Bélgica é um excelente campo de batalha”. Mutatis mutandi, significa que a rua é um excelente campo de batalha. Em vivência de trinta e tal anos, o Partido Comunista Português sabe isso bem melhor do que ninguém ao conseguir, em manipulação de descontentamentos sociais, mobilizar multidões de contestatários de diferentes estratos profissionais, de orientações políticas opostas ou mesmo apartidários. Vivência que a história recente nos diz ter sido sempre reprimida de forma brutal aos cidadãos dos países de Leste, até à queda do Muro de Berlim ou à chegada do momento em que, na antiga União Soviética, “o relógio do comunismo soou todas as badaladas”, como escreveu Alexander Soljenitzin.Não será chegada a altura de os mais renitentes e aguerridos comunistas portugueses se adaptarem aos padrões de uma desejável democracia do tipo ocidental encarando esta nova realidade europeia que se não compadece com saudosismos de qualquer espécie? Enquanto não for inventada uma máquina do tempo, só em sonhos ou no flash-back cinematográfico é que o tempo volta para trás!

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