Um jogo de tabuleiro para brincar com a história de Lisboa e do Castelo de S. Jorge. Mesmo que os jogadores nunca tenham ouvido falar de D. Afonso Henriques ou do general romano Decimus Junius Brutus, podem transformar-se nessas personagens. E divertir-se. Porque o castelo não é só um miradouro.
A cada mil anos, as personagens históricas que passaram pelo Castelo de S. Jorge encontram-se para um torneio. Quem conquistar o troféu será senhor do castelo durante o milénio seguinte. Esta foi a lenda criada "como ponto de partida" para o jogo O Troféu de S. Jorge, "um veículo privilegiado para divulgar a história do castelo e de Lisboa", diz Teresa Oliveira, directora daquele monumento nacional.
Sem dados para lançar, mas com estratégia, os participantes neste jogo de tabuleiro bilingue (Português e Inglês) têm como objectivo central recolher três troféus "válidos" enquanto percorrem os lugares principais do castelo. Mas antes terão de saber quais as figuras históricas em que irão transformar-se. São 12. A mais antiga data do séc. IV a.C. (Chefe da Idade do Ferro) e a mais recente dos sécs. XIX-XX (D. Manuel II, o último rei de Portugal). Todas masculinas. É assim a História...
No entanto, os jogadores podem nada saber do passado de Portugal, não desconfiarem de quem foi D. Dinis ou nem sequer conhecerem Lisboa, "mas, à medida que vão jogando, vão aprendendo e percebendo a história do castelo, nas suas diferentes facetas", diz Gil d"Orey, autor do jogo e da ideia.
"Tudo começou com uma proposta que nos apresentaram para fazermos um jogo sobre o castelo. Gostámos imediatamente", conta Teresa Oliveira. "A nossa ideia foi logo acolhida com grande entusiasmo pela EGEAC [Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural]", dirá mais tarde Gil d"Orey, da Mesa Board Games. Estava-se em 2010 e era o ano do centenário da classificação do castelo como Monumento Nacional. Bom momento para avançar.
"O que queremos dizer sobre o Castelo de S. Jorge?", era então a pergunta a precisar de resposta. À partida, Gil d"Orey tinha pensado que "seria interessante recriar a conquista do castelo por D. Afonso Henriques". Mas depois do primeiro encontro com a equipa do castelo percebeu o contrário: "Isso não lhes interessava. Além de considerarem o episódio historicamente pouco verdadeiro, digamos assim, queriam que o jogo mostrasse que é um castelo por onde, em mais de mil anos, muitas personagens históricas importantes passaram."
Mentiras do Estado Novo
Diz a directora à Pública: "Falar do castelo não é só falar de D. Afonso Henriques." Teresa Oliveira reforça também que o monumento "não é apenas um miradouro" e lembra "as mentiras do Estado Novo sobre o passado para não ter de reconhecer a História".
Mas é claro que o "primeiro rei de Portugal" entra no jogo, sendo apenas mais um dos "heróis" que podem calhar em sorte aos jogadores. A sua principal vantagem táctica é a de poder "dar meia volta" e mudar de rumo. Uma das personagens mais curiosas que tanto a directora como o criativo referem é o sacerdote secular Bartolomeu Gusmão (sécs. XVII-XVIII), que era também inventor. "Ficou conhecido pelas suas experiências com aeróstatos. Em 1907, lançou, da Praça d"Armas, A Passarola, uma máquina aerostática que se despenhou no Terreiro do Paço ao fim de alguns minutos."
O jogo destina-se a crianças a partir dos sete anos e deve ser jogado com dois a seis elementos. "Como no 3.º e 4.º ano do 1.º ciclo, a História de Portugal faz parte do programa escolar, tem havido boa aceitação por parte dos professores que conhecem o jogo", diz Susana Repolho Correia, responsável pela comunicação e imagem do castelo. Assim, "de uma forma lúdica, os miúdos vão aprendendo História". Com as descrições das cartas que dinamizam o jogo, fica a saber-se mais. E desperta-se também a curiosidade para visitar o castelo "ao vivo".
São as cartas que se vão retirando do baralho que ditam o destino das personagens históricas que se movem no espaço do castelo - o tabuleiro reproduz a planta do monumento. A finalidade é obter três troféus e as personagens têm poderes diferentes, algumas podem trocar de lugar com outras e há quem tenha a vantagem de poder retirar um troféu ao adversário. Mas mesmo o roubo tem regras. Não se pode escolher o troféu a surripiar, terá de ser o mais recentemente adquirido pela "vítima" em causa.
"Pensámos num jogo para se brincar em família, para crianças e adultos, simples, acessível, que tivesse algumas componentes de divertimento e estratégia. Não queríamos fazer um jogo de perguntas e respostas, tipo Trivial Pursuit. Não temos nada contra esses jogos, mas têm um grande handicap, quem não conhece a história fica de fora do jogo. Se não souber, não fica a saber", diz Gil d"Orey. E explica: "Fizemos um jogo ao contrário. Divertido, apelativo, interessante, mas em que não se fazem perguntas. Por isso é que cada jogador assume o papel de uma personagem histórica e na carta que lhe corresponde terá de ler um textinho. Não são regras. Ninguém precisa de decorar aquilo, mas as pessoas, ao jogar, vão interiorizando."
O mesmo para os locais por onde os jogadores têm de passear para encontrar os troféus. Certamente irão ficar a conhecer o Palácio do Governador, a Praça de Armas, os Jardins Românticos, a Porta de S. Jorge, o Bairro Islâmico e outros pontos históricos importantes. Porque o jogo inclui também a Alcáçova (área de habitação que se encontra na zona de influência do castelo).
Tabuleiro gigante
Na programação do serviço educativo do castelo, os últimos domingos do mês são chamados "domingos em família" e serão dedicados ao Troféu de S. Jorge. Há o projecto de criar um tabuleiro gigante, onde os participantes se possam mover sobre o mapa. Nesta altura da conversa com a Pública, as duas responsáveis (Teresa Oliveira e Susana Repolho Correia) atropelam-se na explicação, não por falta de cortesia mas por entusiasmo genuíno.
Participantes nas discussões e escolhas desde que a ideia surgiu, ambas se identificam muito com o jogo. E jogam.
Está previsto um ensaio prévio para esta experiência do Troféu de S. Jorge "humano": "Se o nosso stand da próxima da Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) tiver espaço suficiente, experimentamos. Caso contrário, só acontecerá na Semana da Criança, em Junho", prossegue a directora. No entanto, na BTL, será sempre possível conhecer o Troféu porque haverá mesas para quem quiser jogar. Susana Repolho Correia informa ainda que, "na Semana da Criança, o castelo abrirá as portas gratuitamente às escolas públicas".
Teresa Oliveira, que recebeu a Pública no cenário histórico de que aqui se fala, encerra assim a conversa sobre o Troféu de S. Jorge: "As crianças aprendem a história do castelo e de Lisboa com prazer. É uma forma de apelar ao convívio em família e à divulgação do património nacional. Neste caso, do monumento nacional."
Já Gil d"Orey, que gere a editora Mesa Board Games em conjunto com Tiago Teixeira de Abreu, termina o contacto assim: "Queremos fazer jogos competitivos, no sentido de concorrerem com as dezenas de brinquedos que enchem as prateleiras dos miúdos. Os jogos têm de ser divertidos por si só, para que eles vão recorrentemente jogar. É isso que eu quero. Não quero fazer um jogo educativo aborrecido, "uma seca". Nem dizer à partida: "Vais ficar a conhecer o castelo"."
Depois do sucesso do jogo Caravelas, sobre os Descobrimentos, preparam agora o Vintage, um jogo de tabuleiro sobre o vinho do Porto, a apresentar na convenção LeiriaCon 2011. Tal como não é preciso conhecer o Castelo de S. Jorge antes de jogar, também não é preciso beber. Nem antes nem depois (nem durante). Por isso, mesmo os miúdos poderão divertir-se com a mais prestigiada bebida nacional.
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Um jogo de tabuleiro para brincar com a história de Lisboa e do Castelo de S. Jorge. Mesmo que os jogadores nunca tenham ouvido falar de D. Afonso Henriques ou do general romano Decimus Junius Brutus, podem transformar-se nessas personagens. E divertir-se. Porque o castelo não é só um miradouro.
A cada mil anos, as personagens históricas que passaram pelo Castelo de S. Jorge encontram-se para um torneio. Quem conquistar o troféu será senhor do castelo durante o milénio seguinte. Esta foi a lenda criada "como ponto de partida" para o jogo O Troféu de S. Jorge, "um veículo privilegiado para divulgar a história do castelo e de Lisboa", diz Teresa Oliveira, directora daquele monumento nacional.
Sem dados para lançar, mas com estratégia, os participantes neste jogo de tabuleiro bilingue (Português e Inglês) têm como objectivo central recolher três troféus "válidos" enquanto percorrem os lugares principais do castelo. Mas antes terão de saber quais as figuras históricas em que irão transformar-se. São 12. A mais antiga data do séc. IV a.C. (Chefe da Idade do Ferro) e a mais recente dos sécs. XIX-XX (D. Manuel II, o último rei de Portugal). Todas masculinas. É assim a História...
No entanto, os jogadores podem nada saber do passado de Portugal, não desconfiarem de quem foi D. Dinis ou nem sequer conhecerem Lisboa, "mas, à medida que vão jogando, vão aprendendo e percebendo a história do castelo, nas suas diferentes facetas", diz Gil d"Orey, autor do jogo e da ideia.
"Tudo começou com uma proposta que nos apresentaram para fazermos um jogo sobre o castelo. Gostámos imediatamente", conta Teresa Oliveira. "A nossa ideia foi logo acolhida com grande entusiasmo pela EGEAC [Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural]", dirá mais tarde Gil d"Orey, da Mesa Board Games. Estava-se em 2010 e era o ano do centenário da classificação do castelo como Monumento Nacional. Bom momento para avançar.
"O que queremos dizer sobre o Castelo de S. Jorge?", era então a pergunta a precisar de resposta. À partida, Gil d"Orey tinha pensado que "seria interessante recriar a conquista do castelo por D. Afonso Henriques". Mas depois do primeiro encontro com a equipa do castelo percebeu o contrário: "Isso não lhes interessava. Além de considerarem o episódio historicamente pouco verdadeiro, digamos assim, queriam que o jogo mostrasse que é um castelo por onde, em mais de mil anos, muitas personagens históricas importantes passaram."
Mentiras do Estado Novo
Diz a directora à Pública: "Falar do castelo não é só falar de D. Afonso Henriques." Teresa Oliveira reforça também que o monumento "não é apenas um miradouro" e lembra "as mentiras do Estado Novo sobre o passado para não ter de reconhecer a História".
Mas é claro que o "primeiro rei de Portugal" entra no jogo, sendo apenas mais um dos "heróis" que podem calhar em sorte aos jogadores. A sua principal vantagem táctica é a de poder "dar meia volta" e mudar de rumo. Uma das personagens mais curiosas que tanto a directora como o criativo referem é o sacerdote secular Bartolomeu Gusmão (sécs. XVII-XVIII), que era também inventor. "Ficou conhecido pelas suas experiências com aeróstatos. Em 1907, lançou, da Praça d"Armas, A Passarola, uma máquina aerostática que se despenhou no Terreiro do Paço ao fim de alguns minutos."
O jogo destina-se a crianças a partir dos sete anos e deve ser jogado com dois a seis elementos. "Como no 3.º e 4.º ano do 1.º ciclo, a História de Portugal faz parte do programa escolar, tem havido boa aceitação por parte dos professores que conhecem o jogo", diz Susana Repolho Correia, responsável pela comunicação e imagem do castelo. Assim, "de uma forma lúdica, os miúdos vão aprendendo História". Com as descrições das cartas que dinamizam o jogo, fica a saber-se mais. E desperta-se também a curiosidade para visitar o castelo "ao vivo".
São as cartas que se vão retirando do baralho que ditam o destino das personagens históricas que se movem no espaço do castelo - o tabuleiro reproduz a planta do monumento. A finalidade é obter três troféus e as personagens têm poderes diferentes, algumas podem trocar de lugar com outras e há quem tenha a vantagem de poder retirar um troféu ao adversário. Mas mesmo o roubo tem regras. Não se pode escolher o troféu a surripiar, terá de ser o mais recentemente adquirido pela "vítima" em causa.
"Pensámos num jogo para se brincar em família, para crianças e adultos, simples, acessível, que tivesse algumas componentes de divertimento e estratégia. Não queríamos fazer um jogo de perguntas e respostas, tipo Trivial Pursuit. Não temos nada contra esses jogos, mas têm um grande handicap, quem não conhece a história fica de fora do jogo. Se não souber, não fica a saber", diz Gil d"Orey. E explica: "Fizemos um jogo ao contrário. Divertido, apelativo, interessante, mas em que não se fazem perguntas. Por isso é que cada jogador assume o papel de uma personagem histórica e na carta que lhe corresponde terá de ler um textinho. Não são regras. Ninguém precisa de decorar aquilo, mas as pessoas, ao jogar, vão interiorizando."
O mesmo para os locais por onde os jogadores têm de passear para encontrar os troféus. Certamente irão ficar a conhecer o Palácio do Governador, a Praça de Armas, os Jardins Românticos, a Porta de S. Jorge, o Bairro Islâmico e outros pontos históricos importantes. Porque o jogo inclui também a Alcáçova (área de habitação que se encontra na zona de influência do castelo).
Tabuleiro gigante
Na programação do serviço educativo do castelo, os últimos domingos do mês são chamados "domingos em família" e serão dedicados ao Troféu de S. Jorge. Há o projecto de criar um tabuleiro gigante, onde os participantes se possam mover sobre o mapa. Nesta altura da conversa com a Pública, as duas responsáveis (Teresa Oliveira e Susana Repolho Correia) atropelam-se na explicação, não por falta de cortesia mas por entusiasmo genuíno.
Participantes nas discussões e escolhas desde que a ideia surgiu, ambas se identificam muito com o jogo. E jogam.
Está previsto um ensaio prévio para esta experiência do Troféu de S. Jorge "humano": "Se o nosso stand da próxima da Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL) tiver espaço suficiente, experimentamos. Caso contrário, só acontecerá na Semana da Criança, em Junho", prossegue a directora. No entanto, na BTL, será sempre possível conhecer o Troféu porque haverá mesas para quem quiser jogar. Susana Repolho Correia informa ainda que, "na Semana da Criança, o castelo abrirá as portas gratuitamente às escolas públicas".
Teresa Oliveira, que recebeu a Pública no cenário histórico de que aqui se fala, encerra assim a conversa sobre o Troféu de S. Jorge: "As crianças aprendem a história do castelo e de Lisboa com prazer. É uma forma de apelar ao convívio em família e à divulgação do património nacional. Neste caso, do monumento nacional."
Já Gil d"Orey, que gere a editora Mesa Board Games em conjunto com Tiago Teixeira de Abreu, termina o contacto assim: "Queremos fazer jogos competitivos, no sentido de concorrerem com as dezenas de brinquedos que enchem as prateleiras dos miúdos. Os jogos têm de ser divertidos por si só, para que eles vão recorrentemente jogar. É isso que eu quero. Não quero fazer um jogo educativo aborrecido, "uma seca". Nem dizer à partida: "Vais ficar a conhecer o castelo"."
Depois do sucesso do jogo Caravelas, sobre os Descobrimentos, preparam agora o Vintage, um jogo de tabuleiro sobre o vinho do Porto, a apresentar na convenção LeiriaCon 2011. Tal como não é preciso conhecer o Castelo de S. Jorge antes de jogar, também não é preciso beber. Nem antes nem depois (nem durante). Por isso, mesmo os miúdos poderão divertir-se com a mais prestigiada bebida nacional.
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