Repugnam-me especialmente as formas de cobardia que se pretendem justificar pela invocação de grandes virtudes
A fronteira entre a prudência e o calculismo é, por vezes, tão ténue que permite a algumas boas consciências uma tranquila convivência com a desonra. De todas as formas de cobardia, repugnam-me especialmente aquelas que se pretendem justificar pela invocação de grandes virtudes. Nenhum silêncio se justifica quando só a indignação é justa. Por isso mesmo, aqui estou a manifestar a minha profunda solidariedade à deputada Inês de Medeiros, que tem sido alvo de uma insidiosa campanha difamatória que visa pôr em causa a sua imagem de integridade e seriedade.
Inês de Medeiros não cometeu qualquer crime, não praticou qualquer indignidade. Limitou-se a aceitar um convite formulado pela direcção do PS para integrar as listas de candidatos a deputados nas últimas eleições legislativas. Acedeu a participar activamente na vida política portuguesa. Fê-lo em nome de causas, de um projecto e de uma esperança. Trouxe consigo o seu percurso, as suas propostas e a sua vontade. Revelou coragem e sentido do compromisso cívico.
Antes de ser deputada, Inês de Medeiros tinha uma história, quer no plano profissional, quer no âmbito da intervenção pública. Foi essa história que a conduziu à Assembleia da República. A sua biografia tem densidade e significado. No cinema e no mundo da cultura em geral, Inês de Medeiros percorreu um caminho, construiu o seu próprio percurso. Que é, aliás, conhecido e respeitado. Como deputada ela é herdeira da sua própria vida.
Acresce a isto que nunca se furtou a ter uma intervenção clara na esfera pública portuguesa. Num país em que tanta gente se refugia no limbo das grandes proclamações convenientes, ela tomou posições, fez opções, disse de que lado estava. Em momentos decisivos esteve presente. Não desertou, nem se escondeu. Não é virtude menor, num país de tanta gente pequena julgando-se grande à custa da gestão da ambiguidade.
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Conheci a Inês de Medeiros quando ela chegou ao Par- lamento. Convidei-a para a direcção do grupo parlamentar a que presido. Tornámo-nos próximos e isso permitiu-me acompanhar todo este processo. Tenho por isso plena consciência da dor que a infâmia produz numa pessoa honesta. E isso impele-me a aparecer em público a tomar posição.
Inês de Medeiros nada pediu ao Parlamento. Não veio para aqui para obter qualquer vantagem, simbólica ou material. Ela já existia antes de ser deputada. Não solicitou qualquer tratamento especial. Não procurou qualquer benefício indevido. E agora, que finalmente o assunto está fechado, impõe-se dizer o seguinte: o Parlamento não lhe concedeu qualquer tratamento excepcional. Ela não aufere nem mais um cêntimo que os restantes deputados. O regime a que fica sujeita em matéria de ajudas para deslocações é, até mesmo, o mais exigente que se pratica na AR. São, por isso, vis as acusações e insinuações que pretendem atingi-la.
Na vida política confrontamo-nos diariamente com a grandeza e a pequenez dos homens. Mas não podemos ficar anestesiados ao ponto de convivermos pacificamente com a sordidez. Nesse dia estaremos mortos. Por cansaço, por resignação, por cobardia. Teremos desistido de tudo o que é essencial. Não é isso que se espera dos políticos e dos parlamentares. Foi por isso que escrevi este pequeno texto. Porque me recuso a render-me à ditadura das boas consciências medíocres e cínicas. Desses seres pequenos e vis sempre tão cheios de estafadas proclamações. Escrevi este texto por solidariedade com a Inês, que respeito e admiro. Mas sobretudo para permanecer fiel à minha maior preocupação cívica - a de ser um cidadão decente. É essa a minha ambição de todos os dias - permanecer do lado da decência. O que neste caso me leva a estar, sem qualquer dúvida, do lado da Inês de Medeiros. Líder parlamentar do PS
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Repugnam-me especialmente as formas de cobardia que se pretendem justificar pela invocação de grandes virtudes
A fronteira entre a prudência e o calculismo é, por vezes, tão ténue que permite a algumas boas consciências uma tranquila convivência com a desonra. De todas as formas de cobardia, repugnam-me especialmente aquelas que se pretendem justificar pela invocação de grandes virtudes. Nenhum silêncio se justifica quando só a indignação é justa. Por isso mesmo, aqui estou a manifestar a minha profunda solidariedade à deputada Inês de Medeiros, que tem sido alvo de uma insidiosa campanha difamatória que visa pôr em causa a sua imagem de integridade e seriedade.
Inês de Medeiros não cometeu qualquer crime, não praticou qualquer indignidade. Limitou-se a aceitar um convite formulado pela direcção do PS para integrar as listas de candidatos a deputados nas últimas eleições legislativas. Acedeu a participar activamente na vida política portuguesa. Fê-lo em nome de causas, de um projecto e de uma esperança. Trouxe consigo o seu percurso, as suas propostas e a sua vontade. Revelou coragem e sentido do compromisso cívico.
Antes de ser deputada, Inês de Medeiros tinha uma história, quer no plano profissional, quer no âmbito da intervenção pública. Foi essa história que a conduziu à Assembleia da República. A sua biografia tem densidade e significado. No cinema e no mundo da cultura em geral, Inês de Medeiros percorreu um caminho, construiu o seu próprio percurso. Que é, aliás, conhecido e respeitado. Como deputada ela é herdeira da sua própria vida.
Acresce a isto que nunca se furtou a ter uma intervenção clara na esfera pública portuguesa. Num país em que tanta gente se refugia no limbo das grandes proclamações convenientes, ela tomou posições, fez opções, disse de que lado estava. Em momentos decisivos esteve presente. Não desertou, nem se escondeu. Não é virtude menor, num país de tanta gente pequena julgando-se grande à custa da gestão da ambiguidade.
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Conheci a Inês de Medeiros quando ela chegou ao Par- lamento. Convidei-a para a direcção do grupo parlamentar a que presido. Tornámo-nos próximos e isso permitiu-me acompanhar todo este processo. Tenho por isso plena consciência da dor que a infâmia produz numa pessoa honesta. E isso impele-me a aparecer em público a tomar posição.
Inês de Medeiros nada pediu ao Parlamento. Não veio para aqui para obter qualquer vantagem, simbólica ou material. Ela já existia antes de ser deputada. Não solicitou qualquer tratamento especial. Não procurou qualquer benefício indevido. E agora, que finalmente o assunto está fechado, impõe-se dizer o seguinte: o Parlamento não lhe concedeu qualquer tratamento excepcional. Ela não aufere nem mais um cêntimo que os restantes deputados. O regime a que fica sujeita em matéria de ajudas para deslocações é, até mesmo, o mais exigente que se pratica na AR. São, por isso, vis as acusações e insinuações que pretendem atingi-la.
Na vida política confrontamo-nos diariamente com a grandeza e a pequenez dos homens. Mas não podemos ficar anestesiados ao ponto de convivermos pacificamente com a sordidez. Nesse dia estaremos mortos. Por cansaço, por resignação, por cobardia. Teremos desistido de tudo o que é essencial. Não é isso que se espera dos políticos e dos parlamentares. Foi por isso que escrevi este pequeno texto. Porque me recuso a render-me à ditadura das boas consciências medíocres e cínicas. Desses seres pequenos e vis sempre tão cheios de estafadas proclamações. Escrevi este texto por solidariedade com a Inês, que respeito e admiro. Mas sobretudo para permanecer fiel à minha maior preocupação cívica - a de ser um cidadão decente. É essa a minha ambição de todos os dias - permanecer do lado da decência. O que neste caso me leva a estar, sem qualquer dúvida, do lado da Inês de Medeiros. Líder parlamentar do PS